domingo, 14 de junho de 2026

Colecionador resgata a memória de Dequinha e Marinho Chagas

Alexandre Gurgel afirma que a ideia de expor o material surgiu da necessidade de preservar e divulgar uma história pouco conhecida| Foto: Alex Régis

Um acervo histórico que ajuda a contar parte importante da trajetória do futebol potiguar está sendo apresentado ao público na Arena das Dunas. O jornalista e pesquisador Alexandre Gurgel abriu uma exposição dedicada a dois dos maiores nomes do esporte do Rio Grande do Norte: Dequinha e Marinho Chagas, únicos potiguares natos a disputar uma Copa do Mundo pela Seleção Brasileira. A mostra integra a programação do evento Torcida Ginga e reúne camisas, revistas, fotografias e documentos raros ligados aos dois ídolos.

O autor da exposição tem em vista que o acervo de um verdadeiro colecionador não foi feito para mofar em um armário. Ele precisa respirar, ser visto, provocar conversa. É com foco principal nos jovens potiguares, que ele decidiu promover o evento.

Colecionador desde a infância, Gurgel afirma que a ideia de expor o material surgiu da necessidade de preservar e divulgar uma história que, segundo ele, ainda é pouco conhecida pelas novas gerações. O interesse pela arte de colecionar começou aos nove anos de idade, quando recebeu do pai, Deífilo Gurgel, algumas relíquias do tricampeonato carioca conquistado pelo Flamengo entre 1953 e 1955, período em que o mossoroense Dequinha atuava como destaque da equipe rubro-negra. A paixão pela pesquisa resultou, anos mais tarde, na publicação do livro A Copa é Nossa, lançado em 2014.

Entre as peças da exposição, uma das mais valiosas remete ao período em que a Seleção Brasileira adotou definitivamente a camisa amarela após a Copa do Mundo de 1950. Segundo Alexandre Gurgel, Dequinha teve participação importante nesse momento histórico. “A primeira vez que a nova camisa foi apresentada ao público foi em 1954 e Dequinha já estava convocado para a Seleção. Ele foi um dos primeiros jogadores a vestir a amarelinha em partidas oficiais”, destaca.

O pesquisador ressalta que a importância do ex-volante vai muito além da participação no Mundial da Suíça. Dequinha foi titular da Seleção na estreia de Garrincha, em 1955, e também integrou a equipe que realizou a primeira excursão brasileira à Europa, atuando em Wembley, em 1956. “Ele é muito subvalorizado na memória esportiva do Rio Grande do Norte. Natal e Mossoró têm uma dívida histórica com Dequinha”, afirma.

Se Dequinha abriu caminho, Marinho Chagas levou o futebol potiguar a um novo patamar de reconhecimento internacional. Considerado por muitos especialistas como um dos melhores laterais-esquerdos da história do futebol brasileiro, o natalense foi um dos destaques da Seleção na Copa do Mundo de 1974, na Alemanha.

“Marinho foi o grande nome do Brasil naquela Copa. Ninguém jogou mais do que ele”, diz Alexandre Gurgel, mostrando uma das peças mais curiosas da coleção: uma revista que traz uma fotografia do zagueiro holandês Johan Krol erguendo o braço do potiguar após um confronto entre Brasil e Holanda, gesto onde reconhecia a qualidade do atleta potiguar. Para o pesquisador, a imagem simboliza o respeito conquistado pelo jogador diante dos maiores craques da época.

Além do talento em campo, Marinho também ficou conhecido pela personalidade forte e pelo perfil inovador. Gravou disco, participou de programas de televisão e se transformou em uma das primeiras figuras midiáticas do futebol brasileiro. “Ele era um jogador à frente do seu tempo. Tinha qualidade técnica, carisma e não tinha receio de enfrentar ninguém”, ressalta Gurgel.

A exposição permanecerá aberta durante a realização do Torcida Ginga e terá renovação constante das peças apresentadas ao público. Entre os itens expostos estão réplicas das camisas utilizadas por Dequinha em 1954 e por Marinho Chagas em 1974, revistas históricas e até o disco gravado pelo ex-lateral.

Ao exibir suas raridades, Alexandre Gurgel espera despertar o interesse dos jovens pela história do futebol potiguar. “Hoje muitos conhecem todos os detalhes do futebol europeu, mas pouco sabem sobre os grandes jogadores que nasceram aqui. Precisamos mostrar que a história da Seleção Brasileira também foi construída por potiguares”, reforçou.

Enquanto projetos de memoriais dedicados a Marinho Chagas, em Natal, e a Dequinha, em Mossoró, não saem do papel, o pesquisador promete seguir utilizando seu acervo como ferramenta de preservação da memória esportiva do Estado, mantendo viva a trajetória de dois personagens fundamentais para o futebol brasileiro.

Tribuna do Norte

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