O presidente do Sindicato da
Indústria da Pesca do RN (Sindipesca), Arimar França Filho, explica que a frota
de atum que chega neste período tem sido direcionada ao mercado interno. “A
exportação de pesca costeira está sendo suspensa e agora as embarcações de atum
estão chegando e a gente está destinando ao mercado interno. Com relação ao
Governo do RN, poucas empresas foram agraciadas com o crédito que tínhamos de
imposto e o setor de pesca não tem Proedi”, relata.
O dirigente acrescentou que o setor aguarda a regulamentação do Plano Brasil
Soberano para compreender de que forma o crédito federal será acessado. “Sem
regulamentação a gente não tem noção, acesso ao crédito, como funciona o
Reintegra para pesca, o acesso, as taxas de juros, a forma de pagamento. Esse
dinheiro vai ser emprestado mas tem que ser pago”, pontua. O setor pesqueiro
emprega entre 1,2 mil e 1,5 mil pessoas no estado. De acordo com Arimar, metade
dos trabalhadores foi colocada em férias desde o início da vigência da tarifa.
Na indústria salineira, que responde por 98% da produção nacional, o cenário
também é de incerteza. “O Sal continua incluído no tarifaço dos EUA. Os
clientes americanos não aceitam receber o sal brasileiro devido à taxação de
50%. Portanto, os embarques estão suspensos. Ainda poderão ocorrer alguns
embarques por força de contratos que não puderem ser rescindidos, mas, com
pesados prejuízos para os exportadores brasileiros”, disse Airton Torres,
presidente do Sindicato da Indústria de Extração do Sal do RN.
Mesmo com a paralisação dos embarques, ele afirma que não há perspectiva de
cortes de trabalhadores no curto prazo, em razão do ciclo anual do processo
produtivo do sal. Hoje, o setor emprega mais de quatro mil pessoas de forma
direta. “[Estamos] ultimando providências para amenizar os prejuízos dos
exportadores através de ampliação do benefício do Proedi. Quanto ao Plano
Brasil Soberano, a indústria salineira está trabalhando para que o sal nacional
seja incluído no Reintegra. Enquanto isso não ocorrer, não vislumbramos
benefício à indústria salineira por parte do governo federal”, considera.
Tanto o setor salineiro quanto o pesqueiro ressaltam que as alternativas ao
mercado norte-americano são bastante restritas. No caso do sal, as exportações
se limitam à costa leste dos Estados Unidos e à costa oeste africana, sem
viabilidade logística para destinos mais distantes, embora haja estudos sobre a
possibilidade de atingir a Europa. Já na pesca, a principal opção seria o
mercado comum europeu, mas o Brasil permanece impedido de exportar pescados
para o bloco desde 2018, o que reforça a dependência do mercado americano e
aumenta a pressão por soluções diplomáticas.
As sobretaxas começaram a valer no último dia 6 de agosto e atingiram os
exportadores potiguares, que têm nos Estados Unidos o principal destino do sal
marinho e do pescado, especialmente o atum. No dia 1º de agosto, o governo
estadual havia anunciado a ampliação temporária do Programa de Estímulo ao
Desenvolvimento Industrial (Proedi) e a duplicação dos créditos do Imposto
sobre Circulação de Mercadorias e Serviços (ICMS). No governo federal, foi
lançado o Plano Brasil Soberano com uma série de medidas, como suspensão de
tributos para empresas exportadoras e reforço ao Reintegra.
Apoio insuficiente
De acordo com Roberto Serquiz, presidente da Federação das Indústrias do Estado
do Rio Grande do Norte (FIERN), já é possível sentir os efeitos. “O impacto
imediato do tarifaço imposto pelos Estados Unidos sobre as exportações
potiguares, e consequentemente sobre a indústria, é inegável. Setores como o
salineiro e o pescado já sentem a pressão de uma sobretaxa de 50% que
compromete contratos em andamento, reduz margens de competitividade e ameaça a
manutenção de empregos”, afirma.
Segundo ele, o apoio governamental não está sendo suficiente para enfrentar a
dimensão do problema. “Em momentos de dificuldade, todo apoio é bem-vindo.
Contudo, é inegável que as medidas anunciadas pelos governos estadual e federal
permanecem insuficientes diante dos impactos do tarifaço imposto pelo governo
Trump. São ações de efeito limitado, cuja eficácia só pode ser aferida a partir
da realidade de cada setor e de cada empresa. O que se mostra verdadeiramente
necessário é a reconstrução de uma relação diplomática sólida entre Brasil e
Estados Unidos”, avalia.
Um estudo da Federação das Indústrias do Estado de Minas Gerais (Fiemg) aponta
que o tarifaço pode resultar na perda de até 146,6 mil empregos no Brasil em
dois anos. Na avaliação da FIERN, ainda não é possível dimensionar com precisão
os impactos em empregos e produção no RN, mas há risco real para setores mais
intensivos em mão de obra. Serquiz afirma que cada contrato renegociado e cada
contêiner retido representam ameaça direta ao emprego e à renda de milhares de
famílias no estado.
A reportagem da TRIBUNA DO NORTE entrou em contato com a Secretaria do
Desenvolvimento Econômico, da Ciência, da Tecnologia e da Inovação do RN
(Sedec) para verificar atualizações no andamento das medidas anunciadas no
Estado, mas não obteve retorno até o fechamento desta matéria.
Tribuna do Norte

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