Foto ilustrativa: Michel Alvim
A liberação de dinheiro
público para a compra de máquinas e equipamentos agrícolas e veículos de tração
mecânica, além dos repasses a instituições de caráter assistencial, cultural e
educacional, foi a maior das emendas parlamentares do Orçamento de 2025,
conforme os gastos descritos no sistema do governo federal.
O Poder Executivo empenhou, por decisão dos deputados e senadores, R$ 1,04 bilhão para a compra de máquinas e equipamentos agrícolas e rodoviários. Outros R$ 898,75 milhões foram reservados para a compra de veículos de tração mecânica. Os congressistas também destinaram R$ 1,24 bilhão para instituições privadas de caráter assistencial, cultural e educacional, mas não há divisão clara sobre essa distribuição.
O empenho desses recursos não
significa o pagamento efetivo dessas despesas. Apenas R$ 360 milhões foram
pagos às instituições mencionadas. O pagamento para máquinas e equipamentos
agrícolas foi de R$ 38,1 milhões, e para veículos de tração mecânica, de R$ 17
milhões.
Esses gastos ajudam a
esclarecer as preferências dos deputados e senadores, que privilegiam gastos
correntes e investimentos de curto prazo em detrimento de investimentos de
longo prazo.
Especialistas ouvidos pelo
Broadcast Político (sistema de notícias em tempo real do Grupo Estado) avaliam
que a prevalência desses gastos evidencia uma estratégia eleitoral que busca
apresentar soluções de curto prazo aos municípios. Com isso, investimentos que
não oferecem retorno eleitoral imediato acabam ficando em segundo plano.
O Broadcast Político utilizou
dados do Sistema Integrado de Planejamento e Orçamento (Siop) para analisar
como os recursos das emendas parlamentares foram aplicados em 2025.
Os empenhos descritos pelo
governo somam cerca de R$ 7,25 bilhões, abrangendo desde a compra de máquinas e
equipamentos agrícolas até a manutenção de bens imóveis e máquinas e
equipamentos energéticos. Desse total, apenas R$ 1,56 bilhão foi efetivamente pago
no ano passado. O restante ficou reservado para pagamento nos próximos anos.
A maior aplicação de recursos
foi por meio de transferência direta aos Estados, ao Distrito Federal e aos
municípios. A maior parte dos repasses foi feita por meio de transferências
fundo a fundo, modalidade em que o governo transfere o dinheiro de um fundo
federal, como o Fundo Nacional de Saúde (FNS), para um fundo estadual ou
municipal. Foram R$ 21,97 bilhões enviados aos municípios dessa forma e R$ 3,4
bilhões aos Estados.
As prefeituras e governos
estaduais receberam mais alguns bilhões em transferência direta para o caixa
público: R$ 11,68 bilhões foram repassados aos municípios e R$ 2,48 bilhões aos
Estados.
As transferências de fundo a
fundo são feitas pelo Fundo Nacional de Saúde, pelo Fundo Nacional de
Assistência Social, pelo Fundo de Amparo ao Trabalhador, pelo Fundo Nacional
para a Criança e o Adolescente e pelo Fundo Nacional do Idoso. A maioria, no entanto,
é pelo FNS. Do total de R$ 26 bilhões de transferências fundo a fundo, R$ 25,33
bilhões foram por meio do fundo gerido pelo Ministério da Saúde.
Estratégia eleitoral
Segundo o professor de Ciência
Política da Fundação Getúlio Vargas (FGV) Marco Antônio Carvalho Teixeira, as
aplicações para máquinas e equipamentos agrícolas, além dos repasses a
instituições de caráter assistencial, cultural e educacional, mostram uma estratégia
eleitoral dos parlamentares, onde soluções de curto prazo para os municípios
são privilegiadas em busca de consolidar um eleitorado para as próximas
eleições.
“Você entrega isso direto para
o eleitor, para o cliente, para o cidadão, para a organização, chame como
quiser. Obviamente, isso consolida ainda mais a lealdade eleitoral de quem está
recebendo para com quem doa, e isso deixa na posição de quem doa como sendo
alguém indispensável de permanecer no sistema político, porque vai ser o
parlamentar que vai continuar escoando o recurso que pessoas e organizações
querem”, disse.
Na análise de Leandro
Consentino, cientista político e professor do Insper, a preferência por
soluções rápidas gera a perpetuação de desafios que os municípios enfrentam,
cuja superação depende de investimentos a longo prazo. “É um interesse imediato
eleitoral e não de um pensamento mais planejado e mais pautado em critérios
técnicos para esse gasto”, disse.
“Isso afeta a realidade dos
municípios no momento em que os municípios, por vezes, têm necessidades muito
maiores, que demandam estudos e projetos de planejamento. Atacar esses
problemas simplesmente com emendas parlamentares sem critérios técnicos para esse
gasto público pode condenar os municípios a perpetuarem esses problemas, essas
demandas, essas carências”, afirmou Consentino.
Estadão Conteudo

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