Apesar do preço nas alturas, a cozinheira Raimunda Maria não abre mão do café tradicional: “Pode ser o preço que for, eu compro” | Foto: Magnus Nascimento
O consumo de café no Brasil
registrou queda de -2,31% entre novembro de 2024 e outubro de 2025 em
comparação com o mesmo período anterior, de acordo com dados da Associação
Brasileira da Indústria de Café (Abic) divulgados na semana passada. A razão
para a redução está no alto preço do produto, que registrou aumento de 5,8%
entre janeiro e dezembro de 2025. No Nordeste, a queda foi de -1,72%. Os
efeitos da redução no consumo da bebida também são sentidos no Rio Grande do
Norte, de acordo com a Associação dos Supermercados do Rio Grande do Norte
(Assurn) e consumidores ouvidos pela reportagem da TRIBUNA DO NORTE.
Mikelyson Góis, presidente da Assurn, afirma que não há dados locais disponíveis, mas aponta uma mudança no comportamento do consumidor. “Nos últimos dois anos o preço do café teve um aumento muito grande, embora nos últimos seis meses tenha havido uma pequena redução e depois uma estabilização. Nesse contexto, com o café moído muito caro, houve uma migração para o solúvel, que passou a contar com um consumo maior”, explicou Mikelyson Góis.
Heraldo Paiva Júnior,
proprietário de um supermercado no bairro de Nova Descoberta, na zona Sul de
Natal, estima uma redução de cerca de 8% na compra do produto na loja nos
últimos seis meses.
“A bebida teve um aumento
exponencial em meados do ano passado, saindo de cerca de R$ 10 para algo em
torno de R$ 18, em média. Hoje, o preço médio é de R$ 16, mas ainda assim a
gente observa essa queda na casa dos 7% ou 8%, que eu considero pequena, mas
ela existe”, aponta Paiva.
A faxineira Elizângela dos
Santos conta que trocou o café em pó pelo solúvel desde o ano passado, diante
da disparada dos preços. “Se voltar a ser como antes, quando custava R$ 9, eu
volto a comprar café em pó, mas por enquanto não dá”, diz.
Já a cozinheira Raimunda Maria
não abre mão do café tradicional. “Não posso ficar sem. Acho até que aumentei o
consumo. Pode ser o preço que for, eu compro. Café é sagrado”, contou, rindo.
Conforme os dados da
Associação Brasileira da Indústria de Café (Abic), no período contabilizado até
outubro passado o consumo no país foi de 21,4 milhões de sacas de 60 quilos,
contra 21,9 milhões em igual recorte anterior (novembro de 2023 a outubro de
2024). No Nordeste, o consumo ficou em 5,7 milhões de sacas de novembro de 2024
a outubro do ano passado; no período anterior, foram 5,8 milhões de sacas.
De acordo com a Abic, o total
consumido em todo o Brasil no último recorte analisado representa 37,9% da
safra de 2025, que foi de 56,54 milhões de sacas, segundo a Companhia Nacional
de Abastecimento (Conab). Já a quantidade consumida no Nordeste equivale a 10%
da safra total. A Abic informou que o recorde de consumo interno do produto
ocorreu em 2017, quando o número atingiu 22 milhões de sacas.
Preços devem seguir em alta
O economista Helder Cavalcanti
avalia que a retração no consumo interno da bebida deve se manter em todo o
país, uma vez que os preços irão seguir altos. “A Abic prevê uma alta de até
15% no preço do café nos próximos meses, impulsionada pela inflação de 60,85%
nos últimos 12 meses e pela queda na produção devido a adversidades climáticas.
Essa elevação deverá ocorrer, principalmente, por conta da oferta restrita e
demanda crescente. Então, é provável que a tendência de redução de consumo no
Brasil permaneça. No entanto, é importante registrar que o consumo mundial de
café continua crescendo, especialmente na China e em outros países asiáticos, o
que pode ajudar a manter os preços elevados”, analisa Cavalcanti.
O economista afirma que
mitigar o impacto da alta do preço do café no consumo é um desafio, mas algumas
ações podem amenizar os efeitos. “É importante diversificar produtos, com
oferta de opções de café mais acessíveis, como blends, com outras bebidas ou
produtos de menor valor agregado. Também é possível incentivar o consumo
consciente para aumentar a percepção de valor do café e reduzir o desperdício,
além de ajustar a produção para reduzir custos e manter preços competitivos. O
apoio governamental, com políticas para ajudar os produtores e incentivar a
produção sustentável também é uma medida necessária”, detalha Helder
Cavalcanti.
Faturamento cresce
A queda no consumo interno do
café não significou perdas para a indústria, cujo faturamento cresceu 25,6% em
2025, somando R$ 46,24 bilhões. Segundo a Abic, esse crescimento no faturamento
foi resultado principalmente do aumento do preço nas gôndolas. Ainda de acordo
com a Abic, os valores dos cafés tradicionais e extraforte aumentaram 5,8% no
ano passado. O preço médio dos cafés especiais sofreu alta de 4,3%. O aumento
também foi percebido na categoria de café gourmet, que teve variação de 20,1%
em 2025.
Nos últimos cinco anos, a
matéria-prima aumentou 201% na espécie conilon e 212% na arábica. No varejo, o
café aumentou 116%. No último ano, a variação de preço ao consumidor do café
torrado e moído foi de 5,8%. O Brasil continua sendo o maior consumidor dos
cafés nacionais. Em 2023, o mercado interno foi responsável por 39,4% do
consumo da produção total, enquanto que em 2024 o índice foi de 40,4% e, em
2025, de 37,9%.

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