O RN soma 57 mil investidores
pessoa física na Bolsa, com R$ 3,22 bilhões aplicados em renda variável. Com
adesão de 1,64% da população — ou 1,87% considerando o número de contas —, o
estado lidera o Nordeste em participação na B3.
Analista aponta que o
interesse pela Bolsa de Valores está em franco crescimento no RN, embora ainda
prevaleça no Estado o perfil de um investidor mais conservador| Foto: Magnus
Nascimento
O Rio Grande do Norte soma 57
mil investidores pessoa física na Bolsa de Valores do Brasil (B3). Juntos, eles
mantêm R$ 3,22 bilhões custodiados (investidos e aplicados) em ativos de renda
variável, segundo dados da própria B3 atualizados no início deste mês. Ao todo,
o RN soma 64,6 mil contas na Bolsa, sendo que cada CPF pode ter mais de uma
conta. Levando em consideração a população estimada do estado (de 3,4 milhões
de habitantes, segundo o IBGE), a adesão dos potiguares à B3 é de 1,64% - esse
índice sobe para 1,87% quando se considera o número de contas, colocando o
estado com a maior adesão entre as nove unidades federativas do Nordeste.
Ainda levando em conta a proporção número de contas/população, Pernambuco é o
segundo estado da região com maior adesão (1,77%), seguido do Ceará e de
Sergipe (cada um com 1,72% de adesão) e da Bahia (1,63%). No Maranhão está a
menor adesão, de acordo com os dados cruzados pela reportagem (de apenas 1%).
Em termos de valores nominais sob custódia na B3, a Bahia lidera, com um volume
de R$ 15,53 bilhões, acompanhado de Pernambuco (R$ 10,18 bilhões), Ceará (R$
9,79 bilhões) e Maranhão (R$ 6,85 bilhões). O RN e a Paraíba (R$ 2,74 bilhões)
vêm em seguida neste recorte, enquanto o Piauí ocupa a última posição, com R$
1,32 bilhão.
Em uma análise por quantitativo de contas, a Bahia (242,4 mil contas) alcança o
primeiro lugar entre os estados do Nordeste. Depois vêm Pernambuco (169,7 mil
contas), Ceará (160 mil), Maranhão (70,8 mil), Paraíba (67,3 mil) e o RN (64,6
mil) em sexto lugar. Os dados mostram, portanto, que o investidor
norte-rio-grandense possui um patrimônio aplicado maior por conta do que o
investidor paraibano. Neste comparativo, Sergipe ocupa a última posição, com
39,7 mil contas.
Em todo o País, de acordo com a B3, são 6,4 milhões de contas, com um volume de
R$ 661,9 bilhões custodiados. Apesar de ter a maior adesão no comparativo do
número de contas/população, a participação total do RN na B3 é de apenas 0,49%.
Juliana Miranda assessora
investidores há 21 anos no mercado| Foto: Cedida
Segundo a assessora de investimentos Juliana Miranda, da Avin Investimentos,
empresa com cartela de clientes no Rio Grande do Norte, os números no Estado,
de um modo geral, mostram que o interesse pela Bolsa está em franco
crescimento, embora ainda prevaleça no RN o perfil de um investidor bancarizado
e conservador. “Isso significa que esse investidor aplica o dinheiro em
emissões bancárias, como CDBs, LCIs e LCAs”, afirma Juliana Miranda.
Além disso, de acordo com a assessora, os potiguares também investem bastante
em produtos de renda fixa, como CRIs, CRAs, e debênturas, emitidos por empresas
e atrelados ao IPCA. “No entanto, a gente observa, no RN e no Nordeste, um
interesse crescente por produtos menos tradicionais, como os investimentos na
Bolsa. Então, há muito espaço para crescimento”, avalia Juliana, que é
economista CFP (especialista em mercado financeiro e planejamento pessoal) e
atua no mercado há 21 anos.
“Para se ter uma ideia desse crescimento, o Nordeste registrou alta de 112%
entre 2020 e 2023 no número de investidor pessoa física indo em busca da B3. É
um índice superior ao do Sul e Sudeste, onde esse tipo de investimento já é
consolidado. Nesse sentido, estamos em uma velocidade muito maior do que
estávamos antigamente. E a gente espera que, com a queda da taxa Selic,
aguardada com ansiedade pelo mercado, essa corrida [pela B3] ganhe ainda mais
fôlego”, afirma a especialista.
Investimentos representam
3,16% frente ao PIB potiguar
O valor total investido pelos
potiguares em renda variável na Bolsa de Valores representa 3,16% frente ao
Produto Interno Bruto (PIB) local, que é de R$ 107,1 bilhões, segundo o IBGE.
Os dados da B3 revelam que os homens são maioria entre os investidores da Bolsa
no RN. Eles detêm 49,9 mil contas, com uma soma total de R$ 2,68 bilhões
custodiados. Já as mulheres respondem por 14,6 mil contas, que somam R$ 0,53
bilhão. O cenário acompanha o que se observa no restante do Brasil. Em todo o
País, os homens respondem por 4,7 milhões de contas na Bolsa, que resultam em
R$ 502,15 bilhões. As mulheres, por sua vez, são responsáveis por 1,7 milhão de
contas, que somam R$ 159,83 bilhões custodiados.
Os valores custodiados são aqueles investidos e aplicados e que ficam sob
custódia da Bolsa. Eles estão separados de operações opcionais, como a
movimentação de produtos onde são colocadas alavancagens (na alavancagem é
utilizado dinheiro emprestado para melhorar a exposição de um investimento no
mercado).
“Como exemplo, podemos pensar em um investidor que compra mil cotas de uma
empresa por R$ 40 cada, totalizando R$ 40 mil dentro da B3. Mas o investidor
terá um valor maior se ele quiser fazer uma alavancagem em cima desse produto.
No entanto, o montante custodiado continuaria sendo R$ 40 mil”, explica Juliana
Miranda.
Ela orienta que, para início dos investimentos na Bolsa, alguns cuidados devem
ser tomados. “Para começar, o mais indicado é se alfabetizar sobre o tema, com
educação financeira. Depois, é preciso desmistificar que, para investir, é
necessário muito dinheiro. O que é preciso, na verdade, é disciplina e
recorrência. Uma dica muito importante é separar as economias em três caixinhas
– uma para reserva emergencial, uma para a construção de patrimônio e a
terceira para a aposentadoria”, ensina.
Após isso, a orientação da especialista é que, para investidores inexperientes,
o ideal é aplicar algo em torno de 5% a 7% da renda em ativos. Para os mais
experientes, o investimento pode ser maior, entre 7% e 15%. Para o investidor
sofisticado – aquele que já tem um nível avançado de conhecimento e até opera
sozinho, a alocação em recursos deve ser em torno de 15% a 25% do próprio
patrimônio, conforme orienta a assessora em investimentos. “Lembrando que o
mais importante é respeitar o perfil de cada um”, pondera.
O médico Eduardo Faria, de 53 anos, vem de uma família com longa tradição em
investir na B3. Familiarizado com o assunto desde criança, o investidor afirma
que a dica de ouro é planejar. Faria conta que, ainda menino, o pai já comprava
ações em nome dele. Por volta dos 25 anos, o médico assumiu os investimentos
por conta própria, com foco no longo prazo. Segundo ele, isso garante mais
tranquilidade, sem preocupações quanto a oscilações da Bolsa.
“Quem investe, conhece bem o Plano 15 mais, que consiste em estabelecer metas
em um ano, cinco anos e mais. No primeiro ano, cria-se uma reserva de
emergência. Nesta fase, nada de pensar na Bolsa, apenas em renda fixa. Em cinco
anos, a meta é ter uma reserva para trocar o carro ou fazer uma viagem, com
investimentos também em renda fixa. Depois dos cinco anos, parte do que é
investido deve ir para renda fixa e a outra para renda variável”, comenta o
médico, que traz na bagagem cerca de 25 anos de investimentos na Bolsa.
Investimentos dos potiguares
no Tesouro Direto
Além dos investimentos
custodiados em renda variável, os potiguares somam R$ 1,8 milhão em aplicações
no Tesouro Direto. De acordo com a B3, são 36,3 mil investidores no Rio Grande
do Norte – em todo o Brasil eles são 3,4 milhões, que somam R$ 235,6 bilhões em
custódia. Os números sobre a participação do RN nas aplicações do Tesouro
ajudam a entender, de forma mais consistente, o quanto o investidor local é
conservador.
O Tesouro Direto é uma alternativa em renda fixa em que o investidor sabe, no
momento da aplicação, quanto o dinheiro vai render no futuro. A B3 explica que,
além de ser um produto simples de investir e possibilitar a escolha por títulos
que rendam algum dinheiro ao investidor no curto, no médio e no longo prazos, o
tesouro é extremamente seguro e permite aplicações iniciais a partir de R$ 30.
Ao investir, o interessado adquire um título com a segurança do Tesouro
Nacional. Cada título tem uma data própria de vencimento definida, mas é
possível resgatá-lo antes do prazo final contratado.
A assessora em investimentos Juliana Miranda analisa que o interesse dos
potiguares por renda fixa tem a ver com diferentes fatores. “O RN e o Nordeste
ainda são mais propensos ao consumo do que à preservação de fundos de
investimento.
E a região, de um modo geral, possui menos escritórios de assessoria, então
tudo isso provoca reflexos na hora de diversificar e de apostar em produtos
mais elitizados e sofisticados. Para isso, e é importante que se diga, o ideal
é ter o acompanhamento de profissionais com ampla experiência no mercado”,
pontua a especialista.
Números
Investimentos na B3 nos
estados do Nordeste
Número de contas
BA 242.433
PE 169.752
CE 160.008
MA 70.823
PB 67.325
RN 64.664
AL 44.908
PI 40.816
SE 39.710
Valor sob custódia
BA R$ 15,53 bi
PE R$ 10,18 bi
CE R$ 9,79 bi
MA R$ 6,85 bi
RN R$ 3,22 bi
PB R$ 2,74 bi
SE R$ 1,79 bi
AL R$ 1,62 bi
PI R$ 1,32 bi
Adesão à B3*
RN 1,87%
PE1,77%
CE 1,72%
SE 1,72%
BA 1,63%
PB 1,61%
AL 1,39%
PI 1,20%
MA 1%
*O percentual de adesão foi
calculado levando em consideração o número de contas na B3 e a população
estimada pelo IBGE em 2025 em cada estado
Fonte: B3
Felipe Salustino/Repórter
Tribuna do Norte