Atualmente o RN ocupa o sexto
lugar no Nordeste e o 18º no Brasil entre os estados com maior quantidade de
investidores. Esse dado é considerado estratégico para a construção de planos
de investimento alinhados ao perfil de cada indivíduo, além da análise de
portfólios para otimização da relação risco-retorno. Para Müller, o
conservadorismo é a principal característica dos potiguares quando o assunto é
investir de um modo geral, seguindo uma tendência que é nacional. “O investidor
conservador é aquele com predileção por produtos de renda fixa e que, depois,
passa para produtos como CDBs”, aponta.
Rodrigo Paz, assessor de
investimentos da Acqua Vero Investimentos, avalia que os números da B3 indicam
que a pandemia, aliada ao crescimento de dispositivos digitais, impulsionou uma
mudança de comportamento que tornou os potiguares mais curiosos em relação ao
tema. Ele confirma o perfil predominantemente conservador dos potiguares, mas
ressalva que o cenário passa por um momento de transição. “Isso é visto pelo
mercado como uma oportunidade em meio a uma lacuna que é a falta de informação
de qualidade para gerar entendimento sobre diferentes possibilidades de
perfis”, cita Paz.
De acordo com o assessor, 52%
dos brasileiros não possuem sequer uma reserva de emergência; 12% poupam
dinheiro mas não aplicam, enquanto apenas 17% investem. “Quando eu olho para o
RN, a característica que mais eu percebo é que o investidor quer migrar para o
próximo passo, com mais diversificação e entendimento, mas ainda falta
informação de qualidade”, afirma Rodrigo Paz.
Essa falta de informação, para
Carlos Müller, forma, junto com a falta de acesso à educação financeira, o
principal gargalo para aqueles que desejam fazer algum tipo de investimento.
“Nos últimos anos, com o advento do YouTube e das redes sociais que falam de
investimentos, a gente percebe um acréscimo de produtos mais arrojados e de
pessoas aderindo a esses produtos”, frisa Müller.
“Mas há questões culturais e
de mercado que influenciam, porque o histórico do Brasil sempre foi de juros
altos, então, entende-se que, até certo ponto, não há necessidade de correr
riscos, uma vez que existem retornos bastante interessantes em ativos conservadores.
E a educação financeira é um fator e um pilar importantes, porém ainda em
desenvolvimento. O resultado disso é uma presença muito baixa nas carteiras de
renda variável”, acrescenta Carlos Müller.
Investimentos crescem no
Nordeste
Segundo fontes ouvidas pela
reportagem, o número de investidores em produtos da B3 no RN está aquém do
potencial do Estado. O cenário se dá, conforme apontado, pela falta de acesso a
informações de qualidade. Esta é a realidade de toda a região Nordeste, onde os
dados compilados pela Garoa junto à Associação Brasileira das Entidades dos
Mercados Financeiro e de Capitais (Anbima), mostram que, no ano passado, os
nordestinos aplicaram R$ 663,5 bilhões em investimentos em geral (B3 e outros
produtos], um aumento de 13,2% em relação a 2023. Do total de 2024, no entanto,
R$ 74,4 bilhões (11,2%) foram alocados somente em títulos privados
corporativos, excluindo CDBs. Apesar do crescimento, os dados mostram que o
conservadorismo é significativo na região, uma vez que os títulos privados
representam investimentos de renda fixa.
Para o ortodontista Felipe
Thiago Dantas, de 41 anos, o equilíbrio entre renda fixa e variável foi a
virada de chave que o ajudou a dar uma guinada nos próprios investimentos. Há
cerca de nove anos, ele passou a estudar as possibilidades disponíveis no mercado
para além do dinheiro parado na poupança. Mas a falta de conhecimento e a busca
por oportunidades mirabolantes fizeram com que Dantas perdesse bastante
dinheiro com a Bolsa de Valores. O equilíbrio só foi alcançado a partir de
2018, com a divisão das aplicações – parte em ativos mais conservadores, parte
em produtos mais agressivos.
Em 2020, o ortodontista passou
a contar com orientações de Rodrigo Paz, o que lhe permitiu aprimorar ainda
mais os investimentos. “Hoje eu tenho uma carteira extremamente diversificada,
desde renda fixa atrelada à inflação, passando por renda pré-fixada e tesouro,
a investimentos no setor privado como CRAs [Certificados de Recebíveis do
Agronegócio], CRIs [Certificado de Recebíveis Imobiliários] e debêntures, além
de continuar, em menor proporção, na Bolsa, com ativos como Petrobras, Banco do
Brasil, Vale e Previdência Privada – este, aliás, foi meu primeiro tipo de
investimento”, descreve Felipe Dantas.
Nos últimos dois anos, ele
ampliou as aplicações para o exterior, com a dolarização de algo em torno de 5%
a 10% da própria carteira em ativos nos Estados Unidos. O auxílio de um
assessor financeiro, segundo Dantas, é importante, já que é esse profissional
quem irá buscar investimentos de acordo com o perfil de cada indivíduo. Ele
sublinha, no entanto, que isso não deve tirar do investidor o interesse em
buscar informações confiáveis e de se qualificar sobre o mercado.
“Continuo estudando,
analisando os cenários, vendo o noticiário e tentando filtrar tudo de maneira
isenta para buscar grandes oportunidades. Hoje, estou satisfeito com meus
investimentos, graças também à assessoria que recebo”, pontua o ortodontista.
“É preciso que o investidor entenda alguns pontos cruciais – um deles é que, se
não existe organização nas contas de casa, não é possível olhar para o lado do
investimento. É aí que entra a necessidade de um profissional para assessorar
perante o mercado”, afirma Rodrigo Paz.
Rodrigo Paz, assessor de
investimentos, diz que o perfil dos potiguares é conservador, mas tem mudado ao
longo dos anos | Foto: Alex Régis
Alta taxa de juros: momento
para investir
Rodrigo Paz, assessor de
investimentos da Acqua Vero, avalia que o momento vivenciado pelo mercado
financeiro permite investimentos de forma muito segura, graças à taxa de juros
atual, de 15% ao ano. Papéis como tesouro, segundo ele, estão com taxas excelentes.
A dica, ensina, é que o investidor fique sempre de olho. “É preciso observar
bem o momento atual e o futuro. O investimento consiste em proteger capital ao
longo do tempo, enquanto se busca rentabilidade para aumentar o patrimônio”,
orienta Paz.
Carlos Müller, da Garoa Wealth
Management, reforça que as oportunidades dependem de cada perfil e da
experiência do investidor, mas ele garante que existem bons produtos tanto em
renda fixa quanto em renda variável. “Com a inflação em 7% ao ano, temos ativos
em renda fixa com retornos excepcionais. Mas a gente também tem, pensando pela
ótica da Bolsa, resultados crescentes, por mais que o índice esteja em máximas
históricas. Portanto, para quem tem um horizonte de investimento mais curto, há
excelentes oportunidades em renda fixa e não há por que correr riscos”, fala.
“Para a pessoa que já superou
esse acúmulo de curtíssimo prazo e está pensando em planejar uma aposentadoria,
um investimento mais longo, também há boas oportunidades em renda variável. O
perfil da pessoa pode ajudar a definir qual o tamanho do investimento na
Bolsa”, completa Müller. Ter clareza dos prazos, nesse aspecto, é crucial,
segundo ele. “É preciso ter em mente se a pessoa vai precisar do recurso
investido daqui a um ano, por exemplo. Se é assim, ela não deve entrar na
Bolsa, sob o risco de patamares muito baixos lá na frente”, ensina Carlos
Müller.
Uma boa análise, segundo ele,
pode ajudar a expandir ainda mais o número de investidores potiguares na B3.
“Esse crescimento de pessoas do RN que estão na Bolsa de Valores em cinco anos
é expressivo, mas pode aumentar. Se a gente considerar que 1,2 milhão de
potiguares estão em idade economicamente ativa, esses quase 60 mil investidores
representam apenas 0,5% do total de pessoas que podem incluir seus ativos na
B3. O valor total investido pelo RN soma apenas 0,48% de todo o capital
aplicado no País. Então, há um potencial enorme no Estado”, assinala Müller.
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