O evento é organizado pelo
Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), em parceria com o
governo local e apoio do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento
(Pnud).
Está prevista a participação
de mais de 100 conferencistas brasileiros e estrangeiros, que tratarão de
novos indicadores em relação ao Sul Global na “era digital”. Representantes
de pelo menos 30 países já confirmaram presença no evento. As inscrições, que
são gratuitas, estão abertas até o próximo dia 8 (Inscreva-se aqui) .
Neste mês em que o IBGE
completou 89 anos, o presidente do instituto, Marcio Pochmann, entende que será
uma possibilidade de troca de experiências que deve interessar a estudantes de
diferentes áreas e níveis de formação.
Em entrevista à Agência
Brasil, Pochmann destacou que existem desafios importantes que países em
desenvolvimento enfrentam em relação à soberania dos dados. Confira abaixo
a entrevista:
Agência Brasil - O IBGE
atravessa um desafio tão grande do ponto de vista de gestão dos dados como na
época em que foi criado, no século passado?
Marcio Pochmann - Nós
estamos partindo de um posto avançado. Estamos falando de uma instituição que
tem quase 11 mil servidores. É uma das instituições de pesquisa, estatística e
geografia maiores do mundo, inclusive. É uma referência internacional, uma
instituição que tem 566 agências distribuídas, Não há outra instituição no
Brasil com essa representatividade. São 27 superintendências.
O IBGE tem credibilidade e é
uma das pouquíssimas instituições que entra na casa dos brasileiros. Há o
sigilo estatístico. As informações não são passadas para ninguém porque a gente
trabalha no conjunto dos brasileiros. Não na especificidade ou na individualidade.
Isso já é uma base muito importante que nos dá condições de avançar para um
desafio que me parece mais importante, que é a integração dos vários bancos de
dados do país.
O IBGE é como o grande
coordenador do Sistema Nacional geoestatístico, que nos daria condições de
integrar dados da saúde, como o DataSus, dados tributários e também dos
beneficiários de programas sociais, o CADúnico.
O Brasil tem uma riqueza de
informações, de dados, mas eles não estão integrados. E o IBGE
pode, então, fazer isso e nos daria mais informações para quem toma
decisão, seja no setor privado, seja o prefeito, o governador, o presidente.
Nós estamos vivendo também um período de disputa. Hoje temos empresas
estrangeiras que utilizam as informações prestadas nas redes sociais para ter
acesso mais rápido aos dados dos brasileiros do que o próprio IBGE.
Essa é questão sobre a
soberania de dados. É dramático um país que não tem a soberania dos seus
próprios dados, que tem empresas estrangeiras, que têm mais informação daquele
país.
Agência Brasil - Esse não
é um desafio só brasileiro. No evento em Fortaleza, a ideia é também tratar
dessas questões?
Márcio Pochmann - Esse é
um destaque importante do ponto de vista do protagonismo que o IBGE está tendo
no plano internacional. Neste ano, O IBGE foi eleito pelo Conselho Econômico e
Social das Nações Unidas para passar a fazer parte da elite do Sistema
Estatístico internacional.
Ao mesmo tempo, o IBGE vem
também protagonizando a coordenação dos institutos de estatística em diferentes
blocos de país. No ano passado, coordenou o bloco de país do G20, fazendo
questões de discussão metodológica sobre, por exemplo, as pessoas em situação
de rua.
O Brasil hoje lidera o Brics
[grupo formado por 11 países] e também o grupo de países do Mercosul. Nesse
sentido, o IBGE está reunindo os institutos nacionais estatísticos,
representantes dos sistemas dos países dos Brics, daqueles em língua
portuguesa, e também do Mercosul.
Estamos vivendo um momento
excepcional no mundo, que é o deslocamento do centro dinâmico do Ocidente para
o Oriente e do Norte para o Sul.
O Brasil está tendo o
protagonismo de trazer essa discussão a respeito de quais são as
especificidades do Sul global em relação a temas como desigualdade.
Olha-se a partir do Sul
global, que são países que têm florestas.
Nós temos hoje uma situação em
que os direitos trabalhistas, o salário, o reconhecimento é apenas para quem
trabalha fora de casa. Mas quem está em casa não tem reconhecimento.
Essa é uma realidade de muitos
países do Sul global. Então, são temas que estamos trazendo, as oportunidades
de trabalho na era digital, especialmente para jovens.
Agência Brasil - O evento
terá representantes de 30 países. Existem temas prioritários?
Marcio Pochmann - Nós
vamos trazer pelo menos 35 temas amplos. E é um convite para a juventude
brasileira se envolver nessa temática. Que terá a presença de pesquisadores,
estudiosos, gestores.
Talvez seja o maior evento
realizado até agora no âmbito do Sul global. Foi até por isso que o IBGE
divulgou um mapa invertido que causou discussão no Brasil.
É um mapa em que o Brasil está
no centro do mundo e não na parte inferior do planeta. Hoje, o Brasil tem um
protagonismo que, talvez no passado, nunca teve, Mas esse protagonismo tem que
ter responsabilidade do ponto de vista do encaminhamento de questões que são
fundamentais para a humanidade.
Agência Brasil - O
evento, então, tratará desses desafios comuns?
Marcio Pochmann - Haverá
uma quantidade expressiva de pesquisadores e gestores de um conjunto
equivalente a 30 países. É uma convergência para pensar o mundo a partir do Sul
global, a partir da nossa realidade em transformação, de temas como a queda na
taxa de fecundidade e o crescimento menor da população.
Temos as questões ambientais,
as relativas ao tipo de desenvolvimento das cidades, assuntos ligados à
juventude, ao emprego, às condições de acesso à educação.
Trata-se de uma pauta muito
grande, mas de interesse nacional, inclusive de jovens que estão no ensino
médio, superior ou na pós-graduação.
Mas também gestores do
município e brasileiros envolvidos com o setor privado. É um evento que vai
marcar época na medida em que estamos pensando além do Brasil, em função da
realidade, do dinamismo do Sul global, que hoje responde a mais de 70% do crescimento
do mundo.
Agência Brasil - Por que
é importante essa integração de dados entre os países?
Marcio Pochmann - Na
reunião dos Brics, que ocorreu em Cazã (Rússia), no final do ano passado, houve
um documento que disciplinou a questão estatística.
O Brics precisa ter, na
verdade, grande referência em indicadores. Estamos autorizados, nesse
sentido, a avançar na temática dos indicadores de dados. Mas também na
integração metodológica, que permitiria certa uniformidade nas informações.
Não adianta, às vezes, você
ter uma informação que é importante para o país, mas sem poder comparar com
outros países.
Agência Brasil - A
discussão que o senhor tem levantado, sobre a necessidade de soberania dos
dados, é uma preocupação também do Sul global?
Marcio Pochmann - Estamos
falando de países que têm uma disposição de oferecer alternativas ao modelo que
veem hoje nos Estados Unidos.
É um modelo eficiente do ponto
de vista da comunicação do acesso à informação, No caso dos Estados Unidos, há
uma lei que obriga as grandes empresas, chamadas big techs, a disponibilizar
seus dados toda vez que o Departamento de Estado exigir.
O IBGE, por exemplo, está
fazendo um deslocamento dos seus bancos de dados para o Serpro, que é uma
empresa pública e nacional. Essa preocupação, obviamente, com a questão da
soberania, interessa ao Brasil, mas está relacionada aos demais países que não
dispõem dessas empresas, dependem de empresas do exterior.
Agência Brasil - Quanto
menos acesso a essa soberania de dados, mais vulnerável fica a sociedade,
certo?
Marcio Pochmann - Exatamente,
porque você não controla a informação. Alguém do exterior tem mais informações
da realidade brasileira. Há empresas que têm a fotografia e o vídeo de nossas
cidades.
No início do século 20, a
preocupação foi pela soberania econômica. Agora, a questão é da soberania de
dados. Isso assumiu uma centralidade muito grande.
Agência Brasil - O senhor
pode falar também sobre o que podemos aprender com outras experiências?
Marcio Pochmann - Temos a
experiência avançada aqui no âmbito da América Latina. A Colômbia, por exemplo,
tem um centro importante de produção de dados com metodologias inovadoras. Nós
temos a experiência da China, por exemplo, que tem feito pesquisas muito oportunas
no âmbito da chamada economia digital.
Não se pergunta mais se a
pessoa trabalha ou não trabalha. Pergunta-se se ela leva uma renda para casa.
Esse tipo de inovação metodológica, tecnológica, é fundamental para melhorar a
pesquisa que o IBGE faz.
Agência Brasil - E dados
representam recursos e participação efetiva da comunidade com a gestão pública,
não é?
Marcio Pochmann - Sem
dúvida. O nosso papel também é de reduzir custos e gastos para fazer essas
pesquisas. Por exemplo, o IBGE é responsável pela produção do Índice Nacional
de Preço ao Consumidor Amplo (IPCA). Esse indicador é um levantamento que é
feito por cerca de 2 mil pessoas, que estão em dez regiões
metropolitanas.
É um trabalho rigoroso,
técnico e fundamental. Nesse sentido, estamos avançando nas chamadas pesquisas
experimentais, em passar a utilizar preços de nota
fiscal eletrônica.
Agência Brasil - Os
debates desse evento em Fortaleza servirão para intercâmbios na reunião do
Brics, no Rio de Janeiro [nos dias 6 e 7 de julho]? Para a COP30 também,
em novembro [em Belém], certo?
Marcio Pochmann - O
Fórum tem esse papel de gerar subsídios que possam, na verdade,
ser avaliados pelos chefes de Estado nas suas declarações. Como também
gerar subsídios para a COP, que é um evento fundamental que vai discutir a
temática climática.
Agência Brasil
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