Em 102 encontros e 362 horas de atividades, são realizadas oficinas de alfabetização, letramento matemático, entre outros. Foto: Alex Régis
A primeira liberdade foi de papel. Antes de qualquer carteira assinada, antes da promessa de uma profissão, antes mesmo de falar em futuro, adolescentes em cumprimento de medida socioeducativa no Rio Grande do Norte pediram para soltar pipas. Tinham acabado de construí-las numa oficina de letramento matemático da UFRN. Aprenderam diagonais, área, perímetro, figuras planas. Ali, por meio da lição de geometria, se materializou o desejo de ver alguma coisa feita por eles ultrapassar os muros. O projeto “Aprendizagens para o mundo do trabalho”, executado pelo Centro de Educação da UFRN, financiado pelo Ministério Público do Trabalho (MPT/RN), chegou a cinco unidades da Fundase/RN entre 2025 e 2026 e atendeu 226 adolescentes.
A proposta era aproximá-los da educação e profissionalização. Davi (nome
fictício) estava entre eles. Aos 16 anos, cumpria medida socioeducativa e
carregava uma relação antiga com a escola. No caso dele, não era falta de
vontade, mas sim vergonha. Vergonha de não entender o que os outros pareciam
entender. Parou de estudar no sexto ano, com 10 anos. Nas oficinas do projeto,
voltou a encostar nas letras e nos números por outro caminho, desenhando pipas
e quadras de futebol. Assim, descobriu que a matemática também podia nascer das
coisas que conhecia.
Na escola, Davi lembra mais dos colegas e da bola do que das aulas. Gostava de
educação física, de jogar como atacante, de fazer gol. Fora dali, a vida foi
estreitando o campo. O pai morreu quando ele ainda era criança, a mãe sustentou
a casa, os conselhos da família chegavam antes que ele soubesse escutá-los.
“Minha mãe, minha irmã, sempre falam para eu sair dessa vida, mudar de vida,
voltar a estudar”, recorda. Quando entrou no sistema socioeducativo, já tinha
deixado a sala de aula. Dentro da unidade, sonha em cursar medicina e diz ter
reencontrado uma forma de olhar para si: “Entrei aqui um menino rebelde. Agora
vou sair com outra mente.”
Ele fala baixo, às vezes tropeça nas palavras, como quem ainda procura um jeito
de dizer o que sente sem transformar a própria dor em defesa. O arrependimento
aparece sem discurso pronto. “Aqui dentro não é muito bom, não. Mas dá para
refletir e assumir o erro”, diz.
O projeto que encontrou Davi não começou pela pergunta sobre qual profissão
aqueles adolescentes poderiam exercer. Começou antes, no ponto em que muitas
trajetórias escolares já tinham sido quebradas. Ao longo de 102 encontros e 362
horas de atividades, oficinas de alfabetização, letramento matemático, arte,
cultura, corpo e movimento, direitos humanos, cuidado e responsabilização
tentaram recompor uma ponte antiga entre aprender e existir no mundo.
A escolha das oficinas não veio pronta da universidade. “Não fizemos um
trabalho para eles. Todo o trabalho foi desenvolvido com eles”, resume Cláudia
Kranz, coordenadora do projeto na UFRN. Antes de levar conteúdos às unidades, a
equipe ouviu adolescentes, gestores e profissionais da Fundase.
Essa metodologia fez a matemática perder a aparência de “castigo”. “Não ia sair
da cabeça de um professor universitário ‘vamos trabalhar com pipa’. A pipa era
o interesse deles, a partir do interesse desse aprendiz é que os conhecimentos
são mobilizados”, explicou Kranz. Para ela, o conteúdo, assim, deixava de ser
distante, “asséptico, tecnicista”, e passava a ter pertencimento.
O efeito não apareceu apenas nos cadernos. Segundo a equipe da UFRN,
adolescentes que costumavam circular algemados passaram, nos dias de oficina, a
ser conduzidos sem algemas.
Davi (nome fictício) é um dos
integrantes do projeto. Ele parou de estudar aos 10 anos, mas recentemente
voltou a ter contato com o conhecimento. Foto: Alex Régis
Trabalho como ressocialização
Para o presidente da Fundase, Herculano Campos, essa é a fronteira que separa a
socioeducação da prisão. A medida responsabiliza, mas deve partir da ideia de
que o adolescente ainda está em formação. “No sistema prisional, o objetivo é
fazer com que a pessoa seja punida pelo crime cometido. No sistema
socioeducativo, voltado para adolescentes, a gente parte do princípio de que o
adolescente está em processo formativo. O objetivo do sistema é possibilitar
rever o projeto de vida”, descreve Campos.
Na avaliação da subprocuradora-geral do Trabalho Ileana Neiva, a primeira
aprendizagem necessária não é técnica. Antes de formar eletricistas,
costureiros, programadores ou trabalhadores autônomos, é preciso lidar com
adolescentes que chegaram ao sistema depois de sucessivas negações de direitos.
“A aprendizagem por si só é um meio interessante se vier acompanhada desse
letramento em direitos humanos”, afirma.
Para ela, o trabalho ocupa lugar central na vida social. É por ele, muitas
vezes, que alguém é reconhecido, apresentado, aceito. Mas, para os adolescentes
da Fundase, o caminho até o mundo do trabalho passa por uma pergunta anterior:
como falar de profissão a quem teve a escola interrompida, a infância
atravessada pela pobreza e o sonho limitado pelo território onde nasceu?
“Muitas vezes tem uma barreira do sonho. A comunidade em que ele vive é tão
pobre que ele só consegue se identificar também com profissões que reproduzem a
pobreza”, descreveu Neiva. Para ela, a socioeducação precisa romper essa
barreira sem apagar a responsabilização pelo ato cometido. “Aquele erro não
pode significar toda a vida deles. Eles podem ressignificar a vida e não serem
definidos por aquele erro.”
Essa barreira, segundo Cynara Ribeiro, vice-coordenadora do projeto, também é
uma barreira do olhar. A sociedade costuma enxergar primeiro o ato infracional,
não a vida anterior a ele. “A educação é uma porta que pode abrir a vida desses
sujeitos para horizontes aos quais eles muitas vezes não tiveram acesso antes”,
ressaltou Ribeiro.
O passo seguinte é transformar essa aprendizagem de base em formação
técnico-profissional. Segundo Ileana Neiva, uma nova etapa está prevista com
recursos do MPT e participação da UFRN e do Sistema S. A ideia é avançar para
cursos práticos, como corte e costura, a partir das habilidades identificadas
nas oficinas.
Mesmo quando a profissionalização chegar, outro muro permanecerá de pé. É o
estigma. “Se a sociedade não os receber sem discriminação, nosso trabalho não
vai ser efetivo”, afirma Ileana. O MPT defende que contratos públicos incluam
cotas para aprendizes e egressos, e que empresas privadas aceitem dar
oportunidade a quem passou por processos de responsabilização. O problema é
que, fora das unidades, o ato infracional costuma continuar funcionando como
sentença.
Davi ainda não sabe o tamanho exato do caminho entre a unidade e a medicina.
Por meio do projeto, a escola deixou de ser o lugar da vergonha. Virou pipa.
No dia em que os adolescentes pediram para soltar as pipas, a liberdade ainda
não era deles. Era de papel, com palitos e linha. Mas tinha sido construída por
suas próprias mãos. E, por alguns minutos, antes que alguém voltasse a
chamá-los pelo erro, ela voou livre.
Jessyanne Bezerra/Repórter
Tribuna do Norte









