Número de novos casos de câncer infantojuvenil no RN caiu 2,18%, mas houve redução mais expressiva em outros estados| Foto: Alex Régis
Com 627 diagnósticos, o Rio Grande do Norte ocupou a 6ª posição nacional no número de novos casos de câncer infantojuvenil em 2025. Um ano antes, o estado havia ocupado a 11ª posição no total de diagnósticos da doença na faixa etária de 0 a 19 anos, com 641 casos. Especialistas alertam para a importância do diagnóstico precoce da doença, que é a mais letal para crianças e adolescentes no Brasil, o que fortalece o tratamento e aumenta as chances de cura.
O número de novos casos de câncer infantojuvenil registrados no RN caiu 2,18%
entre 2024 e 2025, mas houve redução mais expressiva em outros estados: o
Espírito Santo, por exemplo, teve queda de 60%, de 295 para 118 diagnósticos.
No Brasil, o total de novos casos nessa faixa etária recuou 24,2%, de 15.811
para 11.984 diagnósticos. Os dados são do Painel Oncologia Brasil, do
Ministério da Saúde, e foram compilados pela Sociedade Brasileira para a
Qualidade do Cuidado e Segurança do Paciente (Sobrasp) em 15 de janeiro de
2026.
Do total de casos da doença no Brasil, o Instituto Nacional de Câncer (Inca)
estima que apenas 3% acometem o público infantojuvenil. Se diagnosticadas
precocemente, cerca de 80% das crianças e adolescentes podem ser curadas e
receber tratamento em centros especializados, segundo o Inca.
O pediatra Tiago Dalcin, membro da Sobrasp, observa que o câncer infantojuvenil
é pouco debatido, pois a doença é mais associada a adultos e idosos. “Os sinais
e sintomas do câncer na infância e na adolescência muitas vezes são
inespecíficos. Eles podem acontecer ao longo do tempo, confundir-se com outras
doenças e demorar para que seja feito o diagnóstico”, afirma.
“Os sintomas são, por exemplo, palidez, perda de peso, algum caroço ou nódulo
que não dói, e manchas roxas pelo corpo”, explica. Para Dalcin, é importante
investigar os sinais, caso existam, e realizar acompanhamento médico mesmo sem
queixas, a fim de avaliar o desenvolvimento da criança ou adolescente.
Ana Járvis, superintendente da Casa de Apoio à Criança com Câncer Durval Paiva,
resume a importância do diagnóstico precoce em “salvar vidas”. “O câncer
existe, e a gente está perdendo [vidas] pela falta de suspeição, pela falta de
investigação”, afirma. Ela lembra que há cerca de 80% de chances de cura em
casos em que se descobre a doença cedo.
Contudo, a falta de diagnóstico e dificuldades de acesso ao tratamento
atrapalham o combate ao câncer. A Casa Durval Paiva, em Natal, acolhe crianças,
adolescentes e suas famílias, antes, durante e após o tratamento.
Para a Sobrasp, o câncer infantojuvenil causa “forte impacto social e
emocional” e afeta a rotina das famílias. “Quem convive com criança sabe o
quanto isso vai mobilizar tanto a criança quanto a sua família. A gente precisa
dar atenção individualizada para cada caso. Cada criança importa”, diz Tiago
Dalcin.
Sobre o impacto do tratamento na rotina familiar, Járvis destaca que os
reflexos vão além da saúde: muitas mães abdicam de suas carreiras para
acompanhar os filhos e se dedicar ao tratamento. Segundo ela, 80% dos
assistidos pela Casa Durval Paiva são do interior do estado e 20% são de Natal
e região metropolitana. Na maioria dos casos, as mães vêm até a capital
potiguar com os filhos.
Ana Járvis diz ainda que a faixa etária afetada pelo câncer infantojuvenil é
mais vulnerável. “Em princípio, o adulto não é um ser vulnerável. Ele já tem
autonomia, fala, diz onde há dor, reclama e diz qual é o seu limite. E ele já
tem a responsabilidade das suas decisões, de querer fazer o tratamento ou não”,
afirma.
Osteossarcoma
Em março deste ano, a Casa Durval Paiva desenvolve uma campanha de
conscientização sobre o osteossarcoma – um dos principais tipos de câncer
ósseo. Segundo Ana Járvis, este é o terceiro tipo de câncer mais frequente
entre crianças e adolescentes, depois da leucemia e de tumores do Sistema
Nervoso Central.
A incidência de tumores ósseos é maior entre 10 e 19 anos, período marcado por
intensas transformações físicas. A Sobrasp informa que a leucemia representa
30% desse total. Também são tipos frequentes de câncer nessa faixa etária:
linfomas, neuroblastoma, sarcomas (ósseos e partes moles) e retinoblastoma.
“O osteossarcoma é mais presente na adolescência, por isso que é tão difícil o
diagnóstico. Tem uma dor óssea persistente ou uma tumoração, uma saliência
naquela região, como pernas e joelhos. Muitas vezes, o médico acha que é ‘dor
do crescimento’. Quando o diagnóstico é realmente feito, o tumor já está muito
evidente ou já está em outros locais do corpo”, explica a superintendente. Mais
comum na fase de crescimento acelerado da adolescência, ele atinge com maior
frequência ossos longos como o fêmur (região do joelho), a tíbia e o úmero.
A iniciativa da Casa Durval Paiva é uma continuação da Campanha Diagnóstico
Precoce 2026. Todos os meses, a instituição dá destaque a um tipo de câncer que
acomete crianças e adolescentes, com o tema “Seja um porta-voz do Diagnóstico
Precoce”.
Números
Novos casos de crianças e
adolescentes com câncer (2025)
São Paulo: 2.391 casos
Ceará: 1.013 casos
Minas Gerais: 988 casos
Rio Grande do Sul: 837 casos
Santa Catarina: 732 casos
Rio Grande do Norte: 627 casos
Rio de Janeiro: 570 casos
Pará: 539 casos
Pernambuco: 472 casos
Maranhão: 464 casos
Fonte: Painel Oncologia Brasil
/ Sobrasp
4 em cada dez mortes por
câncer no Brasil são evitáveis
Um estudo internacional sobre
mortes por câncer no mundo estima que 43,2% dos óbitos provocados pela doença
no Brasil poderiam ser evitados com medidas de prevenção, diagnóstico precoce e
melhor acesso ao tratamento.
A pesquisa estima que, dos casos de câncer diagnosticados no país em 2022,
cerca de 253,2 mil devem resultar em morte até cinco anos após a detecção.
Dessas, 109,4 mil poderiam ser evitadas.
O estudo Mortes evitáveis por meio da prevenção primária, detecção precoce e
tratamento curativo do câncer no mundo faz parte da edição de março da revista
científica The Lancet, uma das publicações médicas mais conceituadas
internacionalmente. O artigo está disponível na internet.
O trabalho é assinado por 12 autores, oito deles vinculados à Agência
Internacional para Pesquisa em Câncer (Iarc, na sigla em inglês), ligada à
Organização Mundial da Saúde (OMS) e sediada em Lyon, na França.
Os pesquisadores dividem as quase 110 mil mortes por câncer evitáveis no Brasil
em dois grupos: 65,2 mil são preveníveis, ou seja, a doença poderia nem ter
ocorrido, e as outras 44,2 mil são classificadas como evitáveis por diagnóstico
precoce e acesso adequado a tratamento.
O levantamento apresenta um olhar global sobre mortes por câncer. O estudo apurou informações sobre 35 tipos de câncer em 185 países.
Em termos mundiais, o percentual de óbitos evitáveis é de 47,6%. Isso
representa que, dos 9,4 milhões de mortes causadas pela doença, quase 4,5
milhões poderiam não ter acontecido.
O grupo de pesquisa detalha que, do total de mortes, uma em cada três (33,2%) é
prevenível, e 14,4% poderiam não acontecer caso houvesse diagnóstico precoce e
acesso a tratamento.
Ao comparar países, regiões geográficas e nível de desenvolvimento, o estudo
identifica disparidades ao redor do mundo.
Os países do norte da Europa apresentam percentual de mortes evitáveis bem
próximo de 30%. O mais bem posicionado é a Suécia (28,1%), seguido por Noruega
(29,9%) e Finlândia (32%). Isso significa que, de cada dez mortes, apenas três
poderiam ser evitadas.
Já no outro extremo, as dez maiores proporções de mortes evitáveis estão em
países africanos. A pior situação é em Serra Leoa (72,8%). Em seguida, figuram
Gâmbia (70%) e Malaui (69,6%).
Nesses países, sete em cada dez mortes poderiam ser evitadas com mais
prevenção, melhor diagnóstico e acesso a tratamento.
As desigualdades também aparecem quando os países são agrupados por Índice de
Desenvolvimento Humano (IDH), um indicador da Organização das Nações Unidas
(ONU) que leva em consideração os níveis de saúde, educação e renda.
Nos países de baixo IDH, que significa pior qualidade de vida, seis em cada dez
(60,8%) mortes por câncer poderiam ter sido evitadas.
Em seguida, situam-se os grupos de IDH alto (57,7%), médio (49,6%) e muito alto
(40,5%). O Brasil é considerado um país de IDH alto.
A pesquisa revela que no grupo de países com baixo e médio IDH, o câncer de
colo de útero é o primeiro na lista de mortes evitáveis.
Já nos grupos de IDH alto e muito alto, esse tipo de câncer sequer aparece
entre os cinco principais tipos da doença em número de mortes evitáveis.
Outra forma de enxergar a disparidade entre os países é a diferença entre as
taxas de mortalidade por câncer do colo do útero. Em países com IDH muito alto,
a proporção é de 3,3 de vítimas da doença a cada 100 mil mulheres. Já nos de
IDH baixo, essa relação sobe para 16,3 por 100 mil.
Tribuna do Norte

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