Repórter
Na contramão do chamado “fast fashion”, caracterizado por um modelo acelerado de consumo e produção de roupas, duas startups do Rio Grande do Norte mostram que o ato de vestir pode ser mais consciente e sustentável. Com aspectos diferentes, mas unidas por uma mesma cadeia de transformação, a Arara Azul Curadoria de Moda e a Orgâniccas são negócios de impacto socioambiental que têm promovido uma revolução a partir da moda. Ambas aceleradas por meio de editais do Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas do Estado (Sebrae/RN), neste ano elas completam o ciclo 2024/2025 do Startup Nordeste e seguem trabalhando por uma mudança de mentalidade dentro e fora do mercado.
Quem entra na loja da Arara Azul
Curadoria de Moda, localizada na zona Leste de Natal, se depara com um ambiente
repleto de peças escolhidas cuidadosamente: vestidos, calças, camisetas,
sapatos, entre tantas outras. Ao olhar cada produto, o que poucas pessoas sabem
é que, antes de ser um negócio de impacto socioambiental que promove moda
circular e geração de emprego e renda, a startup começou como um encontro
entre amigas.
Sylvia Furtado, juntamente com
Joana Patino, sócia da Arara Azul desde 2023 – Foto: Beatriz Azevedo/cedida
Em 2019, a idealizadora e
fundadora da empresa, a arquiteta Sylvia Furtado, que hoje toca o negócio ao
lado da sócia, Joana Patino, realizou um clube de troca de roupas em um espaço
do escritório em que trabalhava. No primeiro encontro, oito pessoas participaram,
enquanto no segundo o número saltou para 88. Na prática, as pessoas pagavam um
valor para que ela e sua primeira sócia, na época, avaliassem as roupas para o
clube. Após isso, elas estipulavam um preço em araras [moeda utilizada no
clube], para que as trocas pudessem ocorrer entre peças com custos
equivalentes.
Não demorou para que o clube se
tornasse um negócio com propósito. No mesmo escritório que sediou as trocas, a
Arara foi aberta como loja em 2020 em um espaço improvisado. Mesmo antes disso,
um incômodo atingia Sylvia e sua sócia: apenas 30% das roupas que chegavam para
elas eram aproveitadas no negócio, enquanto 70% ficavam de fora. “Então
começamos a doar esses itens para casas-abrigos, para mulheres em
situação de vulnerabilidade. Nesses últimos cinco anos, já doamos mais de 10
mil peças de roupa”, destaca.
Elaborado
pela autora com base nas informações disponíveis no guia prático Moda
Sustentável, publicado pelo Sebrae em 2024
Empolgada com o negócio, a
fundadora da Startup queria ir além e, em 2021, participou do Impacta RN, um
programa de pré-aceleração do Sebrae/RN. Foi nesse momento que ela compreendeu
que a Arara era um negócio de impacto socioambiental e que precisava ter um
modelo mais sustentável para se manter. Com o propósito de melhorar a vida de
mulheres em situação de vulnerabilidade, a startup começou a promover oficinas
de capacitação por volta de outubro de 2021 por meio do projeto Arara Social.
“O Sebrae chega e digo que vai tirando os ‘véus’, pois começamos a
entender o que era o nosso negócio em si”, conta.
Durante as oficinas, as
participantes dão vida a novos produtos por meio do reaproveitamento têxtil –
Foto: cedida
Na primeira oficina, cerca de 19
mulheres do bairro Mãe Luiza, na zona Leste de Natal, foram contempladas. “A
gente ficou quatro semanas acompanhando-as. Falamos sobre autocuidado,
empreendedorismo, reciclagem têxtil e sustentabilidade. Era com a gente mesmo,
minha sócia falava, eu falava. A Valéria Oliveira, que é assistente social e
trabalha com a gente, foi quem nos orientou, pois achávamos que era só ir lá
ensiná-las a ganhar dinheiro. No entanto, elas não queriam saber sobre
ganhar dinheiro. Era muito mais sobre uma atenção e um olhar para essas
mulheres”, comenta Sylvia.
Uma das participantes da 1ª
oficina é a artesã Nelma Lúcia, de 56 anos, que já trabalhava no ramo e
atualmente vende os produtos que reaproveita para a Arara. Para ela, a
experiência tem gerado aprendizados sobre moda circular e a possibilidade de
ver seus projetos se materializarem: “A parceria com a Arara também me
proporciona realizar sonhos, como a compra de um maquinário. Essa realização
foi por meio das peças que eu produzo”, compartilha.
A artesã Nelma Lúcia enxerga na
parceria com a Arara uma chance de aprender e gerar trasnformação – Foto:
Magnus Nascimento
Desde 2021, mais de 90 mulheres
foram capacitadas pelo projeto social, inicialmente sustentado por meio
de bazares e que hoje vêm conseguindo patrocínio para se manter. “É o que eu
digo sempre: a moda como força de transformação social e ambiental. Essa
revolução e essa mudança começa dentro do seu guarda-roupa. Se você é mulher,
tem roupa que você não usa, então traz para Arara para fazer parte desse
movimento”, aponta Sylvia.
Na parte das doações, a
idealizadora da Arara deixa claro que o cuidado é tão preciso quanto nas
qualificações: “a gente não doa por doar”. “Se vamos doar para pessoas em
situação de rua, então não vou mandar um vestido de festa, mas sim uma roupa
que agasalhe bem e seja confortável. Se a gente vai doar para mulheres em
reabilitação e que precisam voltar ao mercado de trabalho, então mandamos
roupas mais sociais”, completa.
Arara Social tem se consolidado na
medida em que a startup amplia seu público – Foto: cedida
Desde 2020, a Arara Azul
Curadoria de Moda conseguiu expandir suas doações, se firmou em uma sede fora
do escritório, participou de três editais do Sebrae/RN e ampliou o faturamento
de R$ 80 mil por ano, em 2023, para R$ 200 mil em 2024. Atualmente a empresa
conta com oito funcionários. “A gente não é apenas um brechó. Isso é mais a
fachada, pois o movimento que fazemos de transformação é muito maior”, enfatiza
Sylvia.
Sustentabilidade que começa no
cultivo
A preocupação com o meio ambiente
e o desenvolvimento social é, também, o que move a Orgâniccas. A startup,
alicerçada na agroecologia, fornece ao público peças feitas com algodão
agroecológico. Diferente do algodão comum, a matéria prima é obtida seguindo
os princípios da agroecologia, que utiliza práticas como técnicas de
conservação do solo, o controle de pragas com métodos naturais e o apoio à
agricultura familiar.
Fernanda, Talita e Bruna, as três
paulistas que fundaram no RN a Orgâniccas, uma startup que é alicerçada na
agroecologia – Foto: Luiz Macedo/cedida
Embora de origem potiguar, a
empresa surgiu a partir do trabalho de três paulistas que chegaram ao Rio
Grande do Norte há sete anos: Talita Ramos, Fernanda Covos e Bruna Monteiro
Coimbra. A estilista Fernanda Covos, idealizadora e fundadora da startup, compartilha
que tanto ela quanto suas sócias foram transferidas pela empresa para a qual
trabalhavam, a Riachuelo, para atuarem na Guararapes. Embora já tivessem
experiência em grandes magazines, foi a primeira vez que conheceram de perto o
“chão de fábrica”. “Começamos a entender mais a fundo como é, de fato essa,
cadeia produtiva”, sublinha a fundadora, que hoje mora em Tibau do Sul.
Com o início da pandemia da
covid-19, em 2020, Fernanda saiu da Guararapes e por um tempo achou que não
gostaria mais de trabalhar com moda, sobretudo pela cobrança presente nesse
mercado. Nesse período, resolveu abrir o olhar para outras possibilidades:
começou a estudar e se qualificar nas áreas de permacultura, agrofloresta e
negócios sustentáveis.
O aprendizado foi o ponto de
partida para uma descoberta que impulsionou a Orgâniccas: “Percebi que poderia
continuar fazendo roupa e não jogar todos os meus 10 anos de experiência fora,
mas de uma forma diferente, que eu estava aprendendo, e acreditava que seria
melhor”, lembra.
Inicialmente, começou trabalhando
em uma empresa voltada à criação de uma cadeia produtiva mais sustentável
a partir da prestação de consultorias para marcas, mas sentia falta do
desenvolvimento de produtos. O vazio foi substituído pelo desejo de inovar
quando o namorado da estilista estava produzindo um novo disco e ela resolveu
que faria as camisetas de divulgação. No entanto, não queria lançar as peças de
qualquer forma, mas sim com base na produção regenerativa.
Durante a idealização do projeto,
Fernanda descobriu uma alternativa viável por meio do Sebrae/RN. “Vi que o
Sebrae tinha aberto um edital de moda e turismo, em 2022, que era um edital
focado em sustentabilidade. Então falei ‘vou escrever um projeto’, que
seriam essas camisetas plantadas de maneira regenerativa, porque era um projeto
em que eu estava unindo todos os conhecimentos que eu tinha, desde estilista em
magazine até a parte de cadeias produtivas regenerativas”, compartilha.
Peças vendidas pela Orgâniccas têm
origem na agroecologia – Foto: Rafael dos Santos/cedida
A ideia da fundadora da Startup
não apenas foi selecionada, como também rendeu duas coleções de camisetas: uma
para o show do seu parceiro e outra inspirada no Seridó. Para conseguir colocar
a iniciativa em prática, diante da alta demanda de trabalho, chamou as amigas
Bruna e Talita para entrarem no projeto. Posteriormente, surgiu a ideia do nome
“Orgâniccas”, a criação do perfil da loja no Instagram e o alcance cada vez
maior do público.
“A Orgâniccas foi crescendo de
acordo com os editais que o Sebrae foi lançando. Como a gente nasceu de um
edital, até brincamos que somos Sebrae’s baby. Fomos crescendo conforme os
outros editais foram aparecendo”, comenta Fernanda. Além do primeiro certame, a
empresa participou das edições do Programa Regenera em 2023 e 2024 e atualmente
está no Startup Nordeste.
Para fazer a Orgâniccas
acontecer, a idealizadora e as sócias se desdobram em várias funções, incluindo
marketing, comunicação, desenvolvimento de produtos e planejamento financeiro.
Já a parte de produção, que inclui atividades como modelagem, corte, costura e
estamparia, são terceirizadas, mas recebem uma atenção fundamental para que
possam atuar com sustentabilidade.
Fernanda explica que atualmente a
empresa mantém parcerias – a exemplo da efetuada com o Instituto Casaca de
Couro – para conseguir obter a matéria-prima para seus produtos. Com sede
na Paraíba, a entidade atua na qualificação de agriculturas, incluindo
trabalhadores do Rio Grande do Norte, para o plantio de algodão agroecológico.
Assentamento da comunidade do Sítio
Capim Grosso, no Rio Grande do Norte, referência em plantio agroecológico e
destaque na série Fibras que Regeram, realizada pela startup –
Foto: Joel Amarante/cedida
“A gente faz questão de saber
exatamente de onde [o algodão] vem, como é produzido, conhecer as pessoas e
criar vínculos, fazer amizade. Acreditamos que isso é muito mais importante do
que qualquer selo de sustentabilidade que a empresa pode citar”, aponta a
idealizadora da startup.
“O que a gente precisa é ensinar
os nossos clientes como se produz dessa forma, o que há de diferente nessa
produção em comparação à forma extrativista para, assim, eles entenderem que ao
invés de comprar dez camisetas por ano [é melhor] comprar três, mas que vão ser
bem produzidas, ter uma qualidade melhor e durar mais”, completa
Fernanda.
Elaborado
pela autora com base em dados do guia prático Moda Sustentável, publicado pelo
Sebrae em 2024
Atualmente, elas têm alcançado
clientes que acreditam no propósito da Orgâniccas, tanto no Rio Grande do Norte
quanto em São Paulo. Se em 2023, o faturamento da empresa foi de R$ 18
mil, em 2024 esse valor aumentou para R$ 38,4 mil. Neste ano, a meta é
alcançar R$ 106 mil e continuar promovendo transformação. Visando o futuro, a
idealizadora da Orgâniccas também almeja manter uma loja física, mas no momento
tem priorizado o fortalecimento do público local através de parcerias
estratégicas, participação em feiras e divulgação ativa em eventos.
Com o apoio do Sebrae-RN, a
empresa também vai dar mais um passo importante: após ser selecionada no edital
de Economia Criativa, implantará sua primeira agrofloresta têxtil em Tibau do
Sul. “A gente quer conseguir ensinar o que a gente está aprendendo,
dividir nosso conhecimento com as pessoas”, destaca Fernanda.
Protagonismo na aceleração de
negócios
O ato de dividir conhecimento é
um dos principais reflexos do trabalho do Sebrae RN, protagonista no fomento de
startups potiguares. Eugênio Spíndola, analista de inovação da entidade,
explica que uma startup pode ser definida como uma empresa nascente que tem
como base a tecnologia e a escalabilidade, ou seja, a possibilidade de
apresentar grandes resultados a partir de uma estrutura pequena.
Eugênio Spíndola destaca que o
Sebrae/RN oferece diversos caminhos para acelerar startups potiguares – Foto:
Adriano Abreu
Para fomentar esses negócios, o
Sebrae/RN oferece editais, produtos e programas, dentre os quais está inserido
o Startup Nordeste, direcionado a projetos inovadores e startups que estão em
fase de validação, tração, crescimento ou escala. O analista explica que o
ciclo 2024/2025 da iniciativa está na última fase, na qual 60 projetos e
startups foram selecionadas.
Entre elas, estão a Arara
Curadoria de Moda e a Orgâniccas, que receberão uma bolsa de R$ 6,5 mil
mensal por seis meses, para que possam desenvolver as ideias estruturadas ao
longo do programa. Antes disso, as participantes passaram pelo processo de
estruturação da ideia, apresentação dos seus projetos e desenvolvimento do
modelo de negócio. “Todas essas etapas de capacitação e mentoria, chamamos de
aceleração. Isso porque, em um curto espaço de tempo, o projeto é acelerado”,
observa Eugênio Spíndola.
Enquanto no Startup Nordeste são
selecionados negócios dos mais diversos setores, o programa Regenera tem um
foco especial nos de impacto socioambiental. A gestora de Negócios de Impacto
do Sebrae-RN, Elisete Lopes,explica que para ser inserido nesse eixo a
iniciativa precisa ter como intenção a geração de impactos socioambientais.
“Então a gente não está falando de um negócio tradicional, que tem um braço de
uma ação social, mas sim daqueles em que a principal atividade nasce com esse
propósito de gerar impacto positivo”.
Elisete Lopes: “O Regenera surge
para dar apoio aos empreendimentos de impacto” – Foto: Magnus Nascimento
Mas, por serem um negócio, a
gestora aponta que esses projetos precisam ter um modelo estruturado tanto para
promover resultados positivos quanto para conseguir ter valor no mercado. Por
conta disso, há sete anos o Sebrae/RN atua desenvolvendo essas iniciativas a
partir do Regenera, que contempla empresas já inseridas no mercado e que
apresentam um propósito definido. Durante seis meses, os empreendimentos passam
por diagnóstico, oficinas e capacitações, além de receberem um prêmio de R$ 20
mil.
Desde a primeira edição da
iniciativa, 140 empresas foram aceleradas a partir de um investimento de R$
4,45 milhões. Na edição deste ano, com inscrições abertas até o próximo dia 8
de junho, a proposta é ampliar cada vez mais a escalabilidade dos projetos.
“O Regenera surge para dar apoio
aos empreendimentos de impacto, entendendo que a gente não pode trabalhá-los
com uma modelagem tradicional, pois apresentam uma modelagem específica e uma
lógica de mercado diferente. Então quem consome de um negócio de impacto, não
consome apenas um produto e serviço, mas também transformação positiva na
sociedade”, ressalta Elisete Lopes.
Tribuna do Norte