O setor sucroalcooleiro, que
inclui atividades ligadas à cana-de-açúcar, álcool e derivados, registrou 1.673
demissões em fevereiro | Foto: Wenderson Araujo/CNA
A forte queda no emprego
formal no Rio Grande do Norte em fevereiro tem uma explicação central: o
impacto da entressafra em cadeias produtivas-chave, especialmente a
cana-de-açúcar e a fruticultura. Economistas apontam que a redução no ritmo
dessas atividades — com destaque para o setor sucroalcooleiro e a produção de
melão — foi o principal fator por trás do saldo negativo registrado no período.
Com saldo de -2.152 empregos
em fevereiro de 2026, a agropecuária liderou as perdas de postos formais no
estado. No total, o Rio Grande do Norte foi o segundo estado com maior
fechamento de vagas no mês, acumulando -2.221 empregos, segundo dados do Novo Caged
divulgados na última terça-feira (31). O desempenho reforça um padrão já
observado em anos anteriores: em fevereiro de 2025, o setor também apresentou
mais demissões que admissões, com saldo de -1.048 vagas.
O resultado mais recente foi
puxado, principalmente, pela retração no setor sucroalcooleiro, que concentra
atividades ligadas à cana-de-açúcar, álcool e derivados, e respondeu por 1.673
desligamentos. Já a produção de melão, um dos pilares da fruticultura potiguar,
registrou 1.363 demissões no mês.
Esse cenário é sazonal,
explica William Figueiredo, economista da Federação do Comércio de Bens,
Serviços e Turismo do Rio Grande do Norte (Fecomércio-RN). “O começo do ano é o
período de entressafra, ou seja, diminui mesmo a produção. Porém, este ano o impacto
foi muito maior do que nos anos anteriores”, diz.
Apenas três estados tiveram
saldo negativo na geração de empregos em fevereiro deste ano: RN, Alagoas
(-3.023) e Paraíba (-1.186). O saldo registrado no RN em fevereiro foi
resultado de 19.084 admissões e 21.305 desligamentos. William Figueiredo aponta
que AL e PB também registraram um movimento semelhante, com demissões no setor
sucroalcooleiro, que impactam tanto a agropecuária quanto a indústria.
A Federação da Agricultura e
Pecuária do RN (Faern) avalia que a variação negativa registrada tanto em
fevereiro de 2025 (-1.048 vagas) quanto no mesmo mês de 2026 se deve a fatores
estruturais, sazonais e conjunturais.
Alguns desses fatores são “a
irregularidade climática e a situação hídrica, que afetam diretamente a
produção, além dos custos elevados de insumos, como ração, energia e
combustíveis, que pressionam a margem do produtor e reduzem a capacidade de
contratação”.
Segundo a Faern, o RN ainda
enfrenta dificuldades na contratação de mão de obra formal, e parte dos
trabalhadores do setor são informais. Na agropecuária, foram registrados 461
admissões e 2.613 desligamentos em fevereiro deste ano.

William Figueiredo: comércio e
serviços foram os destaques | Foto: Pedro Henrique/Jovem Pan News Natal
Serviços e comércio
Assim como em fevereiro de
2025, os setores de serviços e comércio lideraram os saldos de emprego em
fevereiro de 2026. “O setor de comércio e serviços continuou contratando. No
caso do setor de comércio, houve a contratação principalmente nos supermercados,
com 72 vagas. E no comércio de veículos, foram 47 vagas abertas”, explica
William Figueiredo.
O destaque do setor de
serviços foi para a educação, com 538 vagas abertas, em um movimento sazonal de
volta às aulas. O segmento de alimentação, bares e restaurantes teve 152 vagas
abertas, o que era esperado devido ao Carnaval e à alta temporada no estado.
O economista Arthur Néo,
vice-presidente do Conselho Regional de Economia (Corecon-RN), destaca que
comércio e serviço são os “motores” da economia potiguar. No entanto, os
indicadores positivos nesses setores não superam as perdas da indústria, por
exemplo.
“A curto prazo, comércio e
serviços fazem com que a economia gire. Mas a longo prazo, investimentos de
capitais em produção, principalmente em indústria, tendem a elevar o patamar
econômico do estado”, avalia. O economista cita a dificuldade do estado em
atrair investimentos, o que também afeta o mercado de trabalho.
Indústria teve o 2º pior
desempenho entre setores
Assim como a agropecuária, a
indústria teve desempenho negativo no mesmo mês em ambos os anos. Roberto
Serquiz, presidente da Fiern (Federação das Indústrias do RN), afirma que em
2026 o recuo foi puxado pelos segmentos de petróleo e gás (-1.055) e refino de
açúcar (-292).
“O resultado evidencia
fragilidades estruturais na economia do estado e perda recente de dinamismo,
especialmente na indústria, demandando políticas de estímulo à atividade
produtiva”, afirma Serquiz.
Arthur Néo diz que o resultado
da indústria reflete desafios estruturais, com desaceleração na produção
potiguar. “Todos os insumos da cadeia de produção estão sofrendo reajustes, que
na maioria das vezes estão acima do IPCA. E no Rio Grande do Norte, que é um
estado que já tem dificuldades no setor produtivo, isso foi mais impactante.”
Construção civil
O desempenho negativo da
construção civil (-92) contrasta significativamente com o resultado de
fevereiro de 2025 (criação de 733 vagas). O economista Arthur Néo pontua que o
setor é muito dependente de crédito, e os juros altos pressionam o mercado.
“Um juro muito alto faz com
que a decisão do cliente de adquirir uma casa nova seja postergada. Mas não foi
uma queda tão acentuada [no setor], porque o nosso déficit habitacional ainda é
gigante”, avalia. Para ele, diferente da queda na agropecuária, o resultado não
era esperado.
Sérgio Azevedo, presidente do
Sindicato da Indústria da Construção Civil do RN (Sinduscon-RN), tem uma visão
semelhante. “A construção é muito sensível à confiança, ao crédito, ao ritmo de
liberação de projetos e à segurança jurídica. Quando esse ambiente piora, o
emprego sente rapidamente”, explica.
Ele diz que o resultado de
2026 acende um alerta, uma vez que em fevereiro de 2025 o setor gerou empregos.
“O RN precisa destravar investimentos, acelerar regulações e criar condições
reais para que o setor privado invista, produza e contrate”, afirma.
Mercado de trabalho no RN
Para o economista Ricardo
Valério, superintendente do Conselho Regional de Economia (Corecon-RN), os
resultados de fevereiro já eram esperados devido a fatores sazonais. “É um mês
em que temos os reflexos das demissões dos [profissionais] temporários”, diz.
Ele reflete, no entanto, que a
trajetória recente de empregabilidade no RN é positiva. “Em 2025, o desemprego
do RN caiu para 8,1%, o menor número da série histórica desde 2012, com mais de
31 mil pessoas a menos sem emprego em um ano”, lembra o economista.
Na visão de Sérgio Azevedo, “o
resultado geral do RN é preocupante. O estado tem potencial, mas está
enfrentando dificuldades para transformar oportunidades em investimentos e
empregos. Isso revela um ambiente ainda pouco competitivo, com entraves que afastam
novos negócios e reduzem o dinamismo da economia.”
Para Zeca Melo,
superintendente do Sebrae-RN (Serviço de Apoio às Micro e Pequenas Empresas do
RN), o resultado geral de fevereiro acende um sinal de alerta. “Estar entre os
piores saldos de emprego do país no período exige uma análise cuidadosa e
equilíbrio. Este é o pior mês de fevereiro dos últimos cinco anos”.
“É importante considerar
fatores sazonais, como o fim de contratos temporários do início do ano e
ajustes naturais de alguns setores da economia. Mas se observa que os números
já vinham caindo há alguns meses. Ainda assim, o dado reforça a necessidade de
fortalecer o ambiente de negócios e estimular a atividade econômica no estado.”

Zeca Melo (Sebrae): RN precisa
fortalecer ambiente de negócios | Foto: Magnus Nascimento
O Boletim de Emprego,
elaborado pelo Sebrae-RN, aponta que, em relação ao porte de empresas, as
microempresas foram as que tiveram maior saldo de vagas (885). Pequenas
empresas registraram leve queda (-30 postos); médias empresas tiveram
desempenho mais retraído, com -1.314 vagas; e em grandes empresas houve o
fechamento de -1.762 postos de trabalho.
“Fica evidente o papel
fundamental dos pequenos negócios na sustentação do emprego. As microempresas
demonstram resiliência e capacidade de adaptação mesmo em cenários
desafiadores”, diz Melo. “Por outro lado, as pequenas empresas praticamente
ficaram estáveis, enquanto médias e grandes registraram retração significativa,
com fechamento de mais de 3 mil postos somados.”
Fernando Azevêdo/Repórter
Tribuna do Norte