Em entrevista à TRIBUNA DO
NORTE, Souza falou sobre os efeitos do tarifaço americano para a produção de
frutas do RN e sobre a necessidade de expansão de novos mercados consumidores
para as vendas dos produtos potiguares, ao passo em que destacou a importância
da fruticultura local para o Nordeste e o País. Confira:
O mercado mundial está se deparando com grandes desafios nas exportações diante das tarifas impostas pelos EUA a vários países do mundo, inclusive ao Brasil. Como o chamado “tarifaço” pode impactar a fruticultura de exportação brasileira e, em especial, a do Rio Grande do Norte?
O tarifaço gerou um cenário imprevisível do que pode acontecer. Na verdade, os
países nunca experimentaram uma situação como essa, onde todos foram taxados,
alguns mais, alguns menos. O que eu posso dizer é que até o momento o impacto
foi menor do que o esperado, porque os importadores dos Estados Unidos
sinalizaram positivamente, mesmo com o aumento do custo da mercadoria
brasileira. Quem paga a tarifa não é o Brasil, são os EUA. O grande problema é
que o nosso preço ficaria muito mais alto em relação aos nossos concorrentes.
No momento, por talvez esses concorrentes não terem os produtos, as frutas que
nós exportamos estão fluindo. Mas ainda estamos apreensivos para o que possa
acontecer nos próximos meses.
O RN é líder nacional na exportação de melão e tem participação crescente na manga e no mamão. Qual a importância do estado hoje no mapa da fruticultura brasileira e como ele pode ampliar esse protagonismo?
Eu diria que o Rio Grande do Norte é um estado-chave. Nossas regiões frutícolas
são críticas para o sucesso da fruticultura de exportação no Brasil, justamente
por gerar produtos de qualidade em volume elevado, que tem um impacto muito
grande no montante das exportações. O Nordeste como um todo é muito importante,
e dentro da região, nós temos uma importância significativa. A maior prova
disso é que nós estamos presentes em todas as ações que são feitas aqui no
Estado, tentando ajudar os produtores a exportar da melhor maneira possível.
A Expofruit chega a mais uma
edição como uma das maiores feiras do setor no país. Qual o peso desse evento
para os produtores locais e como ele ajuda a projetar o RN e o Brasil no
mercado internacional?
O mercado de frutas global é extremamente competitivo, assim como o nacional. A
Expofruit permite que o Rio Grande do Norte possa externar toda a sua
competitividade nessa cadeia produtiva. Nós temos aqui, não somente os
agricultores, mas uma cadeia de suprimentos – como a gente costuma falar, antes
e depois da porteira – com empresas de insumos agrícolas, e de logística, que
são fundamentais, porque a fruta é muito perecível. Fiquei extremamente
surpreso com o movimento deste ano. A feira está linda e é importante que esse
evento continue acontecendo para o RN continuar marcando a presença no cenário
frutícola brasileiro.
Foto: David Emanuel
Foto: David Emanuel
Um dos gargalos para os produtores sempre foi a logística de transporte, principalmente a aérea e a portuária. Quais avanços ainda são necessários para o RN e o Brasil se tornarem mais competitivos nesse aspecto?
A infraestrutura logística do Brasil, de uma maneira geral, tem muito o que
melhorar. E o Rio Grande do Norte não fica fora desse contexto. O porto de
Natal precisa ser revitalizado para se tornar mais moderno. Hoje os navios,
cada vez maiores, precisam de calados profundos. Então, valeria a pena o estado
reequipar o porto para que pudéssemos ser também um ponto de egresso das nossas
frutas. O mesmo vale para os aeroportos. Mas é importante lembrar que o
transporte marítimo representa 93% do volume das frutas exportadas, e o aéreo,
7%. Então, o marítimo tem um peso muito maior.
Hoje fala-se muito sobre ESG. De que forma a adoção de práticas sustentáveis e de governança pode fortalecer a imagem da fruticultura brasileira junto aos consumidores internacionais cada vez mais exigentes?
O Brasil é extremamente competitivo no agronegócio. Evidentemente que os países
ficam preocupados com uma potência como a nossa, porque eles sentem que suas
agriculturas locais podem ficar prejudicadas. E uma maneira que esses países
encontraram de criar algumas dificuldades no avanço das nossas exportações é
dizer que o Brasil não respeita os direitos dos trabalhadores, que nós
desmatamos descontroladamente, o que não é verdade. É claro que não temos um
processo perfeito, mas estamos em contínua evolução. O fato de termos uma
certificação ESG, que é internacional, validando boas práticas, mostra que o
Brasil precisa ser respeitado, porque perfeição não existe nem lá fora. A
própria Europa tem desafios. Precisamos mostrar isso de uma maneira muito clara
para não influenciar a opinião no sentido de deixar de comprar os produtos
brasileiros porque a gente está devastando tudo. Nós ainda temos um percentual
altíssimo de área preservada. Dentro da Abrafrutas, 100% dos exportadores são
certificados e participam do programa de ESG, ou seja, não existe teatro por
aqui. A prova disso é que a fruticultura brasileira é campeã mundial de adoção
de bioinsumos. E nós entramos muito forte na área de energia alternativa, como
a eólica e a fotovoltaica.
Além da Europa, que tradicionalmente compra a produção do RN, quais novos mercados a Abrafrutas tem mapeado como estratégicos para a fruticultura brasileira?
As exportações têm crescido significativamente nos nossos vizinhos da América
do Sul, onde, em um primeiro momento, achávamos erroneamente que não eram
mercados interessantes. Hoje, vemos que é o contrário: em mercados como Chile,
Peru, Colômbia, Bolívia, Equador, Argentina, Uruguai. E temos, ainda, uma
grande oportunidade no Oriente Médio, uma região em que não se produz
praticamente alimento nenhum por causa das condições desérticas. Acho que o
Brasil pode ter uma participação mais efetiva no Norte da África e,
evidentemente, nos países asiáticos, embora haja o desafio da logística. Hoje,
leva-se muito tempo para enviar um navio de frutas para a Ásia e a gente
precisa melhorar isso.
Muitos pequenos e médios produtores ainda têm dificuldade de acessar o mercado internacional. O que a Abrafrutas têm feito para democratizar essa participação? O RN também tem potencial nesse aspecto?
Nós consideramos a inclusão dos pequenos e médios produtores no ciclo virtuoso
das plantações como uma das nossas prioridades. A fruticultura, na verdade, é
uma atividade muito mais do pequeno e médio, do que do grande produtor. Por
isso mesmo, a inclusão é fundamental. Só que é algo que depende muito mais deles
do que da Abrafrutas, porque algumas regras no mercado não olham o tamanho da
propriedade. Um exemplo é escala de produção. O importador quer ter um fluxo
constante de produto. Um pequeno produtor com cinco ou 10 hectares, não
consegue prover isso sozinho. Ele tem que se organizar, se unindo em
cooperativas ou associações, porque é essa união que vai viabilizar sua entrada
no mercado de exportações de forma mais significativa.
O RN já é líder na exportação de melão para a Europa, mas existe a expectativa de acessar o mercado chinês. O desafio passa pela questão logística. O senhor acredita que esse desafio logístico pode ser superado em breve? E qual seria o impacto dessa abertura para os produtores potiguares?
O impacto seria imenso, porque a China, pelo contingente populacional que tem e
pela quantidade de melão que eles consomem nas épocas em que não produzem,
geraria uma demanda que permitiria aos produtores locais um crescimento diário,
garantindo maior robustez financeira. A questão logística tem sido trabalhada,
mas não é algo muito simples. Portanto, a gente tem que começar de algum modo,
seja com pequenos experimentos, como a questão aérea, mesmo que os ganhos aí
não sejam ideiais. É preciso gerar essa demanda, afinal, a chance de a gente
ter uma operação bastante significativa no futuro é muito grande.
O setor vem sofrendo com as mudanças climáticas. Como os produtores podem se preparar para mitigar riscos e manter a regularidade da produção? Há exemplos do RN que podem ser referência nacional?
As mudanças climáticas são um problema para o mundo inteiro. A gente pode
contribuir respeitando nossa legislação ambiental, que é uma das mais rígidas
do mundo. Além disso, iniciativas como as que nós vimos na Expofruit, como o
uso de energia fotovoltaica em packing houses, utilização de bioinsumos na
agricultura e outros, são exemplos positivos do que a fruticultura pode fazer
para ajudar nesse processo.
QUEM
Jorge Luiz de Souza é
engenheiro agrônomo com especialização em Estratégia do Agronegócio. Atuou em
vários segmentos do agro brasileiro, foi diretor de uma multinacional na área
de genética vegetal e agora é gerente de Projetos e gerente-técnico da Abrafrutas.
Tribuna do Norte
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