sábado, 7 de março de 2026

Emendas travadas no Estado geram críticas na Assembleia

José Dias (PL) criticou o atraso na liberação das emendas| Foto: João Gilberto

De uma dotação inicial – R$ 147,96 milhões constante no Orçamento Geral do Estado (OGE) para 2026, até agora nenhum recurso de emenda parlamentar foi liberado para os deputados de oposição e situação na Assembleia Legislativa, é o que mostra o Portal da Transparência do governo do Rio Grande do Norte na internet.

Em relação ao ano passado, o volume de recursos chegou a R$ 158,31 milhões, enquanto o governo Fátima Bezerra (PT) deixou R$ 36 milhões em restos a pagar.

O constante atraso na liberação das emendas passou por novas críticas do deputado estadual José Dias (PL), no plenário da Casa. “Quero deixar bem claro que as minhas emendas parlamentares, em torno de 80%, contemplam problemas de saúde, se destinam à assistência aos municípios, aos hospitais, para enfrentar o problema da saúde”, disse.

“Problemas evidentemente sérios, não tão graves sob o ponto de vista científico como os que são levantados aqui, mas problemas que levam também a óbito, a morte. e o governo não libera”, reclama Dias, que já recorreu ao Tribunal de Justiça para obter a execução das emendas direcionadas a municípios e instituições filantrópicas, sem fins lucrativos.

Segundo o parlamentar, “pode até ser que as pessoas não acreditem, mas os documentos eu posso apresentar. De 2024, ainda temos para receber, e está já com julgamento prévio, mais de R$ 2,4 milhões e em 2025, que não foram pagos pela governadora do Estado, temos mais de R$ 1,7 milhão”.

Portanto, Dias contabiliza que mais de R$ 4,2 milhões em recursos de emendas parlamentares retidos e não pagos pelo Executivo de emendas impositivas: “Não coloco as emendas coletivas, que se destinaram também à saúde, que são mais de R$ 4,5 milhões, vamos para mais de R$ 9 milhões que a governadora deve ao povo do Rio Grande do Norte, aqueles que precisam de tratamento de saúde. Deixo claro, não sou médico, mas tratamentos que, com recursos menores, salvariam vidas”.

José Dias entende que a razão desses atrasos nos repasses das emendas parlamentares deve-se à situação do Estado, que “é realmente um descalabro, não tem a menor dúvida. É uma administração caótica, irresponsável. A prova é esse atraso, disseram que iam pagar tudo”.
Para piorar, José Dias cita notícia recente do Tesouro Nacional ter assumido cerca de R$ 84 milhões de parcelas vencidas, não pagas à União, maior do que do Rio de Janeiro, com R$ 82 milhões e Rio Grande do Sul, R$ 70 milhões.

O deputado oposicionista lembra que no tempo do governo Robinson Faria (2015/2018) deixou uma dívida “mentirosa” de quatro folhas de pessoal: “É mentira, sou testemunha, vamos dizer assim, sou vítima disso porque eu pedi a suspensão do pagamento dos meus subsídios de deputado até que tudo fosse solucionado. Vim receber o que eu tinha atrasado, e não eram essas coisas, eram dois meses, mais ou menos, na pandemia, com o compromisso que eu cumpri de doar esse dinheiro para enfrentamento da pandemia”.

“Então, é mentira pura, mas é verdade o que eu estou mostrando aqui. Eles devem a funcionários, devem das emendas, e o governo federal está pagando num compadrio”, protestou Dias.

Fiscalização

Recém-eleito presidente da Comissão de Fiscalização e Finanças da Assembleia Legislativa, o deputado estadual Luiz Eduardo (PL) explicou que “todos os anos foi necessário algum deputado entrar na justiça para fazer valer o direito das suas emendas serem liberadas dentro do orçamento”.

“No caso do deputado José Dias, eu vejo o Governo passível até de ser acusado de etarismo. José Dias é o deputado mais idoso do parlamento e vem sofrendo essa perseguição de forma implacável”, adiantou Luiz Eduardo, o qual conta que ele mesmo teve de recorrer ao Tribunal de Justiça (TJ) para liberar emendas impositivas de minha autoria: “Ganhei uma decisão no mês de novembro do ano passado contra o Governo. Um absurdo”.

Luiz Eduardo reforça que as emendas parlamentares de 2025 ainda não foram pagas todas. “E as deste ano não foram pagas “nada”. Fátima vai sair devendo aos deputados. Assim como deve às cooperativas médicas, e os consignados dos bancos”, destacou.

O presidente da CFF disse que ainda não se reuniu com os demais deputados da Comissão – Adjuto Dias (MDB), Neilton Diógenes (PP), Isolda Dantas (PT), Coronel Azevedo, Gustavo Carvalho e José Dias (PL) “para tratar especificamente desse problema”, mas acha que “será inócua qualquer admoestação do parlamento no sentido das emendas, porque o Governo é reiteradamente desobediente quanto a isso. A não ser que seja um movimento político da Presidência da Assembleia, para forçar o governo a respeitar os deputados”.

Para o deputado Luiz Eduardo, como Fátima Bezerra “está de saída do governo, será perda de tempo tratar com ela sobre o tema”.
Por isso entende que os parlamentares vão aguardar o próximo governador e ver se ele terá mais sensibilidade pelas emendas e um comportamento melhor do que a atual gestora do Estado. “Se Deus quiser, teremos um novo gestor no Rio Grande do Norte em pouco tempo”, disse.

Rastreamento

O líder do governo na Assembleia Legislativa, deputado estadual Francisco do PT, disse que já foi levado à Casa que o Executivo está atuando para se adequar à exigência do Tribunal de Contas do Estado (TCE) de adotar instrumentos para a rastreabilidade da execução dos recursos de emendas parlamentares.

Líder governista atribui atraso a exigências de rastreabilidade| Foto: Eduardo Maia


“Dependendo dessa regulamentação”, informou o líder governista, a equipe econômica do governo “pode começar a liberar as emendas”.

Segundo Francisco do PT “não é porque o Estado não queira”, mas existe uma decisão do Supremo Tribunal Federal (STF) e uma resolução do TCE para que se apresente um conjunto de regras para garantir rastreabilidade e transparência”.

Resolução

De acordo com a resolução nº 35 datada de 26 de novembro de 2025, os municípios e o Estado tinham até 31 de dezembro desse mesmo para enviar ao Portal do Gestor do Tribunal de Contas do Estado (TCE-RN) informações sobre a rastreabilidade e transparência das emendas parlamentares estaduais e municipais.

A regra atende ao novo artigo 163-A da Constituição Federal e às determinações do Supremo Tribunal Federal na ADPF 854, que obrigam a divulgação clara, precisa e de fácil acesso das informações orçamentárias.

O envio dos dados é condição obrigatória para que as prefeituras possam executar emendas a partir de 1º de janeiro de 2026.

Em 24 de dezembro o TCE emitiu nota técnica orientando os entes federados sobre o uso do Portal do Gestor, inclusive disponibilizando manual do sistema de emendas parlamentares.

Já em 22 de janeiro, o TCE informava sobre decisão do conselheiro Carlos Thompson Fernandes, negando pedido da Controladoria-Geral do Estado para flexibilizar prazos e manter a execução de emendas parlamentares sem o cumprimento integral das exigências de transparência e rastreabilidade. No dia 7 do mesmo mês, Fernandes já havia negado solicitação semelhante formulada pela Federação dos Municípios do Rio Grande do Norte (Femurn) e Federação das Câmaras Municipais (Fecam-RN)) e pela Associação dos Profissionais da Contabilidade Pública do RN (ASPCONP-RN).

Tribuna do Norte

Nenhum comentário:

Postar um comentário