Jeová Lins, superintendente estadual do Banco do Nordeste no RN | Foto: Adriano Abreu
À frente da superintendência
estadual do Banco do Nordeste no Rio Grande do Norte desde 2023, Jeová Lins
encerra 2025 com um balanço do desempenho da instituição no estado, marcado
pela manutenção do volume de crédito, fortalecimento do microcrédito e ajustes
na estratégia diante do cenário das energias renováveis. Em entrevista à
TRIBUNA DO NORTE, o superintendente detalha os valores injetados na economia
potiguar, comenta os resultados financeiros do banco, avalia o impacto do
crédito no interior do RN e também responde às críticas sobre burocracia,
apontando ainda os setores considerados estratégicos para 2026. Confira:
Banco do Nordeste tem
ampliado a presença no Rio Grande do Norte nos últimos anos? Quanto o banco
conseguiu injetar na economia em 2025 e o que isso representa em relação aos
anos anteriores?
No Banco do Nordeste, nós
temos uma política de estabelecer metas para cada superintendente, de acordo
com o perfil de cada estado. O Banco do Nordeste estabeleceu para a gente, no
ano passado, uma meta de R$ 3 bilhões e 75 milhões para o FNE (Fundo Constitucional
de Financiamento do Nordeste). Além disso, há outras fontes: crédito comercial,
agricultura familiar. O certo é que, ao longo do ano, até hoje, nós fechamos R$
3 bilhões e 397 milhões, incluindo o crédito comercial. Nós fomos prejudicados
em relação à questão das energias renováveis. Mas, mesmo assim, chegamos a R$ 2
bilhões e 993 milhões do que foi estabelecido para o FNE só no Rio Grande do
Norte, quando a meta era de R$ 3,75 bilhões. Esse número é estável em relação
ao ano passado. Justamente porque a energia teve esse problema do curtailment.
A geração ficou estagnada em todo o Nordeste, não foi só no Rio Grande do
Norte. A gente partiu mais para fazer linhas de transmissão, que é justamente a
forma de escoar essa produção de energia. Quando a gente olha, cumprimos o
papel, cumprimos os principais setores e ficamos devendo em energia renovável.
O Banco do Nordeste encerrou
2025 com lucro líquido positivo? Como esse resultado se compara ao desempenho
de 2024 e o que ele revela sobre a saúde financeira e a capacidade do banco de
ampliar o crédito no RN?
O resultado financeiro do
banco não é justo de ser avaliado agora. Existe a questão de apurar o que foi
financiado, contar os juros até a data. Isso será publicado em fevereiro. Em
novembro recebemos a posição de outubro. Estamos dentro do lucro esperado. O
banco não é uma empresa como qualquer banco privado no sentido de conceder
crédito a taxas de juros competitivas visando apenas resultado operacional
alto. Em 2024, por exemplo, nós fechamos com mais de R$ 2 bilhões de lucro. A
expectativa é chegar novamente a R$ 2 bilhões, com crescimento do crédito e
recuperação de dívidas.
O microcrédito tem sido
apresentado pelo banco como uma estratégia de combate à pobreza. Qual é hoje o
peso do microcrédito na carteira do Banco do Nordeste no RN e quais os planos
para ampliar esse alcance?
Quando se fala em
microcrédito, nós temos dois: o AgroAmigo, que é o rural, e o CrediAmigo, que é
o urbano. O CrediAmigo vai fechar este ano com R$ 720 milhões. O AgroAmigo, com
cerca de R$ 510 milhões. Somando os dois, temos mais de R$ 1,2 bilhão. É um crédito
orientado, com juros subsidiados. No caso do AgroAmigo, é um crédito de longo
prazo compatível com a atividade econômica de cada produtor. O CrediAmigo é um
crédito de curto prazo rotativo. Ambos mantêm uma carteira adimplente entre 97%
e 98%. O microcrédito é bem seguro, bem fiscalizado, bem orientado e atende a
um público-alvo muito importante. A representatividade não é apenas percentual,
é de abrangência. Atendemos clientes em situação de vulnerabilidade, no campo e
na cidade, e buscamos resgatar a cidadania dessas pessoas com crédito
orientado.
Como o senhor avalia a
efetividade da aplicação desses recursos no interior do Estado, sobretudo para
pequenos e médios empreendedores? Quais os efeitos práticos no desenvolvimento
econômico e social do estado?
A característica de
praticamente todas as cidades do Rio Grande do Norte é de muito mini e pequeno
negócio. Em Santana do Seridó, por exemplo, o CrediAmigo está presente, mesmo
sem agência do banco. O banco atua nos 167 municípios do estado. Todos recebem
crédito. Não passam um ano sem aplicação de recursos. Temos acompanhamento
sistemático diário, sabemos quanto foi aplicado em cada localidade. O
CrediAmigo e o AgroAmigo são essenciais, principalmente onde não há atividade
econômica formal, onde predomina a informalidade.
Em um cenário de juros
elevados e maior cautela no crédito, como o Banco do Nordeste tem ajustado sua
estratégia para continuar financiando investimentos produtivos no Estado?
O carro-chefe do banco é o
FNE, com taxas altamente competitivas. Trabalhamos com taxas de 6,5% ao ano a
menos de 11% ao ano, do pequeno ao grande. Temos operações que chegam a 25
anos, especialmente em infraestrutura, com carências de dois a três anos. Quanto
maior o empreendimento, menor a participação percentual do banco. Para o
pequeno, é diferente: podemos chegar a 100%, dependendo da atividade. Os prazos
são compatíveis para não estrangular a capacidade de pagamento. Em 2024,
tivemos adimplência de 98,2%. Este ano, esperamos manter esse patamar. Só em
2025, recuperamos R$ 469 milhões no Rio Grande do Norte.
Há uma percepção recorrente
entre empresários e produtores rurais de que a burocracia do Banco do Nordeste
ainda é um entrave, especialmente na obtenção de financiamentos. Como o banco
lida com essas críticas e o que está sendo feito para simplificar processos?
Quanto mais completa estiver a
documentação do empresário, mais rápido o crédito sai. Temos três etapas:
cadastro, análise e contratação. Depois da contratação, vem o desembolso. No
AgroAmigo, operações saem em dois ou três dias. Cadastro e contrato são eletrônicos.
No CrediAmigo, o crédito pode cair na conta no mesmo dia. Muitas vezes, o que
se chama de burocracia não é do banco. Falta licenciamento ambiental, certidão,
avaliação de garantia. Se isso estiver pronto, o processo flui. Nós detemos 73%
do crédito de longo prazo no RN. Em 2024, injetamos R$ 2,6 bilhões de FNE. Em
2025, novamente R$ 2,6 bilhões. O crédito está fluindo.
Quais setores da economia do
Rio Grande do Norte foram os que mais receberam recursos do Banco do Nordeste
em 2025 e o que explica essa concentração de investimentos?
Nós temos alguns setores que
para a gente são importantes, a indústria do Rio Grande do Norte estava
recebendo pouco volume de crédito do Banco do Nordeste. Esse ano nós já
chegamos até agora a quase R$ 400 milhões, crescendo em relação ao ano passado
quase 100%. Então, o setor industrial foi também bem atendido. Quando a gente
fala aqui do setor de turismo, é um setor que no ano passado e esse ano eles
voltaram a movimentar. Nós fizemos boas operações no ano passado; esse ano está
mais estável, mas não impede de a gente retomar e fazer aqueles negócios.
Estamos conversando com a ABIH, Abrasel e vários restaurantes para a gente
formar termo de parceria. Então a infraestrutura foi o primeiro maior
demandador; o segundo foi Comércio e Serviços. Passamos de R$ 600 milhões de
negócio com esse setor.
O RN é referência nacional em
energias renováveis. Qual tem sido o papel do Banco do Nordeste no
financiamento de projetos de energia eólica, solar e outras fontes limpas no
Estado?
Como eu falei, nós tivemos
essa retração da demanda em nível de Nordeste por conta desse curtailment que
forçou a redução da produção. O preço da energia ficou estabilizado e o volume
de instalação de projetos também se manteve estável em termos de custo. Então,
quando você vai comparar quanto vai gerar de receita para pagar esse
empreendimento, apareceram poucos projetos novos. Já na linha de transmissão,
que é justamente o que vai viabilizar o escoamento dessa energia e permitir que
a energia gerada no Nordeste siga para o Sul e Sudeste, nós demos ênfase este
ano. Outro ponto que nós estamos aguardando para o próximo ano é a demanda por
data centers. Vou a São Paulo e ao Rio de Janeiro agora em fevereiro procurar
empresas com interesse em instalar data centers. Então, os três pilares de
infraestrutura para o próximo ano são: identificar projetos que não sejam de
geração renovável tradicional, como data centers; financiar infraestrutura de
linhas de transmissão; e aguardar a melhoria de preços para voltar a financiar
a geração de energia.
Quais são hoje os setores ou
cadeias produtivas do RN que o BNB enxerga como mais estratégicos para os
próximos anos, tanto do ponto de vista econômico quanto social?
O turismo é fundamental. O
banco precisa estar presente em qualquer capital do Nordeste. Nós chegamos a
mais de 7 milhões de turistas no país, e o Rio Grande do Norte cresceu em
termos de turismo. Então, esse é um ponto em que vamos instigar o empresariado
a buscar crédito com o Banco do Nordeste, tanto para construção de novos hotéis
quanto para reforma de hotéis, bares e restaurantes. A agricultura também é
estratégica e não apenas no Rio Grande do Norte. Aqui no Diba, estamos
conversando com os setores, no Vale do Apodi e na Chapada também. Então, são
áreas que o banco vai continuar olhando: agricultura especializada, turismo e
energias renováveis, considerando o pioneirismo e a referência do Rio Grande do
Norte como gerador de energia.
Quais as principais metas do
Banco do Nordeste no RN para 2026? O produtor potiguar pode esperar mais
crédito, com novas linhas de financiamentos e menos burocracia?
A gente tem hoje uma
expectativa de chegar a cerca de R$ 3,745 bilhões em 2026. Vamos continuar
investindo no AgroAmigo, com R$ 510 milhões. No CrediAmigo, a meta é de R$ 620
milhões. Essas metas são parecidas com as deste ano, mas eu costumo dizer que as
metas do banco são pisos que a gente precisa superar. Para você ter uma ideia,
o Banco do Nordeste, de modo geral, financiou mais de R$ 50 bilhões este ano.
Nos últimos três anos, o banco fechou R$ 180 bilhões em negócios, dos quais R$
140 bilhões foram de FNE.
QUEM
Natural da Paraíba, Jeová Lins
é economista e bancário de formação. Aos 67 anos, está prestes a completar 48
anos de atuação no Banco do Nordeste. Ao longo desse período, trabalhou em
cinco estados do Nordeste (Rio Grande do Norte, Paraíba, Ceará, Bahia e
Pernambuco) e passou por cerca de 15 agências, de pequeno, médio e grande
porte. Exerceu funções gerenciais em cidades como Natal, Mossoró, Salvador,
Recife, Fortaleza e também no Rio de Janeiro. Desde 2023, assumiu a cadeira de
superintendente estadual do Banco do Nordeste no RN.
Tribuna do Norte

Nenhum comentário:
Postar um comentário