sábado, 3 de janeiro de 2026

Jeová Lins faz balanço do Banco do Nordeste no RN e aponta prioridades para 2026

Jeová Lins, superintendente estadual do Banco do Nordeste no RN | Foto: Adriano Abreu

À frente da superintendência estadual do Banco do Nordeste no Rio Grande do Norte desde 2023, Jeová Lins encerra 2025 com um balanço do desempenho da instituição no estado, marcado pela manutenção do volume de crédito, fortalecimento do microcrédito e ajustes na estratégia diante do cenário das energias renováveis. Em entrevista à TRIBUNA DO NORTE, o superintendente detalha os valores injetados na economia potiguar, comenta os resultados financeiros do banco, avalia o impacto do crédito no interior do RN e também responde às críticas sobre burocracia, apontando ainda os setores considerados estratégicos para 2026. Confira:

Banco do Nordeste tem ampliado a presença no Rio Grande do Norte nos últimos anos? Quanto o banco conseguiu injetar na economia em 2025 e o que isso representa em relação aos anos anteriores?

No Banco do Nordeste, nós temos uma política de estabelecer metas para cada superintendente, de acordo com o perfil de cada estado. O Banco do Nordeste estabeleceu para a gente, no ano passado, uma meta de R$ 3 bilhões e 75 milhões para o FNE (Fundo Constitucional de Financiamento do Nordeste). Além disso, há outras fontes: crédito comercial, agricultura familiar. O certo é que, ao longo do ano, até hoje, nós fechamos R$ 3 bilhões e 397 milhões, incluindo o crédito comercial. Nós fomos prejudicados em relação à questão das energias renováveis. Mas, mesmo assim, chegamos a R$ 2 bilhões e 993 milhões do que foi estabelecido para o FNE só no Rio Grande do Norte, quando a meta era de R$ 3,75 bilhões. Esse número é estável em relação ao ano passado. Justamente porque a energia teve esse problema do curtailment. A geração ficou estagnada em todo o Nordeste, não foi só no Rio Grande do Norte. A gente partiu mais para fazer linhas de transmissão, que é justamente a forma de escoar essa produção de energia. Quando a gente olha, cumprimos o papel, cumprimos os principais setores e ficamos devendo em energia renovável.

O Banco do Nordeste encerrou 2025 com lucro líquido positivo? Como esse resultado se compara ao desempenho de 2024 e o que ele revela sobre a saúde financeira e a capacidade do banco de ampliar o crédito no RN?

O resultado financeiro do banco não é justo de ser avaliado agora. Existe a questão de apurar o que foi financiado, contar os juros até a data. Isso será publicado em fevereiro. Em novembro recebemos a posição de outubro. Estamos dentro do lucro esperado. O banco não é uma empresa como qualquer banco privado no sentido de conceder crédito a taxas de juros competitivas visando apenas resultado operacional alto. Em 2024, por exemplo, nós fechamos com mais de R$ 2 bilhões de lucro. A expectativa é chegar novamente a R$ 2 bilhões, com crescimento do crédito e recuperação de dívidas.

O microcrédito tem sido apresentado pelo banco como uma estratégia de combate à pobreza. Qual é hoje o peso do microcrédito na carteira do Banco do Nordeste no RN e quais os planos para ampliar esse alcance?

Quando se fala em microcrédito, nós temos dois: o AgroAmigo, que é o rural, e o CrediAmigo, que é o urbano. O CrediAmigo vai fechar este ano com R$ 720 milhões. O AgroAmigo, com cerca de R$ 510 milhões. Somando os dois, temos mais de R$ 1,2 bilhão. É um crédito orientado, com juros subsidiados. No caso do AgroAmigo, é um crédito de longo prazo compatível com a atividade econômica de cada produtor. O CrediAmigo é um crédito de curto prazo rotativo. Ambos mantêm uma carteira adimplente entre 97% e 98%. O microcrédito é bem seguro, bem fiscalizado, bem orientado e atende a um público-alvo muito importante. A representatividade não é apenas percentual, é de abrangência. Atendemos clientes em situação de vulnerabilidade, no campo e na cidade, e buscamos resgatar a cidadania dessas pessoas com crédito orientado.

Como o senhor avalia a efetividade da aplicação desses recursos no interior do Estado, sobretudo para pequenos e médios empreendedores? Quais os efeitos práticos no desenvolvimento econômico e social do estado?

A característica de praticamente todas as cidades do Rio Grande do Norte é de muito mini e pequeno negócio. Em Santana do Seridó, por exemplo, o CrediAmigo está presente, mesmo sem agência do banco. O banco atua nos 167 municípios do estado. Todos recebem crédito. Não passam um ano sem aplicação de recursos. Temos acompanhamento sistemático diário, sabemos quanto foi aplicado em cada localidade. O CrediAmigo e o AgroAmigo são essenciais, principalmente onde não há atividade econômica formal, onde predomina a informalidade.

Em um cenário de juros elevados e maior cautela no crédito, como o Banco do Nordeste tem ajustado sua estratégia para continuar financiando investimentos produtivos no Estado?

O carro-chefe do banco é o FNE, com taxas altamente competitivas. Trabalhamos com taxas de 6,5% ao ano a menos de 11% ao ano, do pequeno ao grande. Temos operações que chegam a 25 anos, especialmente em infraestrutura, com carências de dois a três anos. Quanto maior o empreendimento, menor a participação percentual do banco. Para o pequeno, é diferente: podemos chegar a 100%, dependendo da atividade. Os prazos são compatíveis para não estrangular a capacidade de pagamento. Em 2024, tivemos adimplência de 98,2%. Este ano, esperamos manter esse patamar. Só em 2025, recuperamos R$ 469 milhões no Rio Grande do Norte.

Há uma percepção recorrente entre empresários e produtores rurais de que a burocracia do Banco do Nordeste ainda é um entrave, especialmente na obtenção de financiamentos. Como o banco lida com essas críticas e o que está sendo feito para simplificar processos?

Quanto mais completa estiver a documentação do empresário, mais rápido o crédito sai. Temos três etapas: cadastro, análise e contratação. Depois da contratação, vem o desembolso. No AgroAmigo, operações saem em dois ou três dias. Cadastro e contrato são eletrônicos. No CrediAmigo, o crédito pode cair na conta no mesmo dia. Muitas vezes, o que se chama de burocracia não é do banco. Falta licenciamento ambiental, certidão, avaliação de garantia. Se isso estiver pronto, o processo flui. Nós detemos 73% do crédito de longo prazo no RN. Em 2024, injetamos R$ 2,6 bilhões de FNE. Em 2025, novamente R$ 2,6 bilhões. O crédito está fluindo.

Quais setores da economia do Rio Grande do Norte foram os que mais receberam recursos do Banco do Nordeste em 2025 e o que explica essa concentração de investimentos?

Nós temos alguns setores que para a gente são importantes, a indústria do Rio Grande do Norte estava recebendo pouco volume de crédito do Banco do Nordeste. Esse ano nós já chegamos até agora a quase R$ 400 milhões, crescendo em relação ao ano passado quase 100%. Então, o setor industrial foi também bem atendido. Quando a gente fala aqui do setor de turismo, é um setor que no ano passado e esse ano eles voltaram a movimentar. Nós fizemos boas operações no ano passado; esse ano está mais estável, mas não impede de a gente retomar e fazer aqueles negócios. Estamos conversando com a ABIH, Abrasel e vários restaurantes para a gente formar termo de parceria. Então a infraestrutura foi o primeiro maior demandador; o segundo foi Comércio e Serviços. Passamos de R$ 600 milhões de negócio com esse setor.

O RN é referência nacional em energias renováveis. Qual tem sido o papel do Banco do Nordeste no financiamento de projetos de energia eólica, solar e outras fontes limpas no Estado?

Como eu falei, nós tivemos essa retração da demanda em nível de Nordeste por conta desse curtailment que forçou a redução da produção. O preço da energia ficou estabilizado e o volume de instalação de projetos também se manteve estável em termos de custo. Então, quando você vai comparar quanto vai gerar de receita para pagar esse empreendimento, apareceram poucos projetos novos. Já na linha de transmissão, que é justamente o que vai viabilizar o escoamento dessa energia e permitir que a energia gerada no Nordeste siga para o Sul e Sudeste, nós demos ênfase este ano. Outro ponto que nós estamos aguardando para o próximo ano é a demanda por data centers. Vou a São Paulo e ao Rio de Janeiro agora em fevereiro procurar empresas com interesse em instalar data centers. Então, os três pilares de infraestrutura para o próximo ano são: identificar projetos que não sejam de geração renovável tradicional, como data centers; financiar infraestrutura de linhas de transmissão; e aguardar a melhoria de preços para voltar a financiar a geração de energia.

Quais são hoje os setores ou cadeias produtivas do RN que o BNB enxerga como mais estratégicos para os próximos anos, tanto do ponto de vista econômico quanto social?

O turismo é fundamental. O banco precisa estar presente em qualquer capital do Nordeste. Nós chegamos a mais de 7 milhões de turistas no país, e o Rio Grande do Norte cresceu em termos de turismo. Então, esse é um ponto em que vamos instigar o empresariado a buscar crédito com o Banco do Nordeste, tanto para construção de novos hotéis quanto para reforma de hotéis, bares e restaurantes. A agricultura também é estratégica e não apenas no Rio Grande do Norte. Aqui no Diba, estamos conversando com os setores, no Vale do Apodi e na Chapada também. Então, são áreas que o banco vai continuar olhando: agricultura especializada, turismo e energias renováveis, considerando o pioneirismo e a referência do Rio Grande do Norte como gerador de energia.

Quais as principais metas do Banco do Nordeste no RN para 2026? O produtor potiguar pode esperar mais crédito, com novas linhas de financiamentos e menos burocracia?

A gente tem hoje uma expectativa de chegar a cerca de R$ 3,745 bilhões em 2026. Vamos continuar investindo no AgroAmigo, com R$ 510 milhões. No CrediAmigo, a meta é de R$ 620 milhões. Essas metas são parecidas com as deste ano, mas eu costumo dizer que as metas do banco são pisos que a gente precisa superar. Para você ter uma ideia, o Banco do Nordeste, de modo geral, financiou mais de R$ 50 bilhões este ano. Nos últimos três anos, o banco fechou R$ 180 bilhões em negócios, dos quais R$ 140 bilhões foram de FNE.

QUEM

Natural da Paraíba, Jeová Lins é economista e bancário de formação. Aos 67 anos, está prestes a completar 48 anos de atuação no Banco do Nordeste. Ao longo desse período, trabalhou em cinco estados do Nordeste (Rio Grande do Norte, Paraíba, Ceará, Bahia e Pernambuco) e passou por cerca de 15 agências, de pequeno, médio e grande porte. Exerceu funções gerenciais em cidades como Natal, Mossoró, Salvador, Recife, Fortaleza e também no Rio de Janeiro. Desde 2023, assumiu a cadeira de superintendente estadual do Banco do Nordeste no RN.

Tribuna do Norte

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