“Procurei um médico, fiz exames e a princípio o prognóstico era de leucemia,
mas internei, fiz investigação e veio o diagnóstico de aplasia medular, doença
rara que para a medula e eu já estava com 90% da medula sem funcionar. Fui
direcionada ao transplante, começando essa luta pelo doador compatível. Fiz os
exames com a família mas não teve compatibilidade. Fiz o cadastro no banco de
doadores e recebi a notícia de um doador 100% compatível, sendo direcionada
para Natal”, lembra.
Desde o procedimento, que
ocorreu no último dia 20 de dezembro, a paraibana está em Natal, na casa de
apoio da Humanização e Apoio ao Transplantado de Medula Óssea (Hatmo Natal),
para ser acompanhada durante o tratamento.
“Sempre admirei o trabalho da Hatmo antes mesmo de vir a Natal. Passei. O apoio
é 100%, não só na hospedagem, a alimentação e a suplementação, porque ficamos
debilitados em virtude das quimioterapias. A casa é completa de estrutura”,
explica. Ela está confiante para voltar à Paraíba e concluir sua faculdade de
Letras/Espanhol na UFCG. “As expectativas são boas, temos sempre que manter o
pensamento positivo, sempre ficar esperançoso e resiliente. É pensar um dia
após o outro. São 100 dias que ficaremos aqui e se ficarmos com isso na cabeça,
nunca passa”, acrescenta, explicando que está sendo acompanhada por uma irmã em
Natal.
Segundo os dados da Secretaria de Estado da Saúde Pública (Sesap), o
transplante de medula óssea foi um dos que apresentou maior crescimento entre
os transplantes feitos no Estado em 2024. Atualmente, apenas hospitais como Rio
Grande e Liga Norte-riograndense Contra o Câncer fazem os procedimentos, com o
Rio Grande sendo responsável pela maior parte das operações.
“No SUS temos tentado trabalhar para encurtar o tempo de chegada ao serviço de
transplante, melhorar os processos dentro do hospital para que o paciente
interne menos e com isso, consigamos vagas para mais pacientes. Temos
trabalhado junto com casas de apoio que têm nos ajudado bastante em dar
hospedagem para que esses pacientes possam vir”, explica o médico do Rio
Grande, James Maciel, responsável pelo setor de Oncologia da unidade.
“Temos feito muitos transplantes em caráter ambulatorial, que evita a
internação e permite que façamos o transplante de mais pacientes. São
iniciativas que temos empregado para conseguir transplantar mais pacientes”,
acrescenta.
Aumento
O Rio Grande do Norte registrou um aumento de 45% no número de transplantes de
órgãos em 2024, segundo dados da Central de Transplantes do RN, vinculada à
Secretaria de Estado da Saúde Pública (Sesap). Ao todo foram 419 transplantes,
sendo 194 de córneas, 165 de medula óssea, 57 de rins e três transplantes
cardíacos. Foram registradas também 36 doações de múltiplos órgãos e 133
doações de córneas. Os dados referem-se a transplantes feitos pelo Sistema
Único de Saúde (SUS).
Esses números superam os resultados de 2023, quando foram realizados 289
transplantes, sendo 132 de córneas, 107 de medula, 44 de rins, quatro
transplantes cardíacos e dois de pele, além de 28 doações de múltiplos órgãos e
tecidos.
A coordenadora da Central de Transplantes do RN, Rogéria Nunes, atribui esse
aumento ao trabalho integrado da Organização de Procura de Órgãos (OPO) e das
Comissões Intra-hospitalares para Doação de Órgãos e Tecidos para Transplantes
(CIHDOTT). Essas comissões, formadas por profissionais de saúde, desempenham um
papel crucial na organização dos processos e protocolos que viabilizam as
doações. Ela destaca a importância de campanhas de conscientização, como o
Setembro Verde, que incentiva a doação de órgãos. “A conscientização da
população tem sido fundamental para o aumento do número de transplantes e
doações”, ressalta.
Casas de apoio auxiliam no
tratamento
Com o tratamento do
transplante de medula óssea sendo desafiador e exigindo um cuidado
multidisciplinar, a existência de casas de apoio no Rio Grande do Norte acaba
sendo fundamental no processo de recuperação, tanto física quanto mental dos
pacientes. A Casa Vida e a Hatmo são dois exemplos.
Na Hatmo, a Humanização e Apoio ao Transplantado de Medula Óssea (Hatmo Natal),
fundada em 2008, o espaço é disponibilizado para oito famílias e ainda conta
com outro espaço de apoio para pacientes do interior.
Quando o paciente é encaminhado pelo hospital para a Hatmo é justamente para
esse suporte. A primeira coisa que ele precisa é do apoio para fazer o enxoval
para o transplante. Muitos não têm condições para comprar uma calcinha de
algodão, um sabonete específico, um hidratante específico, tudo infantil para
não dar alergia. Além disso vem muita gente de fora e a Hatmo hospeda essas
pessoas, tanto do interior do Estado, da Paraíba, de Rondônia, muitos do Pará”,
conta a presidente da Hatmo, Rosali Cortez. ”Esse tratamento é´importante
porque a defesa do paciente vai a praticamente a zero para receber uma nova
medula”, acrescenta.
A psicologia entra nesse apoio, porque a casa Hatmo recebe pacientes de fora do
Estado e do interior. Quando ele vem pra cá não vem com a família toda, tendo
apenas um acompanhante. E essa distância da família já gera muitos aspectos
emocionais, deixando o paciente fragilizado, além do enfrentamento da doença.
Alguns chegam aqui bem, mas outros têm passado por um processo mais delicado e
o transplante é um tratamento mais difícil, debilitando muito o paciente”, cita
a psicóloga da casa Hatmo, Isanna França.
Tribuna do Norte
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