sábado, 10 de janeiro de 2026

Empresas relatam dificuldades para contratar mão de obra no RN

Na loja especializada em flores na Cidade Alta, em Natal, o empresário Rodrigo Vasconcelos leva em média 45 dias para conseguir efetivar uma contratação | Foto: Magnus Nascimento

Sempre que precisa preencher uma vaga de emprego, Rodrigo Vasconcelos, proprietário de uma loja especializada em flores na Cidade Alta, em Natal, enfrenta o mesmo desafio: leva em média 45 dias para conseguir efetivar a contratação. A principal causa é a escassez de mão de obra qualificada, segundo ele. E Rodrigo não está sozinho. Um levantamento do FGV Ibre, unidade da Fundação Getúlio Vargas, mostra que em todo o Brasil seis em cada dez empresas têm enfrentado dificuldades para encontrar profissionais. No RN, o cenário é puxado pela redução da taxa de desemprego — que diminuiu o número de pessoas disponíveis no mercado —, falta de qualificação e até pelo desinteresse por determinadas funções.

As dificuldades se espalham pelos mais variados setores da economia potiguar. No comércio, segmentos com grande demanda operacional e rotinas de alto fluxo são os mais afetados. “Supermercados, bares e restaurantes, e atividades de facilities (limpeza, portaria, jardinagem, segurança e manutenção) apresentam rotatividade e dificuldade de reposição especialmente acentuadas”, descreve Marcelo Queiroz, presidente da Fecomércio RN.

Na área de Tecnologia da Informação e Dados, o déficit de mão de obra é estruturante para 39% das empresas parceiras do Senac, instituição de educação profissional que integra a Fecomércio. “Há ainda problemas no comércio e varejo em funções como telemarketing, vendedores especializados e analistas de e-commerce”, afirma Queiroz.

Segundo a Fecomércio, 84% das empresas do comércio atendidas pelo Senac Carreiras relatam que as dificuldades em conseguir mão de obra se traduzem em processos seletivos mais longos e custos maiores de recrutamento.

Na indústria do RN, as funções mais difíceis de preencher são as de técnico industrial, operadores, profissionais de manutenção, supervisores de produção e especialistas em qualidade, segurança e meio ambiente.

“Os maiores gargalos concentram-se justamente nos segmentos que sustentam a indústria potiguar: alimentos e bebidas, pesca e agroindústria, mineração e petróleo, além de áreas estratégicas como manutenção industrial, eletromecânica, automação e logística. Nessas atividades, as vagas permanecem abertas por longos períodos, travando a expansão das empresas, os investimentos e a geração de emprego e renda”, explica Roberto Serquiz, presidente da Federação das Indústrias do RN (Fiern).

No agro, os segmentos mais afetados são aqueles que dependem intensivamente de mão de obra operacional e sazonal, como a fruticultura irrigada — especialmente nas etapas de colheita, seleção e embalagem — além da pecuária e da agricultura tradicional. Segundo José Álvares Vieira, presidente da Federação da Agricultura e Pecuária do RN (Faern), esses setores concentram grande demanda por trabalhadores em períodos curtos, exigem esforço físico e, muitas vezes, oferecem contratos temporários.

“Em um contexto de base demográfica restrita e envelhecida, a competição por esses trabalhadores torna-se crítica, dificultando o preenchimento de vagas em janelas produtivas essenciais”, frisa Vieira. Em todos os setores, conforme relatos das entidades, os prazos para preenchimento de vagas são variados e, em alguns casos, como no agro, elas sequer são totalmente preenchidas no tempo necessário.

“Isso gera riscos operacionais, pressão sobre as equipes já contratadas e a possibilidade real de perdas produtivas, sobretudo em cadeias que dependem de janelas precisas de colheita para exportação”, disse José Vieira.

Qualificação é o principal gargalo no mercado

Rodrigo Vasconcelos, proprietário da A Graciosa Flores, em Natal, pontua que a falta de qualificação é o principal empecilho para efetivação de uma vaga na loja. Segundo ele, a maior dificuldade está em contratar vendedores. “As pessoas não são capacitadas e acabam não conseguindo a vaga. Isso ocorre em várias empresas do comércio, de um modo geral”, fala Vasconcelos, que também é presidente da Associação Viva o Centro, na Cidade Alta. “Outro problema são os auxílios pagos pelo Governo. Muita gente acaba optando por eles em vez de um trabalho formal”, completa.

No agronegócio, a escassez é resultado de fatores como o êxodo rural, o envelhecimento da população no campo e a menor atratividade do trabalho rural para os jovens. “Soma-se a isso a penosidade física de algumas funções e a crescente exigência por qualificação técnica para operar novas tecnologias”, aponta José Vieira, presidente da Faern.

José Vieira (Faern): dificuldade também se estende ao campo | Foto: Magnus Nascimento

Michel Cosme, da Frutan, empresa de frutas com cultivo no Distrito Irrigado do Baixo-Açu (DIBA), em Alto do Rodrigues, conta que a necessidade de mão de obra para sua produção é de 30 funcionários, mas atualmente ele dispõe de apenas 22 trabalhadores.

“Falta tratorista e gente para colher as frutas. O jovem não quer mais trabalhar no meio rural e também tem os auxílios do Governo. Mesmo a gente pagando um salário de R$ 2,2 mil, com direito a alimentação, tem essa dificuldade de conseguir pessoal. Isso aumentou bastante em 2024 e piorou muito no ano passado. A ausência desses trabalhadores limita nosso crescimento, porque a gente quer ampliar a produção, mas não tem mão de obra”, afirma Michel, que possui uma área de 100 hectares dedicada à fruticultura no DIBA.

O subsecretário do Trabalho, Emprego, Renda e Economia Solidária do RN, George Ramalho, avalia que há algumas dificuldades por parte das empresas em contratar, mas, ao contrário das entidades ouvidas pela reportagem, ele acredita que o preenchimento das vagas ofertadas pelo Sistema Nacional de Emprego (Sine) ocorrem dentro de um prazo razoável.

No RN, o Sine é administrado pela Secretaria de Estado do Trabalho, pasta da qual Ramalho é subsecretário. Para ele, é importante que as pessoas busquem qualificação, a fim de melhor atender às exigências das empresas e, assim, acelerar o tempo de efetivação das vagas.

“Diante desse cenário, um dos principais objetivos do Governo do Estado, por meio da Sethas/Setrab é fortalecer a política de qualificação profissional, atuando junto ao sistema S para oferecer cursos e ações que preparem melhor os trabalhadores e ampliem suas chances de inserção no mercado de trabalho”, afirma George Ramalho.

Entidades oferecem formação profissional

A falta de qualificação é a principal razão pela qual o motorista de transporte por aplicativo Edson Hugo, de 55 anos, se mantém fora do mercado de trabalho formal desde que foi demitido de uma empresa terceirizada que prestava serviços à Petrobras no RN, há dois anos. Além disso, fatores como os ganhos que ele consegue alcançar como motorista contam para a permanência dele fora do mercado formal.

“Eu era marinheiro auxiliar de convés. É uma função que aprendi na empresa e que não existe fora dela. Com a saída da Petrobras, a terceirizada perdeu o contrato e eu fui demitido algum tempo depois. Por não ter nenhuma formação, minha opção foi trabalhar com o carro”, narrou. Ele diz que até pensa em buscar um emprego com carteira assinada, mas revela que os ganhos que consegue nos aplicativos de corrida têm ajudado a protelar esses planos. “É mais vantajoso. Inclusive, estou pensando em comprar um carro elétrico, porque os benefícios são ainda maiores”, relata Edson Hugo.

Edson Hugo acha mais vantajoso trabalhar como motorista de app | Foto: Magnus Nascimento

Para Roberto Serquiz, da Fiern, é preciso apostar, sobretudo, na oferta de qualificação para sanar o problema da escassez de mão de obra. “O Sistema Indústria tem feito sua parte. O Senai vem ampliando e ajustando sua oferta de cursos técnicos e de qualificação às demandas reais da indústria de transformação, com resultados concretos na elevação do nível técnico da mão de obra. Da mesma forma, o projeto de Meritocracia Sindical – implantado na atual gestão da Fiern – fortalece a cultura de desempenho, capacitação e valorização profissional, preparando melhor os trabalhadores”, explicou.

Já a Fecomércio defende medidas ancoradas na qualificação profissional com foco em empregabilidade, conexão estratégica entre candidatos e empresas e desenvolvimento contínuo de competências alinhadas às demandas do mercado. “Todos os cursos do Senac desenvolvem habilidades específicas das profissões e soft skills essenciais como comunicação, trabalho em equipe, resolução de problemas e adaptabilidade”, frisou Marcelo Queiroz, presidente da Federação.

A Faern, por sua vez, entende que a escassez de mão de obra exige uma abordagem ampla para modernizar o agro, com base em pilares como inovação e mecanização de tecnologias; valorização e qualificação do trabalho rural; e melhoria das condições de vida no campo. “É preciso fortalecer a infraestrutura rural, garantindo que viver e trabalhar seja uma escolha viável e atrativa para as novas gerações”, disse o presidente José Vieira.

Felipe Salustino/Repórter

Tribuna do Norte

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