Com papel estratégico na economia do Rio Grande do Norte, a fabricação de sal marinho se desenvolveu e se modernizou ao longo de séculos de história, em um processo de fortalecimento da atividade que colocou o estado na dianteira da produção nacional. De acordo com o Sindicato das Indústrias de Extração de Sal do RN (Siesal-RN), por ano são produzidas cerca de seis milhões de toneladas do produto, o que garante uma movimentação de R$ 1,5 bilhão na economia potiguar. A mecanização das salinas, concentradas em sete cidades da região da Costa Branca, está entre os principais fatores de expansão do setor no estado.
Segundo Airton Torres,
presidente do Siesal RN, o Rio Grande do Norte conta com 35 salinas
mecanizadas, que juntas somam uma área de 36 mil hectares, localizadas nos
municípios de Areia Branca, Galinhos, Grossos, Guamaré, Macau, Mossoró e Porto
do Mangue. Além disso, no distrito de Córrego, em Grossos, uma área com cerca
de 70 salinas artesanais integra o ciclo de produção de sal marinho no RN. A
exploração gera pelo menos 5 mil empregos diretos no estado e uma arrecadação
de aproximadamente R$ 175 milhões em ICMS anualmente, incluindo também
atividades como o frete para o transporte do produto.
“É importante lembrar que
existe uma operação de logística muito grande, com um contingente de
trabalhadores envolvidos que nós não temos quantificado”, explica Torres. O
presidente do Siesal projeta, portanto, cerca de outros cinco mil postos de
trabalho permanentes em áreas de distribuição, como portos e transporte
rodoviário.
Airton Torres, presidente do
Siesal: RN tem 35 salinas mecanizadas | Foto: Alex Régis
Uma das maiores empresas do
setor, a Salinor, conta com 630 funcionários em duas das principais unidades:
Macau, localizada na cidade homônima, e Francisco Menescal, em Mossoró.
Juntamente com a unidade Guanabara, a capacidade de produção da Salinor totaliza
2,5 milhões de toneladas por ano, quase metade de tudo o que é produzido no
estado.
“Para a produção em Macau nós
contamos com as águas estuarinas do Rio Piranhas-Açu, enquanto que em Mossoró
nosso recurso vem do sistema Apodi-Mossoró”, descreve Gilton Cavalcanti,
superintendente da Salinor. Aos 81 anos, Cavalcanti está na empresa há 58. Com
mais de meio século de experiência, o superintendente é uma espécie de
conselheiro, uma vez que ele conhece como ninguém o processo de fabricação do
sal e as boas condições para a exploração.
“A principal condição que nós
temos aqui é o material para fabricação – o rio Mossoró está ligado ao mar,
então, predomina a água salgada. Outra condição é que a região conta com um
período de nove meses, em média, sem chuvas (por ano, o índice de chuvas fica
em torno de 500 milímetros), ideal para o bombeamento da matéria-prima por
causa da evaporação da água. A terceira condição que nos favorece é o solo,
bastante argiloso, que não impermeabiliza”, explica Gilton Cavalcanti.
Gilton Cavalcanti, 81 anos,
superintendente da Salinor | Foto: Alex Régis
Processo de fabricação
O processo de fabricação do
sal, de acordo com Cavalcanti, começa com a captação de água, responsável pelo
abastecimento de todo o ciclo produtivo. Esta fase é considerada o coração da
salina. Nela, a água do rio é captada para as salinas por meio de bombas. A
etapa seguinte é a evaporação da água, que tem como fontes principais o sol e o
vento. Em seguida, vem a cristalização, fase em que começa a precipitação dos
cristais de sal. Neste ponto, a chamada salmoura é recebida dos evaporadores,
com densidade entre 24,5º e 25,5º para abastecer os cristalizadores (tanques
utilizados na última etapa de produção).
O passo seguinte é a colheita,
subprocesso responsável por separar o sal grosso do sal comum. “A colheita é
feita com os transportadores, que são caminhões capazes de carregar 50
toneladas por vez”, afirma Gilton Cavalcanti. Depois, vem a lavagem, para reduzir
a concentração de impurezas como sulfato de cálcio e magnésio, dos cristais de
sal. No estágio seguinte, o sal grosso a granel vai para a área de estocagem
por meio de esteiras. Na estocagem, o item é empilhado ao ar livre por cerca de
90 dias, onde passa por um período de “cura” para reduzir umidade e sais
indesejáveis.
A última fase é o embarque,
subprocesso em que o produto é transportado, por via terrestre ou marítima,
para distribuição ao cliente. Nesta fase, o produto pode ir a refinamento ou
ser transportado em big bags (grandes sacos de mil quilos), no caso do sal
grosso. “Em se tratando de embarque por via marítima, são enviadas [pela
Salinor] 400 toneladas por hora, por meio de barcaças. Temos quatro embarcações
que alimentam o porto com cerca de 4,5 mil toneladas por dia”, aponta Gilton
Cavalcanti. O escoamento por mar no RN é feito através do Porto-Ilha, no
município de Areia Branca.
No caso do beneficiamento do
produto, uma refinaria instalada na unidade de Macau é quem realiza o processo
pela Salinor. Nele, um caminhão transporta o sal empilhado para uma moega
(estrutura utilizada para armazenar temporariamente e descarregar materiais a
granel), onde começa o trabalho de refino, composto por etapas como moagem,
secagem e peneira para granulometria.
Em uma sala específica
acontece a separação da linha de alimentos (ou seja, do sal que vai para as
gôndolas do supermercado). O local conta com rigoroso controle de isolamento em
cumprimento à legislação de segurança alimentar. A separação é feita em máquinas
empacotadeiras.
A unidade de Macau conta,
ainda, com um laboratório que monitora a qualidade do produto. Uma das análises
busca identificar se a quantidade de iodo presente no sal atende às normas
estabelecidas pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), que é de
14 a 45 miligramas/quilo.
atividade secular
A atividade salineira do Rio
Grande do Norte é conhecida desde o século 17, embora os registros de
exploração regular remontem, especialmente, ao século 18, quando criadores de
gado do estado desenvolveram o processo de industrialização da carne, na tentativa
de se libertar da dependência dos senhores.
Com a disponibilidade
abundante de salinas naturais no RN, os criadores daqui e do Ceará fundaram as
chamadas “oficinas”, que produziam a carne de charque, um item curado com
bastante sal.
Com a chegada da Família Real
ao Brasil, o acesso ao sal potiguar foi ampliado para outras regiões do País,
mas o desconforto apontado por autoridades da província barrou a expansão da
indústria salineira do RN à época. Foi somente depois do advento da República,
em 1889, que a extração de sal marinho no Rio Grande do Norte registrou um
período prolongado de expansão. Ao longo dos séculos, a atividade passou por
diversas transformações, sendo a mais notável a mecanização das salinas, após
1965.
Um dos símbolos principais das
mudanças é o uso de unidades de medida como o quilo e a tonelada, no lugar do
alqueire, este último utilizado até por volta dos anos 1950 nas transações
comerciais do setor. O superintendente da Salinor, Gilton Cavcalcanti, e o
proprietário da Vita Sal, em Grossos, Francisco Vital, conhecido como Caxico,
acompanharam de perto essa mudança.
“Para chegar a um alqueire,
eram necessários 180 litros de sal, distribuídos em 36 cuias [as cuias eram
recipientes em formato de caixa usados na medição; cada cuia levava cinco
litros de sal], ou o equivalente a 160 quilos”, comenta Caxico.
Airton Torres, presidente do
Siesal, afirma que em 1862 houve uma determinação legal para que grãos em geral
fossem medidos em quilogramas, mas a mudança não foi adotada pelo interior do
País, que continuou utilizando a medida volumétrica de alqueire. “Portanto,
temos o uso do alqueire no setor até meados do século passado”, apontou.
Felipe Salustino/Repórter
Tribuna do Norte

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