A percepção de dona Ivaneide
se confirma nos números. Após retomar a obrigatoriedade da renovação anual do
credenciamento, suspensa desde 2018, o Ministério da Saúde anunciou o
descredenciamento de 9.180 farmácias em todo o país. No Rio Grande do Norte, 137
estabelecimentos foram excluídos, sendo 43 por não atender critérios exigidos e
94 por baixa de CNPJ. Natal foi a cidade mais impactada, com 71 farmácias fora
do programa. Outras 31 cidades também perderam unidades credenciadas, entre
elas Parnamirim (11), Ceará-Mirim (7), Assú (4) e Currais Novos (4).
Segundo o farmacêutico Cesimar Lourenço, que trabalha em uma unidade
participante em Natal, o programa funciona como complemento ao atendimento das
Unidades Básicas de Saúde. “Ele facilita o acesso da população aos medicamentos
gratuitos. Como muitas UBS não têm todos os remédios, a Farmácia Popular faz
esse papel secundário”, explica.
O programa contempla 12 tipos de medicamentos, voltados para tratamento de
hipertensão, diabetes, asma, osteoporose, dislipidemia (colesterol alto),
rinite, doença de Parkinson, glaucoma, diabetes associada a doenças
cardiovasculares e anticoncepção. Também disponibiliza fraldas geriátricas para
pessoas com incontinência e absorventes higiênicos para beneficiárias do
Programa Dignidade Menstrual.
Para manter o credenciamento, as farmácias precisam cumprir exigências como
presença de farmacêutico, conferência de documentação do paciente e prescrição
médica adequada. “Muitas não atentam para isso e acabam descredenciadas”, diz
Cesimar.
A presidente do Sincofarn (Sindicato do Comércio Varejista de Produtos
Farmacêuticos do RN), Diva Dutra, afirma que a exclusão em larga escala tem
efeito direto na vida dos pacientes. “O impacto imediato é a redução de pontos
para retirada de medicamentos gratuitos ou subsidiados em municípios e bairros
onde as farmácias descredenciadas eram referência”, pontua.
Ela alerta que, para pacientes crônicos — como hipertensos, diabéticos e
asmáticos —, a perda de unidades credenciadas pode gerar deslocamentos maiores,
filas mais longas e até interrupção do tratamento. Por outro lado, reconhece
que a exigência de renovação e a apresentação de documentação são medidas
legítimas, sobretudo após a detecção de irregularidades em grandes redes. “Na
prática, porém, houve falhas que explicam parte dos números: prazos pouco
claros para recadastramento, instabilidade dos sistemas eletrônicos e envio
incorreto de informações por parte de empresários”, avalia.
Diva acredita que os números divulgados pelo Ministério da Saúde ainda podem
ser revistos. Ela ressalta que nenhuma farmácia associada ao sindicato foi
descredenciada e que, se por um lado, a perda do credenciamento afeta o
faturamento e a sustentabilidade de estabelecimentos de menor porte, por outro,
retira das comunidades um serviço social importante. “As farmácias populares
garantem acesso a medicamentos para populações vulneráveis, com atendimento
próximo e suporte farmacêutico local”, afirma.
Para dona Ivaneide, que já sofreu um infarto, o programa é fundamental, mas
poderia ser mais abrangente. “Eu tomo oito medicamentos, mas só recebo dois. O
governo libera os mais baratos, mas poderia incluir também os que mais pesam no
bolso, principalmente para quem é idoso, aposentado e gasta muito com
remédios”, sugere.
O Ministério da Saúde foi procurado para esclarecer se a quantidade de
farmácias excluídas compromete o atendimento e acesso dos pacientes aos
remédios. A pasta, no entanto, informou que não haveria tempo hábil para
responder até o fechamento desta edição.
Tribuna do Norte

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