Núcleo científico da Escola
Luís Soares foi criado neste ano após prêmios em 2025 | Foto: Alex Régis
Salas de aula, biblioteca,
laboratório e espaço de convivência são alguns dos elementos que fazem parte de
uma instituição de ensino. Não é diferente na Escola Estadual Professor Luís
Soares, no bairro Dix-Sept Rosado, zona Oeste de Natal, mas por um período as
grades de proteção da unidade remetiam a um lugar totalmente diferente: o
“Carandiru”, nome do que foi o maior presídio da América Latina. O estigma
nasceu em meio a um contexto de vulnerabilidade e violência vivido anos atrás,
que quase culminou no fechamento da escola, mas que foi superado a partir da
mudança de modelo educacional e do protagonismo dos alunos.
O apelido negativo que marcava
a escola de ensino fundamental (6º ao 9º ano) ganhou força na década passada,
época em que a unidade lidava com dezenas de alunos “fora de faixa” (distorção
idade-série), além de casos de violência e episódios envolvendo armas e drogas,
conforme relatos de professores e diretores. O distanciamento dessa realidade e
a superação desse estigma começou no pós-pandemia da covid-19 e, segundo a
diretora Simone Alexandre, se fortaleceu em 2023 com a implementação do formato
em tempo integral.
Porém, o que consolidou a
transformação da Escola Luís Soares aconteceu dois anos mais tarde. Em 2025, o
colégio foi o primeiro vencedor do Prêmio Estadual de Educação Fiscal no Rio
Grande do Norte. O reconhecimento elevou a autoestima da comunidade escolar,
deu novas perspectivas aos alunos e ensejou a criação de um núcleo permanente
focado em projetos especiais e olimpíadas estudantis.
Hoje cursando o 1º ano do
ensino médio, o estudante Hilberth Lucas, 17 anos, participou da criação do
projeto vencedor “Minha Escola Depende da Nossa Cidadania”, no ano passado. A
iniciativa abordou de maneira lúdica, com auxílio de inteligência artificial,
como funciona e para que serve o pagamento de tributos na sociedade. O aluno
desenvolveu o roteiro, produziu imagens e apresentou o conteúdo à comissão do
prêmio.
"Quando eu fui com o
professor lá para apresentar, eu pude ver muitos profissionais, muitos
professores e até quem não é professor. E eu vi como funciona todo esse
processo da educação e me senti feliz. Eu senti que o que eu estava fazendo na
escola valia a pena", afirmou o jovem.

Núcleo pretende disputar
iniciativas estudantis nacionais, como olimpíadas e outros prêmios | Foto: Alex
Régis
Quem acompanhou o estudante
foi o professor de geografia, Allan Avalos. A participação no prêmio, de acordo
com o educador, veio após proposição do coordenador pedagógico da escola. A
primeira conquista abriu um horizonte que antes nem era cogitado pela comunidade
escolar. Para completar, veio a medalha na Olimpíada do Tesouro Direto de
Educação Financeira no mesmo ano.
Os prêmios em 2025 estimularam
o professor a criar, neste ano, um núcleo voltado à participação de iniciativas
estudantis. "Esse grupo é resultado dessas premiações. Não havia núcleo na
escola antes disso. A partir dos bons resultados que a gente colheu no ano
passado, este núcleo surgiu, para que a gente possa continuar essa pegada. A
ideia é transformar essa questão científica em algo mais cultural da
escola", detalhou Allan Avalos.
Embora o Prêmio Estadual de
Educação Fiscal tenha rendido recompensa financeira, revertida em investimento
na escola, a diretora Simone Alexandre destaca que o efeito promovido por essa
conquista na comunidade escolar foi o mais importante.
"A principal importância,
a gente sempre fala que nem foi ganhar o prêmio, mas é que esses meninos possam
se ver como capazes de produzir conteúdos como esse, de pensar. Porque muitas
vezes eles não se enxergam capazes", pontuou ela.
O aluno Hilberth Lucas
relembra o sentimento quando contou à família que havia ganhado o prêmio.
"Principalmente a minha mãe, quando soube que eu fui lá representar o
projeto e que conseguimos ficar em primeiro lugar, ela ficou muito orgulhosa.
Tipo assim, sair falando para a família, para a tia, para a irmã",
recorda.
O jovem é morador do bairro
Dix-Sept Rosado, assim como o perfil da maioria dos estudantes da escola. Hoje
ele estuda em um curso técnico em meio ambiente integrado ao ensino médio, diz
guardar com carinho a formação no ensino fundamental e sente que contribuiu
para a transformação da escola.
“Eu passei muitos anos naquela
escola. No primeiro ano em que ela se tornou integral, eu estava lá. E aí você
vê que a cada ano uma coisinha vai melhorando, e fazer parte de algo que vai
transformar a escola é realizador. Sinto que sempre que eu passar ali, eu vou
poder olhar para aquela escola e pensar: essa escola que me formou e eu tenho
um pedaço dela dentro de mim”, afirmou Hilberth Lucas.
Núcleo tentará bicampeonato
no Prêmio Estadual de Educação Fiscal
Na primeira edição do Prêmio
Estadual de Educação Fiscal, o projeto vencedor apresentou os personagens
animados Pedro Cidadão e Tributinho. A iniciativa se propôs a introduzir a
temática de impostos ao público infantil e tornar o assunto acessível aos futuros
contribuintes.
Seguindo os passos da turma
passada, a Escola Luís Soares se propôs mais uma vez a participar do prêmio.
Neste ano, como parte do núcleo de projetos permanentes, o material inscrito
teve coordenação estudantil da aluna do 9º ano, Alice Emília, 15 anos.

Alice Emília coordena projeto que
disputa prêmio neste ano | Foto: Alex Régis
“Antes eu não tinha ideia do
que era imposto. Tipo, eu sabia que minha avó precisava pagar aquilo, que meus
familiares pagam, mas eu não sabia o porquê, o para quê. Eu não tinha a menor
ideia. Depois que o professor Allan deu a aula, ele explicou para que serve o
imposto, que eu passei a entender mais", disse ela.
Desenvolver o conhecimento
sobre origem, aplicação e controle dos recursos públicos é imprescindível para
que, a partir daí, os alunos consigam formular propostas. Além disso, esses
também são objetivos do Programa Nacional de Educação Fiscal (PNEF), que trata
o tema como uma política pública permanente, voltada à formação de cidadãos
mais conscientes, participativos e comprometidos com o bem comum.
Nessa área, o Rio Grande do
Norte é pioneiro e instituiu o Programa Estadual de Educação Fiscal (PEF/RN) no
ano de 1997. A iniciativa foi criada para disseminar conceitos de administração
pública, função socioeconômica dos tributos e cidadania, integrando a sociedade
e o ambiente escolar.
A chefe do Departamento de
Educação Fiscal da Associação dos Auditores Fiscais do RN (Asfarn), Mara
Bezerra, explicou que a criação de um prêmio em escala estadual seguiu o
exemplo da associação nacional (Febrafite), que promove o seu há 15 anos. No
Rio Grande do Norte, a premiação é organizada pela Asfarn em conjunto com o
Sindicato dos Auditores Fiscais do RN (Sindifern).
"A educação fiscal é um
tema que vem sendo trabalhado há algum tempo, e o prêmio vem para estimular e
incentivar que as escolas, os professores, os alunos e toda a comunidade a se
envolverem com o assunto", disse Mara Bezerra, que também atua como
auditora fiscal.
Ela pontua que a primeira
edição do prêmio já serviu ao propósito de estimular a disseminação da Educação
Fiscal, com 20 escolas participantes, além de mais duas instituições. Dentre
essas, a auditora fiscal não escondeu que a produção da Escola Luís Soares
surpreendeu e é citada até hoje pela associação toda vez que o tema em questão
é Educação Fiscal.
"Eles foram muito felizes
em construir aquela história, em mostrar todos os passos. A importância da
aplicação do imposto na escola, na saúde, na estrada, na segurança. Isso de uma
forma que a criança, que a população alcança e entende", afirmou Mara
Bezerra. "Foi muito gratificante para nós, na primeira edição, ter um
vídeo com tamanha qualidade e conteúdo tão primoroso. Realmente um documento
artístico", complementou.
O resultado não só animou as
entidades do Fisco Estadual, como também a Secretaria de Estado da Educação
(SEEC), que é parceira do prêmio.
"Confesso que em relação
à educação fiscal, especificamente, eu tinha dúvida e ficava pensando: ‘Será
que trabalhar um prêmio com o tema educação fiscal de fato é motivador? Será
atrativo?’ E hoje eu não tenho mais essa dúvida. É sim. E, a partir da educação
fiscal, eu chego à conclusão de que toda temática formativa pode ser
motivadora, pedagogicamente viável e pode contribuir. E é uma prova de que
todas as instituições da sociedade, podem contribuir com a escola
pública", disse a secretária Socorro Batista.
Escola quase fechou e
mudança para tempo integral
De transformador, o desfecho
na Escola Estadual Professor Luís Soares por pouco não foi drástico.
"Houve situações em que essa escola esteve à mercê de fechar e, graças a
Deus, ela foi reativada, no sentido de motivação com a equipe nova que entrou".
A declaração é de Vanézia Luz, lotada na SEEC desde 2013 e que atua na
subcoordenadoria do Ensino Fundamental, voltada especificamente ao modelo de
tempo integral.
“Essa escola estava realmente
fadada ao fracasso”, afirmou Vanézia Luz. A implementação da educação em tempo
integral colaborou para mudar esse prognóstico. De acordo com a diretora da
escola, Simone Alexandre, o desenvolvimento de atividades extracurriculares no
contraturno, aliado à promoção da segurança alimentar de jovens em situação de
vulnerabilidade, é a maior vantagem desse modelo.
"A escola em tempo
integral faz com que os alunos fiquem menos tempo na rua, que fiquem mais tempo
na escola, mais protegidos", pontuou a diretora.
A mesma opinião é defendida
pela secretária estadual de Educação, Socorro Batista. "Eu acho que no
caso da Luís Soares um fator foi mais determinante do que os demais: a oferta
do tempo integral", disse ela.

Escola superou estigma de
"Carandiru" | Foto: Alex Régis
“É garantir que essas crianças
e adolescentes que passam o dia na escola não vão estar nas ruas, não serão
alvo da violência, das drogas, de toda essa problemática social que a gente
sabe que existe nas comunidades, principalmente nas comunidades mais carentes e
periféricas", complementou a secretária.
Assim como a Luís Soares, a
rede estadual conta com 248 escolas em tempo integral, o que equivale a 43% do
total de instituições e corresponde a mais de 34 mil alunos matriculados nessa
modalidade de ensino. A meta, de acordo com a pasta, é seguir expandindo esses
números.
A escola da zona Oeste de
Natal conta com 189 alunos do 6º ao 9º ano do ensino fundamental. Dados de 2025
do Sistema Integrado de Monitoramento e Avaliação Institucional (Simais), que
monitora a qualidade do ensino ofertado pelas escolas estaduais, apontam que a
maioria dos estudantes da unidade tem aprendizado de nível básico em diante. Em
Língua Portuguesa, 67% dos alunos avaliados estão no nível básico, 10% em
proficiente e 5% em avançado. Já em Matemática, 52% alcançaram o nível básico e
14%, o proficiente.
“A expressiva presença de
alunos nos níveis Básico e Proficiente, tanto em Língua Portuguesa quanto em
Matemática, evidencia uma base consistente de desenvolvimento das competências
essenciais para a jornada desses jovens. Além disso, a presença de estudantes
no nível Avançado em Língua Portuguesa mostra que estamos criando oportunidades
para que nossos jovens alcancem níveis cada vez mais elevados de desempenho”,
avaliou Socorro Batista.
Os obstáculos que ainda
permanecem
Apesar dos avanços, a Escola
Estadual Professor Luís Soares ainda enfrenta desafios. A diretora Simone
Alexandre destacou os obstáculos que a escola enfrenta, como a necessidade de
mais banheiros. Além disso, ela citou a importância de instalação de ar-condicionado
em todas as salas e mencionou a falta de professores para alguns componentes
curriculares. "É o que praticamente toda a escola pública enfrenta,
independente de ser em tempo integral ou não", pontuou ela.
A escola passou por obra
recentemente, com um investimento de R$ 206 mil em serviços executados entre os
anos de 2023 e 2024.

A escola está situada no bairro
Dix-Sept Rosado, na zona Oeste de Natal | Foto: Alex Régis
Escola atende alunos do Ensino
Fundamental II | Foto: Alex Régis
A secretária de Educação,
Socorro Batista, reconheceu dificuldades e relembrou desafios no começo da
gestão. "Quando nós chegamos aqui em 2019, isso é uma informação
importante: as escolas que tinham internet é porque havia cota entre os
professores para colocar. Estávamos ainda na idade da pedra lascada",
frisou.
Citou outro exemplo: "Nós
chegamos aqui e encontramos uma situação que a escola fazia rifa do balão
junino, fazia sorteios, para trocar a lâmpada, para pintar a porta. Isso é
inadmissível. Então nós criamos o Pague Predial para dar autonomia às escolas
para pequenos serviços."
Sobre a ausência de
professores, ela admite a ocorrência e cita que nem sempre é possível evitar
casos em virtude de adoecimentos, afastamento por cirurgias e licenças
gestantes, por exemplo.
No entanto, o principal
desafio apontado pela secretária é a violência. "Essa violência chega na
escola muitas vezes em forma de bullying, de racismo, de todas as formas de
preconceito, de intolerância. Então esse tem sido, na minha visão, o maior desafio
hoje e é uma problemática que inclusive tem causado situações muito tensas nas
escolas, de adoecimento dos estudantes", alertou.
Futuro promissor
Apesar dos problemas, a
direção, o corpo docente e os alunos da Escola Estadual Professor Luís Soares
já mostraram que sabem driblar os gargalos a partir da seguinte receita: escola
em tempo integral mais fortalecida, formação cidadã, incentivo ao conhecimento
científico e trabalho em equipe.

Dinheiro da primeira edição do
prêmio de Educação Fiscal foi investido em materiais para a escola | Foto: Alex
Régis
Esses quatro ingredientes
foram fundamentais para mudar o patamar de ensino e garantir um futuro mais
promissor para os estudantes da zona Oeste de Natal.
Assim, evitando que o colégio
volte a ter uma marca negativa. São os ventos da mudança em direção aos prêmios
das principais iniciativas estudantis. Como diriam Milton Nascimento e Ronaldo
Bastos, na canção “Nada Será Como Antes”, um novo tempo está apenas começando.
PH Dias/Matteus Fernandes/Repórteres
Tribuna do Norte