Foto : Marcelo Camargo/Agência Brasil
A prioridade dada pelo governo
federal à votação, em pleno ano eleitoral, da proposta de mudança na jornada de
trabalho coloca no centro do debate uma pauta sensível e legítima, mas também
preocupante pelo tanto de demagogia que pode embutir sem uma análise séria e
fundamentada sobre suas consequências. O problema não é discutir a melhoria da
qualidade de vida dos trabalhadores, mas pautar uma mudança de alto impacto
econômico e social, com forte carga eleitoral, ignorando alertas técnicos
consistentes sobre seus possíveis efeitos colaterais.
Estudos recentes ajudam a dimensionar o risco. Simulações do Instituto Brasileiro de Economia da FGV indicam que uma redução abrupta da jornada máxima semanal para 36 horas, sem ajuste salarial, pode provocar perdas no PIB que variam entre 3,5 e 6 pontos, mesmo em cenários otimistas de ganho de produtividade. O IBRE alerta que o aumento do custo do trabalho por hora pode levar empresas a reduzir contratações, substituir trabalho formal por informal ou postergar investimentos, afetando negativamente o mercado formal.
O Centro de Liderança Pública projeta a possibilidade de perda superior a 600
mil empregos formais, com impacto negativo de até 0,7 por cento no PIB.
Comércio, construção civil e agropecuária aparecem entre os setores mais
afetados, justamente por serem intensivos em mão de obra e com menor margem
para absorver aumentos abruptos de custos.
Além disso, setores exportadores podem sofrer com a medida. Dados da O Brasil
ocupa apenas a 94ª posição em produtividade entre 184 países e territórios
analisados pela Organização Internacional do Trabalho. O indicador, calculado
pela divisão do PIB pelo total de horas efetivamente trabalhadas, mede quanto
cada hora de trabalho gera de riqueza. Mesmo trabalhando, em média, 38,9 horas
semanais, o país produz relativamente pouco por hora quando comparado aos
integrantes do G7, cuja produtividade é, em alguns casos, mais que o dobro da
brasileira. Isso significa que qualquer redução de jornada, sem avanço
consistente na eficiência econômica, tende a elevar custos unitários e reduzir
competitividade internacional.
Os defensores da redução da jornada argumentam que a mudança pode trazer ganhos
de bem-estar, saúde e produtividade. Experiências internacionais indicam
redução de absenteísmo, melhora da saúde mental e aumento da produtividade por
hora em determinados setores.
Dados da OCDE mostram que
países com jornadas médias mais curtas tendem a apresentar maior eficiência,
sobretudo quando a transição ocorre de forma gradual e negociada. O apelo
social da proposta reflete, portanto, uma demanda real por melhor equilíbrio entre
trabalho e vida pessoal.
Mas é preciso considerar que reduzir horas trabalhadas mantendo salários eleva
automaticamente o custo do trabalho por hora. Em alguns casos, empresas
conseguem absorver esse choque por meio de reorganização interna ou tecnologia.
Em muitos outros, especialmente em setores com operação contínua, custos
maiores pressionam preços, margens ou empregos.
Shoppings centers, prestadores de serviços, comércio varejista, hotelaria e
saúde dependem de jornadas ampliadas, escalas flexíveis e funcionamento em fins
de semana. A imposição legal de modelos rígidos, como a lógica da semana 4×3,
exigiria a contratação de mais trabalhadores para manter o nível de serviço.
Isso significa mais custos. Se o mercado absorver, o consumidor pagará mais. Se
não absorver, o desfecho tende a ser fechamento de operações e desemprego.
Entidades como a Fecomercio chamam atenção para outro ponto crucial, a
legislação brasileira já permite ampla flexibilidade por meio da negociação
coletiva. A jornada média praticada no país é inferior ao teto constitucional,
e muitos setores já operam com modelos diferenciados construídos ao longo do
tempo. Engessar essas relações por lei pode destruir arranjos que hoje
funcionam.
Não se pode negar a importância do debate, mas é preciso reconhecer sua
complexidade. Transformar a jornada de trabalho em bandeira eleitoral pode
render aplausos no curto prazo, mas decisões tomadas sem calibragem econômica
tendem a cobrar seu preço justamente de quem se pretende proteger.
Tribuna do Norte

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