O sal foi o produto com maior
movimentação por cabotagem no RN, com 1,4 milhão de toneladas transportadas em
2025| Foto: Rodrigo Sena/ARQUIVO TN
Em 2025, o transporte de
mercadorias no RN por cabotagem – modal de navegação que transporta cargas
entre portos de um mesmo país – cresceu cerca de 250% no comparativo com o ano
anterior, de acordo com dados da Agência Nacional de Transportes Aquaviários
(Antaq). No período analisado, as movimentações por meio desse tipo de
transporte saíram de pouco mais de 427 mil toneladas para 1,5 milhão. Ainda
assim, a participação do estado nas movimentações do Nordeste é pouco
expressiva, de apenas 2,4%. Dados do Ministério de Portos e Aeroportos (MPor)
com base em informações da Antaq, apontam que a região movimentou 60,7 milhões
de toneladas por cabotagem em 2025.
No ano passado, segundo o MPor, a maior parte da movimentação se concentrou em
quatro estados da região, os quais responderam, juntos, por 91,6% de tudo o que
passou pelos portos nordestinos via cabotagem: Bahia, com 15,3 milhões de
toneladas; Maranhão, com 14,6 milhões; Ceará, com 12,9 milhões; e Pernambuco,
com 12,8 milhões de toneladas.
Klaus Jardim, diretor comercial da Braslog, empresa especializada em transporte
de cargas com sede em Macaíba, na Grande Natal, afirma que há um fator
principal que inviabiliza a cabotagem no RN.
“Considerando que o navio vem e volta, o ponto central é a chamada cabotagem de
retorno. O que acontece é que tem carga para trazer para cá, mas não tem
mercadoria para levar daqui a outras regiões. Esse é um problema que afeta
especialmente o Porto de Natal, uma vez que o sal é o principal produto que
utiliza a cabotagem, mas sai de Areia Branca. Então, os navios não querem
atracar por aqui”, analisa Jardim.
De acordo com a Antaq, no ano passado, o sal foi o produto com maior
movimentação por cabotagem no RN, com 1,4 milhão de toneladas transportadas (ou
93,3% do total) pelo terminal marítimo de Areia Branca. Klaus Jardim aponta a
necessidade de investimentos nesse tipo de transporte sob a justificativa de
barateamento do setor logístico em todo o País. “Para o transporte rodoviário é
preciso investir em estradas, enquanto que o ferroviário requer a construção de
ferrovias. Esses são investimentos caros, mas, para a cabotagem não é preciso
construir nada no mar”, afirma.
“A cabotagem, portanto, é o sistema de logística mais viável e mais barato para
qualquer país. No Brasil, esse tipo de transporte não funciona porque falta
estratégia e decisão política. Todas as cidades no mundo que se desenvolveram
fizeram investimentos em portos. Acho que não somente o RN, mas o Brasil como
um todo conseguiria resolver boa parte dos problemas logísticos se investisse
na modalidade”, complementa.
RN fora das rotas de grandes
empresas de cabotagem
O presidente da Federação das
Indústrias do RN (Fiern), Roberto Serquiz, afirma que o estado está fora das
rotas das grandes empresas de logística em cabotagem no Brasil. Segundo ele, os
portos de Suape (PE) e Pecém (CE) são as bases para atendimento das empresas e
indústrias potiguares atualmente.
Serquiz pontua que a infraestrutura portuária do RN é o principal fator de
contribuição para o cenário. “Desde 2024, a Fiern busca articular com empresas
logísticas nacionais e indústrias locais a inserção do Porto de Natal como
ponto de parada nas rotas pré-existentes, encontrando, todavia, a barreira da
limitação da infraestrutura portuária, que diz respeito a investimentos
necessários em dragagem, defensas e scanner e balança”, pontua.
Para Marcelo Queiroz, presidente da Fecomércio RN, os desafios da cabotagem no
estado são semelhantes aos enfrentados pela logística rodoviária, especialmente
no que se refere à infraestrutura e à concentração econômica. Queiroz avalia
que há um número restrito de produtos com potencial de obter vantagem
competitiva por meio do transporte marítimo, como o sal e os combustíveis
produzidos no litoral Norte.
“Pelas características de volume e localização, esses produtos apresentam maior
viabilidade para a cabotagem”, descreve. Em razão disso, de acordo com ele, é
preciso modernizar os terminais, a fim de fortalecer esse tipo de transporte e
expandir a utilização dele para demais produtos. “A ampliação e modernização de
portos e terminais ao longo da costa potiguar são apontadas como medidas
necessárias para fortalecer a modalidade. Trata-se de uma agenda que exige
articulação com o Governo Federal com vistas à atração de novos aportes e à
melhoria da competitividade logística do estado”, diz Queiroz.
Necessidade de integração
logística com o interior
O presidente da Federação da
Agricultura e Pecuária do RN (Faern), José Vieira, também classifica a
estrutura portuária local como um dos entraves para a utilização da cabotagem.
Segundo ele, a modalidade tem potencial para fortalecer a competitividade logística
do RN e apoiar o desenvolvimento de cadeias agropecuárias, mas é preciso maior
integração logística com o interior e ampliação da escala de movimentação de
cargas.

Produtores locais dizem que
cabotagem poderia baratear o setor logístico em todo o país| Foto: cedida/
Braslog
“O agronegócio exige infraestrutura logística específica, como áreas de
consolidação de cargas, pátios de contêineres refrigerados e estruturas de
apoio para produtos perecíveis que ainda são limitadas no estado”, fala Vieira.
Ele analisa que a cabotagem pode contribuir para reduzir custos logísticos e
ampliar a competitividade da produção agropecuária do RN, especialmente em
cadeias voltadas para mercados nacionais, tendo com um dos principais
benefícios a redução do custo de transporte de insumos agrícolas, que podem
chegar ao estado por via marítima a custos menores.
“Isso tende a diminuir o custo de produção e melhorar a competitividade de
atividades importantes para o estado, como fruticultura, horticultura e outras
cadeias agropecuárias”, comenta. Ainda segundo Vieira, a cabotagem pode
facilitar o escoamento da produção para grandes centros consumidores, sobretudo
no Sudeste e em outros polos do Nordeste. “Produtos como frutas, pescado e
derivados agropecuários podem alcançar esses mercados com maior regularidade
logística e menor custo por tonelada transportada”, indica Vieira, enquanto
defende a integração do estado a hubs logísticos nacionais, como Suape, Pecém e
Salvador.
Programa BR do Mar alterou as
regras do setor
Os dados do MPor com base na
Antaq indicam que, dentre os produtos mais transportados por cabotagem no
Nordeste em 2025 estão o petróleo (13,3 milhões de toneladas), contêineres
(12,5 milhões de toneladas), derivados de petróleo (11,7 milhões de toneladas),
bauxita (9,8 milhões de toneladas) e minério de ferro (4,3 milhões de
toneladas). A movimentação de contêineres demonstra, segundo o órgão, a
diversidade econômica da região.
Entre os destaques estão arroz, produtos químicos e celulose (papel e cartão),
evidenciando que a cabotagem atende tanto grandes cadeias industriais quanto o
abastecimento alimentar e comercial. O desempenho, de acordo com o MPor, está
associado às medidas do Programa BR do Mar, que modernizou regras e ampliou a
segurança regulatória do setor.
Para o secretário nacional de Hidrovias e Navegação, Otto Luiz Burlier, o
avanço decorre da previsibilidade trazida pelo programa. “Ao garantir
estabilidade regulatória, fortalecemos a cabotagem como alternativa estratégica
na matriz de transportes e ampliamos sua contribuição para o desenvolvimento
regional”, destacou.
O Programa BR do Mar foi instituído por meio da Lei nº 14.301/2022, e
estabelece isenção do Adicional ao Frete para Renovação da Marinha Mercante
(AFRMM) para cargas com origem ou destino em portos do Norte e Nordeste,
reduzindo diretamente o custo do frete marítimo na região.
NÚMEROS
Movimentação por cabotagem no
NE em 2025/ em toneladas
BA: 15,3 milhões
MA: 14,6 milhões
CE: 12,9 milhões
PE: 12,8 milhões
RN: 1,5 milhão
Fontes: MPor e Antaq
Tribuna do Norte