domingo, 21 de junho de 2026

Crianças potiguares “estreantes”em Copa do Mundo torcem pelo hexa

André Pinheiro, de 6 anos, está animado em ver a primeira Copa do Mundo. Ele é fã de Neymar e de Mbappé| Foto: Kayki Siminéa

Para quem viveu os anos 1990 ou o início dos anos 2000, a Copa do Mundo é sinônimo de memórias essencialmente analógicas: o gol de Branco contra a Holanda em 1994, assistido em uma modesta TV de 14 polegadas, por exemplo, evoca um sentimento quase folclórico, transmitido de geração em geração. Mas, para milhões de brasileiros, o grito de “Campeão do Mundo” ainda ressoa como uma lenda contada exclusivamente pelos mais velhos.

Dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) revelam um cenário demográfico impactante. Se, em nível nacional, estima-se que cerca de 70 milhões de cidadãos nunca viram a Seleção erguer a taça, o recorte local impressiona ainda mais. Cruzando os dados do Censo Demográfico com a Pesquisa de Estatísticas do Registro Civil, o Rio Grande do Norte registrou exatamente 116.062 nascidos vivos entre os anos de 2022 e 2024 (sendo 39.974 em 2022, 39.383 em 2023 e 36.705 em 2024). Somando-se as estimativas desde o meio de 2022 até o momento atual, estima-se que o estado ganhou cerca de 170 mil novos potiguares.

Essa multidão de crianças quase equivale, em termos populacionais, à quarta maior cidade do Rio Grande do Norte, São Gonçalo do Amarante (124.495), superando, no entanto, a população de municípios inteiros como Macaíba (87.056), por exemplo. De forma alusiva, uma cidade inteira de potiguares que já aprendeu a andar, falar e mexer no celular melhor que os próprios pais, mas que nunca vivenciou um título mundial. É justamente em 2026 que a nostalgia dos adultos e a primeira experiência real dos pequenos se misturam na esperança renovada do Hexa.

Do brinquedo preferido ao apito final

Para os pequenos torcedores que hoje já conseguem compreender as regras e até arriscar algumas análises, o torneio ganhou um novo significado. O “upgrade” das telas do YouTube para o campo une famílias e muda a rotina das casas, transformando o consumo esportivo em uma experiência compartilhada.

O jornalista Júlio Pinheiro, de 41 anos, observa esse processo de perto com o filho André, de 6 anos. Júlio destaca que as copas anteriores são momentos marcantes em sua memória, como a Copa de 1994, assistida em uma TV de 14 polegadas em um clube no município de Itaú, relembrando as quartas de final contra a Holanda. “Lembro da festa que fizemos com o gol de Branco. Lembro da final, que acompanhei no meu quarto.

Em 2002, já na escola, lembro de reunir vários amigos para acompanharmos os jogos, que eram de madrugada, e irmos à aula no outro dia. E a Copa de 2014 foi especial porque pudemos ir às quartas de final, ver de perto o jogo. Valeu muito a pena”, pontua.

De acordo com o jornalista, viver esse momento em família e com os amigos tem sido uma experiência inusitada. “Meu pai gosta de assistir sozinho, concentrado. Minha mãe não liga muito. Agora que sou pai, a Copa ganhou novo significado e faço questão de assistir com meus filhos e com os primos dele. Está sendo especial”, afirma. Júlio relata que o interesse de André pelo esporte começou no berço. “Desde muito pequeno ele gostava de bola. O primeiro brinquedo preferido foi uma bola. Ele andava para todo lado, a gente viajava e ele dormia agarrado com uma bola de futsal”, recorda o pai.

Hoje, a brincadeira de infância virou paixão, curiosidade, dedicação e também um momento de rica interação entre pai e filho. O garotinho afirma que está com altas expectativas para a Copa do Mundo, que antes era vivida com pouco entendimento, mas agora, aos 6 anos, tem sido uma experiência mais ampla para André.

“Esse ano vai ser muito legal, é a minha primeira Copa do Mundo entendendo tudo. Se ‘passou’ 4 anos, mas o Brasil ainda está bom, tem gente boa. Eu gosto de futebol desde um mês”, brinca.

Atualmente, a dinâmica do entretenimento também mudou, pois os canais do YouTube consumidos por André são estritamente focados no esporte, e o conhecimento sobre o futebol se expandiu. Além de acompanhar os ídolos que admira, como Mbappé, Vini Jr., Neymar e o goleiro Alisson, André se diverte dividindo a paixão com os mais velhos. Ele está participando ativamente de dois bolões da Copa, competindo lado a lado com adultos e outras crianças. “Estou em 25º lugar”, conta. Júlio Pinheiro destaca que essa integração entre pais e filhos, independentemente da idade, reflete perfeitamente a transição geracional da torcida.

O avanço das meninas e a união de culturas

A paixão que move os pequenos torcedores também evidencia o visível crescimento do interesse das meninas pelo esporte, quebrando barreiras estruturais que existiam em Copas passadas. Para além das bonecas e dos estereótipos tradicionais de gênero, na casa da vendedora Priscila Machado, de 44 anos, em Parnamirim, a filha Amanda Lucena, de apenas 5 anos, descobriu o amor pela Seleção Brasileira e pelo futebol acompanhando o entusiasmo do tio, Cristiano Machado, que é torcedor fervoroso do América-RN. “Ela vê a paixão do tio, apaixonado por futebol e jornalismo esportivo, torcendo em cada jogo do ‘mecão’ e acompanhando de perto essa emoção que acompanha nossa família dentro e fora dos campos”, afirma.

Para Priscila, que guarda na memória a Copa de 1994 com Romário e Bebeto fazendo história, ver a filha vivenciar o torneio é uma oportunidade de aprendizado amplo, livre das amarras de criações mais rígidas do passado, onde meninas e mulheres não usufruíam de tanta representatividade nos esportes. “A Copa faz um ‘ajuntamento’ incrível, gostoso e feliz. Amanda consegue ver ali a união de raças, a mistura cultural e a liberdade de saber que o esporte significa essa união gigante”, destaca Priscila.

Quando questionada sobre seu jogador preferido, a pequena Amanda não hesita e responde com alegria que é o brasileiro Neymar, contando que adora assistir às partidas ao lado da mamãe e do titio. “Ela adora ver as ruas pintadas de verde e amarelo, usar a camiseta da Seleção, brincar com os primos com a bola e assistir às partidas do Mundial, vibrando com a alegria que acompanha cada segundo do jogo”, conclui.

Essa mesma efervescência cultural e familiar é amplamente compartilhada pelos primos de Amanda Lucena, os irmãos Cristal Ifeoma, de 5 anos, que vivencia o Mundial ao lado dos irmãos Kaio, Lorenzo e Theresa, de 25, 12 e 7 anos, respectivamente, filhos de Thalina Olinto Okafor, de 49 anos. De acordo com a promotora de eventos, as crianças estão genuinamente empolgadas com cada jogo da Seleção Brasileira, mas para Cristal o período tem sido inusitado e repleto de surpresas a cada momento em que a família se junta para comer petiscos, assistir aos jogos e decorar a residência com as cores alusivas.

Crescimento do interesse das meninas pelo esporte também é visível| Foto: Cedida

“Lá em casa os jogos viraram sinônimo de festa. Eles estão amando viver isso juntos e Cristal está super empolgada com o futebol, vidrada em cada passe da bola. Tem sido uma experiência nova e muito legal viver isso com todos juntos”, reitera Thalina. Cristal afirma que está “gostando muito” da Copa e que torce para o Brasil ganhar.

Para a mãe, o sentimento coletivo entre os brasileiros que assistem junto aos filhos faz disso um evento potente, capaz de desviar a atenção das crianças do ambiente digital e das telas. “O futebol é mais do que uma memória para os pais, é uma modalidade que incentiva as crianças a brincarem, se exercitarem e largarem um pouco o celular e viver um pouco do que a minha geração viveu sem a internet”, conclui.

Para essa nova geração de torcedores potiguares, ver as ruas coloridas de verde e amarelo traz uma felicidade contagiante e imediata. Entre o álbum de figurinhas, as camisas oficiais e as reuniões em família na hora do jogo, o que realmente importa para eles é viver o presente de um esporte que integra e perpetua identidades.

Bruna Torres/Repórter

Tribuna do Norte

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