Sempre que precisa preencher
uma vaga de emprego, Rodrigo Vasconcelos, proprietário de uma loja
especializada em flores na Cidade Alta, em Natal, enfrenta o mesmo desafio:
leva em média 45 dias para conseguir efetivar a contratação. A principal causa
é a escassez de mão de obra qualificada, segundo ele. E Rodrigo não está
sozinho. Um levantamento do FGV Ibre, unidade da Fundação Getúlio Vargas,
mostra que em todo o Brasil seis em cada dez empresas têm enfrentado
dificuldades para encontrar profissionais. No RN, o cenário é puxado pela
redução da taxa de desemprego — que diminuiu o número de pessoas disponíveis no
mercado —, falta de qualificação e até pelo desinteresse por determinadas
funções.
As dificuldades se espalham
pelos mais variados setores da economia potiguar. No comércio, segmentos com
grande demanda operacional e rotinas de alto fluxo são os mais afetados.
“Supermercados, bares e restaurantes, e atividades de facilities (limpeza, portaria,
jardinagem, segurança e manutenção) apresentam rotatividade e dificuldade de
reposição especialmente acentuadas”, descreve Marcelo Queiroz, presidente da
Fecomércio RN.
Na área de Tecnologia da
Informação e Dados, o déficit de mão de obra é estruturante para 39% das
empresas parceiras do Senac, instituição de educação profissional que integra a
Fecomércio. “Há ainda problemas no comércio e varejo em funções como telemarketing,
vendedores especializados e analistas de e-commerce”, afirma Queiroz.
Segundo a Fecomércio, 84% das
empresas do comércio atendidas pelo Senac Carreiras relatam que as dificuldades
em conseguir mão de obra se traduzem em processos seletivos mais longos e
custos maiores de recrutamento.
Na indústria do RN, as funções
mais difíceis de preencher são as de técnico industrial, operadores,
profissionais de manutenção, supervisores de produção e especialistas em
qualidade, segurança e meio ambiente.
“Os maiores gargalos
concentram-se justamente nos segmentos que sustentam a indústria potiguar:
alimentos e bebidas, pesca e agroindústria, mineração e petróleo, além de áreas
estratégicas como manutenção industrial, eletromecânica, automação e logística.
Nessas atividades, as vagas permanecem abertas por longos períodos, travando a
expansão das empresas, os investimentos e a geração de emprego e renda”,
explica Roberto Serquiz, presidente da Federação das Indústrias do RN (Fiern).
No agro, os segmentos mais
afetados são aqueles que dependem intensivamente de mão de obra operacional e
sazonal, como a fruticultura irrigada — especialmente nas etapas de colheita,
seleção e embalagem — além da pecuária e da agricultura tradicional. Segundo
José Álvares Vieira, presidente da Federação da Agricultura e Pecuária do RN
(Faern), esses setores concentram grande demanda por trabalhadores em períodos
curtos, exigem esforço físico e, muitas vezes, oferecem contratos temporários.
“Em um contexto de base
demográfica restrita e envelhecida, a competição por esses trabalhadores
torna-se crítica, dificultando o preenchimento de vagas em janelas produtivas
essenciais”, frisa Vieira. Em todos os setores, conforme relatos das entidades,
os prazos para preenchimento de vagas são variados e, em alguns casos, como no
agro, elas sequer são totalmente preenchidas no tempo necessário.
“Isso gera riscos
operacionais, pressão sobre as equipes já contratadas e a possibilidade real de
perdas produtivas, sobretudo em cadeias que dependem de janelas precisas de
colheita para exportação”, disse José Vieira.
Qualificação é o principal
gargalo no mercado
Rodrigo Vasconcelos,
proprietário da A Graciosa Flores, em Natal, pontua que a falta de qualificação
é o principal empecilho para efetivação de uma vaga na loja. Segundo ele, a
maior dificuldade está em contratar vendedores. “As pessoas não são capacitadas
e acabam não conseguindo a vaga. Isso ocorre em várias empresas do comércio, de
um modo geral”, fala Vasconcelos, que também é presidente da Associação Viva o
Centro, na Cidade Alta. “Outro problema são os auxílios pagos pelo Governo.
Muita gente acaba optando por eles em vez de um trabalho formal”, completa.
No agronegócio, a escassez é
resultado de fatores como o êxodo rural, o envelhecimento da população no campo
e a menor atratividade do trabalho rural para os jovens. “Soma-se a isso a
penosidade física de algumas funções e a crescente exigência por qualificação
técnica para operar novas tecnologias”, aponta José Vieira, presidente da
Faern.
José Vieira (Faern): dificuldade
também se estende ao campo | Foto: Magnus Nascimento
Michel Cosme, da Frutan,
empresa de frutas com cultivo no Distrito Irrigado do Baixo-Açu (DIBA), em Alto
do Rodrigues, conta que a necessidade de mão de obra para sua produção é de 30
funcionários, mas atualmente ele dispõe de apenas 22 trabalhadores.
“Falta tratorista e gente para
colher as frutas. O jovem não quer mais trabalhar no meio rural e também tem os
auxílios do Governo. Mesmo a gente pagando um salário de R$ 2,2 mil, com
direito a alimentação, tem essa dificuldade de conseguir pessoal. Isso aumentou
bastante em 2024 e piorou muito no ano passado. A ausência desses trabalhadores
limita nosso crescimento, porque a gente quer ampliar a produção, mas não tem
mão de obra”, afirma Michel, que possui uma área de 100 hectares dedicada à
fruticultura no DIBA.
O subsecretário do Trabalho,
Emprego, Renda e Economia Solidária do RN, George Ramalho, avalia que há
algumas dificuldades por parte das empresas em contratar, mas, ao contrário das
entidades ouvidas pela reportagem, ele acredita que o preenchimento das vagas
ofertadas pelo Sistema Nacional de Emprego (Sine) ocorrem dentro de um prazo
razoável.
No RN, o Sine é administrado
pela Secretaria de Estado do Trabalho, pasta da qual Ramalho é subsecretário.
Para ele, é importante que as pessoas busquem qualificação, a fim de melhor
atender às exigências das empresas e, assim, acelerar o tempo de efetivação das
vagas.
“Diante desse cenário, um dos
principais objetivos do Governo do Estado, por meio da Sethas/Setrab é
fortalecer a política de qualificação profissional, atuando junto ao sistema S
para oferecer cursos e ações que preparem melhor os trabalhadores e ampliem
suas chances de inserção no mercado de trabalho”, afirma George Ramalho.
Entidades oferecem formação
profissional
A falta de qualificação é a
principal razão pela qual o motorista de transporte por aplicativo Edson Hugo,
de 55 anos, se mantém fora do mercado de trabalho formal desde que foi demitido
de uma empresa terceirizada que prestava serviços à Petrobras no RN, há dois
anos. Além disso, fatores como os ganhos que ele consegue alcançar como
motorista contam para a permanência dele fora do mercado formal.
“Eu era marinheiro auxiliar de
convés. É uma função que aprendi na empresa e que não existe fora dela. Com a
saída da Petrobras, a terceirizada perdeu o contrato e eu fui demitido algum
tempo depois. Por não ter nenhuma formação, minha opção foi trabalhar com o
carro”, narrou. Ele diz que até pensa em buscar um emprego com carteira
assinada, mas revela que os ganhos que consegue nos aplicativos de corrida têm
ajudado a protelar esses planos. “É mais vantajoso. Inclusive, estou pensando
em comprar um carro elétrico, porque os benefícios são ainda maiores”, relata
Edson Hugo.
Edson Hugo acha mais vantajoso
trabalhar como motorista de app | Foto: Magnus Nascimento
Para Roberto Serquiz, da
Fiern, é preciso apostar, sobretudo, na oferta de qualificação para sanar o
problema da escassez de mão de obra. “O Sistema Indústria tem feito sua parte.
O Senai vem ampliando e ajustando sua oferta de cursos técnicos e de qualificação
às demandas reais da indústria de transformação, com resultados concretos na
elevação do nível técnico da mão de obra. Da mesma forma, o projeto de
Meritocracia Sindical – implantado na atual gestão da Fiern – fortalece a
cultura de desempenho, capacitação e valorização profissional, preparando
melhor os trabalhadores”, explicou.
Já a Fecomércio defende
medidas ancoradas na qualificação profissional com foco em empregabilidade,
conexão estratégica entre candidatos e empresas e desenvolvimento contínuo de
competências alinhadas às demandas do mercado. “Todos os cursos do Senac desenvolvem
habilidades específicas das profissões e soft skills essenciais como
comunicação, trabalho em equipe, resolução de problemas e adaptabilidade”,
frisou Marcelo Queiroz, presidente da Federação.
A Faern, por sua vez, entende
que a escassez de mão de obra exige uma abordagem ampla para modernizar o agro,
com base em pilares como inovação e mecanização de tecnologias; valorização e
qualificação do trabalho rural; e melhoria das condições de vida no campo. “É
preciso fortalecer a infraestrutura rural, garantindo que viver e trabalhar
seja uma escolha viável e atrativa para as novas gerações”, disse o presidente
José Vieira.
Felipe Salustino/Repórter
Tribuna do Norte

Nenhum comentário:
Postar um comentário