A Cachaçaria Extrema, com duas
décadas de história, deu uma guinada depois de 2021 e ampliou a cartela, de
quatro para 32 itens desde então. A atuação é ancorada em três pilares:
sustentabilidade, qualidade e inovação. “Hoje temos cachaça premium, bebida
mista, ice, vodca, licor e gin”, conta Marcos Mindelo, o grande responsável
pela ampliação do catálogo, quatro anos após assumir a propriedade. A aquisição
da cachaçaria, fundada em 2004, representou um desafio, dado o cenário de
pandemia da época.
“Hoje, a sustentabilidade é
encarada com bastante seriedade. Por isso, os cuidados consistem em não
desperdiçar nada durante o processo de produção, que é orgânico. Tudo ganha uma
nova funcionalidade. Há preocupação com o solo, a água e o controle de pragas”,
diz Mindelo. Às questões de sustentabilidade, somam-se os planos de expansão.
Para 2025, a cachaçaria quer aumentar as vendas em 35%. O foco, por enquanto, é
o mercado potiguar, embora o proprietário admita que existem intenções de
exportar. “Temos uma força muito grande no Rio Grande do Norte, mas ainda há um
espaço enorme para crescer por aqui”, comenta.
“E é claro, nossa ideia é
pegar essa força com a qual somos reconhecidos para alcançar outros mercados,
quer sejam nacionais ou até mesmo internacionais. Temos uma equipe comercial
100% focada nisso, para que nós possamos ser mais assertivos em todo esse
processo”, acrescenta o proprietário.
Na Ceará-Mirim Agroindustrial,
empresa do Grupo Telles localizada no município de Ceará-Mirim, na Região
Metropolitana de Natal, a preocupação com a sustentabilidade também é uma das
principais pautas. A fábrica é uma das mais modernas usinas do País, altamente
mecanizada e automatizada, com foco na produção de etanol hidratado para
comercialização em diferentes mercados do Nordeste, a partir do processamento
da cana-de-açúcar.
Gardênio Dias, gestor da
usina, conta que há várias formas de reaproveitamento do bagaço da cana, que é
comprada de pequenos produtores da região. O reaproveitamento vai desde a
comercialização, passando pela geração de combustível para geração própria de
energia e compostagem. “A gente mistura vinhoto [líquido obtido da destilação
do vinho durante o processo de produção de cachaça], que é um subproduto nosso,
com bagaço de cana para fazer compostagem”, afirma Dias.
A empresa irá fechar a safra
atual, que se encerra nesta semana, com uma produção de 440 mil toneladas de
cana-de-açúcar. Para a próxima safra, que se inicia daqui a seis meses, a
expectativa é aumentar a produção em cerca de 35% e chegar a algo em torno de
600 mil toneladas. A empesa gera, no período de safra, 500 empregos diretos. A
perspectiva de crescimento se dá em meio a inúmeros desafios para o setor,
segundo Dias. “Um deles é a dificuldade de mão de obra, mas também tem a
escassez hídrica, problema que afeta todo o agro”, pontua o gestor.
Usina Ceará-Mirim: tecnologia e
sustentabilidade no processamento da cana-de-açúcar | Foto: Magnus Nascimento
Expansão e manejo sustentável
A VeV Agro sabe bem como é
importante cuidar dos recursos hídricos. A empresa, também localizada em
Ceará-Mirim, produz coco e maracujá. Recentemente foram feitos investimentos no
reúso de água e, como consequência, houve redução drástica de desperdício. Além
disso, o sistema de plantio adensado (número maior de plantas em uma mesma
área) passou a ser adotado na empresa para o cultivo do maracujá. “Com essas
duas medidas, estamos produzindo mais com menos”, afirma Eudes Varela,
proprietário da VeV Agro.
As práticas bem sucedidas na
VeV Agro representam uma preocupação a menos na hora de expandir. A empresa
produz de forma perene (sem precisar de replantio) uma média de 350 cocos por
ano em uma área de 26 hectares (ha). A produção de maracujá, por sua vez, saiu
de 15 toneladas por hectare e passou a oscilar entre 20 e 40 toneladas/ha com o
plantio adensado. O mercado a que se destina a produção da empresa é
essencialmente local, uma vez que a atuação ainda é cercada de desafios. “A
insegurança jurídica e as questões de financiamento são duas grandes
dificuldades”, afirma Varela.
Ainda que não executadas
diretamente pelas grandes empresas, as boas práticas ambientais podem surtir
efeito relevante se houver encadeamento com os pequenos negócios. É isso que
acontece com a Ceará-Mirim Agroindustrial, onde parte da cana-de-açúcar é adquirida
junto à Cooperativa dos Plantadores de Cana do Rio Grande do Norte
(Cooplacana-RN). Anderson Faheina, presidente da Cooplacana, explica que toda a
produção vendida à usina e a outras empresas da região é cultivada através de
manejo sustentável. “Isso significa que o controle de pragas é feito de forma
biológica e a colheita é mecanizada, sem queima, o que faz com que a gente
tenha uma melhor qualidade, além da geração de um combustível renovável, que é
o etanol”, sublinha Faheina.
Outros empreendedores têm
buscando inspiração nas iniciativas. Micarla Fernandes, proprietária de uma
queijeira, localizada na Fazenda Lima, no Agreste Potengi do Rio Grande do
Norte, teve a ideia de montar o próprio negócio depois de participar de um evento
no Sebrae sobre a iguaria. Esta semana, ela participou da Rota da
Sustentabilidade em busca de novas ideias para, quem sabe, ampliar o próprio
negócio.
“Conheci ações muito
interessantes, uma delas, na VeV Agro, é um case de sucesso de como produzir
mais com menos. Quero adotar essa estratégia”, afirma. Além disso, ela pretende
ampliar o alcance dos negócios com novos serviços aos consumidores. “Percebo
que uma das grandes demandas do mercado é a da experiência, algo que vai além
de apenas consumir o produto. As pessoas querem saber quem produz e como se
produz. É um nicho muito importante que alia o consumo ao turismo, que é um dos
projetos para a nossa fazenda”, conta.
Na Cachaçaria Extrema, o
turismo de experiência já é uma realidade. Além da produção artesanal, o local,
que fica na fazenda de mesmo nome, está aberto a visitações, que ocorrem de
segunda a sexta-feira, por meio de agendamento. Durante as visitas, o cliente
conhece todo o processo de criação da cachaça, que é diverso. A iniciativa
começou em abril do ano passado. Os turistas podem escolher entre pacotes que
oferecem, além da visita e da degustação dos diversos tipos da bebida, um
almoço com pratos regionais como carneiro, carne de sol na nata, costela,
pirão, feijão e macaxeira.
“O visitante, quando chega
aqui, conhece nossa estrutura e faz uma harmonização da cachaça com a
gastronomia local”, explica Marcos Mindelo, proprietário do empreendimento.
Para agradar aos mais exigentes, são oferecidas três opções diferentes de
cachaça premium. “Temos, ainda, a linha de cachaça saborizada para agregar um
público maior”, aponta. Para comemorar os 20 anos da marca, está sendo
produzida uma cachaça extra premium, envelhecida em barris de carvalho e
bourbon, uma inovação da casa.
Fomento
A Rota da Sustentabilidade,
que inclui os negócios citados nesta reportagem, integra as ações do ELI Agro,
que tem como objetivo levar produtores, empresários e investidores para
conhecer e se inspirar em cadeias de produção do Estado e mostrar o potencial
agro do Rio Grande do Norte. “Esta rota, especificamente, mostra como é
possível produzir de forma eficiente e sustentável. E como se faz isso? Com
economia de água, aproveitamento do nosso potencial eólico e solar, bem como em
iniciativas como as do Grupo Telles, com o aproveitamento do bagaço. O caso da
Cachaçaria Extrema, que tem uma produção totalmente orgânica, também deve ser
citado”, afirma Malu Fontes, que integra o ELI Agro.
A possibilidade de expansão
para o trade turístico é outro aspecto ressaltado no rol das iniciativas para o
desenvolvimento dos negócios sustentáveis. “A Extrema é um exemplo disso. O
alambique foi transformado em um restaurante e agora eles podem receber muito
bem os turistas”, diz Malu. O Sebrae é quem fomenta a iniciativa, que conta com
alguns critérios.
“São considerados aspectos
como manejo sustentável, produção orgânica e integração, como acontece com a
usina Ceará-Mirim, que compra cana-de-açúcar de pequenos produtores para
mostrar que o agro também olha para a sustentabilidade e que faz um processo diferenciado,
neste caso, sem a queima da cana. Nosso intuito foi selecionar propriedades que
tivessem o apelo de certificações, de bom manejo e de encadeamento produtivo
para estimular os pequenos negócios”, destaca Mona Nóbrega, gerente de
Desenvolvimento Rural do Sebrae-RN.
Tribuna do Norte
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