domingo, 19 de abril de 2026

Projeto da UFRN usa o bordado como ferramenta de cuidado e bem-estar

Atividades incluem oficinas de bordado livre e escuta qualificada| Foto: Cedida

Criar bordados virou sinônimo de fazer arte com calma. A partir da agulha, linha, tecido, tesoura e outros utensílios, o artesanato vira obra de arte. É assim que funcionam as atividades feitas pelas participantes do projeto: “Entre Saúde e Bordados”, desenvolvido pela Faculdade de Ciências da Saúde do Trairi (Facisa), da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN).

O projeto é voltado ao cuidado e ao bem-estar de mães, pais e responsáveis que atuam com crianças em contexto de vulnerabilidade social. A ação social tem como propósito atender aos cuidadores vinculados ao Centro Especializado em Reabilitação de Santa Cruz.

As atividades incluem oficinas de bordado livre, além de momentos de escuta qualificada e rodas de conversa sobre temas relacionados à saúde, fortalecendo o bem-estar físico e emocional desses cuidadores. A coordenadora do projeto de extensão, a professora Amanda Soares, explicou que a origem do programa começou com o desejo de compartilhar uma experiência pessoal sua como artesã e bordadeira.

“O projeto teve início em outubro de 2025, a partir da minha experiência pessoal como artesã e bordadeira. A prática do bordado teve um impacto significativo na minha vida, e, ao ingressar na universidade como professora efetiva, busquei ressignificar essa experiência, integrando-a ao contexto acadêmico como estratégia de cuidado e promoção da saúde”, explicou.

Além da experiência pessoal como artesã, Amanda conseguiu desenvolver e criar o projeto “Entre Saúde e Bordados” diante de evidências científicas que mostram que harmonizar arte com saúde resulta em benefícios para a saúde das pessoas.

“Estudos indicam que atividades manuais, como lazer ou fonte de renda, estão associadas à redução do estresse, da ansiedade e à promoção de relaxamento e satisfação pessoal. Essas práticas favorecem o foco, a expressão emocional e o senso de produtividade. Na vivência do projeto, esses benefícios também são percebidos na prática, especialmente no que se refere à saúde mental das participantes”, detalhou a professora.

Além disso, a prática constante de criação de bordados pode ser uma porta de entrada para o treinamento e aperfeiçoamento de novas habilidades práticas e manuais, o que fortalece a atividade cerebral e uma mudança positiva na vida da população que faz esse tipo de artesanato.

“A experiência com o bordado pode gerar mudanças significativas, como maior tranquilidade, paciência e estímulo à criatividade. No meu caso, essa prática também abriu portas para o desenvolvimento de outras habilidades manuais, como pintura e crochê”, enumerou a professora.

A professora ainda complementa que o intuito também é alavancar o ponto de vista financeiro das participantes, criando uma rede de ajuda e independência para as pessoas que enfrentam dificuldades financeiras ao mesmo tempo em que precisam se dedicar ao trabalho de cuidado de crianças em contexto social vulnerável.

“Para as cuidadoras participantes, espera-se impacto positivo na qualidade de vida, além da possibilidade de utilizar o bordado como fonte complementar de renda, promovendo autonomia e valorização pessoal”, especificou.

A execução do projeto é voluntária e não tem financiamento. Se alguma loja ou empresa se interessar em doar materiais para as oficinas, “será muito bem-vindo”, como afirma Amanda.

As inscrições para o projeto são realizadas por meio do Sistema Integrado de Gestão de Atividades Acadêmicas (Sigaa) e são abertas no início de cada semestre letivo. Mais informações e atualizações sobre as atividades podem ser acompanhadas pelo perfil @entresaudeebordados nas redes sociais.

Quebra de paradigmas

Segundo a professora Amanda, o projeto não é exclusivo das mulheres, podendo participar homens que se interessam por bordados. No entanto, por conta de questões culturais e do preconceito, apenas um homem participa das oficinas.

O público participante é feminino. “O projeto é destinado a cuidadores de crianças, independentemente de gênero. No entanto, devido a questões socioculturais que ainda atribuem majoritariamente às mulheres as responsabilidades do cuidado familiar, até o momento a participação tem sido predominantemente feminina”, revela.

Vinicius Costa de Oliveira, de 21 anos, é estudante do quarto período de enfermagem da UFRN. Ele é o único membro homem do programa de extensão.

Para o estudante, que também atua como membro do projeto e nas oficinas junto com as mães de crianças atípicas, ao lado de uma equipe especializada. Apesar do receio inicial, o futuro enfermeiro se surpreendeu, foi acolhido e conseguiu desenvolver práticas eficientes dentro do plano de extensão.

“Ocorreu justamente o contrário. Tivemos muitas conversas sobre a importância da presença masculina em espaços como esse. Desde cedo, a sociedade impõe padrões sobre como um homem deve ser e agir, muitas vezes afastando-o de atividades consideradas “femininas”. O bordado é um exemplo disso. Participar do projeto tem sido uma oportunidade de ressignificar essas ideias e compreender que o cuidado, a sensibilidade e a expressão artística não têm gênero”, declarou.

Diante de um benefício importante como sensibilidade, o principal aprendizado do artesanato bordado para Vinicius vem de uma forma de escuta ativa, criando uma terapia que traz vantagens para os estudantes da área de saúde que atuam no projeto.

“Tenho percebido, na prática, que saúde vai muito além da ausência de doença (algo que já aprendemos na graduação e agora observo na prática). Atividades simples, como o bordado aliado ao diálogo, podem se tornar ferramentas terapêuticas potentes, promovendo bem-estar, acolhimento e fortalecimento emocional. Essa vivência tem sido fundamental para minha formação, contribuindo para que eu me torne um profissional mais sensível, humano e preparado para o cuidado integral”, avalia o estudante.

Por conta desses benefícios para a saúde mental das pessoas, Vinicius espera levar as linhas dos bordados para o resto da sua vida profissional, bem como pessoal.

“O bordado se tornou, para mim, uma forma de cuidado e de pausa. Em momentos de sobrecarga e estresse, encontro nas linhas e no tecido um espaço de tranquilidade, como se, a cada ponto, eu também organizasse meus próprios pensamentos e emoções. É uma prática que pretendo levar comigo por toda a vida”, fala.

Tribuna do Norte

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