domingo, 1 de março de 2026

Cortes de geração freiam investimentos no setor de energias renováveis no RN

As empresas do setor de energias renovávies sentem o risco do investimento em meio ao cenário de cortes de geração no RN | Foto: Alex Régis

Após anos de investimentos expressivos, o setor de energias renováveis vive um momento de incertezas, de acordo com seus interlocutores. O Rio Grande do Norte, um dos principais polos de energia limpa do Brasil, é um dos estados mais comprometidos nesse sentido. Diante do elevado volume de energia produzido e da falta de linhas de transmissão para escoar essa produção, o estado sofre com os os cortes de geração, os chamados curtailments, que em 2025 significaram prejuízos bilionários aos geradores. Especialistas afirmam que esse cenário freia os investimentos no estado e compromete o desenvolvimento do setor.

Os curtailments determinados pelo Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS) para evitar sobrecarga no sistema causaram um prejuízo estimado em até R$ 2,24 bilhões no RN em 2025, segundo dados da consultoria Volt Robotics. Proporcionalmente à sua capacidade de geração, o estado foi o terceiro que mais perdeu energia (24%), com cortes de 11,27 milhões de MWh. A energia eólica responde por cerca de 92,79% desse total (10,45 milhões de MWh), e a fotovoltaica, 7,21% (0,81 milhões de MWh).

Na avaliação de Sérgio Azevedo, presidente da Comissão Técnica de Energias Renováveis da Fiern (Coere), esses cortes elevaram a percepção de risco e impactaram a confiança do investidor. “Desenvolvedores têm revisado planos, postergado decisões finais de investimento e priorizado novos projetos em estados do Sul e Sudeste, onde hoje a percepção de risco sistêmico é menor e há maior previsibilidade de despacho”, diz. Para ele, os investimentos fogem do estado não devido a desafios técnicos, mas à insegurança no ambiente de negócios.

O Centro de Estratégias em Recursos Naturais e Energia (Cerne) reforça que a retração e a migração de investimentos em energia renovável no RN estão ligadas à “insegurança regulatória provocada pelos cortes recorrentes de geração sem mecanismos adequados de compensação”.

“O RN continua tendo um dos melhores ventos do mundo, mão de obra qualificada e infraestrutura consolidada. O que afastou investidores não foi o recurso natural, foi a perda de previsibilidade. Quando um empreendedor investe bilhões com base em regras que depois não são respeitadas, ele naturalmente procura ambientes mais seguros para aplicar seu capital”, afirma o presidente do Conselho de Mantenedores do Cerne, Jean Paul Prates.

A Associação Brasileira de Energia Eólica (ABEEólica) frisa que o problema é nacional, mas que o RN vem sendo especialmente prejudicado. “O estado sofreu com a falta e o atraso de instalações do sistema de transmissão ao longo de alguns anos e isso fez com que os investimentos se tornassem ainda mais arriscados no estado”, avalia Francisco Silva, diretor Regulatório da ABEEólica.

“Os empreendedores solicitavam acesso ao sistema de transmissão e esse acesso era negado pelo Operador do Sistema, por não haver espaço na rede de transmissão do Brasil como um todo, mas o estado do Rio Grande do Norte, por concentrar boa parte dos projetos renováveis do Brasil, acabou sofrendo mais”, continua.

Na visão do diretor-presidente do Cerne, Darlan Santos, os prejuízos acumulados em 2025 afetaram a saúde financeira dos empreendimentos no estado. “Muitos projetos tiveram perdas severas com os cortes de geração, sem qualquer mecanismo efetivo de reequilíbrio. Isso compromete o fluxo de caixa, encarece os financiamentos e inviabiliza a expansão. Alguns investidores preferiram migrar para outros estados ou simplesmente suspender decisões de investimento”, diz.

Darlan ressalta que o impacto vai além das empresas geradoras. “Quando um projeto é adiado ou cancelado, perde o investidor, perde o município, perde o trabalhador local. São empregos, arrecadação e desenvolvimento que deixam de acontecer. O curtailment sem compensação virou um problema econômico e social para o RN”.

Crise conjuntural e estrutural

A ABEEólica explica que a “crise de investimentos” tem dois vieses: um estrutural e outro conjuntural. Estruturalmente, o Brasil teve, nos últimos anos, um descompasso entre o planejamento de linhas de transmissão e a execução de projetos de energia renovável, especialmente eólicos.

“As usinas renováveis costumam entrar em operação muito rapidamente, em cerca de um ou dois anos, enquanto construir uma instalação de transmissão leva de quatro até sete anos”, explica Francisco Silva. Assim, alguns estados ficaram desassistidos da inserção de novos empreendimentos renováveis. Outro ponto é o crescimento da micro e minigeração distribuída (MMGD), que recebeu subsídios e não sofre os curtailments.

Já do ponto de vista conjuntural, há o risco dos cortes de geração, seja por razões elétricas, alheias ao gerador, seja por sobreoferta devido à baixa demanda. “Os geradores ficam com a conta desses cortes, apesar de ter saído a lei [nº 15.269/2025, que moderniza o marco regulatório do setor elétrico], que ainda não foi regulamentada”, diz Silva.

De acordo com ele, não há diferenças relevantes de potencial energético entre os estados, especialmente no Nordeste, que aumentem ou diminuam a sua capacidade de atrair investimentos. O volume de vento é “extraordinário” em toda a região, diz. “O RN é o segundo maior produtor de energia eólica do Brasil e concentra um montante de projetos extremamente eficientes, em termos de viabilidade econômica”, conta.

Darlan Santos frisa que “o estado tem todas as condições de continuar liderando a transição energética no Brasil. Mas isso exige regras claras, planejamento integrado e respeito aos contratos. O investidor não foge do RN, foge da insegurança”.

Redução no “ritmo alucinante” de investimentos no RN

Quanto aos efeitos do desincentivo a investimentos em energias renováveis na economia potiguar, Ricardo Valério, superintendente do Conselho Regional de Economia do RN, alerta que o prejuízo é maior devido à capacidade instalada no estado. O economista afirma que o prejuízo se dá “pela diminuição da velocidade de atratividade de novos investimentos, até que a infraestrutura de linhas de transmissão seja suficiente e que sejam construídas centrais de armazenamento para evitar os curtailments”.

“Todo e qualquer investidor toma decisões de investimentos de acordo com o payback [tempo necessário para recuperar recursos investidos]. Nosso maior prejuízo será muito mais pelo retardamento de novos investimentos, até que as infraestruturas assegurem de forma sustentável que não haverá mais constantes interrupções no escoamento da energia gerada”, pontua.

Valério lembra que a crise do setor implica momentaneamente na redução do “ritmo alucinante” de investimentos dos últimos cinco anos. “Isso frusta, nos próximos anos, os empregos e a renda do Rio Grande do Norte, embora possamos recuperar no futuro”. “Deveríamos usar a nossa liderança e a alta geração de energia limpa não só para exportar para outros estados, mas como fator diferencial para atrair novos investimentos para nosso estado, como data centers e projetos de hidrogênio verde”, defende o economista.

Possíveis soluções

Para o Cerne, a solução para o problema do desinvestimento passa por mudanças estruturais no setor. “É preciso acelerar a transmissão, revisar os critérios de corte, garantir compensação justa e, principalmente, restaurar a segurança jurídica. Sem isso, o RN corre o risco de perder o protagonismo que construiu ao longo de décadas na energia renovável”, diz Jean Paul Prates.

Já a Coere lembra que o leilão dos compensadores síncronos, que prevê obras em Ceará-Mirim e Assú, é positivo e contribui para a estabilidade elétrica. Os equipamentos se referem a melhorias na infraestrutura do sistema elétrico. Para Sérgio Azevedo, “é preciso clareza técnica — ele não resolve o excesso estrutural de oferta em determinados horários nem elimina o risco de novos cortes”.

Outro ponto defendido é o armazenamento de energia, que pode mitigar os cortes devido a sobreoferta. “O Brasil já avançou na discussão regulatória por meio da Aneel, mas o RN ainda não estruturou um ambiente claro para implantação de sistemas de armazenamento em larga escala”, alerta Azevedo.

Homem de terno e gravata olhando para o lado

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Jean Paul Prates: perda de previsibilidade afastou investidores | Foto: Magnus NascimentoHomem com óculos de grau

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Sergio Azevedo: empresas priorizam projetos no Sul e no Sudeste | Foto: Magnus Nascimento

Empresas sentem risco

As empresas do setor sentem o risco do investimento em meio a esse cenário. É o caso relatado pela ENGIE Brasil. O diretor de Regulação, Estratégia e Comunicação da empresa, Gabriel Mann, afirma que “a companhia possui projetos fotovoltaicos e eólicos em fase de estudos de viabilidade no estado [RN], mas a decisão de avançar com novos investimentos está condicionada à existência de um ambiente econômico e regulatório mais favorável”.

“A intensificação dos episódios de curtailment trouxe impactos relevantes, como o cancelamento de outorgas, a retração de investimentos e uma postura mais seletiva na alocação de capital por parte dos agentes”, explica Mann. Em 2025, o curtailment representou cerca de 6% de frustração na performance dos ativos da empresa.

“Temos avançado com uma estratégia consistente de gestão de riscos, apoiada em um portfólio diversificado de fontes, o que nos permite atravessar esse período com maior previsibilidade e resiliência operacional”, afirma o gestor.

A Casa dos Ventos diz que o curtailment é um problema sistêmico e defende que sua solução não deve passar pela penalização das geradoras renováveis. “A empresa atua ativamente contribuindo com o debate sobre o tema, partindo da convicção de que o Brasil precisa aproveitar melhor seus recursos naturais na geração de energia”.

Já a empresa EDP diz que busca monitorar, prever e minimizar os impactos provocados pelos cortes. “O segmento de transmissão, fundamental para suportar a expansão das fontes renováveis e mitigar o curtailment, está entre as prioridades estratégicas da EDP. Desde 2017, a companhia já investiu mais de R$ 7 bilhões em obras e projetos de transmissão.”

Fernando Azevêdo/Repórter

Tribuna do Norte

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