Manter o colesterol dentro dos
padrões normais é essencial, já que em níveis alterados, ele é fator de risco
para várias doenças. No caso da criançada, Iluska Medeiros, endocrinologista
pediátrica do Hospital Varela Santiago, afirma que o aumento da obesidade e dos
hábitos alimentares inadequados são os fatores que mais contribuem para a
elevação de casos de dislipidemia na infância nos últimos anos. A dislipidemia
é caracterizada por níveis altos de lipídios, ou seja, gorduras no sangue.
Os fatores de risco para o
colesterol alto entre crianças e adolescentes se dividem entre os
comportamentais e os genéticos, segundo Iluska. Relacionados aos hábitos
cotidianos estão a alimentação inadequada com dieta rica em ultraprocessados
(frituras, fast food, refrigerantes, doces) e baixo consumo de frutas, verduras
e fibras; sedentarismo e excesso de peso (sobrepeso e obesidade).
Já os casos genéticos estão
relacionados, principalmente, à hipercolesterolemia familiar. “É uma condição
hereditária em que a criança produz mais colesterol, independente da dieta.
Nesses casos, o risco cardiovascular é elevado e o diagnóstico precoce é
fundamental, sendo necessário em muitos casos, tratamento medicamentoso”,
explica. O colesterol alto de causa familiar é mais grave porque começa na
infância e pode causar infarto precoce.
Os sinais de alerta para o
colesterol alto em crianças não são tão fáceis de identificar. “Na maioria das
vezes, o colesterol alto é assintomático na infância. Em casos mais graves,
podem surgir alterações na pele que chamamos de xantomas, um acúmulo de gordura
na pele e tendões”, explica a pediatra. No mais, crianças com excesso de peso
devem despertar naturalmente a atenção sobre esse assunto.
Há uma orientação de triagem
universal para que a criança faça exame de colesterol pela primeira vez.
Segundo Iluska, todas as crianças antes da puberdade, entre 9 e 11 anos, já
podem fazer o exame. Podem fazer mais cedo, de 2 a 8 anos de idade, se forem
obesas, com diagnóstico de diabetes, ou que tenham pais com histórico de doença
cardíaca ou colesterol alto.
“Visto que a maioria dos
pacientes são assintomáticos e só iremos descobrir a alteração após um evento
cardiovascular precoce”, completa. É preciso ressaltar que todas as pessoas
devem realizar exames de colesterol, inclusive crianças magras, pois mesmo estas
podem apresentar níveis elevados.
Alimentação
O papel da família e da escola
na prevenção ao colesterol alto entre os pequenos é essencial. A pediatra
explica que a escola é um ótimo ambiente para se discutir sobre educação
nutricional, a importância de ingerir alimentos mais saudáveis e evitar comidas
ultraprocessadas. “Em relação ao papel familiar, a criança replica hábitos,
então pais que têm uma alimentação inadequada irão influenciar as escolhas dos
filhos”, diz.
Para prevenir o aumento de
colesterol na infância, deve-se evitar o consumo excessivo de alimentos como
biscoitos recheados, bolo, chocolate, sorvete, hambúrguer, batata frita,
refrigerante, frituras e comidas ultraprocessadas em geral. Evitar também as frituras
e manter o controle do peso. A preferência na dieta deve ficar a cargo de
verduras, legumes e frutas, peixe e frango, leite e queijo branco.
Para além da alimentação,
outra questão também possui relação com o aumento de colesterol entre crianças:
o tempo de tela. “O tempo excessivo em telas está diretamente relacionado ao
sedentarismo, ganho de peso e piora do perfil lipídico”, diz Iluska, referindo-se
a televisores, videogames, celulares e iPads. “A recomendação é menos de duas
horas de tela por dia, e pelo menos 60 minutos de atividade física de moderada
a vigorosa, diariamente”, afirma.
A pediatra explica que o
tratamento medicamentoso é indicado principalmente nos casos de
hipercolesterolemia familiar, ou quando há uma elevação importante do
colesterol, e as mudanças de estilo de vida por pelo menos seis meses não são
suficientes para atenuar o quadro. “O principal medicamento utilizado é a
estatina, sendo liberada em bula a partir dos 10 anos, porém em situações
graves, devemos ponderar o uso em crianças menores”, alerta.
Colesterol precoce
A agricultora Patrícia Santos
teve que descobrir desde muito cedo sobre os cuidados que uma mãe deve ter com
uma criança de colesterol alto. A experiência com o seu Jonathan, hoje com seis
anos, começou quando ele tinha apenas nove meses de idade. “Ele teve uma crise
horrível, ficou em coma e quase dois meses internado no hospital. Foi quando
descobrimos que ele era diabético”, conta.
Após a saída do hospital, a
família passou a fazer uma série de exames de rotina, e também descobriu o
colesterol alto de Jonathan. “O colesterol é assintomático. Quando vem dar
sintomas numa criança que não é diabética, já significa que o triglicerídeo também
está alto. Nesse caso, o mais comum é o abdômen inchado. Mas o colesterol em si
não demonstra sintoma em criança”, diz.
O diabetes e o colesterol
promoveram uma adequação total na rotina alimentar da família de Patrícia. “A
mudança alimentar foi total. Ele começou a tomar insulina e fazer a dieta para
controlar o colesterol. Tivemos que cortar as gorduras saturadas, começar a se
alimentar com gorduras boas. O azeite e o abacate, que têm gorduras boas, se
tornaram bem comuns no cardápio de casa”, conta.
A agricultora admite que, em
relação a crianças e colesterol alto, o maior desafio é mesmo como manter a
alimentação regrada. “A criança vê as pessoas comendo de tudo, e ela quer
também. Mas não pode. Quando se é bem pequeno, tudo bem, ela vai aprendendo
naturalmente o que pode e o que não pode comer. Mas quando cresce, vai ficando
cada vez mais difícil manter esse controle. Em festinhas de aniversário, é um
drama…”, conclui.
Tádzio França/Repórter

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