DJ Materiais de Construção resiste na Ribeira há 21 anos e relata queda de cerca de 30% no movimento desde o período de abertura | Foto: Magnus Nascimento
Em meio a ruas silenciosas,
prédios históricos inabitados e um comércio que já viveu seus dias de glória,
empresários do bairro da Ribeira, em Natal, resistem às dificuldades e mantêm
seus negócios com as portas abertas. Mesmo com as quedas no faturamento e
desafios urbanos que se impõem, as empresas resistem ao esvaziamento do bairro,
agarrando-se à tradição e à esperança de um novo ciclo de desenvolvimento.
A Rua Dr. Barata é testemunha
de uma época de comércio movimentado e calçadas cheias na Ribeira. Há 46 anos
instalada na região, a CODIF participou desse período de maior vitalidade
comercial. O gerente Cláudio Jorge da Silva, há 33 anos na empresa, lembra que
no início o fluxo de clientes era intenso.
Com o passar do tempo, porém,
o cenário mudou e a queda no faturamento passou a integrar a rotina do negócio.
“Antigamente a rodoviária funcionava como um terminal para os interiores, o que
trazia muita gente. Hoje você não vê movimento nenhum aqui”, lamenta Cláudio.
Mesmo diante das dificuldades,
Cláudio observa que empresas tradicionais seguem resistindo. “Eu acredito que é
a história que faz as empresas continuarem aqui. Tanto que tem empresas que
saíram daqui, mas permanecem com o prédio, talvez até esperando uma melhora da
região para abrir de novo uma unidade”, disse o gerente.
José Domingos também sente no
dia a dia os efeitos do esvaziamento do bairro. Proprietário da DJ Materiais de
Construção, na Praça Augusto Severo, ele mantém a loja há 21 anos no local e
relata uma queda de cerca de 30% no movimento em comparação ao período de
abertura.
Aos 58 anos, Domingos afirma
que já pensa em encerrar as atividades. “Eu estou só esperando me aposentar
para poder fechar”, revela.
José Domingos (comerciante) | Foto:
Magnus Nascimento
Ao comparar o faturamento
atual com o do período em que abriu a empresa, Domingos revela uma perda média
de cerca de R$ 12 mil por mês, reflexo direto da redução no movimento e das
dificuldades enfrentadas pelo comércio na região.
Mesmo sem contar com grandes
estruturas ou garantias de retorno, empresários seguem apostando na permanência
no bairro, movidos pelo vínculo com a região. Rodrigo Vasconcelos, presidente
da Associação Viva O Centro, destaca que muitas das empresas que resistem na
Ribeira têm perfil familiar, passando de geração em geração.
Em diversos casos, os próprios
imóveis pertencem às famílias dos empresários, o que reduz custos com aluguel e
manutenção. “Eu acredito que isso faz com que essas empresas continuem no mesmo
local, por mais que não tenha venda pujante”, relata Rodrigo.
A família de Matheus Pereira é
proprietária da ISO, loja especializada em produtos de isopor, instalada há 10
anos na Ribeira. Segundo ele, muitos clientes preferem ser atendidos em outros
bairros e chegam a pedir que a empresa se mude, mas a família sente apego pelo
bairro. “Estamos aqui até hoje trazendo mais e mais pessoas para conhecer a
Ribeira só por conta do isopor”, brinca.
Para o empresário, a retomada
depende de uma atuação mais efetiva do Estado. “O que incomoda é a promessa de
revitalização, de movimento, mas o poder público foi o primeiro a ir embora. Se
nem o poder público aposta no bairro, como a iniciativa privada vai ter
segurança de ficar lá?”, questiona Matheus.
A Tribuna do Norte procurou a
Secretaria Municipal de Meio Ambiente e Urbanismo (Semurb) para obter
informações sobre as iniciativas previstas para a região, mas não obteve
retorno até o fechamento desta edição.
Fechamento de negócios cresce
42% na Ribeira
Dados da Junta Comercial do
Estado do Rio Grande do Norte (Jucern RN) indicam que entre 2024 e 2025 a
Ribeira registrou um aumento de 42,1% no número de empresas que encerraram as
atividades.
No período, 54 negócios
fecharam as portas — o maior volume dos últimos dez anos, superior, inclusive,
ao registrado no pós-pandemia, quando 41 empresas encerraram as operações, em
2021. Já nos primeiros meses de 2026, outras nove empresas deixaram de funcionar.
O presidente da Jucern, Carlos
Maia, avalia que os números de encerramento nem sempre refletem, de forma
direta, a realidade do mercado. “Quando o índice de fechamento de empresa
aumenta um pouco, não necessariamente é porque o mercado sofreu alguma baixa.
Às vezes é a diminuição da burocracia para fechar uma empresa”, pondera.
O levantamento do órgão aponta
que a maior parte das empresas que encerraram as atividades na Ribeira nos
últimos dez anos é de Micro Empresas (ME). No período, 141 Micro Empresas
fecharam as portas, seguidas pelos Microempreendedores Individuais (MEI), com
129 registros de encerramento.
Novos negócios também surgem
na região
Enquanto parte dos negócios
encerra as atividades, outros empreendimentos passam a ocupar o espaço deixado,
contribuindo para a manutenção do volume de empresas em funcionamento. Ainda
conforme a Jucern, o número de empresas abertas na Ribeira também cresceu em
2025. Os registros passaram de 55, em 2024, para 71 no ano seguinte, um aumento
de 29,1%, indicando a entrada de novos empreendimentos mesmo em um cenário de
instabilidade.
Em 2025, segundo a Jucern, a
Ribeira alcançou a marca de 955 empresas ativas, um crescimento de
aproximadamente 11% em relação às 861 registradas em 2024. “Foi um suspiro de
esperança para a revitalização econômica do bairro da Ribeira. Porque nós vimos
de muitos anos de decadência, muito fechamento de empresas, muito abandono. E
aí, a partir de 2025, nós passamos a perceber que existe um crescimento”,
argumenta o gestor.
É o caso da FarmaPet, farmácia
especializada em produtos para animais instalada ao lado do Hospital Municipal
Veterinário de Natal. A loja foi inaugurada em dezembro de 2025 por Mércia
Lins, que identificou na região uma demanda ainda pouco atendida. “A gente vai
começando a dar vida um pouco à Ribeira”, relata a empresária.
Mércia revela que as
expectativas são altas em relação ao novo negócio: “Às vezes as pessoas têm
medo de empreender na Ribeira, mas quando eu vim percebi que é uma
oportunidade”.
Hudson Dantas, vendedor da
loja, relata que o movimento varia de acordo com o dia da semana. Segundo ele,
a presença de mais estabelecimentos na região poderia fortalecer ainda mais as
vendas. “Querendo ou não, um cliente acaba chamando outro”, avalia Hudson.
Carlos Maia (Jucern) | Foto: Magnus
Nascimento
Hudson Dantas, da FarmaPet, novo
negócio no bairro da Ribeira | Foto: Magnus Nascimento
Planejamento é necessário para
a Ribeira
A Federação do Comércio de
Bens, Serviços e Turismo do RN (Fecomércio) avalia que a migração do comércio
para outros polos — como as zonas Norte e Sul — deixou o bairro com menor fluxo
espontâneo de consumidores.
“A Ribeira, que historicamente
abrigou o centro financeiro e cultural de Natal, perdeu gradativamente sua
centralidade urbana ao longo das décadas pelo crescimento socioeconômico da
capital”, analisa a instituição.
Com 955 empresas ativas em
fevereiro de 2026, a Ribeira representa apenas 0,64% do total de
estabelecimentos de Natal (149.213) e 0,24% do estado (394.684), segundo a
Fecomércio, que avalia o bairro como o único da cidade com potencial simultâneo
de polos gastronômico, cultural, turístico e de economia criativa.
“Com um planejamento
territorial integrado que capitalize esse potencial em favor da permanência e
prosperidade dos negócios, certamente o bairro voltaria a viver seu auge”,
defende a federação.
Segundo Thales Medeiros,
gerente do Sebrae-RN, ter sucesso empreendendo na Ribeira é possível desde que
haja planejamento. “Para sobreviver em espaços como esse, é preciso pensar em
atividades rápidas, voltadas tanto para os moradores quanto para quem vem à
cidade”, disse.
Ele explica que a Ribeira
recebe muitas pessoas por motivos de trabalho e negócios, o que gera demanda
por alimentação rápida, por exemplo. “Pequenos negócios focados em soluções
práticas podem prosperar, desde que bem planejados e localizados”, afirma.
O gerente do Sebrae-RN também
ressalta a vocação cultural do bairro como um dos principais caminhos para
fortalecer a economia local. “A Ribeira tem uma tendência natural para
experiências ligadas a lazer e cultura, algo presente desde o início. Isso nos
dá grandes possibilidades de explorar e valorizar esse potencial”, conclui.
Para o produtor cultural
Anderson Foca, a ocupação cultural tem sido uma das principais formas de manter
a Ribeira ativa. Em 2025, ele contabiliza mais de dez ações realizadas no
bairro, incluindo edições do Festival do Sol, shows no Galpão 292 e apresentações
do Bloco da Graciosa.
“A Ribeira tem um viés
cultural que está acima de uma análise mais técnica de bairro, de comércio.
Então, isso termina, de certo modo, sempre atraindo uma atenção cultural ao
bairro”, afirma.
Ananda Miranda/Repórter
Tribuna do Norte

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