O agronegócio tem se
destacado no Rio Grande do Norte, principalmente na produção e exportação de
frutas como o melão. De que forma o cenário de juros elevados e as dificuldades
no crédito rural podem afetar o crescimento desse setor no estado?
Se a gente analisar o Plano
Safra, que é uma das principais políticas de direcionamento de crédito bancário
para o setor rural, tivemos o anúncio de R$ 470 bilhões no plano 23/24/25, onde
só em oito meses 52% foi aplicado. No entanto, se compararmos com o mesmo
período do ano passado, o volume de recursos ainda foi 19% menor, o que já
mostra uma dificuldade do produtor em acessar o crédito.
Com taxas de juros mais altas,
isso pode dificultar ainda mais, já que investimento é algo que você paga em
vários anos. O produtor, ao fazer um investimento em máquinas, equipamentos ou
infraestrutura, precisa diluir esse custo ao longo de anos, e juros elevados
podem inibir esses investimentos, afetando a produtividade e a rentabilidade do
negócio. A gente enxerga é que, por melhor que seja a cadeia, muitos produtores
vão pensar duas vezes antes de trabalhar investimentos em taxas mais elevadas.
Como a nova regulamentação
da União Europeia sobre desmatamento pode impor barreiras comerciais ao
agrobrasileiro e quais estratégias podem ser adotadas pelos produtores para
garantir a conformidade com essas exigências?
A lei da União Europeia, que
entrou em vigor em janeiro de 2021, diz que produtores que tiverem desmatado
áreas, mesmo legalmente, não poderão exportar para a Europa sete cadeias
produtivas, como carne, soja, madeira, cacau, óleo de palma, borracha e café. A
fruticultura, exceto pelo cacau, que não é um produto típico da região, não
está contemplada nesta lei. Portanto, as exportações de frutas potiguares para
a Europa não devem ser afetadas de imediato.
No entanto, a CNA está
trabalhando para questionar isso na Organização Mundial do Comércio (OMC),
porque ela cria uma punição para países que realmente souberam preservar e
produzir ao mesmo tempo, como é o caso do Brasil. Hoje o Brasil tem 66% da sua
vegetação nativa intacta e na Europa não deve ter menos de 5%. A gente acaba
vendo que essa lei é muito mais uma prática protecionista e não algo que
realmente visa proteger o meio ambiente.
O alto custo logístico é um
entrave à competitividade do agronegócio, especialmente no Nordeste. Quais
medidas podem ser tomadas para melhorar a infraestrutura e reduzir o custo de
escoamento da produção?
A logística é um problema no
Brasil inteiro. Tem dados que a gente usa da Confederação Nacional dos
Transportes que no Nordeste 73% das rodovias são consideradas em condições
péssimas, ruins ou regulares. No Rio Grande do Norte, esse número cai para 69%,
o que não deixa de ser um número alto. Essas estradas ruins aumentam o custo do
transporte de insumos e isso gera um custo em média de 32% a mais para o
Nordeste.
Como o rodoviário ainda é o
principal modal, investimentos em manutenção de rodovias, duplicação de trechos
e melhoria das condições de tráfego têm que ser prioridade. Além disso, o
transporte ferroviário pode melhorar a escoação da produção. É uma agenda bem
extensa que não está só centralizada na região Nordeste, mas em todo o Brasil.
A CNA lançou recentemente o
programa CNA Fiagro, com linhas de financiamento para produtores rurais. Como
isso pode beneficiar os produtores do RN?
A gente tem um trabalho de
assistência técnica que pega mais de 400 mil produtores em todo o Brasil e
sempre que a gente ouve esse produtor eles questionavam da morosidade do
crédito, da dificuldade de garantia e às vezes de ter o seu crédito negado. Então,
assim foi sancionada a Lei do Fiagro. A CNA entraria com R$ 100 milhões para
fazer um piloto e captaria mais R$ 20 milhões no mercado. Seria um fundo
pequeno de R$ 30 milhões voltado só para os produtores assistidos pela
assistência técnica do SENAR, que é onde já tem uma garantia que o produtor tem
uma orientação técnica.
Então esse Fiagro foi criado
ano passado. A gente está no primeiro ano dele. Como é um piloto, estamos ainda
com seis estados. O Rio Grande do Norte não foi contemplado, mas certamente ele
vai entrar, porque a fruticultura e a pecuária de corte e leite são uma das
cadeias que a gente mais impulsiona dentro desse projeto.
Para se ter ideia, hoje quando
o produtor pede o crédito ele só precisa ter uma CPR (Cédula de Produto Rural)
para dar garantia, que demora no máximo 20 dias e o dinheiro está na conta
dele. A taxa de juros é de 15%, o que pode parecer alta, mas, em comparação aos
custos adicionais que o produtor enfrentaria em outras linhas de crédito com
mais taxas, ela é mais vantajosa.
O dólar mais caro tem
impactado o preço dos alimentos. Como isso afeta o custo de produção e o preço
que chega à mesa do consumidor?
O dólar impacta basicamente no
custo de produção do agro brasileiro, porque a gente importa muito do que nós
temos. O fertilizante, que é o principal gasto do agricultor – em torno de 30%
do custo de produção – importamos quase 90% de tudo que nós usamos. Então,
aumentou o dólar, vai aumentar o custo de fertilizante, defensivos, semente,
material genético importado, medicamentos veterinários. Tudo isso tem um custo
muito elevado, porque vem de outros países.
A CNA publica boletins
periódicos com esses dados, orientando para cada cadeia, cada região, os
melhores momentos de comprar para tentar minimizar um pouco desses efeitos. O
SENAR faz um papel fundamental de orientação ao produtor, justamente para
tentar economizar quando necessário e investir para aumentar a produtividade
nos momentos corretos.
A insegurança jurídica no
campo, com o aumento das invasões de terras, voltou a ser debatida com a
discussão sobre o marco temporal. Quais medidas podem garantir mais
estabilidade para os produtores?
A questão das invasões de
terra é algo que o setor realmente abomina. Se você quer discutir reforma
agrária, a gente senta na mesa, agora invadir terra é crime, não tem diálogo,
invasão não se discute, você tem que cumprir a lei. Só em 2023 nós tivemos 72
invasões, ano passado foi 46 e esse ano já está crescendo muito também com uma
expectativa de ser maior que no ano anterior. É algo que preocupa, que tira a
tranquilidade do produtor, que expõe as famílias, os colaboradores.
Para isso, existe uma série de
projetos de lei que nós estamos trabalhando na Frente Parlamentar da
Agropecuária, no Congresso Nacional, que vai realmente garantir o direito de
propriedade do produtor, criminalizar como atos terroristas essas invasões de
terra. A questão do Marco Temporal, que já tem uma lei aprovada, a discussão
está no Supremo hoje para que haja um comitê de conciliação entre produtores e
entidades que representam indígenas para tentar ver a melhor forma de colocar
em prática. A ideia é pensar no modelo que atende os dois lados.
Considerando a conjuntura
global e local, quais são os principais desafios e tendências para o
agronegócio brasileiro neste ano?
A questão geopolítica está bem
complicada. A gente está vendo os Estados Unidos, com a questão de tarifas
sobre os produtos de outros países. Isso pode ser tanto com a oportunidade do
Brasil ou também podemos ter o risco de termos nossos produtos tarifados que
vão para os Estados Unidos. Então, a questão internacional vai ser de suma
importância. Fora isso, tem os conflitos armados que sempre geram muita
insegurança e instabilidade no mercado internacional. Essa questão do dólar,
nesse contexto, se acentua.
No Brasil, o que preocupa é o
ajuste fiscal do governo federal, que se não for feito da maneira correta, você
vai ter uma Selic mais alta, o que vai aumentar a taxa de juros para o crédito.
Tem a questão da inflação que, em função da alta do dólar, em função dos
mercados mais preocupados, não vai reduzir no curto prazo. A população, com a
inflação mais alta, consome menos produtos básicos, então isso é negativo.
Do lado técnico, nós temos um
ano de clima mais favorável e um ano que teremos a COP30 no Brasil. Nós temos
que encarar isso como uma oportunidade de mostrar a sustentabilidade do sistema
de produção alimentar no Brasil, em como a gente é referência no mundo em
agricultura tropical eficiente e na transição energética com base no agro.
Quem
Bruno Barcelos Lucchi tem
42 anos, é graduado em Zootecnia pela Universidade Federal de Viçosa (UFV), com
pós-graduação em Produção de Ruminantes pela Escola Superior Luiz de Queiroz
(ESALQ/USP). Concluiu mestrado em Agronegócio pela UnB e MBA em Finanças pela
Fundação Instituto de Administração (FIA). Iniciou na Confederação da
Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA) em 2009 e há quase dez anos atua como
diretor técnico da entidade.
Tribuna do Norte
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