sábado, 29 de novembro de 2025

Edital para investimentos de pesquisa na 1ª planta-piloto de eólica offshore do Brasil é aberto no RN

Diálogo com comunidades, segundo o ISI-ER, tem fortalecido a inclusão no planejamento do projeto e contribui para o desenvolvimento da nova fronteira | Foto: Divulgação

O SENAI-RN, por meio do Instituto SENAI de Inovação em Energias Renováveis (ISI-ER), e a empresa DOIS A Engenharia e Tecnologia lançaram, nesta sexta-feira (28), o edital para investimentos de pesquisa na primeira planta-piloto de energia eólica offshore do Brasil.

A expectativa, segundo o diretor do SENAI-RN e do ISI-ER, Rodrigo Mello, é reunir diferentes empresas em um arranjo cooperativo multilateral, para desenvolver soluções que respondam a questões técnicas e socioambientais sobre a atividade, ainda inédita no país.

O edital está disponível na Plataforma Inovação para a Indústria, na página https://www.portaldaindustria.com.br/canais/plataforma-inovacao-para-industria/categoria/chamada-regional-senai/. Ele está cadastrado com o título “Chamada Regional – Soluções para Estruturas Autoinstaláveis de Parques Eólicos Offshore”.

O edital da planta-piloto offshore está disponível na Plataforma Inovação para a Indústria, com o título “Chamada Regional – Soluções para Estruturas Autoinstaláveis de Parques Eólicos Offshore”

O prazo para manifestação de interesse vai até 16 de janeiro. As etapas seguintes – avaliação das informações recebidas, reuniões técnicas com as companhias pré-selecionadas, divulgação dos resultados preliminares, período para interposição de recursos e divulgação dos resultados finais – estão programadas entre 19 de janeiro e 3 de março.

Já a assinatura dos Termos de Cooperação entre as partes, a definição do plano de trabalho e o aporte por parte de cada parceiro devem ocorrer entre 04 de março e 17 de abril, com início da execução do projeto no dia 20 do mesmo mês.

Projeto

A planta-piloto foi o primeiro projeto de energia eólica offshore do Brasil a receber licença prévia do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama).

À época, o órgão destacou que o projeto tem como missão contribuir com o desenvolvimento científico e tecnológico nacional – e que a concessão da licença foi fruto de um extenso processo de análise conduzido por uma equipe técnica multidisciplinar, composta por especialistas com ampla experiência.

A planta-piloto offshore é um projeto de Pesquisa Desenvolvimento & Inovação que trará respostas técnicas e socioambientais sobre a energia eólica offshore no Brasil. A energia que será gerada vai abastecer o Porto-Ilha de Areia Branca. Um dos objetivos com a conexão é a substituição de combustíveis fósseis na operação do porto e a consequente redução das emissões de gases do efeito estufa

Concebido para o mar de Areia Branca, município do Rio Grande do Norte a 330 km da capital, Natal, o projeto prevê o desenvolvimento, a nacionalização e a validação de tecnologias e soluções de construção e logística para a instalação de turbinas eólicas offshore (no mar), adaptadas às condições da Margem Equatorial brasileira.

Aproximadamente R$ 42 milhões em investimentos estão previstos na primeira etapa, que engloba projetos de engenharia e análises de condições de produção, com compartilhamento de riscos financeiros, tecnológicos e de conhecimento entre as empresas participantes.

“Este é um projeto de Pesquisa, Desenvolvimento & Inovação (PD&I) que enxergamos como um marco para o nascimento da indústria de energia eólica offshore no Brasil e com a perspectiva de trazer muito mais do que respostas técnicas. O que nós buscamos com o que estamos propondo é o desenvolvimento de uma cadeia nacional de fornecedores, o desenvolvimento de conteúdo nacional, a otimização da infraestrutura que existe, derivada da cadeia do onshore, e, certamente, apresentar respostas com cunho técnico e científico sobre questões ambientais e de como as pessoas poderão tirar o melhor proveito social e econômico dessa nova cadeia que vai se instalar no país”, disse Mello.

O projeto, acrescentou ele, deve ser desenvolvido ao longo de três anos. “E, certamente, ao final desse processo, teremos, de forma madura, respostas em todos os níveis envolvidos para a sociedade da região que está no entorno e de todo o Brasil, buscando fortalecer a matriz energética do país, que tem características extremamente limpas, renováveis e muito competitivas, além da geração de novas oportunidades através da ciência e da tecnologia”, frisou ainda.

O lançamento do edital, na avaliação do executivo, “é um divisor de águas para que o país dê início a processos pragmáticos para a criação dessa nova atividade industrial”.

Projeto seguirá modelo “Joint Industry Project (JIP)” e avança ampliando a escuta das comunidades envolvidas

O desenvolvimento da planta-piloto seguirá o modelo Joint Industry Project (JIP) – um projeto industrial conjunto que deverá reunir o SENAI-RN, por meio do ISI-ER, a DOIS A Engenharia e empresas investidoras interessadas em colaborar no desenvolvimento, nacionalização e validação das soluções previstas.

A previsão é captar parceiros interessados em desenvolver tecnologia nacional e soluções de construção e logística para fixação de aerogeradores nas condições da Margem Equatorial brasileira, ou seja, adaptadas a águas rasas, com até 70 metros de profundidade.

A primeira etapa, que envolve projetos de engenharia e análises de condições de produção, deverá durar de 16 a 18 meses, a contar da assinatura do contrato com o grupo de investidores. A segunda etapa, por sua vez, englobará a chamada “engenharia final”, com atividades de construção, montagem, comissionamento, testes e validações.

Do ponto de vista socioambiental, o projeto segue avançando em etapas de diagnóstico social, ampliando a escuta das comunidades envolvidas e aprofundando a compreensão de suas percepções diante da atividade offshore, explica Mariana Torres, pesquisadora do Instituto SENAI de Inovação em Energias Renováveis que lidera a equipe envolvida nos estudos ambientais e socioeconômicos da planta-piloto.

“Um dos objetivos do piloto é contribuir para que a transição energética se estabeleça de forma justa”, ressalta a pesquisadora e complementa: “Paralelamente, nós vamos intensificar o monitoramento dos aspectos físicos e biológicos do ambiente, dar continuidade a levantamentos de campo e construir, de forma metodológica e participativa, protocolos de monitoramento socioambiental, de forma a contribuir para o aprimoramento técnico, ambiental e regulatório da atividade no país”.

Planta-piloto

A planta-piloto offshore é um projeto de Pesquisa Desenvolvimento & Inovação que trará respostas técnicas e socioambientais sobre a energia eólica offshore no Brasil. Ela terá, entre outras funções, a de sítio de testes, em condições reais de operação, para futuros aerogeradores que serão implantados no mar do Brasil. A expectativa do SENAI é que o início da operação ocorra em até 36 meses, a partir da assinatura do contrato com as empresas parceiras.

O projeto licenciado pelo Ibama prevê a instalação de dois aerogeradores, com potência somada de 24,5 Megawatts (MW). As máquinas deverão ser implantadas a 4,5 km de distância do Porto-Ilha de Areia Branca, principal ponto de escoamento do sal produzido no Brasil. A região é considerada rasa e, segundo estudos desenvolvidos pelo ISI-ER, está distante de recifes de coral e das tradicionais zonas de pesca.

O sistema de implantação previsto se baseia em um modelo criado pela empresa espanhola Esteyco, e licenciado no Brasil pela DOIS A Engenharia, que possibilita a montagem total das torres em terra e que elas sejam então levadas até o destino, no mar, com o apoio de rebocadores – ou seja, sem a necessidade de grandes estruturas de navios, atualmente escassas e caras no mundo. As máquinas seriam então posicionadas, sem perfuração.

A expectativa com a participação de empresas investidoras, segundo o edital, é acelerar a nacionalização de soluções previstas e reduzir a dependência de embarcações e equipamentos especializados geralmente indisponíveis no país. O documento destaca o desafio, no campo tecnológico, de projetar e construir uma versão nacional da solução patenteada pela Esteyco, adaptada às condições específicas da costa brasileira, considerando aspectos estruturais, ambientais e logísticos.

Para isso, será necessário desenvolver localmente versões customizadas dos principais componentes do modelo espanhol. Entre eles estão fundações do tipo gravity-base (base gravitacional, em tradução literal) – ou seja, tipo de fundação que fica apoiada sobre o leito marítimo, sem necessidade de perfuração para instalação da turbina; torres telescópicas de concreto pré-moldado – tecnologia que permite a montagem do aerogerador sobre a torre sem a necessidade de grandes guindastes, além de possibilitar que esses equipamentos sejam transportados por rebocador comum até o ponto final de instalação, onde só então o aerogerador será erguido até a altura em que irá operar. Outro componente a ser desenvolvido serão sistemas flutuantes auxiliares, utilizados para estabilizar e transportar a estrutura da turbina no mar.

De acordo com informações do edital, o valor previsto do investimento será igualmente rateado entre as empresas integrantes do arranjo, cabendo a cada uma das participantes uma cota-parte proporcional. O objetivo, segundo o SENAI-RN, o ISI-ER e a DOIS A Engenharia, é viabilizar um projeto cooperativo de Pesquisa, Desenvolvimento & Inovação, estruturado como resposta a um conjunto de desafios técnicos, logísticos, regulatórios, financeiros e operacionais relacionados à nova fronteira energética.

“É preciso registrar que este é um projeto de desenvolvimento, um projeto de pesquisa e inovação, e não um projeto de geração de energia. A indústria de energia eólica está começando no Brasil. E para qualquer mercado que se abre, qualquer cadeia industrial que se inicia, há que se ter de forma sólida a tecnologia que será usada. Então, entendemos que o passo que estamos dando agora é fundamental para que o país possa desenvolver sua cadeia industrial com tecnologias sólidas e adaptadas para aplicação no litoral brasileiro”, frisou Rodrigo Mello.

Licença ambiental, estudo e planta-piloto

O pedido de licença ambiental para o projeto da planta-piloto offshore do SENAI-RN foi cadastrado no Ibama em janeiro de 2023. Em março do mesmo ano, o SENAI recebeu o Termo de Referência com as diretrizes e conteúdos a serem contemplados no estudo ambiental do projeto.

O trabalho da equipe responsável pelo estudo, no Instituto SENAI de Inovação em Energias Renováveis, incluiu a análise integrada de aspectos tecnológicos, logísticos, físicos, biológicos e sociais, bem como das potenciais contribuições que a implantação do piloto poderia trazer para a sociedade.

Comunidades pesqueiras de São Cristovão e Ponta do Mel, no município de Areia Branca, participaram de oficinas e outras dinâmicas promovidas pelo ISI-ER sobre o projeto | Foto: Divulgação

“Nós realizamos visitas de campo, conversamos com as comunidades dos municípios de Areia Branca, Grossos e Tibau, buscamos dados na literatura e analisamos tecnologias internacionais que pudessem ser adaptadas à realidade do Brasil”, detalha a pesquisadora do ISI-ER, Mariana Torres.

Durante as etapas de escuta social, disse ela, o diálogo contemplou os diferentes grupos usuários da área marinha, com destaque para pescadores artesanais e industriais, marisqueiras, armadores e mestres de embarcação. “Foram ouvidos representantes de colônias e associações de pesca, autoridades locais, bem como outras lideranças comunitárias. Nos encontros participaram também moradores da comunidade e a familia dos pescadores”, acrescenta. “Agora, estamos avançando em novas etapas de diagnóstico social, ampliando a escuta das comunidades e aprofundando a compreensão de suas percepções diante dessa atividade”, complementou ainda.

O estudo ambiental do projeto foi concluído e entregue ao Ibama em junho de 2024. Em agosto do mesmo ano, uma Reunião Técnica Informativa para apresentar os resultados do trabalho foi promovida em Areia Branca com a participação das comunidades, do Ibama, da Marinha do Brasil, da Empresa de Pesquisa Energética (EPE), da Secretaria de Estado do Desenvolvimento Econômico (Sedec), do Centro de Estratégias em Recursos Naturais e Energia (Cerne), do Conselho Global de Energia Eólica (GWEC), da Companhia Docas do Rio Grande do Norte (Codern) e de empresas.

“Em outubro desse mesmo ano ampliamos a escuta social por meio de um diagnóstico social participativo”, acrescentou Torres. As atividades realizadas no período, acompanhadas in loco pelo Ibama, pelo Ministério de Minas e Energia e por representantes da Embaixada da Dinamarca no Brasil e da Agência Dinamarquesa de Energia, estão inseridas na perspectiva de aprofundar o diagnóstico socioambiental que o Instituto SENAI de Inovação em Energias Renováveis faz sobre a região, com uma maior compreensão dos desafios, expectativas e preocupações apresentados pelas comunidades com a chegada da energia eólica ao mar.

A energia que será gerada pela planta-piloto vai abastecer o Porto-Ilha de Areia Branca. Um dos objetivos com a conexão é a substituição de combustíveis fósseis na operação do porto e a consequente redução das emissões de gases do efeito estufa.

O que é uma planta-piloto?

Na literatura, uma planta-piloto é definida como um conjunto de sistemas que permite executar processos em condições próximas às de uma planta industrial, mas em escala reduzida e controlada. Esse entendimento geral também aparece na regulação brasileira. A Resolução ANP nº 918/2023, por exemplo, que trata dos investimentos em pesquisa, desenvolvimento e inovação no setor de petróleo e gás, define “unidade piloto” como uma instalação operacional em escala não comercial, destinada a testar processos, obter dados técnicos e validar hipóteses. A norma reforça que essas estruturas servem para desenvolver e ajustar produtos, projetar equipamentos e preparar instruções operacionais antes da adoção em larga escala.

Tribuna do Norte

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