O caso do potiguar não é
isolado: o RN registrou a maior alta do Nordeste, entre janeiro e julho de
2025, na negociação de dívidas, com aumento de 22%. Outro dado chama a atenção:
pessoas como Fernando, da chamada Geração Z, entre 18 e 25 anos, foram os principais
responsáveis por impulsionar a alta do Estado: aumento de 64% em relação ao
mesmo período de 2024. Os dados são da Serasa Experian, que publicou pesquisa
nesta semana sobre a regularização financeira em todo o Brasil.
“Minha ideia era, assim que
voltasse da viagem, achar um emprego e equilibrar as contas. Só que o mercado
de trabalho está difícil e não foi isso que ocorreu. Por isso precisei
renegociar, porque já tinha aumentado um pouco a dívida, já que eu fiquei um tempo
sem pagar”, aponta. “Eu aprendi a lição para não contar com o ovo dentro da
galinha, digamos assim, porque se eu estou fazendo esse tipo de coisa e fico
desempregado e não tenho direito a seguro desemprego, eu não posso contar com
isso. Pra mim, se eu for usar o cartão de crédito, é o equivalente a 30% da
renda mensal. Isso, mesmo se eu ficar desempregado, dá para pagar”, comenta.
O cenário do RN no crescimento
das negociações de dívidas entre os jovens foi um dos mais positivos do Brasil,
que também registrou crescimento de 49% na quantidade de pessoas que negociaram
pela plataforma Serasa Limpa Nome. No perfil das dívidas, os débitos com
cartões de crédito e bancos são responsáveis por 32% de toda a inadimplência no
RN, seguidos dos financiamentos, com 26%.
“Hoje temos uma facilidade e
conhecimento de saúde financeira muito superior ao que tínhamos 10 anos atrás.
Hoje entra-se no Tiktok, Kwai, Instagram e encontra-se diversos influenciadores
que te inspiram a ter esse controle das contas, quanto se ganha, quanto se
gasta. Essa democratização da informação da saúde financeira se demostrou bem
clara nessa pesquisa em que fizemos com várias gerações, mas com a Geração Z
destoando de todas. Esse conhecimento, há alguns anos, era difícil de ser
atingido, precisava de cursos, livros, mas não era tão simples de se pegar em
qualquer lugar”, afirma Lucas Tosati, especialista da Serasa em educação
financeira.
A situação que Fernando Cabral
passou no final de 2024 e no primeiro trimestre deste ano não foi nova para
ele, mas deixou lições importantes. Anos antes, ele havia contraído uma dívida,
também de cartão de crédito, que precisou ser negociada junto a plataformas do
Serasa. Atualmente, Fernando trabalha como assistente virtual e conta que
modificou completamente sua relação com o dinheiro. Ele espera pagar suas
dívidas o quanto antes.
Assim como Fernando, o
potiguar Mário Filipe, de 24 anos, também se viu numa situação financeiramente
delicada em 2025. A questão dele, no entanto, guarda relação com o período em
que esteve na faculdade, quando recorreu a empréstimos e cheques especiais
fornecidos por bancos. Após isso, ficou com dificuldade de acesso a crédito,
tendo se regularizado somente há dois anos.
“Sobre negociar dívidas, teve
uma recentemente que eu fiz no cartão de crédito justamente porque seria melhor
não pagar juros. Na minha cabeça, eu pegaria o cartão, passaria numa máquina e
teria acesso ao dinheiro. Os juros que eu recebia, seriam pequenos. Às vezes
faltava dinheiro para pagar duas contas e eu passava elas duas no cartão e
dividia sem juros. Só que juntei tantas coisas que no primeiro mês veio uma
parcela de R$ 200 e no segundo subiu para R$ 800. Não consegui pagar, parcelei
a despesa, mas tive meu cartão cancelado”, relembra Mário Filipe, que é
servidor público.
Geração Z tem traçado
objetivos
A pesquisa da Serasa ouviu
2.923 participantes de 18 a 29 anos em todo o país. De acordo com o estudo,
59,3% dos jovens nordestinos já são os principais responsáveis por seus gastos
mensais, e 35,6% ajudam nas contas de casa. Entre os objetivos com o dinheiro,
os principais são comprar um bem como casa ou carro (46,8%), investir (32,6%) e
pagar as contas básicas (31,7%).
“Quando analisamos o
comportamento dessa geração, conseguimos perceber que estamos formando uma
geração muito responsável”, explica Lucas Tosati, especialista da Serasa em
educação financeira. “O dado que mais me chamou atenção foi os objetivos que a
Geração Z já vem construindo, demonstrando um crescimento em entender que a
saúde financeira é um ponto importante. Percebemos que 46% deles querem comprar
casa ou carro. Quando pensamos em saúde financeira, ter um planejamento, meta,
estabelecer para onde vamos no futuro, é um dos primeiros passos a se tomar”,
aponta.
Segundo o economista e
integrante do Conselho Regional de Economia do Rio Grande do Norte
(Corecon-RN), Helder Cavalcanti, o aumento de negociações no Nordeste se deve a
dois fatores de destaque: a intensa divulgação das rodadas de negociação e
mutirões de limpezas de nome aliada a um forte movimento de educação
financeira.
“É uma atividade que a
docência tem procurado encaixar nisso, há um incentivo claro do governo em dar
esse suporte às pessoas e algumas entidades, como o Conselho de Economia, de
dotar as pessoas do senso crítico para gerir seu dinheiro. A negociação das
dívidas é uma das etapas de uma boa gestão financeira. É estimulante, é algo
que nos deixa satisfeitos, mas é preciso observar que, após a negociação, o
consumidor precisa aprender com aquela situação e mudar o comportamento na
gestão do seu recurso financeiro. A expectativa é de que as pessoas façam isso
e que cada vez mais seja menor o índice de negociação de dívidas, que não haja
a dívida de maneira tão impactante como temos hoje em dia”, cita Helder.
Comportamento da Geração Z é
“responsável” financeiramente, diz Lucas Tosati, da Serasa | Foto: Divulgação
Inadimplência no Rio Grande do
Norte
Segundo o Mapa da
Inadimplência da Serasa de julho, o Rio Grande do Norte possui 1.277.204
consumidores com o nome negativado, o que representa 48,3% da população adulta
do estado. No Brasil, o número chega a 78,16 milhões de pessoas.
“São sete meses consecutivos
de alta, desde a última queda registrada em dezembro de 2024”, afirma Patrícia
Camillo, gerente da Serasa. “Para todas as idades, regularizar as contas é o
primeiro passo para sair do vermelho e retomar o controle da vida financeira”.
Olimpíada de Educação
Financeira conscientiza sobre uso do dinheiro
Se há quem aponte que as
dificuldades de se livrar da inadimplência, para os adultos e mais velhos, se
dá pela falta de ensinamentos no passado sobre os cuidados com o dinheiro, um
projeto da UFRN tem tentado mudar essa realidade plantando sementes para o
futuro. É a Olimpíada Brasileira de Educação Financeira (OBEF), que está na sua
7ª edição em 2025 e tem 30 escolas participantes do Estado. A competição
começou em junho de 2025 (período de inscrições) e vai até fevereiro de 2026,
quando haverá a cerimônia de premiação dos vencedores.
Segundo o professor Renato
Gurgel Mota, do Departamento de Ciências Contábeis e coordenador da OBEF no RN,
o projeto surgiu na Universidade Federal da Paraíba (UFPB) e foi trazido ao RN
nos últimos anos, com participação de escolas públicas e privadas do Estado.
A ideia, segundo ele, é
proporcionar conhecimento para jovens estudantes desde cedo. A olimpíada
contempla alunos do ensino fundamental e médio, distribuídos em 5 níveis,
conforme a complexidade do tema correlato à educação financeira. Os alunos
vencedores das etapas ganham medalhas e certificados.
“A olimpíada tem o objetivo
de fomentar essa discussão sobre educação financeira lá nos anos iniciais, a
partir do 5º ano do Ensino Fundamental, então as escolas já podem inscrever os
alunos a partir desta série”, comenta.
Os números de inscritos tem
aumentado ano a ano no Brasil: em 2022 foram 52.660 participantes; em 2023 a
marca atingiu 60.675, e em 2024 foram mais de 74 mil participantes. Destes, 910
foram premiados na fase regional. No RN, foram 43 premiados, sendo 9 medalhas
de ouro, 17 de prata e 17 de bronze; na etapa nacional, foram 217 medalhas
nacionais, das quais 2 de ouro, 4 de prata e 7 de bronze no Rio Grande do
Norte.
“Ensinamos nas escolas como ganhar dinheiro, o empreendedorismo, a importância, mas esquecemos do principal, que é a gestão financeira. Quanto mais cedo começarmos a educar nossos filhos para uma boa gestão financeira, para que eles conheçam sobre finanças, melhor será a vida, até profissional, dessas pessoas, com mais estrutura. Afinal, as finanças não mexem só com a conta do banco, mas influenciam em fatores psicológicos e fisiológicos”, finaliza Renato Gurgel.
Ícaro Carvalho/Repórter
Tribuna do Norte
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