Redação Tribuna do Norte•20 de abril de 2026•23h29
Suspensão de R$ 38,8 bi no NE
(2025-26) acende alerta no setor renovável: cortes de geração, falta de
transmissão, insegurança regulatória e poucos incentivos travam avanços. No RN,
há risco de perda de competitividade, fuga de capital, demissões e adiamento de
projetos, embora empresas ainda demonstrem interesse na região.
Entidades confirmaram a suspensão de R$ 38,8 bi em investimentos por parte das empresas, que avaliam migrar os aportes | Foto: Adriano Abreu
A suspensão de quase R$ 39
bilhões em investimentos na região Nordeste anunciada por entidades do setor de
energias renováveis preocupa representantes do segmento no Rio Grande do Norte
e no país. De acordo com fontes ouvidas pela reportagem da TRIBUNA DO NORTE, a
situação explicita problemas estruturais no sistema elétrico brasileiro, como
os cortes forçados de geração de energia (curtailment), a carência de linhas de
transmissão para escoar a energia limpa produzida, além da falta de incentivos
fiscais e de segurança jurídica. Apesar do cenário incerto, empresas com ativos
no RN garantem que há interesse em manter os investimentos em solo potiguar.
A suspensão de investimentos
foi anunciada em reportagem do Valor Econômico do último dia 18 de abril. As
entidades do setor confirmaram a suspensão de R$ 38,8 bilhões em investimentos,
entre 2025 e 2026. Além disso, as empresas avaliam deixar o Nordeste para
migrar para outras regiões.
O presidente da Associação
Potiguar de Energias Renováveis (Aper), Williman Oliveira, aponta que a
desistência das empresas representa um cenário negativo para o RN e pode estar
atrelada a múltiplos fatores. É o caso da infraestrutura insuficiente de linhas
de transmissão para o escoamento da energia produzida na região, além da falta
de incentivos fiscais para o crescimento da demanda por fontes renováveis no
Estado.
“[Acredito que isso aconteceu]
muito pela dificuldade quando [as empresas] têm que bloquear a sua geração,
gerando um prejuízo incalculável para quem acreditou que teria investimentos em
expansão de rede e incentivos para o consumo local”, aponta Williman Oliveira.
O diretor-técnico regulatório
da Associação Brasileira de Energia Eólica (ABEEólica), Francisco Silva,
observa que a entidade não dispõe de dados relativos ao cancelamento de
investimentos em 2025 e 2026 no RN e Nordeste. Ele reconhece, contudo, que ao longo
dos últimos anos a suspensão de investimentos pode ser considerável e tem como
principal motivador o curtailment.
“Sabemos que todo o mercado
que investe em energia eólica e solar fotovoltaica centralizada está
reavaliando os seus investimentos. Hoje esses geradores estão ficando com uma
incerteza que inviabiliza a possibilidade de construir novos empreendimentos. Então
dá para dizer que todos os geradores estão verificando qual é o melhor momento
para se investir novamente nesse mercado, tendo em vista o tamanho da
incerteza, especialmente por conta dos cortes de geração”, aponta o diretor.
O presidente do Centro de
Estratégias em Recursos Naturais e Energia (Cerne), Darlan Santos, alerta para
o risco de fuga de investimentos. “Nos últimos meses, vimos um processo
preocupante de demissões no setor. Muitas dessas companhias, que atuam em diversos
segmentos, estão recalculando suas rotas para minimizar riscos. Nesse contexto,
o Nordeste é a região que mais perde, apesar de possuir o maior potencial
natural de geração eólica e solar do país. O risco real é que assistamos a uma
migração de investimentos estratégicos que deveriam estar consolidando o
Nordeste como o centro da nossa transição energética”, destaca.
Para o presidente da Comissão
Temática de Energias Renováveis da Fiern (Coere), Sérgio Azevedo, a suspensão
dos investimentos anunciados pelo setor é um sinal claro de perda de
competitividade de uma região que sempre teve vocação natural para liderar a transição
energética brasileira.
“O problema é que vocação,
sozinha, não basta. É preciso ambiente regulatório adequado, capacidade de
resposta do sistema, previsibilidade e visão estratégica”, aponta Sérgio
Azevedo, acrescentando que para o RN, o impacto potencial é relevante: “adiamento
ou cancelamento de novos parques, migração de capital para mercados com menor
risco sistêmico, perda de competitividade da cadeia produtiva local, redução da
geração de empregos, enfraquecimento da arrecadação e perda de protagonismo de
um estado que reúne condições naturais excepcionais para produzir energia
limpa. Em outras palavras, o RN corre o risco de deixar de capturar a próxima
onda de investimentos justamente por não conseguir transformar sua vocação em
segurança para o investidor”, declara.
Williman Oliveira (Associação
Potiguar de Energias Renováveis)(Aper) | Foto: Cedida
Sérgio Azevedo (Comissão Temática de
Energias Renováveis/Fiern) | Foto: Alex Régis
Francisco Silva (Associação
Brasileira de Energia Eólica - ABEEólica) | Foto: Cedida
Setor aponta problemas em
marco regulatório
O debate sobre a insegurança
para investir no setor de energias renováveis se une às discussões sobre
regulamentações para assegurar maior confiança aos investidores no setor. Em
novembro do ano passado, o governo sancionou a Lei nº 15.269, com o objetivo de
modernizar o marco regulatório do setor elétrico e estabelecer novas diretrizes
para ampliar a segurança energética, a acessibilidade tarifária e introduzir
mecanismos mais eficientes de operação do sistema.
Francisco Silva, da ABEEólica,
aponta que a legislação federal passou a atribuir uma série de
responsabilidades para os geradores de energias renováveis, prejudicando
potenciais projetos e outros já em operação ou desenvolvimento. Ele observa, no
entanto, que o marco também traz aspectos positivos do ponto de vista dos
cortes de geração.
“A lei trouxe a necessidade de
um endereçamento para os cortes de geração, pois qualificou quais os cortes que
o legislador entende que os geradores têm ou não direito a receber. Agora nós
estamos na expectativa do Ministério de Minas e Energia regulamentar esses
cortes para que consigamos voltar a ter previsibilidade sobre os
investimentos”, aponta.
O presidente da Coere/Fiern,
Sérgio Azevedo, afirma que a Lei nº 15.269/2025 foi um avanço importante, pois
moderniza o marco regulatório do setor elétrico, cria bases legais para o
armazenamento de energia e abre caminho para sua regulamentação e expansão no
país. No entanto, na avaliação dele, é preciso que haja uma regulamentação
célere e eficaz para transformar a diretriz legal em mercado real.
“Além disso, é fundamental que
a implementação dos incentivos ao armazenamento prestigie a lógica da
adicionalidade, ou seja, que estimule capacidade nova, flexibilidade nova e,
sempre que possível, soluções conectadas à expansão de novos parques eólicos e
solares”, afirma.
“O Brasil precisa evitar
soluções que apenas redistribuam energia já existente no sistema sem atacar a
raiz do problema. O armazenamento deve ser tratado como instrumento para
destravar investimento novo, reduzir o curtailment e recompor a atratividade das
regiões mais afetadas, especialmente o Nordeste”, acrescenta Azevedo.
Empresas mantêm interesse no
RN e Nordeste
Apesar das incertezas que
rondam o setor de renováveis, empresas que atuam no RN reiteram que mantêm o
interesse em seguir no Nordeste. Em resposta à reportagem da TRIBUNA DO NORTE,
a Casa dos Ventos destacou que segue na contramão do mercado. A empresa tinha
sido apontada pela reportagem do Valor Econômico como uma das desistentes, mas
a informação foi corrigida pelo veículo.
“A Casa dos Ventos mantém um
pipeline robusto e segue investindo em ativos para geração de energia renovável
tanto no Nordeste quanto em outras geografias. São investimentos que
impulsionam não apenas a expansão da companhia, mas também a retomada do setor,
movimentando a cadeia produtiva e gerando empregos nessas regiões”, disse.
A Vestas, que atualmente conta
com o Parque Esquina do Vento em desenvolvimento no RN, também reiterou o
interesse em manter ativos no Estado e no Nordeste. “Temos uma presença sólida
no Brasil, com ativos relevantes como a fábrica de alta tecnologia no Ceará, o
hub regional de serviços no Rio Grande do Norte e uma cadeia de suprimentos
robusta, com mais de 100 fornecedores”, destacou
A companhia reconhece,
contudo, que o setor enfrenta desafios estruturais e precisa evoluir destravar
novos investimentos. “Apesar de o Brasil contar com um dos melhores recursos
eólicos do mundo — especialmente no Nordeste — há um risco real de perda de
protagonismo, caso ajustes relevantes não sejam realizados. Nesse contexto, a
Vestas mantém um diálogo contínuo e construtivo com o governo brasileiro, com
uma postura propositiva para contribuir com a superação dos desafios atuais do
setor”, apontou.
Tribuna do Norte

Nenhum comentário:
Postar um comentário