No recorte estadual, o levantamento aponta ainda que o Rio Grande do Norte
aplicou sua avaliação censitária com uma taxa de participação de 78,55%, abaixo
do mínimo considerado positivo pelo Inep, de 80%. A reportagem da TRIBUNA DO
NORTE procurou a União Nacional dos Dirigentes Municipais de Educação do Rio
Grande do Norte (Undime/RN) e a Secretaria de Estado da Educação, do Esporte e
do Lazer (SEEC-RN) para esclarecer as razões dos baixos índices.
A SEEC destacou, em nota, que a alfabetização de crianças é uma prioridade, mas reforçou que a oferta do Ensino Fundamental – Anos Iniciais é de responsabilidade majoritária dos municípios. De acordo com os dados, 84,4% dos estudantes dessa etapa estão matriculados na rede municipal, enquanto a rede estadual atende 15,5% e a federal, 0,1%. A Undime não respondeu até o fechamento desta edição.
Gustavo dos Santos Fernandes, mestre em Educação e especialista em Gestão
Escolar, afirma que a posição crítica do estado está diretamente ligada às
desigualdades regionais. “A parte dos estados do Nordeste vai cair com essa
marca negativa. O Nordeste enfrenta desafios muito significativos quando se
trata da estrutura educacional, desde a formação dos professores até o
investimento público e a aprendizagem”, pontua. Ele destaca ainda que o Rio
Grande do Norte possui “péssima estrutura física”, o que, segundo ele, impacta
diretamente os resultados de avaliações como o Saeb.
A ausência de condições adequadas para o processo de ensino-aprendizagem é
também apontada como um fator determinante para o resultado do Rio Grande do
Norte. “Essa estrutura física, de maneira geral, afeta muito esse resultado.
Muitas escolas têm salas pequenas, que não comportam a quantidade de alunos, e
há uma grande dificuldade no suporte às crianças com deficiência. A desnutrição
também é um fator marcante, porque afeta o desenvolvimento cognitivo. Muitas
vezes, essas crianças chegam nas escolas com fome”, relata.
De acordo com os dados da avaliação amostral do Saeb 2023, o Ceará lidera o
ranking nacional de alfabetização na rede pública entre os alunos do 2º ano do
ensino fundamental, com 72,1% dos estudantes considerados alfabetizados. Na
sequência aparecem Espírito Santo (63,7%), Minas Gerais (63,0%), Rio Grande do
Sul (62,4%) e Santa Catarina (61,8%).
Com o contexto do RN ocupando a 2ª colocação, Gustavo aponta que a valorização
docente também é uma preocupação. “O professor desmotivado, que não tem seu
salário pago de forma adequada conforme a lei do piso, não está motivado para
preparar esse aluno. Quando o piso não é discutido ou implantado, o que o
professor faz é greve. E quando não tem aula, o aluno não aprende”, enfatiza.
Para reverter os baixos índices de alfabetização registrados no Rio Grande do Norte, o especialista destaca que é urgente investir na formação continuada dos professores, especialmente para que compreendam as diretrizes da Base Nacional Comum Curricular (BNCC), que prevê a alfabetização até o 2º ano do ensino fundamental. Além disso, ele ressalta a importância de melhorias estruturais nas escolas.
Ao todo a pesquisa do Saeb 2023 tinha a previsão de 31.748 alunos no Rio Grande
do Norte, mas somente 24.937 participaram. Já na avaliação amostral, que trouxe
o resultado da 2ª menor taxa de alfabetização ao RN, abrangeu 27 escolas, 38
turmas e 674 alunos. Os dados, no entanto, não detalham quantas delas são
estaduais ou municipais.
Apesar da participação quantitativa menor, o Governo do Estado afirmou que
mantém iniciativas para garantir o direito à alfabetização, como a Política
Territorial de Alfabetização de Crianças do RN (Pró-Alfa RN). O programa,
alinhado ao Compromisso Nacional Criança Alfabetizada (CNCA), do Governo
Federal, foi construído em parceria com a União dos Dirigentes Municipais de
Educação (Undime-RN) e o Ministério da Educação (MEC).
O Pró-Alfa RN tem como objetivo consolidar a alfabetização até o 2º ano do
Ensino Fundamental e recuperar defasagens até o 5º ano, por meio de colaboração
entre Estado, municípios, escolas e famílias. A SEEC ressaltou que o sucesso da
política depende da atuação conjunta de todos os entes e reafirmou seu
compromisso para que “nenhuma criança potiguar fique para trás”.
Polêmica dos dados
O debate sobre os números da alfabetização no Brasil ganhou repercussão
nacional após o Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio
Teixeira (Inep) ter adiado por oito meses a divulgação dos dados do 2º ano do
ensino fundamental no Saeb. O Inep justificou a demora alegando dificuldades na
definição de padrões de desempenho e limitações na amostra.
Enquanto isso, o Ministério da Educação (MEC) celebrou, em maio de 2024, os
resultados do programa Criança Alfabetizada, que prometia garantir o direito à
alfabetização das crianças brasileiras até o final do 2º ano do ensino
fundamental. Os dados apontaram 56% de alunos alfabetizados. No entanto, o
índice é incompatível com os 49% apontados pela amostra nacional do Saeb.
A diferença entre os dois indicadores ficou evidente em estados como o
Maranhão, onde o Criança Alfabetizada apontou 56% de alfabetizados, enquanto o
Saeb mostrou apenas 31%, com margem de erro de 5,9 pontos percentuais. No Rio
Grande do Norte, o Criança Alfabetizada apontava também 56%.
Tribuna do Norte

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