domingo, 20 de abril de 2025

Projeto impulsiona agro com 40 mil animais de alta linhagem no RN

Com 40 mil animais nascidos a partir de protocolos de inseminação artificial e fertilização in vitro, dois mil produtores atendidos, presença em 72 municípios e um investimento de R$ 2 milhões apenas em 2025, o programa Leite & Genética, coordenado pelo Sebrae-RN, transformou-se em um vetor de inovação biotecnológica no campo potiguar. Criado há 13 anos no Rio Grande do Norte, o projeto subsidia até 70% do custo total de pacotes de serviços para pequenos e médios pecuaristas, o que proporciona acesso a técnicas de reprodução animal que antes estavam restritas a grandes criadores.

Hoje, no Estado, a maioria dos atendimentos – cerca de 70% – são para rebanhos leiteiros. No caso das vacas leiteiras, a melhoria genética proporciona um salto na produção diária de leite, que pode subir de médias inferiores a 5 litros para patamares entre 20 e 30 litros por animal, dependendo das condições de manejo adotadas na propriedade. As bezerras nascidas de inseminação com sêmen de touros de alta performance passam a compor um rebanho com linhagem superior, mais produtiva e resiliente, com maior precocidade e capacidade de reprodução.

Já nos rebanhos de corte, os bezerros apresentam ganho de peso acelerado, especialmente no período de desmame, além de melhor conformação corporal, o que eleva o preço de venda e a rentabilidade do criador. Esses animais geneticamente melhorados se tornam mais valorizados no mercado, seja para abate, reposição ou formação de novos plantéis. O resultado é um rebanho mais eficiente, adaptado às exigências do mercado e capaz de sustentar economicamente a atividade rural de forma contínua e competitiva.

De acordo com Zeca Melo, superintendente do Sebrae-RN, o Leite & Genética é uma inovação que vem transformando o Estado em referência bioeconômica. “É um projeto que surgiu aqui no Rio Grande do Norte, já tem vários estados que operam, inclusive algumas secretarias, mas nós somos precursores. É uma coisa fantástica. É impressionante, parece coisa de outro mundo pensar que aqui dentro do Estado temos mais de 40 mil animais que nasceram com alta linhagem dentro desse programa”, conta.

O projeto utiliza como principal tecnologia a inseminação artificial em tempo fixo (IATF), com protocolos hormonais que sincronizam o cio das vacas. O processo é feito em ciclos que envolvem visitas técnicas, exames ginecológicos, aplicação de hormônios e acompanhamento da gestação, sempre com o apoio de veterinários especializados e da estrutura móvel. Para o produtor, a contrapartida representa apenas 30% do valor do pacote — os outros 70% são custeados pelo Sebrae, que também fornece consultoria, coleta de solo, análise de leite e um plano de ação personalizado.

Para os produtores que contratam os pacotes, são disponibilizados catálogos de touros selecionados para inseminação artificial, em parceria com o Instituto BioSistêmico (IBS), como o Holandês e o Gir Leiteiro para os rebanhos leiteiros, além de raças como Nelore, Nelore Mocho e Guzerá para os produtores de rebanhos de corte. A primeira visita é feita com o “Rufião Móvel”, unidade que faz a avaliação ginecológica do rebanho e inicia o protocolo hormonal. Em seguida, é a vez do “Vaca Móvel”, que leva o material genético selecionado para a inseminação artificial.

O produtor Alexandre Borges tem 40 animais nascidos a partir do projeto. Atualmente, produz 4,2 mil litros de leite/semana | Foto: Magnus Nascimento

Tecnologia e inteligência no campo

O analista técnico do Sebrae-RN e coordenador do projeto, Luís Felipe dos Santos, diz que o programa surgiu no com o objetivo de promover o acesso à inovação entre os pequenos produtores. “Quando a gente visita esses produtores, vê muitos animais com baixa produção de leite. Já encontramos propriedades com média de cinco litros por vaca, quando o ideal seria o dobro ou até mais. Com esse projeto, queremos mudar essa realidade. Hoje, temos uma produção diária de 500 mil litros de leite no Estado, resultado que se relaciona diretamente com o impacto do projeto, inclusive por meio da integração com laticínios e queijeiras”, pontua.

A metodologia foi desenvolvida em parceria com o Instituto BioSistêmico (IBS), organização paulista especializada em soluções tecnológicas para o agronegócio. “O IBS é executor do projeto na prática. A gente faz desde a divulgação e captação dos produtores até à execução do atendimento em campo”, explica Luiz Sartori, coordenador técnico da instituição. Segundo ele, a execução contempla três etapas principais: “Na primeira visita, fazemos a avaliação ginecológica e iniciamos a sincronização hormonal; na segunda, realizamos a inseminação e coletamos dados complementares, como solo e leite; na terceira, avaliamos o resultado da inseminação e ressincronizamos os animais não gestantes”, detalha.

Foto: Magnus Nascimento

Programa impulsiona ganhos na produtividade

Na fazenda Haras Inspiração, no município de Monte Alegre, o médico e produtor rural Alexandre Borges vive o dia a dia de uma pecuária baseada em tecnologia e planejamento empreendedor. Com 140 cabeças, Borges encontrou no Projeto Leite & Genética um caminho viável para profissionalizar a produção, melhorar os resultados econômicos e promover impactos sociais diretos na região. “A vacaria é diferente do gado de corte. Aqui a gente promove a vida. A vaca pare, a bezerra cresce, vira matriz. Você gera renda, mas também emprega. Hoje, cinco famílias vivem diretamente do que produzimos aqui”, relata.

Com 40 animais nascidos a partir do projeto – as chamadas “filhas do Sebrae” – e novas prenhezes em andamento, Alexandre pretende transformar a propriedade em referência de produtividade. Atualmente, produz cerca de 4,2 mil litros de leite por semana e projeta, com a entrada das novilhas geneticamente melhoradas na ordenha, atingir de 6 mil a 7 mil litros por semana até o fim do ano. “Queremos alcançar a marca de 800 litros de leite por dia no segundo semestre. Hoje estamos em 600/dia”. A perspectiva é finalizar 2025 produzindo 25 mil litros/mês, acima dos atuais 16,8 mil mensais.

A operação na fazenda é feita com racionalidade e controle. O leite é destinado, em grande parte, à produção de queijos artesanais, com outra parte sendo vendida para um laticínio. O sucesso reprodutivo também já rende frutos além do leite: bezerros nascidos na propriedade foram vendidos para formação de touros em rebanhos de municípios como Riachuelo, São Pedro e Mossoró. “É o projeto trazendo genética para a minha casa, e eu espalhando essa genética pelo Estado”, resume.

Alexandre destaca ainda o custo-benefício do projeto como um fator decisivo para a adesão e permanência. “Tudo está incluso: sêmen, hormônios, veterinário, botijão de nitrogênio. Só aí já é uma economia enorme. E o produtor só paga 30%, ainda pode parcelar no cartão. É isso que faz o programa ser tão eficiente e acessível”, diz. A praticidade do modelo, segundo ele, reduz barreiras para pequenos e médios produtores. “É gratificante ver um animal nascer com potencial, saber que vai virar matriz ou touro, que vai gerar renda e sustentar famílias. Isso não tem preço”, diz.

A tecnologia utilizada permite inseminar as vacas com maior precisão e controle. A escolha do sêmen é feita com base em um catálogo de touros de alto padrão. Cada rebanho recebe uma recomendação específica, a depender do objetivo do produtor: peso ao desmame, habilidade materna ou produção de leite, por exemplo. O resultado é um salto de produtividade. “Temos produtores que conseguiram elevar a taxa de prenhez para até 90%. Depende muito também das estruturas das propriedades”, explica Luís Felipe, coordenador do Leite e Genética.

Impacto na cadeia econômica

Para o superintendente do Sebrae-RN, o projeto vai além da inseminação e pode ser considerado uma política de desenvolvimento. “Neste ano chegaremos a 330 com um investimento direto nosso superior a R$ 2 milhões”, explica Zeca Melo. Segundo ele, o programa é também uma porta de entrada para consultorias, capacitações e parcerias com prefeituras, laticínios e cooperativas. “A inovação aqui não é só genética. É social, é produtiva, é de gestão. Estamos falando de um ganha-ganha em cadeia”, conclui.

De acordo com o Sindicato das Indústrias de Laticínios e Produtos Derivados do Estado (SindLeite/RN), o RN produz uma média diária de 500 mil litros de leite, número que guarda relação direta com os resultados do programa do Sebrae-RN, diz Luís Felipe. “Os números do projeto entram nessa conta, com certeza. Além disso, temos laticínios e queijeiras que compram o leite desses pequenos produtores e, em alguns casos, chegam a investir diretamente neles, pagando a contrapartida para que participem do projeto e aumentem a produção. É uma relação onde todos ganham”, frisa.

A estrutura do programa contribui diretamente para esse escoamento. Como muitos produtores têm rebanhos com genética defasada, baixa produtividade e dificuldades para investir em melhoramento, o acesso à inseminação artificial em tempo fixo se tornou uma ponte entre o atraso tecnológico e a competitividade. A partir do momento em que a vaca passa a produzir mais, o volume de leite por propriedade aumenta e a entrega regular aos laticínios se torna viável e sustentável. Isso representa estabilidade na produção, garantia de compra e receita contínua.

Ainda segundo Zeca Melo, esse efeito multiplicador do projeto é estratégico. “Hoje temos cerca de 40 queijeiras que participam do programa. Para manter a qualidade do queijo, é preciso um leite de qualidade. E isso só se consegue com genética, sanidade, nutrição e manejo adequado. Por isso, o Leite & Genética é mais do que um projeto reprodutivo, ele é um pilar para o desenvolvimento rural integrado do estado”, afirma. “A iniciativa contribui para a valorização dos produtos derivados, como queijos, doces e bebidas lácteas, muitos deles com potencial de inserção em diversos mercados”, complementa.

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