Apesar da lidernaça do Estado potiguar no desmpenho regional, em nível nacional o RN nunca esteve entre as 10 maiores rendas por habitante | Foto: Adriano Abreu
O Rio Grande do Norte lidera o ranking regional de renda domiciliar per capita desde 2018. Segundo dados do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), o estado registrou renda domiciliar per capita de R$ 1.819 em 2025, quando a média nacional foi de R$ 2.316, variando de R$ 1.219 no Maranhão a R$ 4.538 no Distrito Federal. Contudo, na avaliação de especialistas, a distribuição de renda ainda expõe desigualdades no RN.
A trajetória potiguar nesse
indicador de renda desde 2016 aponta para uma liderança que só foi rompida em
2017, quando o estado caiu para a 4ª maior renda domiciliar per capita do
Nordeste. Em nível nacional, por outro lado, o RN nunca esteve entre as 10
maiores rendas por habitante, na série iniciada em 2014. A melhor posição do
Estado potiguar foi a 12ª, em 2021.
O rendimento domiciliar per
capita é calculado com base nas informações oriundas da Pesquisa Nacional por
Amostra de Domicílios (Pnad) Contínua e é divulgado pelo IBGE em cumprimento à
Lei Complementar nº 143/2013, que mudou os critérios de rateio do Fundo de
Participação dos Estados e do Distrito Federal (FPE).
Damião Ernane, chefe de
disseminação de informações do IBGE-RN, explica que quanto maior a renda
domiciliar per capita do estado, menor será o repasse do FPE para o ente
federativo. Ele explica que a Pnad Contínua, pesquisa que começou em 2012,
visita a mesma casa durante cinco trimestres seguidos e foca em captar os dados
de trabalho e rendimento.
O cálculo deriva dos
rendimentos brutos de trabalho e de outras fontes de renda, considerando todos
os moradores, inclusive pensionistas, empregados domésticos e parentes dos
empregados domésticos. “É uma divisão entre o total de rendimentos domiciliares,
em termos nominais, e o total de moradores desse domicílio”, explica Ernane.
Ele observa que, ano a ano, as
regiões Sul e Sudeste têm uma renda domiciliar per capita quase duas vezes
maior do que a do Norte e Nordeste. “Isso mostra que, mesmo que todo mundo
tenha evoluído, essa desigualdade entre os estados permaneceu”.
O fato de a renda domiciliar
por habitante do RN ser a maior do Nordeste não quer dizer que o estado seja
mais rico que os demais da região, apenas que esse indicador, isoladamente, é
maior. “Quando se considera a questão de riqueza, tem que se levar em consideração
todos os indicadores. Tem que se considerar, por exemplo, o PIB per capita”,
afirma Ernane.
O IBGE-RN explicou à
reportagem que o dado de 2025 foi divulgado em fevereiro em cumprimento à lei
já citada. O indicador será comunicado novamente em maio e ainda será ponderado
pela inflação. Por isso, ele pode mudar e não deve ser comparado à série histórica.
Análise do indicador
Thales Penha, professor do
Departamento de Economia da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN),
observa que a melhoria no rendimento domiciliar per capita do RN, desde 2018,
ocorre “na esteira da recuperação da capacidade fiscal do estado”.
Segundo ele, os anos de 2016 a
2018 foram críticos para a economia potiguar, com reflexos da crise econômica
nacional e da crise fiscal interna. “O governo Robinson Faria atrasou várias
folhas [de pagamento dos servidores públicos] e deixou de pagar muitos
fornecedores”.
Com a recuperação e ainda
convivendo com desafios fiscais, o estado vê uma tendência de aumento do índice
de renda consolidada desde 2019. O ano de 2017 foi o único em que o rendimento
nominal caiu de um ano para o outro (de R$ 919 em 2016 para R$ 845), empurrando
o estado para a sua pior colocação nacional da série histórica, na 20ª posição
(mesma de 2014).
O economista Arthur Néo,
vice-presidente do Conselho Regional de Economia (Corecon-RN), lembra que o
funcionalismo público representa uma margem muito grande da renda potiguar, o
que pode explicar a renda per capita ser mais elevada que em outros estados.
“Tem municípios do Rio Grande do Norte que basicamente vivem do salário dos
servidores municipais do estado e de programas sociais”, observa.
Para a Federação das
Indústrias do Estado (Fiern), a liderança potiguar deve ser interpretada com
cautela e em perspectiva comparativa mais ampla. Em 2025, esse rendimento
atingiu R$ 1.819 no estado, enquanto o rendimento médio do trabalho formal foi
cerca de R$ 2.706 – também liderando em nível regional.
“Esse desempenho não se
traduz, necessariamente, em uma posição confortável do ponto de vista nacional.
O estado ainda se encontra abaixo da média brasileira, que é de aproximadamente
R$ 3.508. Esse contraste evidencia que a liderança regional decorre, em grande
medida, de um patamar estruturalmente mais baixo de renda na região Nordeste”,
diz o Observatório da Indústria Mais RN.
Ainda segundo o Observatório,
a liderança não significa um avanço estrutural robusto. “Trata-se, em grande
medida, de uma convergência ‘por baixo’, uma vez que tanto o RN quanto os
demais estados do Nordeste permanecem abaixo da média nacional”, explica.
“Também pode refletir limitações comuns à região, como baixa produtividade
média, elevada informalidade e restrições na geração de empregos de maior valor
agregado”.
Já Marcelo Queiroz, presidente
da Federação do Comércio de Bens, Serviços e Turismo do RN (Fecomércio-RN),
afirma que dois fatores explicam a renda potiguar: “a contínua geração de
empregos formais no estado, com mais de 120 mil postos de trabalho abertos em
cinco anos” e o peso da administração pública no RN.
Arthur Néo afirma que o
crescimento da renda per capita não reflete diretamente melhorias na qualidade
de vida das pessoas. É preciso, na sua visão, avaliar o contexto mais amplo,
como o fato de o Rio Grande do Norte ser menos populoso e ter, no geral, poucas
pessoas morando em um mesmo domicílio.
O presidente da Fiern, Roberto
Serquiz, avalia que o dado da renda per capita, “quando observado de forma
isolada, pode sugerir um cenário mais favorável do que o efetivamente
vivenciado. No entanto, ao ser confrontado com indicadores como desigualdade de
renda e posição no ranking nacional, surgem sinais de alerta que exigem uma
interpretação mais criteriosa”.
Desigualdade socioeconômica
persiste no RN
Apesar do índice positivo de
renda, a desigualdade socioeconômica persiste no RN. O economista Arthur Néo
lembra que é preciso avaliar a distribuição da renda, além do seu crescimento,
por meio do Índice de Gini - indicador de desigualdade de renda, que varia de 0
a 1 (quanto mais próximo de 1, maior a concentração de renda).
“Se houve aumento de renda e
diminuição do Gini, mais pessoas foram beneficiadas pelo aumento, via programas
sociais ou mercado de trabalho. Se a renda e o Gini aumentam, houve
crescimento, mas essa renda está concentrada, não está sendo distribuída para a
população. E se a renda cresce e o Gini se mantém, não houve mudança
estrutural”, detalha Néo.
Segundo dados do Ipea
(Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada), o Índice de Gini do RN (0,525) foi
o quarto maior do Brasil em 2024, quando a média nacional foi de 0,506 e a
região Nordeste teve o pior Gini (0,502). O número nacional foi o menor da série
histórica iniciada em 2012.
“Boa parte dos grandes
rendimentos estão concentrados nas grandes cidades [do RN], enquanto nas demais
cidades o rendimento é muito baixo. Natal, Mossoró e Parnamirim têm rendimentos
muito altos e puxam a média para cima”, explica Thales Penha.
Thales Penha: Natal, Mossoró e
Parnamirim puxam a média do RN | Foto: Alex Régis
Para Néo, é preciso avaliar se
o crescimento da renda foi real, descontando a inflação, e observar em que
camadas sociais houve aumento de renda. Além disso, é preciso ver se houve
melhorias na saúde, educação e segurança pública para mensurar se o crescimento
de renda é sustentável.
Na avaliação de Penha, para
reverter esse cenário de desigualdades é preciso rever a aplicação dos recursos
públicos. “O RN gasta muito com o funcionalismo público, mas gasta mal […] O
estado precisa gastar mais em infraestrutura e em educação, do ponto de vista
de melhorar a qualidade técnica e a produtividade dos cidadãos potiguares”,
afirma.
A secretária estadual do
Trabalho, da Habitação e da Assistência Social (Sethas-RN), Iris Oliveira, cita
ações da pasta para combater as desigualdades socioeconômicas. Segundo ela,
nove políticas públicas geridas pela Sethas-RN repercutem no enfrentamento às
desigualdades.
“As políticas públicas capazes
de reduzir a desigualdade e enfrentar a pobreza são as políticas de
transferência de renda como assistência social, educação, saúde, habitação e
saneamento básico, políticas que envolvem moradia acessível e infraestrutura de
saneamento, que melhoram diretamente a qualidade de vida”, diz ela.
Iris Oliveira (Sethas): RN tem
buscado enfrentar as desigualdades | Foto: Cedida
Desnível regional
Os estados que lideram a renda
domiciliar per capita no Nordeste e no Norte não alcançam sequer as marcas dos
últimos colocados do Sul e Sudeste nos dados preliminares de 2025. O RN (R$
1.819) e o Tocantins (R$ 2.036) ficam distantes dos valores de São Paulo (R$
2.956) e do Rio Grande do Sul (R$ 2.839), por exemplo.
Entre 2014 e 2025, o
rendimento variou nas cinco regiões brasileiras – cabe lembrar que o dado de
2025 ainda deve ser atualizado pelo IBGE. No Nordeste, o rendimento variou de
R$ 461 no Maranhão (mínimo, também o menor do país) a R$ 802 em Pernambuco em 2014.
Em 2025, foi de R$ 1.219 no Maranhão a R$ 1.819 no RN.
Arthur Néo destaca que o custo
de vida em cada estado e em cada região apresenta diferenças por muitas vezes
significativas. “O custo de vida no Centro-Sul é muito mais caro do que o do
Nordeste. Além disso, a produtividade do trabalhador no RN tende a ser menor do
que a produtividade do trabalhador no Centro-Sul – e a diferença está nos
níveis tecnológicos”, afirma o economista.
RN: renda domiciliar per
capita e índice de Gini
Desde 2018, o RN lidera o
ranking de renda per capita no NE. No Índice de Gini, estado foi o 4º maior do
Brasil em 2024
Evolução da renda domiciliar
per capita no RN (2014 – 2025) / Colocação no NE
2014: R$ 695 / (4º lugar)
2015: R$ 819 / (2º lugar)
2016: R$ 919 / (1º lugar)
2017: R$ 845 / (4º lugar)
2018: R$ 956 / (1º lugar)
2019: R$ 1.057 / (1º lugar)
2020: R$ 1.077 / (1º lugar)
2021: R$ 1.109 / (1º lugar)
2022: R$ 1.267 / (1º lugar)
2023: R$ 1.373 / (1º lugar)
2024: R$ 1.616 / (1º lugar)
2025: R$ 1.819 / (1º lugar)
Índice de Gini em 2024
RN: 0,525*
Nordeste: 0,502
Brasil: 0,506
*Quanto mais próximo de 1, mais desigual é a distribuição de renda
Fernando Azevêdo/Repórter
Fonte: IBGE e Ipea/Tribuna do
Norte

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