domingo, 31 de maio de 2026
Mossoró: lideranças lotam auditório em apoio a Pedro Filho e Ériko Jácome
Embrapa produz em laboratório salmão, caviar e anéis de lula veganos
Tecnologia imita sabor e
nutrientes dos alimentos em impressão 3D
Valter Campanato/Agência Brasil
Depois de 30 meses de
pesquisa, o Laboratório de Nanobiotecnologia (LNANO) da Embrapa Recursos
Genéticos e Biotecnologia, com sede em Brasília, desenvolveu amostras de
alimentos impressos com base vegetal, que mimetizam filé de salmão, caviar e
anéis de lula.
Além de copiar as formas dos
alimentos, os protótipos - feitos em impressoras 3D da Embrapa - têm gosto e
características nutricionais semelhantes à comida original.
“Uma das coisas que buscamos
foi avaliar o teor nutricional da carne animal em sua composição total. Atentos
a três grupos principais - carboidratos, lipídeos e proteínas -, buscamos nos
recursos vegetais ingredientes ou insumos que nos trazem a mesma quantidade em
percentual de tecido animal”, explica a bióloga Cínthia Caetano Bonatto,
pesquisadora bolsista no LNANO.
Tintas alimentícias
As amostras foram criadas com
tintas alimentícias feitas a partir de proteínas vegetais, farinhas de
leguminosas, óleos vegetais e de algas, nanoingredientes, corantes naturais e
espessantes - usados para aumentar a viscosidade dos alimentos.
De acordo com Cínthia Bonatto,
as tintas alimentícias são constituídas por ingredientes “que, em sua maioria,
são os mesmos que utilizamos na culinária na nossa residência.”
Arca de Noé
Parte desses insumos foi
obtida nos Bancos Ativos de Germoplasma da Embrapa, uma espécie de “arca de
Noé” que coleciona em 140 acervos o material genético de milhares de plantas,
microorganismos e animais.
Com o material genético do
repositório da própria Embrapa, é possível elaborar alimentos de base vegetal
com composição “o mais similar possível àquela encontrada nos animais”,
descreve o pesquisador Luciano Paulino da Silva, que coordena projetos de impressão
de alimentos.
Com essa tecnologia, os
pesquisadores conseguem “fazer o enriquecimento nutricional dos produtos
impressos”, comenta a biotecnóloga Gabriela Mendes da Rocha Vaz, também
pesquisadora bolsista no LNANO.
Essa aplicação pode ser útil para o combate à fome e subnutrição. Em tese, a impressão de alimentos também pode evitar pesca predatória ou sofrimento no abate dos animais e ainda atender segmentos de públicos com restrições alimentares, por exemplo quem não quer comer carne.
Amostras foram criadas com
tintas alimentícias. Foto: Valter Campanato/Agência Brasil
Vitrine
Os alimentos criados no LNANO
já foram experimentados por pessoas, conforme liberação de comissão de
ética. Segundo Luciano Paulino da Silva, o experimento está “na vitrine da
Embrapa”, mas ainda não tem data para ser lançado no mercado.
A pesquisa da Embrapa foi
financiada pelo Good Food Institute (GFI), uma organização global sem fins
lucrativos que financia a criação de alimentos à base de plantas, com
microorganismos em processo de fermentação, e a produção de carne cultivada a
partir de células animais em laboratório.
A exploração comercial vai
depender do modelo de negócios: alimentos criados em impressoras domésticas
para preparo em restaurantes ou ainda em escala industrial.
Alimentos impressos já são
comercializados na Austrália, nos Estados Unidos, em Israel e Singapura. No
Brasil, pesquisadores da Universidade Estadual Paulista (Unesp) desenvolvem
experimentos para a impressão de alimentos em parceria com a Escola de Medicina
da Universidade Harvard, e com a Universidade de Tecnologia e Design de
Singapura.
Agência Brasil
Tela Brasil: streaming público estreia com mais de 550 obras
Plataforma disponibiliza
filmes nacionais clássicos e contemporâneos
Fernando Frazão/Agência Brasil
O governo lançou oficialmente neste sábado (30) a plataforma Tela Brasil, o streaming público e gratuito de audiovisual brasileiro.

A iniciativa tem o objetivo de democratizar o acesso da população à cultura brasileira, a partir da ampliação do alcance da produção nacional.
A plataforma coordenada pelo Ministério da Cultura e desenvolvido em parceria com a Universidade Federal de Alagoas vai disponibilizar filmes brasileiros sob demanda, com acesso integrado ao site Gov.br.
No lançamento do streaming, na Cidade das Artes, na zona Oeste do Rio de Janeiro, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva destacou que a plataforma é uma ferramenta de soberania cultural para que os brasileiros conheçam a si mesmos.
“[A Tela Brasil} vai contribuir para a elevação da compreensão de um país chamado Brasil. Por que nós somos assim? Por que nós fazemos assim?"
O presidente também criticou o excesso de conteúdos estrangeiros nas telas do país, que ele considera de baixa qualidade.
“A quantidade de enlatados de má qualidade que a gente é obrigado a assistir toda noite, porque não tem outra coisa para a gente ver. O que não permite que a juventude brasileira tenha acesso à plenitude da cultura brasileira", lamentou Lula.
O presidente também chamou a atenção para o desconhecimento sobre o peso econômico e a quantidade de empregos gerados pelo setor cultural brasileiro para o desenvolvimento econômico e profissional.
“O mais importante é a gente conhecer o nosso país por dentro, conhecer a nossa cultura, a razão das coisas que fizeram a gente chegar onde nós chegamos”, disse Lula.
Por fim, o presidente fez a conexão com outras políticas públicas de sua gestão, como o recém-lançado MEC Livros, que já conta com o acervo de mais de 25 mil livros. Ele destacou que o acesso à cultura, agora, faz parte da política de habitação do governo. “Todo o conjunto habitacional que a gente entregar, nesse país, vai ter uma biblioteca para que a pessoa tenha acesso à cultura."
O projeto contou com um investimento de R$ 9 milhões entre 2024 e 2025. Segundo o governo, o valor garantiu o licenciamento de um catálogo diversificado, desenvolvimento tecnológico próprio e ferramentas completas de acessibilidade.
Histórias ainda não contadas
Presente no lançamento, a ministra da Cultura, Margareth Menezes disse que a motivação de criar a plataforma foi fazer com que o povo brasileiro tenha acesso ao direito cultural.
“Na questão do audiovisual, nós temos um gargalo ainda muito grande na questão da distribuição. Como fazer o povo ter acesso a tudo o que se produz, às coisas que são importantes, que referenciam o nosso país?
Ela destacou que o audiovisual agrega todas as outras artes como a música, o desenho. “Todo mundo trabalha e tem essa representatividade. A nossa diversidade está no que a gente produz, só que o povo não tinha acesso.”
Em sintonia com o discurso do presidente Lula, a ministra celebrou a soberania, a miscigenação e a necessidade de resgatar o protagonismo das figuras históricas do país.
"O povo que se conhece, o povo que se vê, ele se fortalece, porque nossas histórias são lindas. Temos os povos originários, os povos africanos, os povos europeus, as pessoas que construíram esse país, as histórias que nunca foram contadas.”
Acervo da nova plataforma
O acervo inaugural une conteúdos financiados pelo Fundo Setorial do Audiovisual (FSA), obras guardadas por instituições do Sistema MinC, como a Cinemateca Brasileira, o Centro Técnico Audiovisual (CTAv), a Funarte e a Fundação Cultural Palmares.
O foco é a diversidade, englobando o cinema negro, o cinema indígena, produções dirigidas por mulheres, e temas urgentes como justiça climática e sustentabilidade.
A Tela Brasil já chega com acervo que cobre desde clássicos históricos de 1910 até produções contemporâneas, de 2025.
Ao todo, a plataforma inicia com 555 obras audiovisuais brasileiras, divididas em:
- 267 curtas-metragens;
- 139 longas-metragens;
- 85 médias-metragens ou telefilmes;
- 64 obras seriadas.
Entre elas: A Hora da Estrela, de Suzana Amaral; Xica da Silva, de Cacá Diegues; Central do Brasil, de Walter Salles; e Cidade de Deus, de Fernando Meirelles.
Deus e o Diabo na Terra do Sol (1964), de Glauber Rocha; Carandiru (2003), de Hector Babenco; e Olga (2004), de Jayme Monjardim, são outras obras de destaque.
O catálogo inicial inclui 19 títulos que já representaram o Brasil na disputa pelo Oscar ao longo da história.
Entre as categorias listadas pelo Ministério da Cultura estão obras para a infância, juventude, de artes e de brasilidade.
Na parte de diversidade cultural, entrou a categoria Africanidades, que reúne obras audiovisuais que narram trajetórias, memórias e experiências da população negra no Brasil, entrelaçando ancestralidade e contemporaneidade.
Acessibilidade é outro ponto central do projeto: todos os títulos selecionados via edital público contam com audiodescrição, legendagem descritiva e interpretação em Língua Brasileira de Sinais (Libras).
"Importante destacar que tem pesquisa no meio sobre acessibilidade. São obras com três recursos de acessibilidade, que envolvem também discussão sobre preservação e memória. Há soluções tecnológicas e soluções jurídicas sobre regulamentação. É política pública baseada em pesquisa e evidência", disse a professora Luciana Peixoto Santa Rita, que participou do projeto pela UFAL.
Perfis de utilização
Para começar a navegar, o usuário precisa de uma conta ativa no sistema de login único do governo federal, o Gov.br. A plataforma tem duas formas de navegação:
Perfil Cidadão: qualquer pessoa pode acessar de forma individual e gratuita a filmes, séries e documentários organizados por gêneros, formatos e categorias, além de criar uma lista de favoritos.
Perfil Direcionado: criado especialmente para exibições coletivas e sem fins comerciais em salas de aula, cineclubes, pontos de cultura, bibliotecas e museus de todo o país.
Numa primeira fase, a plataforma funciona diretamente no navegador de computadores (com opção de transmissão para Smart TVs). Os aplicativos para celulares (Android e iOS) serão disponibilizados em um prazo de 30 dias.
Parcerias
Durante o evento, também foi assinado um Acordo de Cooperação Técnica (ACT) entre o Ministério da Cultura (MinC) e a TV Brasil, emissora pública da Empresa Brasil de Comunicação (EBC) para expandir a oferta, a circulação de conteúdos e a integração das políticas públicas para o audiovisual brasileiro.
A Tela Brasil foi desenvolvida com tecnologia brasileira, pelo Ministério da Cultura (MinC) com o apoio da Universidade Federal de Alagoas (UFAL).
Agência Brasil
“O consumidor está mais cauteloso, mas principalmente os bancos”, diz diretor da Fenabrave-RN
Mesmo diante de um cenário
econômico global e nacional repleto de complexidades, o mercado automotivo do
Rio Grande do Norte surpreende em 2026 com um crescimento robusto, acumulando
uma alta superior a 20% em comparação ao mesmo período do ano passado. O avanço
do setor no estado, impulsionado pela explosão no segmento de motocicletas e
pela chegada de novas montadoras estrangeiras, redesenha as estratégias de
vendas, financiamento e infraestrutura local.
Em entrevista à TRIBUNA DO
NORTE, Arnon César Ramos e Silva, presidente do Sincodiv-RN (Sindicato dos
Concessionários e Distribuidores de Veículos) e diretor-geral regional da
Fenabrave-RN (Federação Nacional da Distribuição de Veículos Automotores) analisou
a sustentabilidade desse crescimento, as mudanças no comportamento do
consumidor potiguar e os desafios operacionais que se desenham para o restante
do ano, incluindo debates sobre crédito, transição para elétricos e fim da
escala 6x1.
O mercado automotivo do Rio Grande do Norte acumula crescimento de mais de 20% em 2026 na comparação com o mesmo período de 2025. Quais fatores explicam esse avanço do setor mesmo diante de um cenário econômico ainda desafiador?
O segmento de automóvel vem encontrando um crescimento nacionalmente. Por mais
que a gente venha passando por um momento econômico desafiador, a concessão de
crédito sempre foi o motivo que ‘puxa’ o setor do automóvel e hoje ainda
estamos com um momento favorável de crédito. O consumidor continua tomando
crédito e adquirindo seu veículo. A chegada de novos entrantes no mercado, que
são os carros chineses com a tecnologia híbrida e elétrica, tem feito com que
as pessoas que não estavam pensando em trocar de carro agora despertem a curiosidade
ou achem interessante partir para essa nova tecnologia.
Os dados mostram que motocicletas representam mais de 60% do mercado estadual. O que explica essa força das motos atualmente?
Moto é o mercado mais pujante e que enfrenta o maior crescimento atualmente.
Nós não tínhamos mototáxi como no interior, mas hoje nós temos MotoUber, um dos
fatores que têm maior incremento. A questão de delivery tem crescido muito e a
questão econômica. Por mais que o mercado do automóvel venha crescendo, nós
temos uma situação econômica complicada.
A taxa de juros elevada impede um crescimento ainda mais expressivo do setor em 2026?
Temos visto um aumento na quantidade de veículos pagos à vista. Pessoas que em
algum momento tinham a opção de manter uma reserva e compraram o veículo
financiado, então ele tinha um custo pequeno e preferia ter sua reserva e ter
aquele comprometimento. É preciso ter um compromisso, uma parcela para ter uma
espécie de poupança. Outra modalidade que tem crescido e a gente tem visto é o
consórcio, pois o consórcio não tem juros, tem taxa de administração e ela é
fixa; na hora que se tem uma alta de juros, a diferença no custo do consórcio e
do financiamento fica bem distante.
O alto nível de endividamento das famílias brasileiras também repercute no setor automotivo?
O consumidor está mais cauteloso, mas principalmente os bancos. O setor
bancário está com a régua um pouco mais alta, tendo um pouco mais de exigência
na hora de conceder crédito. Com o aumento da inadimplência e do endividamento,
o banco consegue, dentro de suas métricas, enxergar até onde uma família pode
se endividar sem que isso vá comprometer lá na frente. Tivemos, anos atrás, um
expansionismo dos bancos com parcelamentos em até 72 meses, sem entrada, e isso
lá na frente se mostrou um problema. Com o aumento da inadimplência e do
endividamento, os bancos começam a ficar mais exigentes na aprovação de
crédito, exigindo uma entrada maior e prazo menor para o financiamento. Na hora
que o banco faz isso, ocorre uma maior retração.
O mercado brasileiro vive uma forte expansão dos veículos elétricos e híbridos. Como as concessionárias do RN estão aproveitando esse momento?
Quem está chegando com muita força e dando o ‘boom’ nesse segmento é a
indústria chinesa. Ninguém hoje sai de casa pensando em comprar um veículo
acima de cem mil reais e não leva em conta um veículo chinês. Quem está no
mercado sabe e pesquisa. O comprador pode até não comprar, mas vai levar em
conta a possibilidade de adquirir um veículo híbrido ou elétrico. O mercado tem
aproveitado; vários grupos do nosso Estado têm investido na chegada de marcas.
Praticamente todas as marcas que existem no Brasil estão presentes no nosso
mercado, e as que não estão, irão chegar.
Esse crescimento também é sentido aqui no RN?
Os híbridos de maior porte têm se destacado. Entre os carros elétricos,
destacam-se os carros urbanos. O que a gente vê no mercado é a venda do veículo
maior sendo o carro híbrido, enquanto os carros puramente elétricos têm um
número maior de venda como carro urbano, que é aquele segundo carro da casa,
que não é usado para viajar; é o carro da esposa, do filho, aquele carro que se
usa no dia a dia.
Os gargalos para o avanço dos carros elétricos no RN são a infraestrutura de recarga e a assistência técnica especializada?
Para o veículo elétrico, a infraestrutura de carregamento é o maior gargalo,
não só aqui, mas eu diria que no mundo inteiro. No Brasil, isso se acentua. O
nosso país tem essa dificuldade em relação a quem vai fazer esse investimento
em infraestrutura. A maioria das pessoas que compram o carro elétrico, compram
para o uso urbano. Na cidade você não vai ter problemas; em casa, você vai ter
onde carregar, não vai ter problema. Uma coisa que tem feito muita gente buscar
o elétrico — e que para a gente é uma vantagem que temos aqui — é a energia
solar, o que torna o custo de carregamento muito baixo. O carro elétrico não é
de graça: você coloca na tomada e ele vai consumir. A questão é que, se
precisarem fazer uma viagem, terão que se programar e, em alguns casos, ter
paradas muito longas. Já existem alguns postos de recarga, mas muito poucos.
Este ainda é o principal gargalo, por isso há muitos híbridos se destacando. Os
modelos maiores, em sua maioria, são modelos híbridos.
Como uma eventual mudança no mercado de trabalho, como o fim da escala 6x1, poderia impactar as concessionárias?
É um tema complexo. O custo de operação das empresas irá aumentar, mas ele não
será igual para todos os segmentos. Vai ter impactos diferentes em cada setor.
Alguns setores hoje trabalham com a escala 5x2, como a construção civil,
fábricas… O principal não é a escala 6x1 ou 5x2, são as quantidades de horas.
Se a gente baixa a escala para 5x2 e continua com a carga de 44 horas semanais,
tem uma realidade, mas na hora que se baixa a escala e diminui a quantidade de
horas, é outra realidade. O setor de concessionárias, eu diria que tem como se
adaptar, porque há vários negócios dentro de um só. É a venda de um carro novo,
o setor de serviços, a revisão e o setor de funilaria. Cada segmento terá seu
impacto e terá sua acomodação de acordo com o que favoreça o profissional e a
empresa. As pessoas vão aprender — caso aconteça —, haverá uma acomodação e
cada setor vai entender de uma forma diferente. Mas vai haver uma perda para a
empresa e, consecutivamente, um aumento de custos que poderá, ou não, ser
repassado para o consumidor.
A chegada de novas marcas, especialmente as chinesas, tornou o mercado automotivo brasileiro mais competitivo?
Se você tem novos entrantes e novos participantes, as concessionárias vão ter
que criar situações para reter o seu cliente. Cada vez mais a prestação de
serviço e a fidelização do cliente são importantes. E para o cliente, para o
consumidor, isso é maravilhoso, porque na hora que você tem mais empresas
participando do mercado, você tem mais concorrência e, naturalmente, vai ter
mais oportunidades, mais ofertas — seja de preço, seja de qualidade, seja de
tecnologia. É natural que se tenha mais opções e aí as marcas cada vez mais vão
procurar melhorar em algum aspecto a vida do consumidor. Então, cada marca,
dentro da sua atuação, vai tentar segurar o seu consumidor, ou seja, através de
qualidade, tecnologia, marcas de esportivos ou descontos. Enfim, o consumidor
só tende a se beneficiar dessa concorrência.
Qual a projeção para o desempenho do mercado automotivo local para o restante do ano?
Nós temos um ano que já era esperado, esse 2026 de que todo mundo fala. Um ano
difícil, porque os eventos atrapalham muito o nosso segmento. Então, nós temos
uma Copa do Mundo para começar. Quando você tem o jogo durante o dia, o
consumidor — diferente de bares ou lojas de roupas, onde a pessoa compra uma
camisa da seleção, coisas desse tipo —, o setor de automóveis não é beneficiado
com o evento da Copa. É um desafio para nós. Mas a gente vê um ano difícil.
Embora os números estejam aí, a coisa vem acontecendo, vem crescendo. A gente
imagina que o ano vai ser de crescimento, mas os desafios consistem em passar
por estes momentos. O automóvel vive muito disso em períodos cíclicos de meses.
QUEM
Arnon César Ramos e Silva é
empresário, administrador e dirigente sindical com forte atuação e trajetória
consolidada no setor automotivo do Rio Grande do Norte. Vindo de uma família
empreendedora, iniciou sua trajetória profissional ainda jovem, aos 17 anos.
Graduou-se em Administração e, ao longo de mais de duas décadas de carreira,
assumiu funções gerenciais até alcançar o cargo de diretor-geral do Grupo
Dunas. Exerce atualmente o seu segundo mandato como presidente do Sincodiv-RN e
diretor-geral regional da Fenabrave-RN.
Bruna Torres/Repórter
Tribuna do Norte
Prazo para MEI entregar declaração anual termina neste domingo; confira como fazer
Foto: Alex Régis
Os Microempreendedores
Individuais (MEIs) têm até este domingo (31) para enviar a Declaração Anual
Simplificada do Microempreendedor Individual (DASN-Simei), referente ao
faturamento de 2025. O envio é obrigatório para todos os empresários que tenham
sido optantes pelo Simei em qualquer período do ano passado, mesmo nos casos em
que não houve faturamento.
A declaração deve ser feita pelo Portal do Empreendedor ou pelo App MEI. No documento, o microempreendedor deve informar a receita bruta obtida ao longo de 2025, incluindo vendas de mercadorias e prestação de serviços, além de indicar se houve contratação de empregado no período. A legislação permite que o MEI tenha, no máximo, um funcionário.
A DASN-Simei é uma das
obrigações anuais do microempreendedor e serve para comprovar que a empresa
permanece dentro das regras do regime. Em 2025, o limite de faturamento anual
do MEI foi de R$ 81 mil, ou valor proporcional ao período de atividade no caso
de empresas abertas ao longo do ano.
Mesmo quem não teve
movimentação financeira precisa entregar a declaração. Nesses casos, os campos
referentes às receitas brutas, vendas ou serviços devem ser preenchidos com R$
0,00. A Receita Federal orienta que os microempreendedores façam o envio dentro
do prazo para evitar encargos e manter a regularidade do CNPJ.
Como acessar?
Para preencher a declaração
pelo Portal do Empreendedor, o MEI deve acessar a área “Já sou
MEI”, escolher a opção “Declaração Anual de Faturamento” e informar o CNPJ. Em
seguida, deve selecionar o ano a ser declarado e preencher os valores recebidos
em 2025. Após a conferência do resumo dos tributos pagos no período, basta
transmitir a declaração e guardar o recibo.
O envio fora do prazo gera
multa de 2% ao mês de atraso, limitada a 20% do valor total dos tributos
declarados, ou multa mínima de R$ 50. A cobrança é emitida automaticamente após
a transmissão da declaração em atraso. O não cumprimento das obrigações também
pode deixar o CNPJ irregular e, em casos de inadimplência prolongada das
contribuições mensais, levar ao cancelamento definitivo do registro.
Caso o MEI tenha ultrapassado
o limite de faturamento, será necessário avaliar o valor excedente. Se o
faturamento ficar até 20% acima do limite anual, ou seja, até R$ 97.200, o
empreendedor deverá migrar para a condição de microempresa no ano seguinte. Se
ultrapassar esse percentual, o desenquadramento pode ser retroativo ao início
do ano em que o limite foi excedido, com cobrança de tributos, multas e juros.
Errei na declaração. E agora?
Se houver erro no
preenchimento, a declaração pode ser retificada. Para isso, o microempreendedor
deve acessar novamente o sistema, selecionar o ano-exercício a ser corrigido e
escolher a opção de declaração retificadora. Depois de alterar as informações,
é necessário transmitir novamente o documento e salvar o novo recibo.
Tribuna do Norte
Do hobby ao negócio: mercado de games ganha espaço no RN
Potiguares começam a transformar o que antes era visto apenas como hobby em profissão - Foto: Magnus Nascimento/TN
Quando entrou na Arena das
Dunas para ver um campeonato de Free Fire, Pablo Roberto tinha apenas 15 anos e
nenhuma pretensão profissional. Morador do bairro Bom Pastor, zona Oeste de
Natal, ele havia ido ao evento como espectador. No fim da programação, porém,
uma competição foi aberta para o público presente. Pablo participou, venceu a
partida e chamou a atenção de uma das equipes que disputavam o torneio.
Hoje, aos 19 anos, conhecido
como Peter, ele vive como jogador profissional de Free Fire. Desde os 17 anos
mora em São Paulo, onde atua por uma das principais organizações de esportes
eletrônicos do País e disputa a Liga Brasileira da modalidade. “Comecei a jogar
só por brincadeira, com a galera da rua e da escola. Mas sempre me saía melhor
que meus amigos. Depois do campeonato na Arena que comecei a levar a sério”,
conta.
Peter é um dos principais jogadores
de Free Fire do País - Foto: Reprodução
Os resultados vieram rápido.
Em seu primeiro ano como profissional, Peter conquistou vaga para o Mundial de
Free Fire disputado no Rio de Janeiro. No ano seguinte, voltou a se classificar
e disputou a competição internacional na Arábia Saudita. Agora, busca uma nova
classificação para a edição que acontecerá na França. “Além de você estar
vivendo do que gosta, você tem a oportunidade de mudar de vida. Eu consegui ir
para a Arábia. Nunca passou pela minha cabeça isso”, afirma.
Se os games levaram Peter dos
campeonatos locais aos mundiais de Free Fire, eles abriram um caminho diferente
para Eugênio Filho. Em vez das competições, foi na criação de conteúdo que o
potiguar encontrou uma profissão. Atualmente, o jovem de São Paulo do Potengi
vive da produção de vídeos sobre Valorant e integra uma geração que transformou
o videogame em trabalho.
Aos 28 anos, Eugênio, que
virou “EuJegue” nas redes, vive da produção de conteúdo sobre Valorant, um dos
jogos mais competitivos da atualidade. Entre TikTok, Instagram, YouTube e
Twitch, ele acumula milhares de seguidores, mantém parcerias com grandes marcas
e participa regularmente de eventos nacionais e internacionais. Além disso, o
potiguar tornou-se parceiro da própria Riot, desenvolvedora do jogo.
Eugênio participa de eventos e
campeonatos como produtor de conteúdo de Valorant - Foto: Reprodução
“Parecia um sonho muito
distante, ganhar dinheiro jogando videogame, ainda mais no interior do RN.
Quando surgiu esse sonho, aqui mal tinha internet, não conseguia nem ver vídeo
direito no YouTube. Mesmo sendo algo muito improvável, eu sentia que o sonho
permanecia ali, e foi assim durante muito tempo”, conta o criador de conteúdo.
Eugênio começou a construir o
sonho quando estava em Natal, onde se formou em design gráfico e trabalhou como
atendente de telemarketing. Ele voltou para a cidade natal em 2021 e resolveu
investir em um computador melhor para tentar produzir conteúdo de forma mais
séria. “Decidi arriscar. Era pandemia, as pessoas passaram a ficar em casa.
Comecei a estudar o mercado, as lives faziam muito sucesso, mas eu gostava mais
de fazer vídeos curtos”.
O crescimento começou depois
que um vídeo publicado no TikTok ultrapassou 300 mil visualizações. Aos poucos,
vieram os contratos com marcas, o aumento do público e o reconhecimento dentro
da comunidade de Valorant. A virada mais simbólica aconteceu quando recebeu um
convite da Riot Games para participar de um evento em Paris. “Foi uma
experiência que não teria se não fosse pelo jogo”, acrescenta.
Games movimentam nova economia
As trajetórias de Peter e
Eugênio ajudam a ilustrar um movimento de crescimento dos games e dos esportes
eletrônicos como uma nova frente da economia criativa potiguar. O segmento, que
inclui campeonatos, eventos, produção de conteúdo, desenvolvimento de jogos e
iniciativas de capacitação, atrai jovens do Estado, que começam a transformar o
hobby em profissão, renda e oportunidade de negócio.
Alguns indicadores ajudam a
ilustrar o crescimento do setor. Em janeiro deste ano, a empresa potiguar
Digicom inaugurou, com o Sebrae-RN, o primeiro Hub de Games e e-Sports do
Nordeste, espaço que funciona como um centro de treinamento em Natal e já reúne
cerca de 150 jogadores ativos em diferentes modalidades.
Em 2024, o RN passou a contar
com uma legislação específica para os esportes eletrônicos. Em paralelo, foi
fundada a Federação de Esportes Eletrônicos do RN (FERN), que conta atualmente
com 15 times filiados atuando em jogos como Valorant, League of Legends, Free
Fire, Tekken, Brawl Stars e eFootball.
O contexto puxa iniciativas
voltadas à inovação e ao empreendedorismo criativo. Segundo Isabela Cavalcanti,
analista técnica de Negócios, Inovação e Tecnologia do Sebrae-RN, o suporte da
instituição ajuda a fortalecer e expandir projetos ligados ao setor. “A Digicom
contou com o suporte estratégico do Sebrae-RN, por meio de programas voltados à
inovação. Esses programas contribuem para que as empresas aprimorem o modelo de
negócio e para a expansão das operações”, pontua.
Em Natal, esse cenário ganhou
novos contornos nos últimos 10 anos. Eventos voltados à cultura gamer passaram
a reunir milhares de pessoas, startups surgiram no setor e projetos de formação
começaram a estruturar um ecossistema ainda recente, mas em expansão.
Participantes jogam videogame na
edição 2025 da GGCON - Foto: Bia Azevedo/Reprodução
Um dos principais exemplos é a
GGCON, festival de games, cultura geek e esportes eletrônicos criado em 2017. O
evento nasceu inicialmente como um encontro entre amigos que jogavam online e
acompanhavam animes, mas rapidamente cresceu até se tornar um dos maiores do
Nordeste. “É um dos principais eventos do segmento, atraindo mais de 50 mil
participantes”, afirma Rodrigo Machado, fundador do evento.
O evento também movimenta uma
cadeia econômica que vai além dos jogos. De acordo com Rodrigo, cerca de 30
lojistas de diferentes regiões do País participam da feira comercial da GGCON,
o que gera aproximadamente R$ 3 milhões em negócios durante o festival. “Nosso
mercado é muito amplo e consegue estar em várias frentes: eventos, criação de
conteúdo, desenvolvimento de jogos, prestação de serviços”, afirma.
Além dos campeonatos e da
produção de conteúdo, o mercado também vem criando novas oportunidades
profissionais em áreas como design, transmissão, marketing, psicologia
esportiva, desenvolvimento de software e organização de eventos. “O corpo do
trabalho é muito parecido com o do esporte tradicional”, afirma Rodrigo
Machado. “Você tem profissionais de transmissão, estrutura, gestão, arbitragem,
patrocinadores e toda uma rede trabalhando para que tudo aconteça”.
Inauguração de Hub de Games
A profissionalização do
cenário também passa pela criação de estruturas permanentes de treinamento e
capacitação. Em janeiro deste ano, Natal ganhou o primeiro Hub de Games e
e-Sports do Nordeste, criado pela Digicom com apoio do Sebrae-RN.
A empresa foi fundada em 2016
por Tábata Diniz e Renan Gomes inicialmente com foco na organização de
campeonatos amadores. Ao longo dos anos, porém, o projeto ampliou a atuação
para formação de jogadores, desenvolvimento de eventos e fortalecimento do cenário
competitivo no estado.
Tábata Diniz é CEO da Digicom e
presidente da FERN - Foto: Magnus Nascimento/TN
“A gente percebeu que existia
o campeonato, existia o menino talentoso, mas faltava continuidade. Precisava
nascer uma base, precisava ter formação, orientação e estrutura para quem
queria seguir nesse mercado”, afirma Tábata, que também preside a Federação de
Esportes Eletrônicos (FERN).
Hoje, o Hub reúne cerca de 150
jogadores de diversas modalidades. Além dos campeonatos e treinamentos, o
espaço oferece assessoria de imagem, acompanhamento psicológico, orientação
jurídica e suporte para quem deseja ingressar no mercado competitivo. “A gente
tenta mostrar que isso precisa ser encarado como profissão. O jogador só quer
jogar, mas ele também precisa aprender a se posicionar, entender redes sociais,
contratos e patrocinadores”, explica.
Segundo Tábata, o Estado já
começa a colher resultados desse processo de formação. Alguns jogadores
revelados em campeonatos escolares e circuitos locais foram contratados por
equipes profissionais nacionais e chegaram a disputar torneios internacionais.
Reconhecimento institucional
O Hub tornou-se uma
oportunidade para quem enxerga nos games uma possibilidade real de carreira. É
o caso do natalense Lucas Henrique, de 21 anos, jogador amador de Valorant. Ele
participa de campeonatos regionais e sonha em alcançar o cenário nacional competitivo
junto da própria equipe. “Esses eventos que acontecem aqui fazem crescer ainda
mais a vontade das pessoas de começarem a jogar e participar”.
Maria do Carmo, conhecida como
“Mazynha”, também vê nos games uma possibilidade de transformação profissional.
Moradora de Macaíba, ela trabalha atualmente em uma gráfica, mas deseja viver
exclusivamente do cenário competitivo. “Meu sonho é focar em algo que possa me
dar um nome, mudar minha realidade”, afirma.
Lucas Henrique quer crescer no
Estado para competir nacionalmente - Foto: Magnus Nascimento/TN
Maria sonha em trabalhar
profissionalmente na indústria dos games - Foto: Magnus Nascimento/TN
O fortalecimento desse
ecossistema também começa a ganhar reconhecimento institucional no estado. Em
2024, o Rio Grande do Norte sancionou a Lei nº 11.796, que regulamenta a
prática esportiva eletrônica e reconhece oficialmente os praticantes como
atletas. A legislação estabelece diretrizes voltadas à inclusão, socialização,
desenvolvimento intelectual e incentivo ao esporte eletrônico no Estado, além
de prever apoio a federações, ligas e entidades do setor.
Para Tábata Diniz, a
regulamentação representa um passo importante para consolidar o mercado local.
“Esse reconhecimento ajuda a abrir portas, fortalecer projetos e mostrar que os
esportes eletrônicos são também uma atividade profissional e econômica”, afirma.
Bruno Vital/Repórter
Tribuna do Norte
Medicina amplia uso do botox para tratar dores neurológicas
Quando se fala em botox, a
associação imediata de grande parte da população ainda é com procedimentos
estéticos e rejuvenescimento facial. Mas, na neurologia, a toxina botulínica
ocupa há décadas um papel muito diferente: o de ferramenta terapêutica no tratamento
de dores incapacitantes, espasmos musculares e sequelas neurológicas.
Hoje, o medicamento é
utilizado em condições como enxaqueca crônica, neuralgia do trigêmeo —
considerada uma das dores mais intensas da medicina —, distonias e
espasticidade em pacientes pós-AVC, além de casos de esclerose múltipla, lesões
medulares e paralisia cerebral.
Segundo a neurologista Cíntia
Melo, o uso médico da substância surgiu antes mesmo da popularização estética.
“Os primeiros usos clínicos modernos ocorreram justamente na neurologia e
neuro-oftalmologia, no tratamento de condições como estrabismo, blefaroespasmo
e distonias. Ou seja, o uso terapêutico precedeu a fama estética”, afirma.
Inicialmente, a toxina ficou
conhecida por bloquear sinais entre nervos e músculos, reduzindo contrações
involuntárias. Com o avanço das pesquisas, porém, descobriu-se que ela também
atua em mecanismos ligados à dor e à neuroinflamação. “Hoje sabemos que ela
interfere na liberação de substâncias relacionadas à dor, o que ampliou seu
papel no tratamento de síndromes dolorosas, como a enxaqueca crônica e alguns
casos de neuralgia do trigêmeo”, explica a médica.
Na área da dor, uma das
aplicações mais consolidadas da toxina botulínica é a enxaqueca crônica. Nesses
casos, o tratamento atua de forma preventiva, reduzindo a frequência, a
intensidade e a duração das crises. “O objetivo é diminuir não apenas os episódios
de dor, mas também o uso excessivo de analgésicos e o impacto funcional da
doença”, explica a neurologista Cíntia Melo.
Segundo a médica, o protocolo
mais utilizado prevê reaplicações em intervalos de cerca de 12 semanas. Estudos
apontam que parte significativa dos pacientes apresenta melhora progressiva ao
longo dos ciclos de tratamento. “Cerca de 50% dos pacientes podem ter redução
de pelo menos metade dos dias de cefaleia”, destaca.
Além da enxaqueca, a toxina
botulínica também vem ganhando espaço no tratamento da neuralgia do trigêmeo,
condição marcada por dores faciais intensas e recorrentes. De acordo com a
neurologista, o tratamento costuma ser indicado principalmente quando o paciente
não responde bem aos medicamentos convencionais ou apresenta efeitos colaterais
importantes.
Esse é o caso de Luiz Augusto
Melo, de 82 anos, que há mais de 25 anos alternou entre tratamentos
medicamentosos e cirúrgicos para aliviar os sintomas da neuralgia do trigêmeo
e, com as aplicações da toxina botulínica, encontrou alívio para as dores. “Já
cheguei a tomar oito e até 12 vezes a quantidade de medicação que tomo hoje, e
mesmo assim ainda sentia a dor diariamente”, conta Luiz. Atualmente, o paciente
utiliza apenas metade do comprimido da medicação indicada para o tratamento.
Ele relembra que, mesmo após
anos de medicação, chegou a realizar o procedimento cirúrgico conhecido como
balonamento para diminuir a frequência dos picos de dor. Ainda assim,
continuava sentindo dores diariamente. “Mesmo após o procedimento, ainda precisei
tomar altas doses da medicação. Logo após a primeira aplicação da toxina
botulínica, já consegui reduzir a dose”, relata.
Luiz conta que, após a segunda
aplicação da toxina, conseguiu passar semanas sem fazer uso da medicação de
controle. “Percebo que existe a vida antes e depois das minhas aplicações de
botox. Hoje vivo bem e sem sentir as dores que, por mais de uma década, me
impediram até mesmo de dormir”, afirma.
O papel da toxina na
reabilitação neurológica
Outro campo importante de
atuação da toxina botulínica na neurologia envolve os distúrbios motores,
especialmente espasticidade e espasmos musculares após lesões neurológicas.
Segundo a neurologista Cíntia Melo, o tratamento é amplamente utilizado em pacientes
com sequelas pós-AVC, traumatismo craniano, lesão medular, paralisia cerebral e
esclerose múltipla.
Nesses casos, o objetivo vai
além do relaxamento muscular. “Buscamos melhora funcional, ganho de mobilidade,
redução da dor associada, facilitação da reabilitação e aumento da
independência nas atividades diárias”, explica.
A médica destaca que, em
pacientes pós-AVC, o uso da toxina pode contribuir para atividades básicas da
rotina e melhorar o aproveitamento da fisioterapia. “Dependendo do caso, o
paciente pode apresentar melhora para caminhar, se vestir, realizar a higiene
pessoal e até aproveitar melhor as sessões de reabilitação”, afirma.
Cíntia detalha que, apesar da
associação popular com a estética, a toxina não atua apenas relaxando músculos.
“O principal efeito ocorre nas terminações nervosas, modulando a comunicação
entre nervos e músculos, ou entre nervos sensitivos envolvidos na dor”,
explica.
Neurologista Cíntia Melo diz que o
efeito clínico da substância muda conforme a doença tratada | Foto: Adriano
Abreu
Na prática, isso significa que
o tratamento consegue tanto reduzir contrações involuntárias quanto diminuir a
hiperatividade de vias relacionadas à dor. “O mecanismo básico é o mesmo, mas o
efeito clínico muda conforme a doença tratada. Nos distúrbios motores, o
principal resultado é o controle da hiperatividade muscular. Já nas síndromes
dolorosas, o foco é reduzir a ativação excessiva das vias relacionadas à dor”,
afirma.
A aplicação da toxina
botulínica é considerada um procedimento ambulatorial e minimamente invasivo.
As aplicações são feitas com agulhas finas e variam conforme a condição
tratada. “Na maioria dos casos, o paciente pode retornar à rotina no mesmo dia,
com apenas alguns cuidados simples nas primeiras horas. É uma terapia bastante
segura, mas que precisa de indicação adequada e avaliação individualizada”,
destaca a neurologista.
Acesso ao tratamento ainda
é desafio
Apesar do avanço científico e
das aplicações já consolidadas, o acesso à toxina botulínica ainda enfrenta
limitações tanto na saúde suplementar quanto na rede pública.
Segundo a neurologista Cíntia
Melo, condições como distonias, espasticidade e alguns distúrbios motores
costumam ter maior possibilidade de cobertura pelos convênios. Já tratamentos
para enxaqueca crônica e neuralgia do trigêmeo ainda enfrentam restrições
importantes. “Existe uma diferença entre aquilo que é reconhecido
cientificamente e o que está efetivamente incorporado à cobertura
assistencial”, afirma.
Além disso, a médica destaca
que, no SUS, a toxina já integra o arsenal terapêutico para algumas condições
neurológicas, especialmente espasticidade focal e sequelas pós-AVC, embora o
acesso dependa da organização dos serviços especializados.
Além das barreiras financeiras
e assistenciais, a neurologista avalia que a falta de informação ainda
dificulta o acesso de muitos pacientes. “Muitas pessoas sequer sabem que a
toxina botulínica pode ser utilizada no tratamento de doenças neurológicas. O
principal desafio talvez não seja exatamente o preconceito, mas a desinformação
sobre a amplitude dessas aplicações terapêuticas”, conclui.
Gabriela Liberato/Repórter
Tribuna do Norte
Estudantes do RN acumulam mais de R$ 1,2 bilhão em dívidas do Fies
Segundo o Ministério da
Educação (MEC), o não pagamento das parcelas do Fies compromete a
sustentabilidade do programa. Cerca de 31,6 mil contratos do Fies, firmados até
2017, estão em atraso.
O valor médio das dívidas do Fies no RN é de cerca de R$ 40 mil por beneficiário. Além disso, 72% dos devedores têm até 30 anos, e 62% dos contratos são de mulheres | Foto: Alex Régis
O acesso ao ensino superior
abriu portas para milhares de potiguares nas últimas décadas. No entanto, para
uma parcela significativa desses estudantes, a obtenção do diploma foi
acompanhada pela contratação de financiamentos estudantis que resultaram em elevados
níveis de endividamento, impondo um impacto financeiro de longo prazo. No Rio
Grande do Norte, cerca de 31,6 mil contratos do Fundo de Financiamento
Estudantil (Fies), firmados até 2017, estão em atraso, somando um saldo devedor
que ultrapassa R$ 1,2 bilhão.
Os dados mais recentes do
Ministério da Educação repassados A TRIBUNA DO NORTE reforçam a dimensão do
problema: o estoque total da dívida no Rio Grande do Norte supera R$ 1,26
bilhão, com valor médio de cerca de R$ 40 mil por beneficiário. Trata-se de um
compromisso de longo prazo que acompanha os estudantes por mais de uma década.
Criado para ampliar o acesso à
educação superior privada, o programa se consolidou como uma das principais
portas de entrada para jovens de baixa e média renda. Contudo, a dificuldade de
inserção no mercado de trabalho após o recebimento do diploma e o descompasso
entre renda e valor das parcelas têm elevado os índices de inadimplência.
Esse cenário se agrava ao
observar o perfil dos beneficiários: mais de 72% têm até 30 anos, e 62% dos
contratos são de mulheres. Ou seja: são pessoas no início da vida profissional,
com poucas oportunidades no mercado de trabalho e com renda instável.
Segundo o Ministério da
Educação (MEC), o não pagamento das parcelas do Fies compromete a
sustentabilidade do programa. “O pagamento regular constitui uma importante
fonte de receita para o Fundo”, informou a pasta. O desafio se intensifica
porque a dívida se estende por anos: em média, são 15 anos até a quitação.
Para o economista e consultor
financeiro Janduir Nóbrega, o volume bilionário de dívidas afeta diretamente a
economia local. “Se essa dívida tivesse sido quitada no tempo devido, teria
gerado circulação de recursos, emprego e consumo”, afirma.
Por sua vez, o economista
William Pereira reforça que, embora o valor seja expressivo, o impacto ocorre
de forma gradual. “Esse mais de R$ 1 bilhão não entra de uma vez na economia.
Mas, ao renegociar e começar a pagar, você passa a ter milhões circulando
mensalmente”, explica.
Ainda segundo ele, o efeito
também se distribui entre consumo e pagamento de dívidas: “Quando a pessoa
começa a quitar o débito, ela reduz gastos no dia a dia. Parte do consumo é
direcionada para o pagamento da dívida”, acrescenta.
Para Janduir Nóbrega, esse
cenário cria um efeito em cadeia: “Quem está negativado passa a ter limitações.
Isso leva a um consumo mais seletivo e restringe o acesso ao crédito”.
William complementa que o
impacto na economia varia conforme o perfil de consumo. “O efeito aparece nos
setores onde esses jovens costumam consumir”, pondera.
William Pereira: “Quando a pessoa
começa a quitar o débito, ela reduz gastos no dia a dia” | Foto: Magnus
Nascimento
Janduir Nóbrega: endividamento cria
efeito em cadeia que reflete no consumo e acesso ao crédito | Foto: Divulgação
Potiguares relatam
dificuldades de honrar as parcelas
O impacto dessas dívidas faz
parte da trajetória de muitos potiguares formados com o auxílio do Fies. É o
caso, por exemplo, da nutricionista Jéssica Nascimento, 28, que conseguiu
concluir a graduação graças ao programa, mas não conseguiu se inserir de forma
imediata no mercado de trabalho.
“Foi a oportunidade de
ingressar na faculdade”, conta, sobre o fato de ter aderido ao programa. Como
demorou para conseguir trabalho na área, Jéssica passou a acumular uma dívida
enquanto procurava uma oportunidade de emprego: “Me vi em um beco sem saída:
uma dívida alta para pouca oportunidade”, conta.
O caso dela reflete o perfil
predominante dos beneficiários: jovens ainda em fase de consolidação
profissional que precisam lidar com um financiamento de duração média de 15
anos.
O débito da nutricionaista
ultrapassava R$ 49 mil, mas foi quitado através de uma negociação: “Paguei
cerca de R$ 15 mil. Meu salário era quase todo destinado a isso”, lembra.Hoje,
sem a dívida, a realidade mudou: “consegui financiar minha casa e ter acesso a
crédito”, comemora.
Já Amanda Carolinne, 33,
formada em enfermagem também com o auxílio do Fies, vive uma situação
diferente. Ela consegue pagar o financiamento, mas reclama do peso que a dívida
representa no orçamento mensal. “Quero terminar de pagar, mas parece que não tem
fim”, declara. Com uma dívida que atualmente gira em torno de R$ 24 mil, ela
afirma: “no início ajudou muito. Hoje é um fardo”.
O volume de contratos em
atraso levanta questionamentos sobre o modelo do programa, mas o economista
William Pereira opina que o principal problema não está no Fies em si, mas sim
nas dificuldades do mercado de trabalho.
“Não é falha do programa. O
problema é o mercado de trabalho, que não gera renda suficiente para esses
jovens pagarem suas dívidas”, avalia.
O economista Janduir Nóbrega
concorda com este ponto de vista: “o mercado do RN ainda é limitado, com
salários mais baixos”, analisa
Pereira também destaca que o
contexto econômico recente do Brasil contribuiu para o cenário de endividamento
dos beneficiários do Fies. “Tivemos crise econômica, pandemia e crescimento com
salários baixos. Isso dificultou a capacidade de pagamento desses estudantes.”,
afirma.
Além disso, ele pondera que o
endividamento pode afetar decisões importantes. “Pode atrasar a saída da casa
dos pais e outros planos. Ao mesmo tempo, renegociar permite reorganizar a vida
financeira”, diz William Pereira.
Desenrola Fies abre caminho
para renegociação
Diante do cenário, o governo
federal lançou o Desenrola Fies, que permite renegociar dívidas com condições
facilitadas. A adesão pode ser feita até 31 de dezembro deste ano pelos canais
do Banco do Brasil e da Caixa Econômica Federal. As condições incluem
parcelamento e descontos que variam conforme cada perfil. De acordo com dados
repassados pelo Banco do Brasil à TRIBUNA DO NORTE, mais de 25 mil contratos já
foram renegociados no país, somando cerca de R$ 1,4 bilhão.
Para William Pereira, o
programa de renegociação de dívidas tem impacto direto na vida financeira dos
estudantes. “O Desenrola permite que o jovem saia da inadimplência e volte a
ter acesso ao crédito, reorganizando sua vida financeira”, afirma.
William aconselha que, se
possível, a melhor opção é pagar o débito à vista. “Se tiver recurso, é mais
vantajoso pagar à vista. Caso contrário, o parcelamento já é uma boa solução”.
Diferente do perfil de
estudantes que conseguiram concluir o curso, há também casos de pessoas que
interromperam a graduação, mas que mantiveram a dívida, que se arrasta por
anos. É o caso de Moab Ferreira, 32, que hoje trabalha como assessor
parlamentar: “tranquei a faculdade em 2014, mas não o Fies. A dívida continuou
correndo”, conta. Anos depois, ele descobriu o valor acumulado: cerca de R$ 27
mil. Agora, busca renegociar através do Desenrola Fies.
“Eu já fui ao banco para
negociar através do desenrola, já estou correndo atrás. Me deram um desconto
muito bom”, relatou Moab, que enxerga o programa como uma oportunidade de
conseguir se inserir novamente no mercado: “Quero quitar essa dívida e limpar meu
nome”.
Para o economista William
Pereira, histórias como esta são comuns. “Muitos jovens ficaram inadimplentes
por falta de renda ou informação. O programa ajuda a corrigir isso”, diz o
economista.
Mais do que aliviar dívidas, a
iniciativa pode recolocar esses jovens de volta ao mercado consumidor,
permitindo desde o consumo básico até os de longo prazo. Ainda assim,
especialistas alertam que a renegociação exige planejamento para evitar novos
ciclos de endividamento.
Rita Paixão/Repórter
Tribuna do Norte









