Após anos de investimentos expressivos, o setor de energias renováveis vive um momento de incertezas, de acordo com seus interlocutores. O Rio Grande do Norte, um dos principais polos de energia limpa do Brasil, é um dos estados mais comprometidos nesse sentido. Diante do elevado volume de energia produzido e da falta de linhas de transmissão para escoar essa produção, o estado sofre com os os cortes de geração, os chamados curtailments, que em 2025 significaram prejuízos bilionários aos geradores. Especialistas afirmam que esse cenário freia os investimentos no estado e compromete o desenvolvimento do setor.
Os curtailments determinados
pelo Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS) para evitar sobrecarga no
sistema causaram um prejuízo estimado em até R$ 2,24 bilhões no RN em 2025,
segundo dados da consultoria Volt Robotics. Proporcionalmente à sua capacidade
de geração, o estado foi o terceiro que mais perdeu energia (24%), com cortes
de 11,27 milhões de MWh. A energia eólica responde por cerca de 92,79% desse
total (10,45 milhões de MWh), e a fotovoltaica, 7,21% (0,81 milhões de MWh).
Na avaliação de Sérgio
Azevedo, presidente da Comissão Técnica de Energias Renováveis da Fiern
(Coere), esses cortes elevaram a percepção de risco e impactaram a confiança do
investidor. “Desenvolvedores têm revisado planos, postergado decisões finais de
investimento e priorizado novos projetos em estados do Sul e Sudeste, onde hoje
a percepção de risco sistêmico é menor e há maior previsibilidade de despacho”,
diz. Para ele, os investimentos fogem do estado não devido a desafios técnicos,
mas à insegurança no ambiente de negócios.
O Centro de Estratégias em
Recursos Naturais e Energia (Cerne) reforça que a retração e a migração de
investimentos em energia renovável no RN estão ligadas à “insegurança
regulatória provocada pelos cortes recorrentes de geração sem mecanismos
adequados de compensação”.
“O RN continua tendo um dos
melhores ventos do mundo, mão de obra qualificada e infraestrutura consolidada.
O que afastou investidores não foi o recurso natural, foi a perda de
previsibilidade. Quando um empreendedor investe bilhões com base em regras que
depois não são respeitadas, ele naturalmente procura ambientes mais seguros
para aplicar seu capital”, afirma o presidente do Conselho de Mantenedores do
Cerne, Jean Paul Prates.
A Associação Brasileira de
Energia Eólica (ABEEólica) frisa que o problema é nacional, mas que o RN vem
sendo especialmente prejudicado. “O estado sofreu com a falta e o atraso de
instalações do sistema de transmissão ao longo de alguns anos e isso fez com
que os investimentos se tornassem ainda mais arriscados no estado”, avalia
Francisco Silva, diretor Regulatório da ABEEólica.
“Os empreendedores solicitavam
acesso ao sistema de transmissão e esse acesso era negado pelo Operador do
Sistema, por não haver espaço na rede de transmissão do Brasil como um todo,
mas o estado do Rio Grande do Norte, por concentrar boa parte dos projetos
renováveis do Brasil, acabou sofrendo mais”, continua.
Na visão do diretor-presidente
do Cerne, Darlan Santos, os prejuízos acumulados em 2025 afetaram a saúde
financeira dos empreendimentos no estado. “Muitos projetos tiveram perdas
severas com os cortes de geração, sem qualquer mecanismo efetivo de reequilíbrio.
Isso compromete o fluxo de caixa, encarece os financiamentos e inviabiliza a
expansão. Alguns investidores preferiram migrar para outros estados ou
simplesmente suspender decisões de investimento”, diz.
Darlan ressalta que o impacto
vai além das empresas geradoras. “Quando um projeto é adiado ou cancelado,
perde o investidor, perde o município, perde o trabalhador local. São empregos,
arrecadação e desenvolvimento que deixam de acontecer. O curtailment sem
compensação virou um problema econômico e social para o RN”.
Crise conjuntural e estrutural
A ABEEólica explica que a
“crise de investimentos” tem dois vieses: um estrutural e outro conjuntural.
Estruturalmente, o Brasil teve, nos últimos anos, um descompasso entre o
planejamento de linhas de transmissão e a execução de projetos de energia renovável,
especialmente eólicos.
“As usinas renováveis costumam
entrar em operação muito rapidamente, em cerca de um ou dois anos, enquanto
construir uma instalação de transmissão leva de quatro até sete anos”, explica
Francisco Silva. Assim, alguns estados ficaram desassistidos da inserção de
novos empreendimentos renováveis. Outro ponto é o crescimento da micro e
minigeração distribuída (MMGD), que recebeu subsídios e não sofre os
curtailments.
Já do ponto de vista
conjuntural, há o risco dos cortes de geração, seja por razões elétricas,
alheias ao gerador, seja por sobreoferta devido à baixa demanda. “Os geradores
ficam com a conta desses cortes, apesar de ter saído a lei [nº 15.269/2025, que
moderniza o marco regulatório do setor elétrico], que ainda não foi
regulamentada”, diz Silva.
De acordo com ele, não há
diferenças relevantes de potencial energético entre os estados, especialmente
no Nordeste, que aumentem ou diminuam a sua capacidade de atrair investimentos.
O volume de vento é “extraordinário” em toda a região, diz. “O RN é o segundo
maior produtor de energia eólica do Brasil e concentra um montante de projetos
extremamente eficientes, em termos de viabilidade econômica”, conta.
Darlan Santos frisa que “o
estado tem todas as condições de continuar liderando a transição energética no
Brasil. Mas isso exige regras claras, planejamento integrado e respeito aos
contratos. O investidor não foge do RN, foge da insegurança”.
Redução no “ritmo alucinante”
de investimentos no RN
Quanto aos efeitos do
desincentivo a investimentos em energias renováveis na economia potiguar,
Ricardo Valério, superintendente do Conselho Regional de Economia do RN, alerta
que o prejuízo é maior devido à capacidade instalada no estado. O economista afirma
que o prejuízo se dá “pela diminuição da velocidade de atratividade de novos
investimentos, até que a infraestrutura de linhas de transmissão seja
suficiente e que sejam construídas centrais de armazenamento para evitar os
curtailments”.
“Todo e qualquer investidor
toma decisões de investimentos de acordo com o payback [tempo necessário para
recuperar recursos investidos]. Nosso maior prejuízo será muito mais pelo
retardamento de novos investimentos, até que as infraestruturas assegurem de
forma sustentável que não haverá mais constantes interrupções no escoamento da
energia gerada”, pontua.
Valério lembra que a crise do
setor implica momentaneamente na redução do “ritmo alucinante” de investimentos
dos últimos cinco anos. “Isso frusta, nos próximos anos, os empregos e a renda
do Rio Grande do Norte, embora possamos recuperar no futuro”. “Deveríamos usar
a nossa liderança e a alta geração de energia limpa não só para exportar para
outros estados, mas como fator diferencial para atrair novos investimentos para
nosso estado, como data centers e projetos de hidrogênio verde”, defende o
economista.
Possíveis soluções
Para o Cerne, a solução para o
problema do desinvestimento passa por mudanças estruturais no setor. “É preciso
acelerar a transmissão, revisar os critérios de corte, garantir compensação
justa e, principalmente, restaurar a segurança jurídica. Sem isso, o RN corre o
risco de perder o protagonismo que construiu ao longo de décadas na energia
renovável”, diz Jean Paul Prates.
Já a Coere lembra que o leilão
dos compensadores síncronos, que prevê obras em Ceará-Mirim e Assú, é positivo
e contribui para a estabilidade elétrica. Os equipamentos se referem a
melhorias na infraestrutura do sistema elétrico. Para Sérgio Azevedo, “é preciso
clareza técnica — ele não resolve o excesso estrutural de oferta em
determinados horários nem elimina o risco de novos cortes”.
Outro ponto defendido é o
armazenamento de energia, que pode mitigar os cortes devido a sobreoferta. “O
Brasil já avançou na discussão regulatória por meio da Aneel, mas o RN ainda
não estruturou um ambiente claro para implantação de sistemas de armazenamento
em larga escala”, alerta Azevedo.
Jean Paul Prates: perda de
previsibilidade afastou investidores | Foto: Magnus Nascimento
Sergio Azevedo: empresas priorizam
projetos no Sul e no Sudeste | Foto: Magnus Nascimento
Empresas sentem risco
As empresas do setor sentem o
risco do investimento em meio a esse cenário. É o caso relatado pela ENGIE
Brasil. O diretor de Regulação, Estratégia e Comunicação da empresa, Gabriel
Mann, afirma que “a companhia possui projetos fotovoltaicos e eólicos em fase
de estudos de viabilidade no estado [RN], mas a decisão de avançar com novos
investimentos está condicionada à existência de um ambiente econômico e
regulatório mais favorável”.
“A intensificação dos
episódios de curtailment trouxe impactos relevantes, como o cancelamento de
outorgas, a retração de investimentos e uma postura mais seletiva na alocação
de capital por parte dos agentes”, explica Mann. Em 2025, o curtailment representou
cerca de 6% de frustração na performance dos ativos da empresa.
“Temos avançado com uma
estratégia consistente de gestão de riscos, apoiada em um portfólio
diversificado de fontes, o que nos permite atravessar esse período com maior
previsibilidade e resiliência operacional”, afirma o gestor.
A Casa dos Ventos diz que o
curtailment é um problema sistêmico e defende que sua solução não deve passar
pela penalização das geradoras renováveis. “A empresa atua ativamente
contribuindo com o debate sobre o tema, partindo da convicção de que o Brasil precisa
aproveitar melhor seus recursos naturais na geração de energia”.
Já a empresa EDP diz que busca
monitorar, prever e minimizar os impactos provocados pelos cortes. “O segmento
de transmissão, fundamental para suportar a expansão das fontes renováveis e
mitigar o curtailment, está entre as prioridades estratégicas da EDP. Desde
2017, a companhia já investiu mais de R$ 7 bilhões em obras e projetos de
transmissão.”
Fernando Azevêdo/Repórter

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