Concentração das exportações pelo modal marítimo reflete a posição geográfica do estado e a predominância das commodities entre os produtos exportados | Foto: Magnus Nascimento
O transporte marítimo segue
como protagonista na logística de exportações do Rio Grande do Norte. Em 2025,
o modal concentrou 86,6% do valor total exportado pelo Estado, somando US$
941,1 milhões e movimentando um volume de 2,5 bilhões de quilogramas líquidos.
A participação é cerca de sete vezes maior que a registrada pela via aérea,
segundo meio mais utilizado no transporte de cargas, que respondeu por US$
132,7 milhões do valor enviado para o mercado externo. Os dados são do estudo
“Balança Comercial: análise de 2016 a 2025”, realizado pelo Sebrae/RN.
De acordo com o levantamento,
o Rio Grande do Norte exportou US$ 1,086 bilhão em 2025. Além da via marítima e
aérea, também responderam pelo volume de exportações o modal rodoviário (US$
5,8 milhões), em mãos (US$ 4,8 milhões) e Lacustre (US$ 1,7 milhão), com
percentuais de participação abaixo de 1%. Outros US$ 44,8 mil foram exportados
por via não declarada, sendo puxado pelo tecido de algodão.
O professor Carlos Alberto
Freire Medeiros, do Departamento de Ciências Administrativas da Universidade
Federal do Rio Grande do Norte (Depad/UFRN), explica que a concentração das
exportações pelo modal marítimo é um reflexo da posição geográfica do Estado
separada dos mercados mundiais e pela predominância das commodities entre os
produtos exportados. Para ele, essa dependência não é um problema, mas eleva
riscos sistêmicos.
Professor Carlos Alberto (UFRN) |
Foto: Cedida
“Quando quase tudo passa por
um único modal, qualquer disrupção afeta receita, fluxo de caixa e
planejamento: mudança de rota de armadores, janelas de atracação,
indisponibilidade de navio, custos portuários, filas, inspeções e até eventos
climáticos”, aponta o professor.
A gerente da unidade de Gestão
Estratégica do Sebrae-RN, Alinne Dantas, que coordenou a elaboração do estudo,
traz uma perspectiva semelhante. Segundo ela, o transporte marítimo, além de
ser a opção de menor custo, é a alternativa mais apropriada para o perfil das
mercadorias exportadas pelo RN. Ela defende, nesse sentido, estratégias
voltadas à ampliação, capacidade, previsibilidade e alternativas ao modal, mas
sem focar em sua substituição.
“O comércio internacional de
combustíveis, minérios, produtos agrícolas e demais cargas massificadas se
estrutura, no mundo todo, sobre rotas marítimas e infraestrutura portuária
justamente porque o peso, o volume e as condições de acondicionamento tornam o
navio o meio mais eficiente para esse tipo de fluxo”, explica Alinne.
O diretor-presidente da
Companhia Docas do Rio Grande do Norte (Codern), Paulo Henrique Macedo, também
avalia o destaque do modal marítimo como positivo para a logística das
exportações locais. Isso porque o cenário reforça a importância estratégica do
Porto de Natal para o desenvolvimento do Estado. O reflexo disso são os
recentes investimentos para o equipamento, incluindo a dragagem do canal de
acesso e as defensas da Ponte Newton Navarro.
Para o setor de fruticultura,
que puxa parte significativa das exportações do Estado, a maior participação do
modal marítimo é positiva. É o que avalia o presidente do Comitê Executivo de
Fruticultura do Estado (Coex/RN), Fabio Queiroga. Segundo ele, o modal é o mais
adequado para o transporte da maior parte das frutas exportadas do território
potiguar para o mercado externo.
Entre os principais países que
absorveram frutas do Rio Grande do Norte em 2025, conforme o levantamento do
Sebrae, estão Canadá, Portugal, Reino Unido, Holanda e Espanha. Nos Países
Baixos (Holanda), por exemplo, o melão foi o principal item exportado, movimentando
US$ 147,2 milhões ao longo do ano.
Crescimento das exportações
via Natal
O estudo do Sebrae/RN destaca,
além dos principais meios para envio de mercadorias para o exterior, o
crescimento dos pontos de despacho. A Inspetoria da Receita Federal (IRF) de
Natal, por exemplo, apresentou participação de 62,68% em 2025, com 680,9 milhões
de kg movimentados no local. O valor representa um crescimento de
aproximadamente 76% em relação a 2023, quando a participação foi de 49,49%, com
386,7 milhões de kg movimentados.
O fortalecimento da via Natal,
de acordo com o levantamento, foi estimulado por mudanças estratégicas no setor
de fruticultura. É o caso da contratação de navios reefer (frigoríficos) por
grandes players, como a Agrícola Famosa, que otimizou os custos operacionais em
relação ao Porto de Pecém (CE) e favoreceu uma migração de volume para o Porto
de Natal.
O presidente do Coex/RN, Fabio
Queiroga, avalia que a utilização de navios reefers ampliou as exportações de
frutas no Rio Grande do Norte por meio do Porto de Natal. “Como o volume dessa
empresa é significativo dentro do produzido pelo Estado, trouxe um grande
benefício, devolvendo a esse porto grandes volumes que foram movimentados antes
da saída da companhia CMA, que já foi a principal responsável pelo transporte
de frutas do Estado”, avalia.
Conforme análise de Paulo
Henrique Macedo, diretor-presidente da Codern, a parceria da companhia com a
Agrícola Famosa tem favorecido a modernização na operação de frutas por pallets
e contêineres. “As grandes mudanças foram feitas nesse modelo de operação e
também se deve a eficiência dos trabalhadores. As frutas têm chegado com
excelência e qualidade ao destino Europeu. Terminaremos este ano ultrapassando
o último volume de exportação da empresa anterior”, destaca.
O professor Carlos Alberto
Freire Medeiros também enxerga a migração para a utilização de navios tipo
reefer como estratégica. De acordo com ele, a mudança pode se tornar uma
vantagem estrutural sustentável para o Porto de Natal, mas isso depende de alguns
investimentos para atender não apenas o grande embarcador, mas um ecossistema
de exportadores locais.
As soluções passam, dentre
outros pontos, pela oferta de capacidade adequada e estável de energia e
tomadas reefer, processos rápidos e previsíveis de gate/berço e integração
eficiente com os órgãos de controle. Somado às necessidades logísticas, o Porto
de Natal precisa consolidar um padrão de serviço claro (ex: tempo de operação)
e oferecer condições comerciais competitivas em relação a Pecém/Mucuripe.
“Se esses fatores forem
atendidos, a migração deixa de ser apenas uma resposta tática à saída da CMA
CGM e passa a representar um reposicionamento estrutural do RN na exportação de
perecíveis, com custo total competitivo e maior retenção de valor para a indústria
do Rio Grande do Norte”, defende.
Números
680,9 mi Foi a quantidade de
quilos despachados pela Inspetoria da Receita Federal em Natal em 2025
12,2% Foi o percentual
exportado via modal aéreo no RN em 2025 do total das exportações potiguares
Participação do modal aéreo
nas exportações
Se por um lado as exportações
via transporte marítimo representam o principal modal na logística do estado,
por outro, os demais meios desempenham um papel complementar. Fábio Queiroga,
do Coex/RN, explica que algumas frutas são mais sensíveis ao tempo de viagem e
exigem o transporte aéreo, como o mamão. De acordo com ele, esse tipo de
transporte tem um custo logístico maior e o Aeroporto de Natal conta com
algumas limitações.
Em 2025, a via aérea respondeu
por 12,2% do valor das operações realizadas, sendo o Aeroporto de Natal
responsável pelas exportações de US$ 113.106 e 7.028 kg líquidos. Alinne
Dantas, do Sebrae/RN, afirma que o modal é concentrado em exportações de poucos
itens e de baixo volume financeiro.
Alinne Dantas, gerente (Sebrae) |
Foto: Cedida
“Parte relevante das cargas
aéreas de maior valor agregado acaba sendo escoada por hubs logísticos mais
estruturados fora do estado, especialmente quando há necessidade de maior
conectividade internacional e oferta de voos cargueiros”, esclarece.
Segundo Fábio Queiroga, o
volume de frutas que precisam do modal aéreo ainda não é suficiente para
justificar linhas dedicadas exclusivamente para essa finalidade. “É melhor
transportar para outros estados com grande volume de transporte de cargas
aéreas, onde o valor é mais competitivo”, explica.
Em resposta à TRIBUNA DO
NORTE, a Zurich Airport Brasil, concessionária do Aeroporto de Natal, observa
que tem atuado para criar condições a fim de ampliar a competitividade
logística do RN no modal aéreo e na prospecção de pequenos e médios
importadores para gerar volumes e atrair rotas cargueiras.
“Atualmente, o principal fator
que limita o crescimento de carga internacional no Aeroporto de Natal é a baixa
presença de importadores no Estado. Para que uma rota cargueira se sustente, a
importação é essencial, uma vez que é ela que cobre a maior parte dos custos
operacionais da cia aérea para um voo dedicado”, destaca.
Soluções
Apesar das concentrações de
exportações em alguns modais, o professor Carlos Alberto Freire Medeiros
defende que a prioridade logística do RN nos próximos anos deve focar na
integração de modais e consolidação de estratégias que funcionem no curto
prazo. Aliado a isso, ele destaca a importância de preparar a infraestrutura
necessária para diversificar a economia e reduzir custos estruturais de
exportação no médio prazo.
Já Alinne Dantas acredita ser
fundamental continuar elevando o desempenho do Porto de Natal e fortalecer o
aeroporto da capital. “Para isso, seriam decisivos um terminal de cargas mais
robusto, com integração com transportadoras e companhias aéreas, além de
avanços na facilitação de comércio. Em paralelo, políticas de promoção e
inclusão exportadora ajudam a ampliar a base de empresas aptas a exportar e a
gerar fluxo contínuo de operações, justificando a expansão da oferta
logística”, destaca a gerente.
Kayllani Lima Silva/Repórter
Tribuna do Norte

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