Murilo Barros Júnior tinha 22 anos à época do crime. Ele estava na festa com amigos. Foto: Léia Ventura
O acidente que marcou o Carnaval de Natal, conhecido como a “Tragédia do Baldo”, completou 42 anos em 2026 com outro evento: a prisão do motorista Aluízio Farias Batista, que ocorreu em 26 de junho. Ele conduzia o ônibus que atropelou foliões e integrantes de uma banda musical que participavam de uma prévia carnavalesca. O sinistro resultou na morte de 19 pessoas e deixou 12 feridos, além de toda uma cidade traumatizada. A prisão reativou memórias de sobreviventes e parentes de vítimas, aliviando o luto pela noite mais trágica da festa de Momo na capital potiguar.
O advogado e professor universitário Murilo Barros Junior, 63, é um dos
sobreviventes da tragédia. Aos 22 anos, Murilo saiu com amigos para comemorar
os 10 anos do bloco Puxa Saco, em fevereiro de 1984. Ele conta que o cortejo do
bloco partiria do Alecrim em direção à Praia dos Artistas. Os foliões brincavam
o Carnaval nas proximidades do viaduto do Baldo, no centro histórico de Natal,
quando um ônibus em alta velocidade interrompeu a folia.
“Eu estava com uma menina chamada Verônica, dançando na frente da banda. Por
que eu estava na frente da banda? Não sei. Foi a minha sorte. Na hora que a
gente estava descendo a ladeira, eu olhei e o viaduto estava cheio de gente. Aí
eu disse: ‘Olha, Verônica, isso aqui tá parecido com as campanhas eleitorais’.
É a única coisa que eu lembro que disse. Quando eu acordei foi no hospital”,
relata.
Do acidente, restam-lhe cicatrizes e poucas memórias. Murilo perdeu dois
amigos, Dinarte Mariz Neto e Simone Banhas. Dinarte foi colega de escola, e
Simone era filha de amigos da família de Murilo. A maioria dos 19 mortos era da
banda de música.
“A justiça tarda, mas não falha”. Esse ditado popular resume o sentimento da
família de Dinarte Mariz Neto, que morreu aos 18 anos, sobre a prisão de
Aluízio, 69, condenado a 21 anos de reclusão em regime fechado. A dor que
atravessa a família há décadas recebeu um “alívio” com a prisão, que ocorreu no
estado do Mato Grosso, em ação das Polícias Civis do Rio Grande do Norte e de
MT.
“Senti um alívio grande quando eu soube dessa prisão. Por todos que se foram.
Por todas essas famílias que perderam [entes]. Foram anos de sofrimento, mas
hoje é um alívio. E eu tenho certeza que meus pais estão mais descansados
agora, depois que souberam. A justiça foi feita”, diz Elizabeth Mariz, 66, irmã
de Dinarte.
Ela conta que no dia o irmão quase desistiu de curtir o bloco para ir a uma
boate com um primo. “Eu fiquei em casa com uma prima, assistindo a um filme.
Mais tarde da noite o telefone tocou e eu atendi. Era um primo do meu pai. Ele
disse: ‘Dinarte Mariz está aí?’ Eu disse: ‘Não, Paulo, ele foi para um negócio
de um Carnaval’. Aí ele disse: ‘Pelo amor de Deus, houve um acidente horrível,
morreu muita gente’”, lembra.
Nesse momento ainda não tinham certeza se Dinarte, que era estudante de
Engenharia Civil, tinha sido uma das vítimas. Os pais dele estavam viajando; o
avô, o ex-senador Dinarte Mariz, estava em Brasília. Avisados da morte, os
familiares conseguiram um avião com Paulo Maluf e vieram a Natal se despedir do
jovem.
“Isso acabou com a nossa família. Esse homem [Aluízio] não sabe quantas
famílias ele acabou”, afirma Elizabeth. Dinarte era “muito da paz”, diz a irmã.
Pouco depois da morte do neto, Dinarte Mariz morreu. A partir de então, o
espírito festivo da família e as reuniões no Natal e no Carnaval esmoreceram.
Transformações da festa de Momo
“Naquela época o Carnaval de Natal era diferente. Era dividido nos carnavais de
escola de samba, de tribos de índio, de pastorinhos e de blocos de elite, como
Puxa Saco, Saca Rolha, Baculejo e Ressaca”, diz Murilo Barros Junior. Segundo
ele, as pessoas passavam o ano vendendo rifas para custear a fantasia do bloco
e os assaltos carnavalescos, quando os foliões ocupavam casas.
Na madrugada do dia 25 de fevereiro de 1984, Murilo foi um dos foliões
presentes no momento mais trágico do Carnaval natalense. Ele lembra que o
viaduto do Baldo estava repleto de gente esperando o bloco passar. Alguns iam
se juntar na “pipoca”, como hoje são conhecidas as pessoas que não são
originalmente do bloco.
O motorista do ônibus passou em alta velocidade e atingiu os foliões. Na época,
lembra Murilo, Aluízio relatou que estava trabalhando havia 24 horas e estava
cansado. Segundo reconstrução dos fatos, houve colisão entre o ônibus e um
Fusca estacionado antes de o veículo sair do controle e avançar contra o grupo
que participava do desfile. Murilo foi atingido, bateu a cabeça e desmaiou. “Só
lembro quando acordei que estavam minha mãe, minha avó e uma enfermeira me
limpando. Acordei perguntando onde eu estava.”
Inicialmente, a família escondeu a gravidade do que aconteceu a Murilo. Ele
ficou um dia no Hospital Monsenhor Walfredo Gurgel e depois foi para casa, onde
recebeu visitas. Ninguém lhe dizia o que aconteceu, até que ele pediu que um
amigo comprasse a edição de domingo da TRIBUNA DO NORTE. A manchete do jornal
no dia era “Tragédia na abertura do carnaval de Natal. Ônibus atropela bloco.
19 MORTOS”.
Foi nessa ocasião que Murilo soube do acidente, que vitimou dois amigos
próximos e mais 17 pessoas. Hoje, Murilo fala no assunto com naturalidade.
Sobre a prisão do motorista, ele elogia o trabalho da polícia, mas reconhece
que demorou.
“Eu sinto muito, porque acho que foi feita justiça nesse sentido, mas tenho a
impressão de que a forma com que foi feita demorou muito. É tipo: a justiça
tarda, mas não falha, mas é melhor que ela não tarde.”
Conforme os relatos, depois do acidente, Aluízio fugiu após abandonar o veículo
sem acionar o freio de mão. O ônibus quase retornou e atingiu mais pessoas, não
fosse uma pessoa que saltou no veículo e acionou o freio. O motorista ficou
foragido por mais de 40 anos.
“Em termos de evento, isso foi um divisor de águas. Não teve mais carnaval
aqui. Isso parou por muito tempo”, diz Murilo. Em vez do Carnaval de rua, os
natalenses passaram a ir para as praias do litoral potiguar. “Agora é que está
voltando aos poucos a economia carnavalesca da cidade de Natal. Trinta anos
depois, voltaram os blocos, com uma nova roupagem.”
João Maria Marques da Silva, 62, namorava uma das integrantes da escola de
samba que estava no ônibus. Ele vinha em um carro depois do veículo com
fantasias da escola e viu o resultado do acidente. “Na hora em que passei, o
desmantelo já tinha acontecido. Segui direto”, lembra. João viu muito sangue e
as vítimas no chão.
“Natal parou. Começaram a sair as reportagens: disseram que morreram 18, depois
17, depois 15… O pessoal foi recontando. Teve até um colega meu, chamado
Walter, que ficou no meio dos mortos. Foi descoberto no Walfredo que o cara
estava vivo e o resgataram do meio dos corpos. Depois daquilo, o Carnaval de
Natal acabou”, afirma.
Augusto Azevedo viu a tragédia e
virou promotor do caso. Foto: Fernando Azevêndo
Da noite da tragédia até o júri popular
Augusto Azevedo, 61, foi de folião prestes a entrar como “pipoca” naquela
madrugada a promotor do caso, décadas depois. Ele foi o promotor do júri
popular, em 2009, em que Aluízio foi julgado e condenado pelo crime de
homicídios duplamente qualificados.
“Eu estava ali, uma rua na frente, esperando exatamente esse bloco passar.
Quando chegou a notícia de que tinha acontecido a tragédia, eu desci”, conta.
“Eu tinha 19 anos. Vi aquela situação horrível. Pedaços de instrumentos… Passa
o tempo, me torno promotor de justiça e venho trabalhar na vara do júri, quando
chega o julgamento do Aluízio.”
O motorista foi julgado à revelia, porque estava desaparecido. Augusto Azevedo
explica que a pena de Aluízio não prescreveu mesmo após 42 anos. “[O processo]
transitou em julgado, ele não recorreu, nada. Nesse instante, você tem a
interrupção do prazo de prescrição.”
“Há regras processuais e penais que levam à suspensão do prazo de prescrição e
à interrupção desse prazo”, diz. A condenação proferida em maio de 2009 somente
prescreveria em 2029.
Um crime de trânsito geralmente se enquadraria na modalidade culposa, mas o
júri popular entendeu que houve dolo eventual. “Dolo também é quando eu assumo
o risco do resultado. Se eu pego um ônibus, àquela altura, vejo que tem uma
multidão na minha frente e acelero esse ônibus com raiva porque estava sendo
atrapalhado, assumo o risco do que aconteceu”, explica o promotor.
Sobre o tempo decorrido no processo, ele avalia que fica um “recado positivo”.
“Vivemos num mundo em que a descrença na justiça é muito grande. Como cidadãos,
estamos à mercê de muita coisa. E, quando acontece uma situação dessa, é um
exemplo de que é possível que a justiça seja feita, ainda que tardiamente, como
diz o ditado.”
Fernando Azevêdo/Repórter
Tribuna do Norte









