sábado, 14 de fevereiro de 2026

Modal marítimo detém 86,6% do valor exportado pelo RN em 2025

Concentração das exportações pelo modal marítimo reflete a posição geográfica do estado e a predominância das commodities entre os produtos exportados | Foto: Magnus Nascimento

O transporte marítimo segue como protagonista na logística de exportações do Rio Grande do Norte. Em 2025, o modal concentrou 86,6% do valor total exportado pelo Estado, somando US$ 941,1 milhões e movimentando um volume de 2,5 bilhões de quilogramas líquidos. A participação é cerca de sete vezes maior que a registrada pela via aérea, segundo meio mais utilizado no transporte de cargas, que respondeu por US$ 132,7 milhões do valor enviado para o mercado externo. Os dados são do estudo “Balança Comercial: análise de 2016 a 2025”, realizado pelo Sebrae/RN.

De acordo com o levantamento, o Rio Grande do Norte exportou US$ 1,086 bilhão em 2025. Além da via marítima e aérea, também responderam pelo volume de exportações o modal rodoviário (US$ 5,8 milhões), em mãos (US$ 4,8 milhões) e Lacustre (US$ 1,7 milhão), com percentuais de participação abaixo de 1%. Outros US$ 44,8 mil foram exportados por via não declarada, sendo puxado pelo tecido de algodão.

O professor Carlos Alberto Freire Medeiros, do Departamento de Ciências Administrativas da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (Depad/UFRN), explica que a concentração das exportações pelo modal marítimo é um reflexo da posição geográfica do Estado separada dos mercados mundiais e pela predominância das commodities entre os produtos exportados. Para ele, essa dependência não é um problema, mas eleva riscos sistêmicos.

Homem sentado a mesa com computador

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Professor Carlos Alberto (UFRN) | Foto: Cedida

“Quando quase tudo passa por um único modal, qualquer disrupção afeta receita, fluxo de caixa e planejamento: mudança de rota de armadores, janelas de atracação, indisponibilidade de navio, custos portuários, filas, inspeções e até eventos climáticos”, aponta o professor.

A gerente da unidade de Gestão Estratégica do Sebrae-RN, Alinne Dantas, que coordenou a elaboração do estudo, traz uma perspectiva semelhante. Segundo ela, o transporte marítimo, além de ser a opção de menor custo, é a alternativa mais apropriada para o perfil das mercadorias exportadas pelo RN. Ela defende, nesse sentido, estratégias voltadas à ampliação, capacidade, previsibilidade e alternativas ao modal, mas sem focar em sua substituição.

“O comércio internacional de combustíveis, minérios, produtos agrícolas e demais cargas massificadas se estrutura, no mundo todo, sobre rotas marítimas e infraestrutura portuária justamente porque o peso, o volume e as condições de acondicionamento tornam o navio o meio mais eficiente para esse tipo de fluxo”, explica Alinne.

O diretor-presidente da Companhia Docas do Rio Grande do Norte (Codern), Paulo Henrique Macedo, também avalia o destaque do modal marítimo como positivo para a logística das exportações locais. Isso porque o cenário reforça a importância estratégica do Porto de Natal para o desenvolvimento do Estado. O reflexo disso são os recentes investimentos para o equipamento, incluindo a dragagem do canal de acesso e as defensas da Ponte Newton Navarro.

Para o setor de fruticultura, que puxa parte significativa das exportações do Estado, a maior participação do modal marítimo é positiva. É o que avalia o presidente do Comitê Executivo de Fruticultura do Estado (Coex/RN), Fabio Queiroga. Segundo ele, o modal é o mais adequado para o transporte da maior parte das frutas exportadas do território potiguar para o mercado externo.

Entre os principais países que absorveram frutas do Rio Grande do Norte em 2025, conforme o levantamento do Sebrae, estão Canadá, Portugal, Reino Unido, Holanda e Espanha. Nos Países Baixos (Holanda), por exemplo, o melão foi o principal item exportado, movimentando US$ 147,2 milhões ao longo do ano.

Crescimento das exportações via Natal

O estudo do Sebrae/RN destaca, além dos principais meios para envio de mercadorias para o exterior, o crescimento dos pontos de despacho. A Inspetoria da Receita Federal (IRF) de Natal, por exemplo, apresentou participação de 62,68% em 2025, com 680,9 milhões de kg movimentados no local. O valor representa um crescimento de aproximadamente 76% em relação a 2023, quando a participação foi de 49,49%, com 386,7 milhões de kg movimentados.

O fortalecimento da via Natal, de acordo com o levantamento, foi estimulado por mudanças estratégicas no setor de fruticultura. É o caso da contratação de navios reefer (frigoríficos) por grandes players, como a Agrícola Famosa, que otimizou os custos operacionais em relação ao Porto de Pecém (CE) e favoreceu uma migração de volume para o Porto de Natal.

O presidente do Coex/RN, Fabio Queiroga, avalia que a utilização de navios reefers ampliou as exportações de frutas no Rio Grande do Norte por meio do Porto de Natal. “Como o volume dessa empresa é significativo dentro do produzido pelo Estado, trouxe um grande benefício, devolvendo a esse porto grandes volumes que foram movimentados antes da saída da companhia CMA, que já foi a principal responsável pelo transporte de frutas do Estado”, avalia.

Conforme análise de Paulo Henrique Macedo, diretor-presidente da Codern, a parceria da companhia com a Agrícola Famosa tem favorecido a modernização na operação de frutas por pallets e contêineres. “As grandes mudanças foram feitas nesse modelo de operação e também se deve a eficiência dos trabalhadores. As frutas têm chegado com excelência e qualidade ao destino Europeu. Terminaremos este ano ultrapassando o último volume de exportação da empresa anterior”, destaca.

O professor Carlos Alberto Freire Medeiros também enxerga a migração para a utilização de navios tipo reefer como estratégica. De acordo com ele, a mudança pode se tornar uma vantagem estrutural sustentável para o Porto de Natal, mas isso depende de alguns investimentos para atender não apenas o grande embarcador, mas um ecossistema de exportadores locais.

As soluções passam, dentre outros pontos, pela oferta de capacidade adequada e estável de energia e tomadas reefer, processos rápidos e previsíveis de gate/berço e integração eficiente com os órgãos de controle. Somado às necessidades logísticas, o Porto de Natal precisa consolidar um padrão de serviço claro (ex: tempo de operação) e oferecer condições comerciais competitivas em relação a Pecém/Mucuripe.

“Se esses fatores forem atendidos, a migração deixa de ser apenas uma resposta tática à saída da CMA CGM e passa a representar um reposicionamento estrutural do RN na exportação de perecíveis, com custo total competitivo e maior retenção de valor para a indústria do Rio Grande do Norte”, defende.

Números

680,9 mi Foi a quantidade de quilos despachados pela Inspetoria da Receita Federal em Natal em 2025

12,2% Foi o percentual exportado via modal aéreo no RN em 2025 do total das exportações potiguares

Participação do modal aéreo nas exportações

Se por um lado as exportações via transporte marítimo representam o principal modal na logística do estado, por outro, os demais meios desempenham um papel complementar. Fábio Queiroga, do Coex/RN, explica que algumas frutas são mais sensíveis ao tempo de viagem e exigem o transporte aéreo, como o mamão. De acordo com ele, esse tipo de transporte tem um custo logístico maior e o Aeroporto de Natal conta com algumas limitações.

Em 2025, a via aérea respondeu por 12,2% do valor das operações realizadas, sendo o Aeroporto de Natal responsável pelas exportações de US$ 113.106 e 7.028 kg líquidos. Alinne Dantas, do Sebrae/RN, afirma que o modal é concentrado em exportações de poucos itens e de baixo volume financeiro.

Mulher posando para foto em frente a parede azul

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Alinne Dantas, gerente (Sebrae) | Foto: Cedida

“Parte relevante das cargas aéreas de maior valor agregado acaba sendo escoada por hubs logísticos mais estruturados fora do estado, especialmente quando há necessidade de maior conectividade internacional e oferta de voos cargueiros”, esclarece.

Segundo Fábio Queiroga, o volume de frutas que precisam do modal aéreo ainda não é suficiente para justificar linhas dedicadas exclusivamente para essa finalidade. “É melhor transportar para outros estados com grande volume de transporte de cargas aéreas, onde o valor é mais competitivo”, explica.

Em resposta à TRIBUNA DO NORTE, a Zurich Airport Brasil, concessionária do Aeroporto de Natal, observa que tem atuado para criar condições a fim de ampliar a competitividade logística do RN no modal aéreo e na prospecção de pequenos e médios importadores para gerar volumes e atrair rotas cargueiras.

“Atualmente, o principal fator que limita o crescimento de carga internacional no Aeroporto de Natal é a baixa presença de importadores no Estado. Para que uma rota cargueira se sustente, a importação é essencial, uma vez que é ela que cobre a maior parte dos custos operacionais da cia aérea para um voo dedicado”, destaca.

Soluções

Apesar das concentrações de exportações em alguns modais, o professor Carlos Alberto Freire Medeiros defende que a prioridade logística do RN nos próximos anos deve focar na integração de modais e consolidação de estratégias que funcionem no curto prazo. Aliado a isso, ele destaca a importância de preparar a infraestrutura necessária para diversificar a economia e reduzir custos estruturais de exportação no médio prazo.

Já Alinne Dantas acredita ser fundamental continuar elevando o desempenho do Porto de Natal e fortalecer o aeroporto da capital. “Para isso, seriam decisivos um terminal de cargas mais robusto, com integração com transportadoras e companhias aéreas, além de avanços na facilitação de comércio. Em paralelo, políticas de promoção e inclusão exportadora ajudam a ampliar a base de empresas aptas a exportar e a gerar fluxo contínuo de operações, justificando a expansão da oferta logística”, destaca a gerente.

Kayllani Lima Silva/Repórter

Tribuna do Norte

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