domingo, 31 de maio de 2026

Mossoró: lideranças lotam auditório em apoio a Pedro Filho e Ériko Jácome

A pré-candidatura de Pedro Filho a deputado federal ganhou mais um importante impulso neste sábado (30), durante um grande encontro político realizado no Hotel Vitória Palace, em Mossoró. O evento foi promovido pelo ex-vereador Lamarque Oliveira e o suplente de vereador Alyson Melo, e reuniu lideranças, amigos, apoiadores e representantes de diversos segmentos da sociedade mossoroense.

Na ocasião, Lamarque e Alyson apresentaram oficialmente Pedro Filho como pré-candidato a deputado federal, ao lado de Érico Jácome, pré-candidato a deputado estadual. O encontro foi marcado por forte participação popular e demonstrou a mobilização crescente em torno do projeto político que vem sendo construído no Oeste potiguar.

"Feliz com a receptividade e o carinho do povo de Mossoró com nossa pré-candidatura. Vamos trabalhar para que a região Oeste do Estado volte a ter representatividade na Câmara Federal e que os mossoroenses voltem a ter voz em Brasília", disse Pedro Filho. 

A expressiva presença de apoiadores evidenciou o fortalecimento da pré-candidatura de Pedro Filho em Mossoró e na região Oeste. Vereador em Assú, líder evangélico e defensor de pautas ligadas à família, à liberdade e ao fortalecimento dos municípios, Pedro Filho tem intensificado agendas pelo Rio Grande do Norte e consolidado apoios de lideranças políticas, comunitárias e religiosas.

Embrapa produz em laboratório salmão, caviar e anéis de lula veganos

Tecnologia imita sabor e nutrientes dos alimentos em impressão 3D

 

Valter Campanato/Agência Brasil

Depois de 30 meses de pesquisa, o Laboratório de Nanobiotecnologia (LNANO) da Embrapa Recursos Genéticos e Biotecnologia, com sede em Brasília, desenvolveu amostras de alimentos impressos com base vegetal, que mimetizam filé de salmão, caviar e anéis de lula.

Além de copiar as formas dos alimentos, os protótipos - feitos em impressoras 3D da Embrapa - têm gosto e características nutricionais semelhantes à comida original.

“Uma das coisas que buscamos foi avaliar o teor nutricional da carne animal em sua composição total. Atentos a três grupos principais - carboidratos, lipídeos e proteínas -, buscamos nos recursos vegetais ingredientes ou insumos que nos trazem a mesma quantidade em percentual de tecido animal”, explica a bióloga Cínthia Caetano Bonatto, pesquisadora bolsista no LNANO.

Tintas alimentícias

As amostras foram criadas com tintas alimentícias feitas a partir de proteínas vegetais, farinhas de leguminosas, óleos vegetais e de algas, nanoingredientes, corantes naturais e espessantes - usados para aumentar a viscosidade dos alimentos.

De acordo com Cínthia Bonatto, as tintas alimentícias são constituídas por ingredientes “que, em sua maioria, são os mesmos que utilizamos na culinária na nossa residência.”

Arca de Noé

Parte desses insumos foi obtida nos Bancos Ativos de Germoplasma da Embrapa, uma espécie de “arca de Noé” que coleciona em 140 acervos o material genético de milhares de plantas, microorganismos e animais.

Com o material genético do repositório da própria Embrapa, é possível elaborar alimentos de base vegetal com composição “o mais similar possível àquela encontrada nos animais”, descreve o pesquisador Luciano Paulino da Silva, que coordena projetos de impressão de alimentos.

Com essa tecnologia, os pesquisadores conseguem “fazer o enriquecimento nutricional dos produtos impressos”, comenta a biotecnóloga Gabriela Mendes da Rocha Vaz, também pesquisadora bolsista no LNANO.

Essa aplicação pode ser útil para o combate à fome e subnutrição. Em tese, a impressão de alimentos também pode evitar pesca predatória ou sofrimento no abate dos animais e ainda atender segmentos de públicos com restrições alimentares, por exemplo quem não quer comer carne.

Amostras foram criadas com tintas alimentícias. Foto: Valter Campanato/Agência Brasil

Vitrine

Os alimentos criados no LNANO já foram experimentados por pessoas, conforme liberação de comissão de ética. Segundo Luciano Paulino da Silva, o experimento está “na vitrine da Embrapa”, mas ainda não tem data para ser lançado no mercado.

A pesquisa da Embrapa foi financiada pelo Good Food Institute (GFI), uma organização global sem fins lucrativos que financia a criação de alimentos à base de plantas, com microorganismos em processo de fermentação, e a produção de carne cultivada a partir de células animais em laboratório.

A exploração comercial vai depender do modelo de negócios: alimentos criados em impressoras domésticas para preparo em restaurantes ou ainda em escala industrial.

Alimentos impressos já são comercializados na Austrália, nos Estados Unidos, em Israel e Singapura. No Brasil, pesquisadores da Universidade Estadual Paulista (Unesp) desenvolvem experimentos para a impressão de alimentos em parceria com a Escola de Medicina da Universidade Harvard, e com a Universidade de Tecnologia e Design de Singapura.

Agência Brasil

Tela Brasil: streaming público estreia com mais de 550 obras

Plataforma disponibiliza filmes nacionais clássicos e contemporâneos

Fernando Frazão/Agência Brasil

O governo lançou oficialmente neste sábado (30) a plataforma Tela Brasil, o streaming público e gratuito de audiovisual brasileiro.

A iniciativa tem o objetivo de democratizar o acesso da população à cultura brasileira, a partir da ampliação do alcance da produção nacional.

A plataforma coordenada pelo Ministério da Cultura e desenvolvido em parceria com a Universidade Federal de Alagoas vai disponibilizar filmes brasileiros sob demanda, com acesso integrado ao site Gov.br. 

No lançamento do streaming, na Cidade das Artes, na zona Oeste do Rio de Janeiro, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva destacou que a plataforma é uma ferramenta de soberania cultural para que os brasileiros conheçam a si mesmos.

“[A Tela Brasil} vai contribuir para a elevação da compreensão de um país chamado Brasil. Por que nós somos assim? Por que nós fazemos assim?"

O presidente também criticou o excesso de conteúdos estrangeiros nas telas do país, que ele considera de baixa qualidade.

“A quantidade de enlatados de má qualidade que a gente é obrigado a assistir toda noite, porque não tem outra coisa para a gente ver. O que não permite que a juventude brasileira tenha acesso à plenitude da cultura brasileira", lamentou Lula.

Rio de Janeiro (RJ), 30/05/2026 – Lançamento do Tela Brasil, na Cidade das Artes, com o presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, a ministra da Cultura, Margareth Menezes, e o ministro do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, Márcio Elias Rosa.  Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil
Rio de Janeiro (RJ), 30/05/2026 – Lançamento do Tela Brasil, na Cidade das Artes, com o presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, a ministra da Cultura, Margareth Menezes, e o ministro do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, Márcio Elias Rosa. Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil - Fernando Frazão/Agência Brasil

O presidente também chamou a atenção para o desconhecimento sobre o peso econômico e a quantidade de empregos gerados pelo setor cultural brasileiro para o desenvolvimento econômico e profissional.

“O mais importante é a gente conhecer o nosso país por dentro, conhecer a nossa cultura, a razão das coisas que fizeram a gente chegar onde nós chegamos”, disse Lula.

Por fim, o presidente fez a conexão com outras políticas públicas de sua gestão, como o recém-lançado MEC Livros, que já conta com o acervo de mais de 25 mil livros. Ele destacou que o acesso à cultura, agora, faz parte da política de habitação do governo. “Todo o conjunto habitacional que a gente entregar, nesse país, vai ter uma biblioteca para que a pessoa tenha acesso à cultura."

O projeto contou com um investimento de R$ 9 milhões entre 2024 e 2025. Segundo o governo, o valor garantiu o licenciamento de um catálogo diversificado, desenvolvimento tecnológico próprio e ferramentas completas de acessibilidade.

Histórias ainda não contadas

Presente no lançamento, a ministra da Cultura, Margareth Menezes disse que a motivação de criar a plataforma foi fazer com que o povo brasileiro tenha acesso ao direito cultural.  

“Na questão do audiovisual, nós temos um gargalo ainda muito grande na questão da distribuição. Como fazer o povo ter acesso a tudo o que se produz, às coisas que são importantes, que referenciam o nosso país?

Ela destacou que o audiovisual agrega todas as outras artes como a música, o desenho. “Todo mundo trabalha e tem essa representatividade. A nossa diversidade está no que a gente produz, só que o povo não tinha acesso.”

Rio de Janeiro (RJ), 30/05/2026 – Lançamento do Tela Brasil, na Cidade das Artes, com o presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, a ministra da Cultura, Margareth Menezes, e o ministro do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, Márcio Elias Rosa.  Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil
Rio de Janeiro (RJ), 30/05/2026 – Lançamento do Tela Brasil, na Cidade das Artes, com o presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, a ministra da Cultura, Margareth Menezes, e o ministro do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, Márcio Elias Rosa. Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil - Fernando Frazão/Agência Brasil

Em sintonia com o discurso do presidente Lula, a ministra celebrou a soberania, a miscigenação e a necessidade de resgatar o protagonismo das figuras históricas do país.

"O povo que se conhece, o povo que se vê, ele se fortalece, porque nossas histórias são lindas. Temos os povos originários, os povos africanos, os povos europeus, as pessoas que construíram esse país, as histórias que nunca foram contadas.”

Acervo da nova plataforma

O acervo inaugural une conteúdos financiados pelo Fundo Setorial do Audiovisual (FSA), obras guardadas por instituições do Sistema MinC, como a Cinemateca Brasileira, o Centro Técnico Audiovisual (CTAv), a Funarte e a Fundação Cultural Palmares.

O foco é a diversidade, englobando o cinema negro, o cinema indígena, produções dirigidas por mulheres, e temas urgentes como justiça climática e sustentabilidade.

A Tela Brasil já chega com acervo que cobre desde clássicos históricos de 1910 até produções contemporâneas, de 2025.

Ao todo, a plataforma inicia com 555 obras audiovisuais brasileiras, divididas em:

  • 267 curtas-metragens;
  • 139 longas-metragens;
  • 85 médias-metragens ou telefilmes;
  • 64 obras seriadas.

Entre elas: A Hora da Estrela, de Suzana Amaral; Xica da Silva, de Cacá Diegues; Central do Brasil, de Walter Salles; e Cidade de Deus, de Fernando Meirelles.

Deus e o Diabo na Terra do Sol (1964), de Glauber Rocha; Carandiru (2003), de Hector Babenco; e Olga (2004), de Jayme Monjardim, são outras obras de destaque.

O catálogo inicial inclui 19 títulos que já representaram o Brasil na disputa pelo Oscar ao longo da história.

Entre as categorias listadas pelo Ministério da Cultura estão obras para a infância, juventude, de artes e de brasilidade.

Na parte de diversidade cultural, entrou a categoria Africanidades, que reúne obras audiovisuais que narram trajetórias, memórias e experiências da população negra no Brasil, entrelaçando ancestralidade e contemporaneidade.

Acessibilidade é outro ponto central do projeto: todos os títulos selecionados via edital público contam com audiodescrição, legendagem descritiva e interpretação em Língua Brasileira de Sinais (Libras).

"Importante destacar que tem pesquisa no meio sobre acessibilidade. São obras com três recursos de acessibilidade, que envolvem também discussão sobre preservação e memória. Há soluções tecnológicas e soluções jurídicas sobre regulamentação. É política pública baseada em pesquisa e evidência", disse a professora Luciana Peixoto Santa Rita, que participou do projeto pela UFAL.

Rio de Janeiro (RJ), 30/05/2026 – Lançamento do Tela Brasil, na Cidade das Artes, com o presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, a ministra da Cultura, Margareth Menezes, e o ministro do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, Márcio Elias Rosa.  Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil
Rio de Janeiro (RJ), 30/05/2026 – Lançamento do Tela Brasil, na Cidade das Artes, com o presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, a ministra da Cultura, Margareth Menezes, e o ministro do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, Márcio Elias Rosa. Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil - Fernando Frazão/Agência Brasil

Perfis de utilização

Para começar a navegar, o usuário precisa de uma conta ativa no sistema de login único do governo federal, o Gov.br. A plataforma tem duas formas de navegação:

Perfil Cidadão: qualquer pessoa pode acessar de forma individual e gratuita a filmes, séries e documentários organizados por gêneros, formatos e categorias, além de criar uma lista de favoritos.

Perfil Direcionado: criado especialmente para exibições coletivas e sem fins comerciais em salas de aula, cineclubes, pontos de cultura, bibliotecas e museus de todo o país.

Numa primeira fase, a plataforma funciona diretamente no navegador de computadores (com opção de transmissão para Smart TVs). Os aplicativos para celulares (Android e iOS) serão disponibilizados em um prazo de 30 dias.

Parcerias

Durante o evento, também foi assinado um Acordo de Cooperação Técnica (ACT) entre o Ministério da Cultura (MinC) e a TV Brasil, emissora pública da Empresa Brasil de Comunicação (EBC) para expandir a oferta, a circulação de conteúdos e a integração das políticas públicas para o audiovisual brasileiro.

A Tela Brasil foi desenvolvida com tecnologia brasileira, pelo Ministério da Cultura (MinC) com o apoio da Universidade Federal de Alagoas (UFAL).

Agência Brasil

“O consumidor está mais cauteloso, mas principalmente os bancos”, diz diretor da Fenabrave-RN

Empresário e representante sindical, Arnon César afirma que o crédito continua impulsionando as vendas, mas alerta para maior rigor dos bancos na concessão de financiamentos | Foto: Alex Régis

Mesmo diante de um cenário econômico global e nacional repleto de complexidades, o mercado automotivo do Rio Grande do Norte surpreende em 2026 com um crescimento robusto, acumulando uma alta superior a 20% em comparação ao mesmo período do ano passado. O avanço do setor no estado, impulsionado pela explosão no segmento de motocicletas e pela chegada de novas montadoras estrangeiras, redesenha as estratégias de vendas, financiamento e infraestrutura local.

Em entrevista à TRIBUNA DO NORTE, Arnon César Ramos e Silva, presidente do Sincodiv-RN (Sindicato dos Concessionários e Distribuidores de Veículos) e diretor-geral regional da Fenabrave-RN (Federação Nacional da Distribuição de Veículos Automotores) analisou a sustentabilidade desse crescimento, as mudanças no comportamento do consumidor potiguar e os desafios operacionais que se desenham para o restante do ano, incluindo debates sobre crédito, transição para elétricos e fim da escala 6x1.

O mercado automotivo do Rio Grande do Norte acumula crescimento de mais de 20% em 2026 na comparação com o mesmo período de 2025. Quais fatores explicam esse avanço do setor mesmo diante de um cenário econômico ainda desafiador?

O segmento de automóvel vem encontrando um crescimento nacionalmente. Por mais que a gente venha passando por um momento econômico desafiador, a concessão de crédito sempre foi o motivo que ‘puxa’ o setor do automóvel e hoje ainda estamos com um momento favorável de crédito. O consumidor continua tomando crédito e adquirindo seu veículo. A chegada de novos entrantes no mercado, que são os carros chineses com a tecnologia híbrida e elétrica, tem feito com que as pessoas que não estavam pensando em trocar de carro agora despertem a curiosidade ou achem interessante partir para essa nova tecnologia.

Os dados mostram que motocicletas representam mais de 60% do mercado estadual. O que explica essa força das motos atualmente?

Moto é o mercado mais pujante e que enfrenta o maior crescimento atualmente. Nós não tínhamos mototáxi como no interior, mas hoje nós temos MotoUber, um dos fatores que têm maior incremento. A questão de delivery tem crescido muito e a questão econômica. Por mais que o mercado do automóvel venha crescendo, nós temos uma situação econômica complicada.

A taxa de juros elevada impede um crescimento ainda mais expressivo do setor em 2026?

Temos visto um aumento na quantidade de veículos pagos à vista. Pessoas que em algum momento tinham a opção de manter uma reserva e compraram o veículo financiado, então ele tinha um custo pequeno e preferia ter sua reserva e ter aquele comprometimento. É preciso ter um compromisso, uma parcela para ter uma espécie de poupança. Outra modalidade que tem crescido e a gente tem visto é o consórcio, pois o consórcio não tem juros, tem taxa de administração e ela é fixa; na hora que se tem uma alta de juros, a diferença no custo do consórcio e do financiamento fica bem distante.

O alto nível de endividamento das famílias brasileiras também repercute no setor automotivo?

O consumidor está mais cauteloso, mas principalmente os bancos. O setor bancário está com a régua um pouco mais alta, tendo um pouco mais de exigência na hora de conceder crédito. Com o aumento da inadimplência e do endividamento, o banco consegue, dentro de suas métricas, enxergar até onde uma família pode se endividar sem que isso vá comprometer lá na frente. Tivemos, anos atrás, um expansionismo dos bancos com parcelamentos em até 72 meses, sem entrada, e isso lá na frente se mostrou um problema. Com o aumento da inadimplência e do endividamento, os bancos começam a ficar mais exigentes na aprovação de crédito, exigindo uma entrada maior e prazo menor para o financiamento. Na hora que o banco faz isso, ocorre uma maior retração.

O mercado brasileiro vive uma forte expansão dos veículos elétricos e híbridos. Como as concessionárias do RN estão aproveitando esse momento?

Quem está chegando com muita força e dando o ‘boom’ nesse segmento é a indústria chinesa. Ninguém hoje sai de casa pensando em comprar um veículo acima de cem mil reais e não leva em conta um veículo chinês. Quem está no mercado sabe e pesquisa. O comprador pode até não comprar, mas vai levar em conta a possibilidade de adquirir um veículo híbrido ou elétrico. O mercado tem aproveitado; vários grupos do nosso Estado têm investido na chegada de marcas. Praticamente todas as marcas que existem no Brasil estão presentes no nosso mercado, e as que não estão, irão chegar.

Esse crescimento também é sentido aqui no RN?

Os híbridos de maior porte têm se destacado. Entre os carros elétricos, destacam-se os carros urbanos. O que a gente vê no mercado é a venda do veículo maior sendo o carro híbrido, enquanto os carros puramente elétricos têm um número maior de venda como carro urbano, que é aquele segundo carro da casa, que não é usado para viajar; é o carro da esposa, do filho, aquele carro que se usa no dia a dia.

Os gargalos para o avanço dos carros elétricos no RN são a infraestrutura de recarga e a assistência técnica especializada?

Para o veículo elétrico, a infraestrutura de carregamento é o maior gargalo, não só aqui, mas eu diria que no mundo inteiro. No Brasil, isso se acentua. O nosso país tem essa dificuldade em relação a quem vai fazer esse investimento em infraestrutura. A maioria das pessoas que compram o carro elétrico, compram para o uso urbano. Na cidade você não vai ter problemas; em casa, você vai ter onde carregar, não vai ter problema. Uma coisa que tem feito muita gente buscar o elétrico — e que para a gente é uma vantagem que temos aqui — é a energia solar, o que torna o custo de carregamento muito baixo. O carro elétrico não é de graça: você coloca na tomada e ele vai consumir. A questão é que, se precisarem fazer uma viagem, terão que se programar e, em alguns casos, ter paradas muito longas. Já existem alguns postos de recarga, mas muito poucos. Este ainda é o principal gargalo, por isso há muitos híbridos se destacando. Os modelos maiores, em sua maioria, são modelos híbridos.

Como uma eventual mudança no mercado de trabalho, como o fim da escala 6x1, poderia impactar as concessionárias?

É um tema complexo. O custo de operação das empresas irá aumentar, mas ele não será igual para todos os segmentos. Vai ter impactos diferentes em cada setor. Alguns setores hoje trabalham com a escala 5x2, como a construção civil, fábricas… O principal não é a escala 6x1 ou 5x2, são as quantidades de horas. Se a gente baixa a escala para 5x2 e continua com a carga de 44 horas semanais, tem uma realidade, mas na hora que se baixa a escala e diminui a quantidade de horas, é outra realidade. O setor de concessionárias, eu diria que tem como se adaptar, porque há vários negócios dentro de um só. É a venda de um carro novo, o setor de serviços, a revisão e o setor de funilaria. Cada segmento terá seu impacto e terá sua acomodação de acordo com o que favoreça o profissional e a empresa. As pessoas vão aprender — caso aconteça —, haverá uma acomodação e cada setor vai entender de uma forma diferente. Mas vai haver uma perda para a empresa e, consecutivamente, um aumento de custos que poderá, ou não, ser repassado para o consumidor.

A chegada de novas marcas, especialmente as chinesas, tornou o mercado automotivo brasileiro mais competitivo?

Se você tem novos entrantes e novos participantes, as concessionárias vão ter que criar situações para reter o seu cliente. Cada vez mais a prestação de serviço e a fidelização do cliente são importantes. E para o cliente, para o consumidor, isso é maravilhoso, porque na hora que você tem mais empresas participando do mercado, você tem mais concorrência e, naturalmente, vai ter mais oportunidades, mais ofertas — seja de preço, seja de qualidade, seja de tecnologia. É natural que se tenha mais opções e aí as marcas cada vez mais vão procurar melhorar em algum aspecto a vida do consumidor. Então, cada marca, dentro da sua atuação, vai tentar segurar o seu consumidor, ou seja, através de qualidade, tecnologia, marcas de esportivos ou descontos. Enfim, o consumidor só tende a se beneficiar dessa concorrência.

Qual a projeção para o desempenho do mercado automotivo local para o restante do ano?

Nós temos um ano que já era esperado, esse 2026 de que todo mundo fala. Um ano difícil, porque os eventos atrapalham muito o nosso segmento. Então, nós temos uma Copa do Mundo para começar. Quando você tem o jogo durante o dia, o consumidor — diferente de bares ou lojas de roupas, onde a pessoa compra uma camisa da seleção, coisas desse tipo —, o setor de automóveis não é beneficiado com o evento da Copa. É um desafio para nós. Mas a gente vê um ano difícil. Embora os números estejam aí, a coisa vem acontecendo, vem crescendo. A gente imagina que o ano vai ser de crescimento, mas os desafios consistem em passar por estes momentos. O automóvel vive muito disso em períodos cíclicos de meses.

QUEM

Arnon César Ramos e Silva é empresário, administrador e dirigente sindical com forte atuação e trajetória consolidada no setor automotivo do Rio Grande do Norte. Vindo de uma família empreendedora, iniciou sua trajetória profissional ainda jovem, aos 17 anos. Graduou-se em Administração e, ao longo de mais de duas décadas de carreira, assumiu funções gerenciais até alcançar o cargo de diretor-geral do Grupo Dunas. Exerce atualmente o seu segundo mandato como presidente do Sincodiv-RN e diretor-geral regional da Fenabrave-RN.

Bruna Torres/Repórter

Tribuna do Norte

Prazo para MEI entregar declaração anual termina neste domingo; confira como fazer

Foto: Alex Régis

Os Microempreendedores Individuais (MEIs) têm até este domingo (31) para enviar a Declaração Anual Simplificada do Microempreendedor Individual (DASN-Simei), referente ao faturamento de 2025. O envio é obrigatório para todos os empresários que tenham sido optantes pelo Simei em qualquer período do ano passado, mesmo nos casos em que não houve faturamento.

A declaração deve ser feita pelo Portal do Empreendedor ou pelo App MEI. No documento, o microempreendedor deve informar a receita bruta obtida ao longo de 2025, incluindo vendas de mercadorias e prestação de serviços, além de indicar se houve contratação de empregado no período. A legislação permite que o MEI tenha, no máximo, um funcionário.

A DASN-Simei é uma das obrigações anuais do microempreendedor e serve para comprovar que a empresa permanece dentro das regras do regime. Em 2025, o limite de faturamento anual do MEI foi de R$ 81 mil, ou valor proporcional ao período de atividade no caso de empresas abertas ao longo do ano.

Mesmo quem não teve movimentação financeira precisa entregar a declaração. Nesses casos, os campos referentes às receitas brutas, vendas ou serviços devem ser preenchidos com R$ 0,00. A Receita Federal orienta que os microempreendedores façam o envio dentro do prazo para evitar encargos e manter a regularidade do CNPJ.

Como acessar?

Para preencher a declaração pelo Portal do Empreendedor, o MEI deve acessar a área “Já sou MEI”, escolher a opção “Declaração Anual de Faturamento” e informar o CNPJ. Em seguida, deve selecionar o ano a ser declarado e preencher os valores recebidos em 2025. Após a conferência do resumo dos tributos pagos no período, basta transmitir a declaração e guardar o recibo.

O envio fora do prazo gera multa de 2% ao mês de atraso, limitada a 20% do valor total dos tributos declarados, ou multa mínima de R$ 50. A cobrança é emitida automaticamente após a transmissão da declaração em atraso. O não cumprimento das obrigações também pode deixar o CNPJ irregular e, em casos de inadimplência prolongada das contribuições mensais, levar ao cancelamento definitivo do registro.

Caso o MEI tenha ultrapassado o limite de faturamento, será necessário avaliar o valor excedente. Se o faturamento ficar até 20% acima do limite anual, ou seja, até R$ 97.200, o empreendedor deverá migrar para a condição de microempresa no ano seguinte. Se ultrapassar esse percentual, o desenquadramento pode ser retroativo ao início do ano em que o limite foi excedido, com cobrança de tributos, multas e juros.

Errei na declaração. E agora?

Se houver erro no preenchimento, a declaração pode ser retificada. Para isso, o microempreendedor deve acessar novamente o sistema, selecionar o ano-exercício a ser corrigido e escolher a opção de declaração retificadora. Depois de alterar as informações, é necessário transmitir novamente o documento e salvar o novo recibo.

Tribuna do Norte

Do hobby ao negócio: mercado de games ganha espaço no RN

Potiguares começam a transformar o que antes era visto apenas como hobby em profissão - Foto: Magnus Nascimento/TN

Quando entrou na Arena das Dunas para ver um campeonato de Free Fire, Pablo Roberto tinha apenas 15 anos e nenhuma pretensão profissional. Morador do bairro Bom Pastor, zona Oeste de Natal, ele havia ido ao evento como espectador. No fim da programação, porém, uma competição foi aberta para o público presente. Pablo participou, venceu a partida e chamou a atenção de uma das equipes que disputavam o torneio.

Hoje, aos 19 anos, conhecido como Peter, ele vive como jogador profissional de Free Fire. Desde os 17 anos mora em São Paulo, onde atua por uma das principais organizações de esportes eletrônicos do País e disputa a Liga Brasileira da modalidade. “Comecei a jogar só por brincadeira, com a galera da rua e da escola. Mas sempre me saía melhor que meus amigos. Depois do campeonato na Arena que comecei a levar a sério”, conta.

Peter é um dos principais jogadores de Free Fire do País - Foto: Reprodução

Os resultados vieram rápido. Em seu primeiro ano como profissional, Peter conquistou vaga para o Mundial de Free Fire disputado no Rio de Janeiro. No ano seguinte, voltou a se classificar e disputou a competição internacional na Arábia Saudita. Agora, busca uma nova classificação para a edição que acontecerá na França. “Além de você estar vivendo do que gosta, você tem a oportunidade de mudar de vida. Eu consegui ir para a Arábia. Nunca passou pela minha cabeça isso”, afirma.

Se os games levaram Peter dos campeonatos locais aos mundiais de Free Fire, eles abriram um caminho diferente para Eugênio Filho. Em vez das competições, foi na criação de conteúdo que o potiguar encontrou uma profissão. Atualmente, o jovem de São Paulo do Potengi vive da produção de vídeos sobre Valorant e integra uma geração que transformou o videogame em trabalho.

Aos 28 anos, Eugênio, que virou “EuJegue” nas redes, vive da produção de conteúdo sobre Valorant, um dos jogos mais competitivos da atualidade. Entre TikTok, Instagram, YouTube e Twitch, ele acumula milhares de seguidores, mantém parcerias com grandes marcas e participa regularmente de eventos nacionais e internacionais. Além disso, o potiguar tornou-se parceiro da própria Riot, desenvolvedora do jogo.

Eugênio participa de eventos e campeonatos como produtor de conteúdo de Valorant - Foto: Reprodução

“Parecia um sonho muito distante, ganhar dinheiro jogando videogame, ainda mais no interior do RN. Quando surgiu esse sonho, aqui mal tinha internet, não conseguia nem ver vídeo direito no YouTube. Mesmo sendo algo muito improvável, eu sentia que o sonho permanecia ali, e foi assim durante muito tempo”, conta o criador de conteúdo.

Eugênio começou a construir o sonho quando estava em Natal, onde se formou em design gráfico e trabalhou como atendente de telemarketing. Ele voltou para a cidade natal em 2021 e resolveu investir em um computador melhor para tentar produzir conteúdo de forma mais séria. “Decidi arriscar. Era pandemia, as pessoas passaram a ficar em casa. Comecei a estudar o mercado, as lives faziam muito sucesso, mas eu gostava mais de fazer vídeos curtos”.

O crescimento começou depois que um vídeo publicado no TikTok ultrapassou 300 mil visualizações. Aos poucos, vieram os contratos com marcas, o aumento do público e o reconhecimento dentro da comunidade de Valorant. A virada mais simbólica aconteceu quando recebeu um convite da Riot Games para participar de um evento em Paris. “Foi uma experiência que não teria se não fosse pelo jogo”, acrescenta.

Games movimentam nova economia

As trajetórias de Peter e Eugênio ajudam a ilustrar um movimento de crescimento dos games e dos esportes eletrônicos como uma nova frente da economia criativa potiguar. O segmento, que inclui campeonatos, eventos, produção de conteúdo, desenvolvimento de jogos e iniciativas de capacitação, atrai jovens do Estado, que começam a transformar o hobby em profissão, renda e oportunidade de negócio.

Alguns indicadores ajudam a ilustrar o crescimento do setor. Em janeiro deste ano, a empresa potiguar Digicom inaugurou, com o Sebrae-RN, o primeiro Hub de Games e e-Sports do Nordeste, espaço que funciona como um centro de treinamento em Natal e já reúne cerca de 150 jogadores ativos em diferentes modalidades.

Em 2024, o RN passou a contar com uma legislação específica para os esportes eletrônicos. Em paralelo, foi fundada a Federação de Esportes Eletrônicos do RN (FERN), que conta atualmente com 15 times filiados atuando em jogos como Valorant, League of Legends, Free Fire, Tekken, Brawl Stars e eFootball.

O contexto puxa iniciativas voltadas à inovação e ao empreendedorismo criativo. Segundo Isabela Cavalcanti, analista técnica de Negócios, Inovação e Tecnologia do Sebrae-RN, o suporte da instituição ajuda a fortalecer e expandir projetos ligados ao setor. “A Digicom contou com o suporte estratégico do Sebrae-RN, por meio de programas voltados à inovação. Esses programas contribuem para que as empresas aprimorem o modelo de negócio e para a expansão das operações”, pontua.

Em Natal, esse cenário ganhou novos contornos nos últimos 10 anos. Eventos voltados à cultura gamer passaram a reunir milhares de pessoas, startups surgiram no setor e projetos de formação começaram a estruturar um ecossistema ainda recente, mas em expansão.

Participantes jogam videogame na edição 2025 da GGCON - Foto: Bia Azevedo/Reprodução

Um dos principais exemplos é a GGCON, festival de games, cultura geek e esportes eletrônicos criado em 2017. O evento nasceu inicialmente como um encontro entre amigos que jogavam online e acompanhavam animes, mas rapidamente cresceu até se tornar um dos maiores do Nordeste. “É um dos principais eventos do segmento, atraindo mais de 50 mil participantes”, afirma Rodrigo Machado, fundador do evento.

O evento também movimenta uma cadeia econômica que vai além dos jogos. De acordo com Rodrigo, cerca de 30 lojistas de diferentes regiões do País participam da feira comercial da GGCON, o que gera aproximadamente R$ 3 milhões em negócios durante o festival. “Nosso mercado é muito amplo e consegue estar em várias frentes: eventos, criação de conteúdo, desenvolvimento de jogos, prestação de serviços”, afirma.

Além dos campeonatos e da produção de conteúdo, o mercado também vem criando novas oportunidades profissionais em áreas como design, transmissão, marketing, psicologia esportiva, desenvolvimento de software e organização de eventos. “O corpo do trabalho é muito parecido com o do esporte tradicional”, afirma Rodrigo Machado. “Você tem profissionais de transmissão, estrutura, gestão, arbitragem, patrocinadores e toda uma rede trabalhando para que tudo aconteça”.

Inauguração de Hub de Games

A profissionalização do cenário também passa pela criação de estruturas permanentes de treinamento e capacitação. Em janeiro deste ano, Natal ganhou o primeiro Hub de Games e e-Sports do Nordeste, criado pela Digicom com apoio do Sebrae-RN.

A empresa foi fundada em 2016 por Tábata Diniz e Renan Gomes inicialmente com foco na organização de campeonatos amadores. Ao longo dos anos, porém, o projeto ampliou a atuação para formação de jogadores, desenvolvimento de eventos e fortalecimento do cenário competitivo no estado.

Tábata Diniz é CEO da Digicom e presidente da FERN - Foto: Magnus Nascimento/TN

“A gente percebeu que existia o campeonato, existia o menino talentoso, mas faltava continuidade. Precisava nascer uma base, precisava ter formação, orientação e estrutura para quem queria seguir nesse mercado”, afirma Tábata, que também preside a Federação de Esportes Eletrônicos (FERN).

Hoje, o Hub reúne cerca de 150 jogadores de diversas modalidades. Além dos campeonatos e treinamentos, o espaço oferece assessoria de imagem, acompanhamento psicológico, orientação jurídica e suporte para quem deseja ingressar no mercado competitivo. “A gente tenta mostrar que isso precisa ser encarado como profissão. O jogador só quer jogar, mas ele também precisa aprender a se posicionar, entender redes sociais, contratos e patrocinadores”, explica.

Segundo Tábata, o Estado já começa a colher resultados desse processo de formação. Alguns jogadores revelados em campeonatos escolares e circuitos locais foram contratados por equipes profissionais nacionais e chegaram a disputar torneios internacionais.

Reconhecimento institucional

O Hub tornou-se uma oportunidade para quem enxerga nos games uma possibilidade real de carreira. É o caso do natalense Lucas Henrique, de 21 anos, jogador amador de Valorant. Ele participa de campeonatos regionais e sonha em alcançar o cenário nacional competitivo junto da própria equipe. “Esses eventos que acontecem aqui fazem crescer ainda mais a vontade das pessoas de começarem a jogar e participar”.

Maria do Carmo, conhecida como “Mazynha”, também vê nos games uma possibilidade de transformação profissional. Moradora de Macaíba, ela trabalha atualmente em uma gráfica, mas deseja viver exclusivamente do cenário competitivo. “Meu sonho é focar em algo que possa me dar um nome, mudar minha realidade”, afirma.

Lucas Henrique quer crescer no Estado para competir nacionalmente - Foto: Magnus Nascimento/TNMaria sonha em trabalhar profissionalmente na indústria dos games - Foto: Magnus Nascimento/TN

O fortalecimento desse ecossistema também começa a ganhar reconhecimento institucional no estado. Em 2024, o Rio Grande do Norte sancionou a Lei nº 11.796, que regulamenta a prática esportiva eletrônica e reconhece oficialmente os praticantes como atletas. A legislação estabelece diretrizes voltadas à inclusão, socialização, desenvolvimento intelectual e incentivo ao esporte eletrônico no Estado, além de prever apoio a federações, ligas e entidades do setor.

Para Tábata Diniz, a regulamentação representa um passo importante para consolidar o mercado local. “Esse reconhecimento ajuda a abrir portas, fortalecer projetos e mostrar que os esportes eletrônicos são também uma atividade profissional e econômica”, afirma.

Bruno Vital/Repórter

Tribuna do Norte

Medicina amplia uso do botox para tratar dores neurológicas

Aplicações podem ser feitas contra enxaqueca crônica, neuralgia do trigêmeo e espasticidade | Foto: Adriano Abreu

Quando se fala em botox, a associação imediata de grande parte da população ainda é com procedimentos estéticos e rejuvenescimento facial. Mas, na neurologia, a toxina botulínica ocupa há décadas um papel muito diferente: o de ferramenta terapêutica no tratamento de dores incapacitantes, espasmos musculares e sequelas neurológicas.

Hoje, o medicamento é utilizado em condições como enxaqueca crônica, neuralgia do trigêmeo — considerada uma das dores mais intensas da medicina —, distonias e espasticidade em pacientes pós-AVC, além de casos de esclerose múltipla, lesões medulares e paralisia cerebral.

Segundo a neurologista Cíntia Melo, o uso médico da substância surgiu antes mesmo da popularização estética. “Os primeiros usos clínicos modernos ocorreram justamente na neurologia e neuro-oftalmologia, no tratamento de condições como estrabismo, blefaroespasmo e distonias. Ou seja, o uso terapêutico precedeu a fama estética”, afirma.

Inicialmente, a toxina ficou conhecida por bloquear sinais entre nervos e músculos, reduzindo contrações involuntárias. Com o avanço das pesquisas, porém, descobriu-se que ela também atua em mecanismos ligados à dor e à neuroinflamação. “Hoje sabemos que ela interfere na liberação de substâncias relacionadas à dor, o que ampliou seu papel no tratamento de síndromes dolorosas, como a enxaqueca crônica e alguns casos de neuralgia do trigêmeo”, explica a médica.

Na área da dor, uma das aplicações mais consolidadas da toxina botulínica é a enxaqueca crônica. Nesses casos, o tratamento atua de forma preventiva, reduzindo a frequência, a intensidade e a duração das crises. “O objetivo é diminuir não apenas os episódios de dor, mas também o uso excessivo de analgésicos e o impacto funcional da doença”, explica a neurologista Cíntia Melo.

Segundo a médica, o protocolo mais utilizado prevê reaplicações em intervalos de cerca de 12 semanas. Estudos apontam que parte significativa dos pacientes apresenta melhora progressiva ao longo dos ciclos de tratamento. “Cerca de 50% dos pacientes podem ter redução de pelo menos metade dos dias de cefaleia”, destaca.

Além da enxaqueca, a toxina botulínica também vem ganhando espaço no tratamento da neuralgia do trigêmeo, condição marcada por dores faciais intensas e recorrentes. De acordo com a neurologista, o tratamento costuma ser indicado principalmente quando o paciente não responde bem aos medicamentos convencionais ou apresenta efeitos colaterais importantes.

Esse é o caso de Luiz Augusto Melo, de 82 anos, que há mais de 25 anos alternou entre tratamentos medicamentosos e cirúrgicos para aliviar os sintomas da neuralgia do trigêmeo e, com as aplicações da toxina botulínica, encontrou alívio para as dores. “Já cheguei a tomar oito e até 12 vezes a quantidade de medicação que tomo hoje, e mesmo assim ainda sentia a dor diariamente”, conta Luiz. Atualmente, o paciente utiliza apenas metade do comprimido da medicação indicada para o tratamento.

Ele relembra que, mesmo após anos de medicação, chegou a realizar o procedimento cirúrgico conhecido como balonamento para diminuir a frequência dos picos de dor. Ainda assim, continuava sentindo dores diariamente. “Mesmo após o procedimento, ainda precisei tomar altas doses da medicação. Logo após a primeira aplicação da toxina botulínica, já consegui reduzir a dose”, relata.

Luiz conta que, após a segunda aplicação da toxina, conseguiu passar semanas sem fazer uso da medicação de controle. “Percebo que existe a vida antes e depois das minhas aplicações de botox. Hoje vivo bem e sem sentir as dores que, por mais de uma década, me impediram até mesmo de dormir”, afirma.

O papel da toxina na reabilitação neurológica

Outro campo importante de atuação da toxina botulínica na neurologia envolve os distúrbios motores, especialmente espasticidade e espasmos musculares após lesões neurológicas. Segundo a neurologista Cíntia Melo, o tratamento é amplamente utilizado em pacientes com sequelas pós-AVC, traumatismo craniano, lesão medular, paralisia cerebral e esclerose múltipla.

Nesses casos, o objetivo vai além do relaxamento muscular. “Buscamos melhora funcional, ganho de mobilidade, redução da dor associada, facilitação da reabilitação e aumento da independência nas atividades diárias”, explica.

A médica destaca que, em pacientes pós-AVC, o uso da toxina pode contribuir para atividades básicas da rotina e melhorar o aproveitamento da fisioterapia. “Dependendo do caso, o paciente pode apresentar melhora para caminhar, se vestir, realizar a higiene pessoal e até aproveitar melhor as sessões de reabilitação”, afirma.

Cíntia detalha que, apesar da associação popular com a estética, a toxina não atua apenas relaxando músculos. “O principal efeito ocorre nas terminações nervosas, modulando a comunicação entre nervos e músculos, ou entre nervos sensitivos envolvidos na dor”, explica.

Neurologista Cíntia Melo diz que o efeito clínico da substância muda conforme a doença tratada | Foto: Adriano Abreu

Na prática, isso significa que o tratamento consegue tanto reduzir contrações involuntárias quanto diminuir a hiperatividade de vias relacionadas à dor. “O mecanismo básico é o mesmo, mas o efeito clínico muda conforme a doença tratada. Nos distúrbios motores, o principal resultado é o controle da hiperatividade muscular. Já nas síndromes dolorosas, o foco é reduzir a ativação excessiva das vias relacionadas à dor”, afirma.

A aplicação da toxina botulínica é considerada um procedimento ambulatorial e minimamente invasivo. As aplicações são feitas com agulhas finas e variam conforme a condição tratada. “Na maioria dos casos, o paciente pode retornar à rotina no mesmo dia, com apenas alguns cuidados simples nas primeiras horas. É uma terapia bastante segura, mas que precisa de indicação adequada e avaliação individualizada”, destaca a neurologista.

Acesso ao tratamento ainda é desafio

Apesar do avanço científico e das aplicações já consolidadas, o acesso à toxina botulínica ainda enfrenta limitações tanto na saúde suplementar quanto na rede pública.

Segundo a neurologista Cíntia Melo, condições como distonias, espasticidade e alguns distúrbios motores costumam ter maior possibilidade de cobertura pelos convênios. Já tratamentos para enxaqueca crônica e neuralgia do trigêmeo ainda enfrentam restrições importantes. “Existe uma diferença entre aquilo que é reconhecido cientificamente e o que está efetivamente incorporado à cobertura assistencial”, afirma.

Além disso, a médica destaca que, no SUS, a toxina já integra o arsenal terapêutico para algumas condições neurológicas, especialmente espasticidade focal e sequelas pós-AVC, embora o acesso dependa da organização dos serviços especializados.

Além das barreiras financeiras e assistenciais, a neurologista avalia que a falta de informação ainda dificulta o acesso de muitos pacientes. “Muitas pessoas sequer sabem que a toxina botulínica pode ser utilizada no tratamento de doenças neurológicas. O principal desafio talvez não seja exatamente o preconceito, mas a desinformação sobre a amplitude dessas aplicações terapêuticas”, conclui.

Gabriela Liberato/Repórter

Tribuna do Norte

Estudantes do RN acumulam mais de R$ 1,2 bilhão em dívidas do Fies

Segundo o Ministério da Educação (MEC), o não pagamento das parcelas do Fies compromete a sustentabilidade do programa. Cerca de 31,6 mil contratos do Fies, firmados até 2017, estão em atraso.

O valor médio das dívidas do Fies no RN é de cerca de R$ 40 mil por beneficiário. Além disso, 72% dos devedores têm até 30 anos, e 62% dos contratos são de mulheres | Foto: Alex Régis

O acesso ao ensino superior abriu portas para milhares de potiguares nas últimas décadas. No entanto, para uma parcela significativa desses estudantes, a obtenção do diploma foi acompanhada pela contratação de financiamentos estudantis que resultaram em elevados níveis de endividamento, impondo um impacto financeiro de longo prazo. No Rio Grande do Norte, cerca de 31,6 mil contratos do Fundo de Financiamento Estudantil (Fies), firmados até 2017, estão em atraso, somando um saldo devedor que ultrapassa R$ 1,2 bilhão.

Os dados mais recentes do Ministério da Educação repassados A TRIBUNA DO NORTE reforçam a dimensão do problema: o estoque total da dívida no Rio Grande do Norte supera R$ 1,26 bilhão, com valor médio de cerca de R$ 40 mil por beneficiário. Trata-se de um compromisso de longo prazo que acompanha os estudantes por mais de uma década.

Criado para ampliar o acesso à educação superior privada, o programa se consolidou como uma das principais portas de entrada para jovens de baixa e média renda. Contudo, a dificuldade de inserção no mercado de trabalho após o recebimento do diploma e o descompasso entre renda e valor das parcelas têm elevado os índices de inadimplência.

Esse cenário se agrava ao observar o perfil dos beneficiários: mais de 72% têm até 30 anos, e 62% dos contratos são de mulheres. Ou seja: são pessoas no início da vida profissional, com poucas oportunidades no mercado de trabalho e com renda instável.

Segundo o Ministério da Educação (MEC), o não pagamento das parcelas do Fies compromete a sustentabilidade do programa. “O pagamento regular constitui uma importante fonte de receita para o Fundo”, informou a pasta. O desafio se intensifica porque a dívida se estende por anos: em média, são 15 anos até a quitação.

Para o economista e consultor financeiro Janduir Nóbrega, o volume bilionário de dívidas afeta diretamente a economia local. “Se essa dívida tivesse sido quitada no tempo devido, teria gerado circulação de recursos, emprego e consumo”, afirma.

Por sua vez, o economista William Pereira reforça que, embora o valor seja expressivo, o impacto ocorre de forma gradual. “Esse mais de R$ 1 bilhão não entra de uma vez na economia. Mas, ao renegociar e começar a pagar, você passa a ter milhões circulando mensalmente”, explica.

Ainda segundo ele, o efeito também se distribui entre consumo e pagamento de dívidas: “Quando a pessoa começa a quitar o débito, ela reduz gastos no dia a dia. Parte do consumo é direcionada para o pagamento da dívida”, acrescenta.

Para Janduir Nóbrega, esse cenário cria um efeito em cadeia: “Quem está negativado passa a ter limitações. Isso leva a um consumo mais seletivo e restringe o acesso ao crédito”.

William complementa que o impacto na economia varia conforme o perfil de consumo. “O efeito aparece nos setores onde esses jovens costumam consumir”, pondera.

William Pereira: “Quando a pessoa começa a quitar o débito, ela reduz gastos no dia a dia” | Foto: Magnus NascimentoJanduir Nóbrega: endividamento cria efeito em cadeia que reflete no consumo e acesso ao crédito | Foto: Divulgação

Potiguares relatam dificuldades de honrar as parcelas

O impacto dessas dívidas faz parte da trajetória de muitos potiguares formados com o auxílio do Fies. É o caso, por exemplo, da nutricionista Jéssica Nascimento, 28, que conseguiu concluir a graduação graças ao programa, mas não conseguiu se inserir de forma imediata no mercado de trabalho.

“Foi a oportunidade de ingressar na faculdade”, conta, sobre o fato de ter aderido ao programa. Como demorou para conseguir trabalho na área, Jéssica passou a acumular uma dívida enquanto procurava uma oportunidade de emprego: “Me vi em um beco sem saída: uma dívida alta para pouca oportunidade”, conta.

O caso dela reflete o perfil predominante dos beneficiários: jovens ainda em fase de consolidação profissional que precisam lidar com um financiamento de duração média de 15 anos.

O débito da nutricionaista ultrapassava R$ 49 mil, mas foi quitado através de uma negociação: “Paguei cerca de R$ 15 mil. Meu salário era quase todo destinado a isso”, lembra.Hoje, sem a dívida, a realidade mudou: “consegui financiar minha casa e ter acesso a crédito”, comemora.

Já Amanda Carolinne, 33, formada em enfermagem também com o auxílio do Fies, vive uma situação diferente. Ela consegue pagar o financiamento, mas reclama do peso que a dívida representa no orçamento mensal. “Quero terminar de pagar, mas parece que não tem fim”, declara. Com uma dívida que atualmente gira em torno de R$ 24 mil, ela afirma: “no início ajudou muito. Hoje é um fardo”.

O volume de contratos em atraso levanta questionamentos sobre o modelo do programa, mas o economista William Pereira opina que o principal problema não está no Fies em si, mas sim nas dificuldades do mercado de trabalho.

“Não é falha do programa. O problema é o mercado de trabalho, que não gera renda suficiente para esses jovens pagarem suas dívidas”, avalia.

O economista Janduir Nóbrega concorda com este ponto de vista: “o mercado do RN ainda é limitado, com salários mais baixos”, analisa

Pereira também destaca que o contexto econômico recente do Brasil contribuiu para o cenário de endividamento dos beneficiários do Fies. “Tivemos crise econômica, pandemia e crescimento com salários baixos. Isso dificultou a capacidade de pagamento desses estudantes.”, afirma.

Além disso, ele pondera que o endividamento pode afetar decisões importantes. “Pode atrasar a saída da casa dos pais e outros planos. Ao mesmo tempo, renegociar permite reorganizar a vida financeira”, diz William Pereira.

Desenrola Fies abre caminho para renegociação

Diante do cenário, o governo federal lançou o Desenrola Fies, que permite renegociar dívidas com condições facilitadas. A adesão pode ser feita até 31 de dezembro deste ano pelos canais do Banco do Brasil e da Caixa Econômica Federal. As condições incluem parcelamento e descontos que variam conforme cada perfil. De acordo com dados repassados pelo Banco do Brasil à TRIBUNA DO NORTE, mais de 25 mil contratos já foram renegociados no país, somando cerca de R$ 1,4 bilhão.

Para William Pereira, o programa de renegociação de dívidas tem impacto direto na vida financeira dos estudantes. “O Desenrola permite que o jovem saia da inadimplência e volte a ter acesso ao crédito, reorganizando sua vida financeira”, afirma.

William aconselha que, se possível, a melhor opção é pagar o débito à vista. “Se tiver recurso, é mais vantajoso pagar à vista. Caso contrário, o parcelamento já é uma boa solução”.

Diferente do perfil de estudantes que conseguiram concluir o curso, há também casos de pessoas que interromperam a graduação, mas que mantiveram a dívida, que se arrasta por anos. É o caso de Moab Ferreira, 32, que hoje trabalha como assessor parlamentar: “tranquei a faculdade em 2014, mas não o Fies. A dívida continuou correndo”, conta. Anos depois, ele descobriu o valor acumulado: cerca de R$ 27 mil. Agora, busca renegociar através do Desenrola Fies.

“Eu já fui ao banco para negociar através do desenrola, já estou correndo atrás. Me deram um desconto muito bom”, relatou Moab, que enxerga o programa como uma oportunidade de conseguir se inserir novamente no mercado: “Quero quitar essa dívida e limpar meu nome”.

Para o economista William Pereira, histórias como esta são comuns. “Muitos jovens ficaram inadimplentes por falta de renda ou informação. O programa ajuda a corrigir isso”, diz o economista.

Mais do que aliviar dívidas, a iniciativa pode recolocar esses jovens de volta ao mercado consumidor, permitindo desde o consumo básico até os de longo prazo. Ainda assim, especialistas alertam que a renegociação exige planejamento para evitar novos ciclos de endividamento.

Rita Paixão/Repórter

Tribuna do Norte