domingo, 1 de março de 2026

Mesmo com queda no movimento, empresas resistem no bairro da Ribeira

DJ Materiais de Construção resiste na Ribeira há 21 anos e relata queda de cerca de 30% no movimento desde o período de abertura | Foto: Magnus Nascimento

Em meio a ruas silenciosas, prédios históricos inabitados e um comércio que já viveu seus dias de glória, empresários do bairro da Ribeira, em Natal, resistem às dificuldades e mantêm seus negócios com as portas abertas. Mesmo com as quedas no faturamento e desafios urbanos que se impõem, as empresas resistem ao esvaziamento do bairro, agarrando-se à tradição e à esperança de um novo ciclo de desenvolvimento.

A Rua Dr. Barata é testemunha de uma época de comércio movimentado e calçadas cheias na Ribeira. Há 46 anos instalada na região, a CODIF participou desse período de maior vitalidade comercial. O gerente Cláudio Jorge da Silva, há 33 anos na empresa, lembra que no início o fluxo de clientes era intenso.

Com o passar do tempo, porém, o cenário mudou e a queda no faturamento passou a integrar a rotina do negócio. “Antigamente a rodoviária funcionava como um terminal para os interiores, o que trazia muita gente. Hoje você não vê movimento nenhum aqui”, lamenta Cláudio.

Mesmo diante das dificuldades, Cláudio observa que empresas tradicionais seguem resistindo. “Eu acredito que é a história que faz as empresas continuarem aqui. Tanto que tem empresas que saíram daqui, mas permanecem com o prédio, talvez até esperando uma melhora da região para abrir de novo uma unidade”, disse o gerente.

José Domingos também sente no dia a dia os efeitos do esvaziamento do bairro. Proprietário da DJ Materiais de Construção, na Praça Augusto Severo, ele mantém a loja há 21 anos no local e relata uma queda de cerca de 30% no movimento em comparação ao período de abertura.

Aos 58 anos, Domingos afirma que já pensa em encerrar as atividades. “Eu estou só esperando me aposentar para poder fechar”, revela.

Homem atrás de balcão de loja

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José Domingos (comerciante) | Foto: Magnus Nascimento

Ao comparar o faturamento atual com o do período em que abriu a empresa, Domingos revela uma perda média de cerca de R$ 12 mil por mês, reflexo direto da redução no movimento e das dificuldades enfrentadas pelo comércio na região.

Mesmo sem contar com grandes estruturas ou garantias de retorno, empresários seguem apostando na permanência no bairro, movidos pelo vínculo com a região. Rodrigo Vasconcelos, presidente da Associação Viva O Centro, destaca que muitas das empresas que resistem na Ribeira têm perfil familiar, passando de geração em geração.

Em diversos casos, os próprios imóveis pertencem às famílias dos empresários, o que reduz custos com aluguel e manutenção. “Eu acredito que isso faz com que essas empresas continuem no mesmo local, por mais que não tenha venda pujante”, relata Rodrigo.

A família de Matheus Pereira é proprietária da ISO, loja especializada em produtos de isopor, instalada há 10 anos na Ribeira. Segundo ele, muitos clientes preferem ser atendidos em outros bairros e chegam a pedir que a empresa se mude, mas a família sente apego pelo bairro. “Estamos aqui até hoje trazendo mais e mais pessoas para conhecer a Ribeira só por conta do isopor”, brinca.

Para o empresário, a retomada depende de uma atuação mais efetiva do Estado. “O que incomoda é a promessa de revitalização, de movimento, mas o poder público foi o primeiro a ir embora. Se nem o poder público aposta no bairro, como a iniciativa privada vai ter segurança de ficar lá?”, questiona Matheus.

A Tribuna do Norte procurou a Secretaria Municipal de Meio Ambiente e Urbanismo (Semurb) para obter informações sobre as iniciativas previstas para a região, mas não obteve retorno até o fechamento desta edição.

Fechamento de negócios cresce 42% na Ribeira

Dados da Junta Comercial do Estado do Rio Grande do Norte (Jucern RN) indicam que entre 2024 e 2025 a Ribeira registrou um aumento de 42,1% no número de empresas que encerraram as atividades.

No período, 54 negócios fecharam as portas — o maior volume dos últimos dez anos, superior, inclusive, ao registrado no pós-pandemia, quando 41 empresas encerraram as operações, em 2021. Já nos primeiros meses de 2026, outras nove empresas deixaram de funcionar.

O presidente da Jucern, Carlos Maia, avalia que os números de encerramento nem sempre refletem, de forma direta, a realidade do mercado. “Quando o índice de fechamento de empresa aumenta um pouco, não necessariamente é porque o mercado sofreu alguma baixa. Às vezes é a diminuição da burocracia para fechar uma empresa”, pondera.

O levantamento do órgão aponta que a maior parte das empresas que encerraram as atividades na Ribeira nos últimos dez anos é de Micro Empresas (ME). No período, 141 Micro Empresas fecharam as portas, seguidas pelos Microempreendedores Individuais (MEI), com 129 registros de encerramento.

Novos negócios também surgem na região

Enquanto parte dos negócios encerra as atividades, outros empreendimentos passam a ocupar o espaço deixado, contribuindo para a manutenção do volume de empresas em funcionamento. Ainda conforme a Jucern, o número de empresas abertas na Ribeira também cresceu em 2025. Os registros passaram de 55, em 2024, para 71 no ano seguinte, um aumento de 29,1%, indicando a entrada de novos empreendimentos mesmo em um cenário de instabilidade.

Em 2025, segundo a Jucern, a Ribeira alcançou a marca de 955 empresas ativas, um crescimento de aproximadamente 11% em relação às 861 registradas em 2024. “Foi um suspiro de esperança para a revitalização econômica do bairro da Ribeira. Porque nós vimos de muitos anos de decadência, muito fechamento de empresas, muito abandono. E aí, a partir de 2025, nós passamos a perceber que existe um crescimento”, argumenta o gestor.

É o caso da FarmaPet, farmácia especializada em produtos para animais instalada ao lado do Hospital Municipal Veterinário de Natal. A loja foi inaugurada em dezembro de 2025 por Mércia Lins, que identificou na região uma demanda ainda pouco atendida. “A gente vai começando a dar vida um pouco à Ribeira”, relata a empresária.

Mércia revela que as expectativas são altas em relação ao novo negócio: “Às vezes as pessoas têm medo de empreender na Ribeira, mas quando eu vim percebi que é uma oportunidade”.

Hudson Dantas, vendedor da loja, relata que o movimento varia de acordo com o dia da semana. Segundo ele, a presença de mais estabelecimentos na região poderia fortalecer ainda mais as vendas. “Querendo ou não, um cliente acaba chamando outro”, avalia Hudson.

Carlos Maia (Jucern) | Foto: Magnus Nascimento

Hudson Dantas, da FarmaPet, novo negócio no bairro da Ribeira | Foto: Magnus Nascimento

Planejamento é necessário para a Ribeira

A Federação do Comércio de Bens, Serviços e Turismo do RN (Fecomércio) avalia que a migração do comércio para outros polos — como as zonas Norte e Sul — deixou o bairro com menor fluxo espontâneo de consumidores.

“A Ribeira, que historicamente abrigou o centro financeiro e cultural de Natal, perdeu gradativamente sua centralidade urbana ao longo das décadas pelo crescimento socioeconômico da capital”, analisa a instituição.

Com 955 empresas ativas em fevereiro de 2026, a Ribeira representa apenas 0,64% do total de estabelecimentos de Natal (149.213) e 0,24% do estado (394.684), segundo a Fecomércio, que avalia o bairro como o único da cidade com potencial simultâneo de polos gastronômico, cultural, turístico e de economia criativa.

“Com um planejamento territorial integrado que capitalize esse potencial em favor da permanência e prosperidade dos negócios, certamente o bairro voltaria a viver seu auge”, defende a federação.

Segundo Thales Medeiros, gerente do Sebrae-RN, ter sucesso empreendendo na Ribeira é possível desde que haja planejamento. “Para sobreviver em espaços como esse, é preciso pensar em atividades rápidas, voltadas tanto para os moradores quanto para quem vem à cidade”, disse.

Ele explica que a Ribeira recebe muitas pessoas por motivos de trabalho e negócios, o que gera demanda por alimentação rápida, por exemplo. “Pequenos negócios focados em soluções práticas podem prosperar, desde que bem planejados e localizados”, afirma.

O gerente do Sebrae-RN também ressalta a vocação cultural do bairro como um dos principais caminhos para fortalecer a economia local. “A Ribeira tem uma tendência natural para experiências ligadas a lazer e cultura, algo presente desde o início. Isso nos dá grandes possibilidades de explorar e valorizar esse potencial”, conclui.

Para o produtor cultural Anderson Foca, a ocupação cultural tem sido uma das principais formas de manter a Ribeira ativa. Em 2025, ele contabiliza mais de dez ações realizadas no bairro, incluindo edições do Festival do Sol, shows no Galpão 292 e apresentações do Bloco da Graciosa.

“A Ribeira tem um viés cultural que está acima de uma análise mais técnica de bairro, de comércio. Então, isso termina, de certo modo, sempre atraindo uma atenção cultural ao bairro”, afirma.

 Ananda Miranda/Repórter

Tribuna do Norte

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