Hoje, no Estado, a maioria dos
atendimentos – cerca de 70% – são para rebanhos leiteiros. No caso das vacas
leiteiras, a melhoria genética proporciona um salto na produção diária de
leite, que pode subir de médias inferiores a 5 litros para patamares entre 20 e
30 litros por animal, dependendo das condições de manejo adotadas na
propriedade. As bezerras nascidas de inseminação com sêmen de touros de alta
performance passam a compor um rebanho com linhagem superior, mais produtiva e
resiliente, com maior precocidade e capacidade de reprodução.
Já nos rebanhos de corte, os
bezerros apresentam ganho de peso acelerado, especialmente no período de
desmame, além de melhor conformação corporal, o que eleva o preço de venda e a
rentabilidade do criador. Esses animais geneticamente melhorados se tornam mais
valorizados no mercado, seja para abate, reposição ou formação de novos
plantéis. O resultado é um rebanho mais eficiente, adaptado às exigências do
mercado e capaz de sustentar economicamente a atividade rural de forma contínua
e competitiva.
De acordo com Zeca Melo,
superintendente do Sebrae-RN, o Leite & Genética é uma inovação que vem
transformando o Estado em referência bioeconômica. “É um projeto que surgiu
aqui no Rio Grande do Norte, já tem vários estados que operam, inclusive algumas
secretarias, mas nós somos precursores. É uma coisa fantástica. É
impressionante, parece coisa de outro mundo pensar que aqui dentro do Estado
temos mais de 40 mil animais que nasceram com alta linhagem dentro desse
programa”, conta.
O projeto utiliza como
principal tecnologia a inseminação artificial em tempo fixo (IATF), com
protocolos hormonais que sincronizam o cio das vacas. O processo é feito em
ciclos que envolvem visitas técnicas, exames ginecológicos, aplicação de
hormônios e acompanhamento da gestação, sempre com o apoio de veterinários
especializados e da estrutura móvel. Para o produtor, a contrapartida
representa apenas 30% do valor do pacote — os outros 70% são custeados pelo
Sebrae, que também fornece consultoria, coleta de solo, análise de leite e um
plano de ação personalizado.
Para os produtores que
contratam os pacotes, são disponibilizados catálogos de touros selecionados
para inseminação artificial, em parceria com o Instituto BioSistêmico (IBS),
como o Holandês e o Gir Leiteiro para os rebanhos leiteiros, além de raças como
Nelore, Nelore Mocho e Guzerá para os produtores de rebanhos de corte. A
primeira visita é feita com o “Rufião Móvel”, unidade que faz a avaliação
ginecológica do rebanho e inicia o protocolo hormonal. Em seguida, é a vez do
“Vaca Móvel”, que leva o material genético selecionado para a inseminação
artificial.
O produtor Alexandre Borges tem 40
animais nascidos a partir do projeto. Atualmente, produz 4,2 mil litros de
leite/semana | Foto: Magnus Nascimento
Tecnologia e inteligência
no campo
O analista técnico do
Sebrae-RN e coordenador do projeto, Luís Felipe dos Santos, diz que o programa
surgiu no com o objetivo de promover o acesso à inovação entre os pequenos
produtores. “Quando a gente visita esses produtores, vê muitos animais com baixa
produção de leite. Já encontramos propriedades com média de cinco litros por
vaca, quando o ideal seria o dobro ou até mais. Com esse projeto, queremos
mudar essa realidade. Hoje, temos uma produção diária de 500 mil litros de
leite no Estado, resultado que se relaciona diretamente com o impacto do
projeto, inclusive por meio da integração com laticínios e queijeiras”, pontua.
A metodologia foi desenvolvida
em parceria com o Instituto BioSistêmico (IBS), organização paulista
especializada em soluções tecnológicas para o agronegócio. “O IBS é executor do
projeto na prática. A gente faz desde a divulgação e captação dos produtores
até à execução do atendimento em campo”, explica Luiz Sartori, coordenador
técnico da instituição. Segundo ele, a execução contempla três etapas
principais: “Na primeira visita, fazemos a avaliação ginecológica e iniciamos a
sincronização hormonal; na segunda, realizamos a inseminação e coletamos dados
complementares, como solo e leite; na terceira, avaliamos o resultado da
inseminação e ressincronizamos os animais não gestantes”, detalha.
Foto: Magnus Nascimento
Programa impulsiona ganhos
na produtividade
Na fazenda Haras Inspiração,
no município de Monte Alegre, o médico e produtor rural Alexandre Borges vive o
dia a dia de uma pecuária baseada em tecnologia e planejamento empreendedor.
Com 140 cabeças, Borges encontrou no Projeto Leite & Genética um caminho
viável para profissionalizar a produção, melhorar os resultados econômicos e
promover impactos sociais diretos na região. “A vacaria é diferente do gado de
corte. Aqui a gente promove a vida. A vaca pare, a bezerra cresce, vira matriz.
Você gera renda, mas também emprega. Hoje, cinco famílias vivem diretamente do
que produzimos aqui”, relata.
Com 40 animais nascidos a
partir do projeto – as chamadas “filhas do Sebrae” – e novas prenhezes em
andamento, Alexandre pretende transformar a propriedade em referência de
produtividade. Atualmente, produz cerca de 4,2 mil litros de leite por semana e
projeta, com a entrada das novilhas geneticamente melhoradas na ordenha,
atingir de 6 mil a 7 mil litros por semana até o fim do ano. “Queremos alcançar
a marca de 800 litros de leite por dia no segundo semestre. Hoje estamos em
600/dia”. A perspectiva é finalizar 2025 produzindo 25 mil litros/mês, acima
dos atuais 16,8 mil mensais.
A operação na fazenda é feita
com racionalidade e controle. O leite é destinado, em grande parte, à produção
de queijos artesanais, com outra parte sendo vendida para um laticínio. O
sucesso reprodutivo também já rende frutos além do leite: bezerros nascidos na
propriedade foram vendidos para formação de touros em rebanhos de municípios
como Riachuelo, São Pedro e Mossoró. “É o projeto trazendo genética para a
minha casa, e eu espalhando essa genética pelo Estado”, resume.
Alexandre destaca ainda o
custo-benefício do projeto como um fator decisivo para a adesão e permanência.
“Tudo está incluso: sêmen, hormônios, veterinário, botijão de nitrogênio. Só aí
já é uma economia enorme. E o produtor só paga 30%, ainda pode parcelar no
cartão. É isso que faz o programa ser tão eficiente e acessível”, diz. A
praticidade do modelo, segundo ele, reduz barreiras para pequenos e médios
produtores. “É gratificante ver um animal nascer com potencial, saber que vai
virar matriz ou touro, que vai gerar renda e sustentar famílias. Isso não tem
preço”, diz.
A tecnologia utilizada permite
inseminar as vacas com maior precisão e controle. A escolha do sêmen é feita
com base em um catálogo de touros de alto padrão. Cada rebanho recebe uma
recomendação específica, a depender do objetivo do produtor: peso ao desmame,
habilidade materna ou produção de leite, por exemplo. O resultado é um salto de
produtividade. “Temos produtores que conseguiram elevar a taxa de prenhez para
até 90%. Depende muito também das estruturas das propriedades”, explica Luís
Felipe, coordenador do Leite e Genética.
Impacto na cadeia
econômica
Para o superintendente do
Sebrae-RN, o projeto vai além da inseminação e pode ser considerado uma
política de desenvolvimento. “Neste ano chegaremos a 330 com um investimento
direto nosso superior a R$ 2 milhões”, explica Zeca Melo. Segundo ele, o programa
é também uma porta de entrada para consultorias, capacitações e parcerias com
prefeituras, laticínios e cooperativas. “A inovação aqui não é só genética. É
social, é produtiva, é de gestão. Estamos falando de um ganha-ganha em cadeia”,
conclui.
De acordo com o Sindicato
das Indústrias de Laticínios e Produtos Derivados do Estado (SindLeite/RN), o
RN produz uma média diária de 500 mil litros de leite, número que guarda
relação direta com os resultados do programa do Sebrae-RN, diz Luís Felipe. “Os
números do projeto entram nessa conta, com certeza. Além disso, temos
laticínios e queijeiras que compram o leite desses pequenos produtores e, em
alguns casos, chegam a investir diretamente neles, pagando a contrapartida para
que participem do projeto e aumentem a produção. É uma relação onde todos
ganham”, frisa.
A estrutura do programa
contribui diretamente para esse escoamento. Como muitos produtores têm rebanhos
com genética defasada, baixa produtividade e dificuldades para investir em
melhoramento, o acesso à inseminação artificial em tempo fixo se tornou uma
ponte entre o atraso tecnológico e a competitividade. A partir do momento em
que a vaca passa a produzir mais, o volume de leite por propriedade aumenta e a
entrega regular aos laticínios se torna viável e sustentável. Isso representa
estabilidade na produção, garantia de compra e receita contínua.

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