domingo, 21 de junho de 2026

Congelamento de óvulos registra crescimento no país

Casos de congelamento de óvulos no Brasil cresceram 136,7%, segundo Sistema Nacional de Embriões| Foto: Magnus Nascimento

Aadvogada potiguar Heloisa, de 41 anos, não descarta a maternidade, mas o sonho de ser mãe também nunca esteve presente na sua vida. Há seis anos, contudo, começou a sentir a pressão do “relógio biológico” para decidir ou não ter um filho. O sentimento permaneceu na sua rotina até que, em 2025, tomou uma decisão: congelar os óvulos.

De acordo com dados do Sistema Nacional de Produção de Embriões (SisEmbrio), cedidos à reportagem da Tribuna do Norte, os casos de congelamento de óvulos no Brasil cresceram 136,7%. Em 2020, foram 7.872, enquanto em 2025 esse número subiu para 18.631. No período, a taxa média de crescimento foi de aproximadamente 18,8% ao ano.

Heloisa, que vai ter o sobrenome preservado nesta reportagem, compartilha que começou a pensar no congelamento há cerca de dois anos. Na época, tinha 39 anos e estava no início do seu relacionamento atual: “Não queríamos um filho no momento, mas por conta da minha idade não dava mais para esperar que acontecesse naturalmente no futuro”.

O congelamento de óvulos foi visto pelos dois como o melhor caminho para adiarem a decisão. A escolha da clínica, além da especialista, aconteceu por meio da indicação da médica endocrinologista que já a acompanha há muitos anos. “A minha endocrina, inclusive, também sugeriu essa questão do congelamento porque eu conversava com ela sobre o assunto”, destaca.

Entre o período que Heloísa começou a amadurecer o desejo de congelar os óvulos, até a marcação da consulta, um ano se passou. A advogada conta que marcou a consulta no final de 2025 e passou pelo procedimento de coleta dos óvulos em janeiro de 2026.

Embora o procedimento tenha um custo de cerca de R$ 15 mil a R$ 20 mil, a advogada compartilha que o investimento tornou o planejamento da maternidade algo mais leve na sua vida. “É importante avaliar se você tem condições de realizar. Se ainda tem dúvida, mas uma vontadezinha, por exemplo, pense na possibilidade. O que mais fez eu me sentir melhor foi essa pressão que, de fato, saiu de mim porque eu sentia constantemente o relógio biológico. Quando você congela, essa pressão desaparece”, destaca.

Maria Luisa Capriglione: procedimento é de baixo risco| Foto: Magnus Nascimento

A médica Maria Luisa Capriglione, especialista na área de reprodução assistida, observa que a procura de mulheres pelo congelamento de óvulos tem aumentado ao longo dos anos, sobretudo, pela maior conscientização e informação sobre o assunto. Nos últimos anos, o grupo de clínicas em que atua contabilizou mais de 2 mil congelamentos de óvulos, o que equivale a cerca de 20 mil óvulos congelados no período.

Ela explica que o procedimento é de baixo risco, sendo precedido de exames básicos, como de sorologia e hormonal, e acontece por meio da estimulação ovariana. Na prática, o processo dura cerca de 13 dias e é monitorado por meio de ultrassonografias até a etapa de coleta dos óvulos. “O procedimento de coleta de óvulos é feito no ambiente da clínica com o uso de anestesia, então a paciente não sente dor. Após a coleta, guardamos esses óvulos e isso finaliza o congelamento”, completa.

De acordo com a especialista, embora as idades sejam variáveis, o perfil das mulheres que procuraram o procedimento apresenta algumas características em comum. É o caso do desejo de prorrogar a maternidade e a incerteza sobre querer ou não ser mãe. Na maioria dos casos, ainda, são mulheres solteiras.

“Há uma minoria que não são solteiras, mas que não querem ter filhos em um determinado momento e que querem preservar a fertilidade. A idade das mulheres que realizam o procedimento é variável, mas o mais comum são pacientes com faixa etária de 30 a 40 anos. O ideal é que sejam mulheres com menos de 40 anos”, aponta Maria Luisa Capriglione.

A especialista afirma que, uma vez que o congelamento dos óvulos é realizado, não existe um prazo para que a mulher utilize o material. Aliado a isso, os cuidados após o procedimento são básicos, consistindo na suspensão de atividades físicas e relações sexuais durante o período de cinco dias.

A média nacional de sucesso da taxa de fertilização com óvulos congelados gira em torno de 72%, podendo variar a depender da clínica. “A mulher pode utilizar os óvulos depois de dez ou 20 anos, por exemplo, ou mesmo não utilizar. As pessoas acham que quando você congela os óvulos, não pode mais engravidar natural, o que não é verdade. Tem mulheres que congelaram os óvulos e no outro mês, por exemplo, engravidaram naturalmente. Então é mais uma segurança para o futuro”, explica Maria Luisa Capriglione.

Serviço para pacientes oncológicas via SUS

No Rio Grande do Norte, a Maternidade Escola Januário Cicco (MJEC/UFRN) vem permitindo que mulheres se sintam cada vez mais seguras sobre a possibilidade de exercerem a maternidade no futuro. Além de atuar com o serviço de reprodução assistida via SUS, a unidade apresenta o serviço de congelamento de óvulos voltado exclusivamente para pacientes oncológicas.

Na Januário Cicco, serviço é oferecido gratuitamente| Foto: Magnus Nascimento

A médica ginecologista do Centro de Reprodução Assistida da Mjec/UFRN, Marcela Queiroz, explica que o serviço é oferecido gratuitamente para as pacientes que são encaminhadas por um especialista antes de realizarem o tratamento contra o câncer. “No caso de um câncer de mama, por exemplo, a mastologista pode nos encaminhar essas pacientes que têm indicação de fazer a preservação antes de iniciar a quimioterapia”, esclarece.

A médica comenta que o serviço tem sido cada vez mais procurado nos últimos anos, cenário que ela atribui à maior distribuição de informações sobre a assistência entre os médicos oncologistas e mastologistas.

“Quanto mais eles têm esse conhecimento, mais conseguimos acolher as pacientes e realizar o congelamento de óvulos”, aponta.

Segundo Marcela Queiroz, embora o congelamento de óvulos seja assegurado para as pacientes, há casos em que elas conseguem passar pelo tratamento e engravidam naturalmente depois. Caso precisem, por outro lado, podem recorrer aos óvulos armazenados na Mejc.

De acordo com a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), o Brasil conta com 161 Centros de Reprodução Humana Assistida. Dez deles oferecem o tratamento de congelamento via SUS, em sete cidades do país, incluindo São Paulo, Ribeirão Preto, Porto Alegre, Brasília, Goiânia, Natal e Belo Horizonte.

Casos de congelamento de óvulos no Brasil

2020 - 7.872

2021 - 12.160

2022 - 11.883

2023 - 13.921

2024 - 14.893

2025 - 18.631

Crescimento acumulado de 2020 até 2025: 136,7%

Tribuna do Norte

Nenhum comentário:

Postar um comentário