domingo, 8 de fevereiro de 2026

Editorial: O dever da transição em um Estado engessado

Foto: Arquivo TN

O Rio Grande do Norte pode se ver nos próximos meses diante de uma situação institucional inédita. A eventual desincompatibilização da governadora Fátima Bezerra (PT) para disputar o Senado, somada à manifestação expressa do vice-governador Walter Alves (MDB) de que não assumirá o cargo, abre caminho para a escolha indireta do governador pela Assembleia Legislativa, até que se consuma o período dos atuais mandatos como determina a Constituição. O rito está definido. O contexto, no entanto, impõe responsabilidade redobrada.

Não se trata de uma transição protocolar nem de um governo simbólico. Quem assumir o Executivo encontrará um Estado com severas restrições fiscais. Os dados oficiais do Relatório de Gestão Fiscal mostram que, ao fim de 2025, a despesa total com pessoal alcançou 56,41% da Receita Corrente Líquida, bem acima do limite máximo de 49% previsto na Lei de Responsabilidade Fiscal. Isso aciona automaticamente vedações à gestão, como a concessão de reajustes, criação de cargos ou ampliação de despesas dessa natureza.

O governo sustenta que houve crescimento da receita e redução da despesa com pessoal em relação a 2024. Ainda que esses movimentos tenham ocorrido, o próprio relatório demonstra a existência de despesas de pessoal não executadas orçamentariamente, em função de insuficiência de dotação, referentes a salários e 13º, que ficaram para ser regularizadas em exercícios posteriores. Mesmo sem isso, o ajuste foi insuficiente para reverter o problema estrutural. O elevado comprometimento com a folha não surgiu agora nem pode ser atribuído a um único governo. Trata-se de um desequilíbrio persistente, que atravessa gestões sucessivas e que, há anos, não encontra solução efetiva.

A situação financeira reforça o diagnóstico. Os restos a pagar somam cerca de R$ 1,4 bilhão, enquanto a disponibilidade de caixa líquida, após essas obrigações, é negativa em aproximadamente R$ 3 bilhões. Soma-se a isso um déficit previdenciário superior a R$ 2 bilhões no regime próprio, o que consome parte relevante das receitas correntes e reduz a margem de manobra do Executivo.

Ainda no campo do endividamento, a deterioração recente merece atenção. A dívida consolidada do Estado cresceu de forma significativa no último quadrimestre de 2025, impulsionada sobretudo pelo aumento do estoque de precatórios vencidos e não pagos que alcançou cerca de R$ 5,6 bilhões. Esses valores correspondem a obrigações que já deveriam ter sido quitadas e que passaram a integrar de maneira mais pesada o passivo estadual. Embora se trate de dívida de longo prazo, seu pagamento obedece a cronogramas constitucionais que impõem desembolsos anuais obrigatórios, com impacto direto sobre o caixa.

Nem mesmo as áreas constitucionalmente protegidas operam com folga. Em 2025, os gastos com ações e serviços públicos de saúde ficaram em 12,37% da receita, pouco acima do mínimo constitucional de 12%, enquanto a aplicação em educação foi de 25,1%, praticamente no piso de 25%. O cumprimento formal dessas exigências revela um orçamento pressionado, no qual qualquer variação adversa exige contingenciamentos ou remanejamentos sensíveis.

É nesse cenário que a Assembleia Legislativa poderá ser chamada a escolher, de forma indireta, quem conduzirá o Estado até o fim do atual ciclo. A decisão não pode ser orientada por acomodações políticas nem por interesses eleitorais. Tampouco pode recair sobre nomes com impedimentos jurídicos ou passivos capazes de gerar questionamentos e sucessivas trocas no comando do Executivo, o que seria especialmente danoso em um ambiente fiscal já fragilizado.

Por isso a responsabilidade da escolha. Quem assumir a partir de abril, caso a desincompatibilização se confirme, não terá a missão de consertar o Estado. Essa caberá ao próximo eleito. Seu dever será conduzir o Rio Grande do Norte com previsibilidade fiscal, respeito aos limites legais e gestão austera. Evitar improvisos ou acomodações políticas será essencial. O objetivo é entregar uma transição estável, preservar as finanças públicas e pavimentar o caminho para o desenvolvimento sustentável do Rio Grande do Norte.

Tribuna do Norte

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