Sem água e sem energia, o imóvel tombado pelo patrimônio histórico estadual virou alvo fácil para saques e vandalismo. Foto: Léia Ventura
Uma audiência marcada para o
dia 13 de julho com representantes do Gabinete Civil, SEMJIDH, Secretaria de
Infraestrutura e Procuradoria-Geral do Estado e do Ministério Público do RN
pode decidir pela extinção da Casa da Estudante, instituição que durante anos
acolheu mulheres do interior que vinha à capital estudar. Sem receber ninguém
desde 2021 - quando o prédio localizado na rua Junqueira Aires ficou sem água e
energia – a Casa da Estudante corre o risco de nunca voltar a funcionar.
O prédio que por décadas foi o porto seguro e a promessa de um futuro melhor
para inúmeras meninas vindas do interior do Rio Grande do Norte em busca de
estudo na capital hoje é um local marcado pelo abandono e pela depredação, com
lixo, vidros quebrados e materiais de higiene pessoal na escadaria de sua
entrada principal.
Sem água e sem energia desde 2021, o imóvel tombado pelo patrimônio histórico
estadual virou alvo fácil para saques e vandalismo. Fios, portas, torneiras e
até os pertences deixados para trás pelas últimas seis moradoras foram levados.
Um procedimento foi aberto pelo MPRN em 2011 para fiscalizar a Casa da
Estudante, entidade sem fins lucrativos voltada ao acolhimento de estudantes do
interior do RN. Já naquela época, laudos apontavam infiltrações, problemas
elétricos, cupins e graves deficiências estruturais.
Nesse mesmo ano, após o corte de energia, o imóvel sofreu invasões e saques,
nos quais foram furtados fios, medidores e torneiras, o que fez com que as
últimas moradoras deixassem o local. Em vistoria realizada em 2022, o MP
encontrou um cenário de destruição, com telhados danificados, redes elétrica e
hidráulica roubadas e o prédio lacrado pela Polícia Civil.
O autônomo Eriberto Félix mora perto do prédio da Casa da Estudante e viu de
perto o seu abandono. Apesar de o imóvel estar fechado e sem moradoras no
local, ainda é recorrente a presença de jovens mulheres que, vez ou outra,
passam pela Casa da Estudante em busca de mais informações sobre o espaço.
“As meninas do interior às vezes ainda procuram ‘saber mais’ quando passam por
aqui. Uma vez, quatro estudantes de Caicó perguntaram sobre a Casa, pensando
que ainda funcionava aqui, e eu disse que não tinha ninguém”, revela.
Conhecido na localidade como “Jamaica”, Eriberto viu de perto o drama das
estudantes que, após ficarem sem água e energia, tiveram que enfrentar
episódios de insegurança e furtos recorrentes. Depois disso, ele foi
responsável por supervisionar o local de modo informal, recebendo ajuda com
cestas básicas e quantias em dinheiro como forma de auxílio e gratificação por
seu trabalho.
“Eu vinha só olhar porque ‘era’ tudo escuro aí. Olhava lá atrás e botava um
cadeado que elas compraram para o portão de ferro. Levaram tudo aí de dentro,
ficaram só as paredes”, afirma.
Importância histórica
De acordo com o professor e historiador Luciano Capistrano, o prédio em si é um
patrimônio que tem uma legislação que o preserva e, com isso, mudar sua função
é cabível; no entanto, a mudança em seu aspecto arquitetônico, a depender da
finalidade, é preocupante por se tratar da característica de uma época.
“Pensar um espaço que desse vida, desse voz, num tempo presente, nos dias
atuais, para esse segmento da sociedade tão importante que são as mulheres, que
são as estudantes, que são as jovens. E aí você teria, assim, uma função que
teria um elo, digamos, de ligação com a sua essência”.
Para além disso, Luciano Capistrano reforça que, nesta perspectiva, é
necessário pensar também sobre a valorização da Cidade Alta e de seus espaços
urbanos e históricos. “O Centro Histórico de Natal precisa de vida, de
movimento, precisa que esses espaços sejam ocupados para criar uma mobilidade
que traga mais vida”.
Para o professor, a utilização do prédio para uma instituição pública que
tivesse relação com mulheres, estudantes e com a juventude seria mais
contemplativa à criação original da Casa da Estudante.
“E essa memória urbana, é importante que seja preservada. E, para isso, é
interessante o diálogo com os historiadores, com arquitetos, o diálogo com
especialistas nessa questão monumental, da arquitetura, do patrimônio histórico
para se ter um uso e não uma mudança das suas características do ponto de vista
da arquitetura e da história”, finaliza.
Procurado pela Tribuna do Norte, até o fechamento da edição, o Governo do RN
não respondeu aos questionamentos.
Tribuna do Norte










