Evento
esportivo mundial deve acelerar as vendas no varejo e impulsionar o setor de
serviços em 2026 no RN. Na capital potiguar, essa movimentação pode ultrapassar
os R$ 300 milhões, segundo estimativa da Câmara de Dirigentes Lojistas de
Natal.
O
gasto médio do consumidor no país é estimado em R$ 619,00, valor que sobe para
R$ 784,00 entre as classes A e B, segundo o levantamento da CNDL e do SPC
Brasil. Foto: Adriano Abreu
Camisas
da Seleção Brasileira, decoração verde e amarela, bares e restaurantes
sintonizados à transmissão dos jogos. Esse é o cenário projetado para a Copa do
Mundo 2026, que começa em 11 de junho. A maior competição mundial do futebol
deve levar cerca de 1,8 milhão de potiguares às compras, estima a Câmara de
Dirigentes Lojistas (CDL) de Natal. A projeção é de que o evento movimente R$
1,1 bilhão na economia do Rio Grande do Norte.
Na capital do estado, essa movimentação pode ultrapassar R$ 300 milhões. Além
disso, um levantamento da Confederação Nacional de Dirigentes Lojistas (CNDL) e
do Serviço de Proteção ao Crédito (SPC Brasil) aponta que a proximidade do
evento deve levar cerca de 99,2 milhões de brasileiros às compras, com 60% dos
consumidores planejando adquirir produtos ou serviços relacionados à Copa.
O evento esportivo deve acelerar as vendas no varejo e impulsionar o setor de
serviços. Para a CDL Natal, os setores que devem registrar maior alta por causa
da Copa são: vestuário e artigos temáticos, supermercados, bebidas, itens para
churrasco, bares e restaurantes, delivery, eletrônicos e decoração e utilidades
para confraternizações.
“A Copa funciona como um grande acelerador do consumo, movimentando tanto o
comércio físico quanto o digital. A expectativa do setor é que o desempenho da
Seleção Brasileira influencie diretamente no ritmo das vendas”, diz José
Lucena, presidente da CDL Natal.
Segundo o levantamento da CNDL e do SPC Brasil, realizado em parceria com a
Offerwise Pesquisas, o gasto médio do consumidor é estimado em R$ 619,00, valor
que sobe para R$ 784,00 entre as classes A e B.
A movimentação esperada é intensa tanto no ambiente físico quanto no digital,
mas o varejo físico será o principal destino para itens de consumo imediato,
com 89% de preferência, especialmente em supermercados (70%) e lojas de bairro
(33%).
De acordo com a pesquisa, 67% dos torcedores farão compras pela internet, sendo
que 51% usarão aplicativos de entrega, e 42%, lojas online. No setor de
serviços, os destaques são o delivery de comida e bebida (61%) e o movimento em
bares e restaurantes (39%).
O hábito de assistir aos jogos de forma coletiva (97%) impulsionará os setores
de supermercados, lojas de bairro e serviços de delivery. Bebidas não
alcoólicas (68%), petiscos (62%), carnes para churrasco (60%), cervejas (59%) e
camisas temáticas (61%) serão os itens mais procurados.
As transações à vista predominam (90%), lideradas pelo Pix (57%). Sobre a
procedência dos produtos, 47% pretendem adquirir produtos licenciados, e apenas
6% assumem a compra de falsificados.
A pesquisa foi realizada de forma online e coletou informações de 916 pessoas
das 27 capitais brasileiras, das quais 600 tinham a intenção de gastar. O
levantamento seguiu duas etapas – 916 casos e 600 –, com margens de erro de 3,2
p. p. e 4,0 p. p., respectivamente, e um intervalo de confiança de 95%.
Copa
tem efeito multiplicador na economia
O
economista Arthur Néo, vice-presidente do Conselho Regional de Economia do RN,
aponta que a Copa do Mundo é um movimento cultural com efeito multiplicador na
economia. “Sob o ponto de vista macroeconômico, a Copa funciona como um choque
temporário de demanda agregada”, diz.
“É um fluxo gigante de pessoas demandando aqueles produtos num curto espaço de
tempo, o que causa um aumento sazonal do consumo das famílias, principalmente
em bens de consumo não duráveis e serviços ligados à Copa”, explica.
O evento acelera o faturamento do comércio varejista e do setor de serviços
durante o período em que é realizado. “O brasileiro transforma os jogos em
experiências coletivas. O consumidor não compra apenas o produto, ele está
comprando, por exemplo, a participação social e a experiência coletiva”,
observa Néo.
Ele destaca que o crescimento econômico causado pela Copa é pulverizado,
impactando os setores formal e informal, em diversos segmentos, com destaques
como o maior uso de delivery – a pesquisa mostra que oito em cada dez
entrevistados (86%) pretendem assistir aos jogos em casa.
Quanto aos preços dos produtos e serviços, o economista explica que o período
tem elasticidade de demanda: o consumo é expressivo, mas breve. Mesmo se os
preços forem menos acessíveis, o consumidor vai continuar comprando.
Decoração
e utilidades é um dos setores que deve ser impulsionado. Foto: Adriano Abreu
Boas
expectativas no varejo de Natal
Segundo
José Lucena, presidente da CDL Natal, o comércio de rua na capital potiguar
espera aumento no fluxo de consumidores com a aproximação dos jogos da Seleção
Brasileira.
“Lojas já começam a unir vitrines temáticas da Copa com os festejos juninos,
criando uma combinação estratégica para impulsionar as vendas”, diz. Já os
shoppings apostam na experiência dos jogos, entretenimento e gastronomia.
Os destaques são segmentos como vestuário, supermercados, bebidas, itens para
churrasco, bares, restaurantes, decoração e delivery. A CDL Natal aponta que o
varejo físico segue forte, pois “oferece algo que o digital ainda não consegue
substituir completamente: experiência, proximidade, confiança e imediatismo”.
Ainda assim, a ascensão do digital é notada, com muitos lojistas trabalhando de
forma híbrida entre a loja física, as redes sociais e o delivery.
O presidente da Associação dos Supermercados do RN (Assurn), Gilvan Mikelyson,
frisa que “o consumidor brasileiro ainda valoriza muito a experiência imediata
e presencial, principalmente quando se trata de alimentos, bebidas e itens para
confraternizações”.
Supermercados devem ser os preferidos para itens de consumo imediato no evento
esportivo. Para a Assurn, o comportamento é natural na cultura do brasileiro.
“A Copa do Mundo costuma mobilizar encontros coletivos e momentos de
convivência”, diz Mikelyson.
“Eventos como a Copa tradicionalmente aquecem as vendas de categorias como
bebidas, carnes para churrasco, petiscos, congelados, itens de mercearia e
produtos temáticos”.
Diva
Maria, comerciante, espera por uma alta nas vendas. Foto: Adriano Abreu
Alecrim
aposta nas vendas para a Copa
No
Camelódromo do Alecrim, em Natal, comerciantes dizem que as vendas de camisas
para torcedores ainda estão tímidas, mas as expectativas são grandes. A
reportagem visitou o local na sexta-feira (22).
Roberto Barreiros conta que o movimento, nesse dia, ainda estava “meio parado”.
“Estamos esperando melhorar, mas a expectativa no geral está muito otimista.
Estamos ansiosos”, afirma. Barreiros também é torcedor e gosta de assistir aos
jogos em barzinhos.
A comerciante Diva Maria relata que as vendas ainda estão baixas, mas ela, que
já trabalhou em outras Copas, afirma que isso é esperado. “Quase ninguém está
procurando ainda, mas eu acho que a próxima semana dá uma melhorada boa”.
A autônoma Priscila Lopes estava comprando uma camisa da Seleção Brasileira
para o filho, Lucas Gabriel, 13. “Ele já é fã do Brasil e compra [a camisa] com
frequência, mesmo fora da época de Copa”, diz a mãe.
Em sua casa, a família costuma assistir às partidas reunida, fazendo churrasco.
“Não entendo de jogos, só faço torcer mesmo”, confessa Lopes. A autônoma diz
acreditar no hexacampeonato brasileiro.
Endividamento
e bets são alertas para torcedores
Por
outro lado, o levantamento da CNDL e SPC Brasil acende um alerta
socioeconômico: 61% dos torcedores que pretendem gastar no período possuem
dívidas em atraso e, destes, 70% estão negativados. O cenário é agravado pela
intenção de engajamento em plataformas de apostas online (“bets”), que atrairão
41% dos consumidores.
Entre os apostadores, 74% enxergam nas plataformas uma oportunidade para quitar
dívidas pendentes, enquanto 39% planejam reinvestir eventuais prêmios nos
próprios jogos de azar, dinâmica classificada pelas entidades como de risco
para o endividamento das famílias.
“Esse comportamento, associado ao alto índice de negativados entre os
potenciais consumidores, aponta para uma vulnerabilidade econômica latente,
onde a esperança de liquidação financeira através da sorte pode acabar
aprofundando o ciclo de endividamento de muitas famílias brasileiras”, alerta o
presidente do SPC Brasil, Roque Pellizzaro Júnior.
De acordo com Arthur Néo, os gastos com a Copa do Mundo, mesmo entre os
endividados, mostram que o evento tem “um componente emocional extremamente
forte”. O economista descreve as apostas como um “perigo”.
“Em um jogo de azar, por mais que você tenha algum ganho inicial, isso não
representa que você vai ter ganhos reais. [Isso] aumenta o endividamento das
pessoas e o comportamento compulsivo. O apostador perde mais renda ainda,
deteriora o orçamento familiar e aumenta a sua vulnerabilidade social”.
Pix
Além disso, Néo diz que a transição para o Pix reduz o consumo de dinheiro
físico e aumenta a velocidade das transações, mas também mostra um perfil de
consumidores sem crédito.
O economista recomenda cautela durante a Copa: em sua visão, para participar do
movimento cultural, não é preciso agravar a situação de endividamento ou
inadimplência.
NÚMEROS
1,8
milhão de potiguares devem ir às compras.
R$
1,1 bilhão é a movimentação econômica esperada no RN.
R$
300 milhões é a movimentação econômica esperada em Natal.
99,2
milhões de brasileiros devem comprar produtos ou serviços devido ao evento
Fontes:
CDL Natal e CNDL/SPC Brasil
Fernando
Azevêdo/Repórter
Tribuna
do Norte