quarta-feira, 11 de fevereiro de 2026

Sazonalidade e tensões geopolíticas explicam queda nas exportações do RN

Foto: Alex Régis

A queda de 30% das exportações do Rio Grande do Norte em janeiro de 2026 foi puxada por fatores como menor demanda por parte dos mercados consumidores, tensões geopolíticas e sazonalidade na produção local, conforme interlocutores ouvidos pela reportagem da TRIBUNA DO NORTE.

No primeiro mês de 2026, o RN exportou US$ 77,9 milhões, contra US$ 112,3 milhões em janeiro de 2025. As frutas e nozes frescas ou secas seguiram como principal item de exportação do estado em janeiro deste ano, com US$ 31,4 milhões, o equivalente a 40,3% do total exportado. Ainda assim, o segmento registrou queda de 13,9% em relação a janeiro de 2025, ou US$ 5,1 milhões.

O diretor institucional da Associação Brasileira dos Produtores e Exportadores de Frutas e Derivados (Abrafrutas), Luiz Roberto Barcelos, atribui o cenário ao clima europeu, de baixas temperaturas em janeiro. “Com a onda de frio no Hemisfério Norte em janeiro, o mercado segura um pouco os pedidos, uma vez que a demanda por frutas cai. Isso é comum nesta época do ano. E a expectativa é de que nos próximos dois meses a situação permaneça, porque é quando começa o período de chuvas por aqui, o que atrapalha a nossa fruticultura”, analisa Barcelos.

O presidente da Federação da Agricultura, Pecuária e Pesca do RN (Faern), José Vieira, atribui o quadro de retração à sazonalidade da época. “Janeiro é um período de transição entre ciclos de colheita do melão e da melancia, após o pico de embarques registrado no segundo semestre, especialmente entre setembro e dezembro. Nesse momento do calendário produtivo, a oferta exportável é naturalmente menor. Além do fator sazonal, observou-se um ritmo mais moderado de compras por parte de mercados tradicionais, como EUA e países europeus, em função de ajustes de estoques após o período de maior consumo de fim de ano”, afirma Vieira.

“Soma-se a isso um ambiente de maior competição internacional, com países da América Central e do Mediterrâneo disputando as mesmas janelas comerciais da fruticultura potiguar”, completou o presidente da Faern.

Vendas de óleos combustíveis e ouro

As vendas dos óleos combustíveis do RN somaram US$ 9,5 milhões, uma queda de 84,7% frente ao mesmo mês do ano passado, reduzindo em mais de US$ 52 milhões a receita do estado com esse item. O secretário Alan Silveira, de Desenvolvimento Econômico (Sedec-RN), esclareceu que a retração está associada a um conjunto de fatores conjunturais, com destaque para a instabilidade geopolítica no cenário internacional.

“Conflitos regionais, tensões geopolíticas persistentes e incertezas nas principais rotas e polos produtores de petróleo têm gerado elevada volatilidade nos preços internacionais, além de influenciar decisões de compra, renegociação de contratos e estratégias de estocagem adotadas pelos importadores”, sublinhou Silveira.

Para os Estados Unidos e os Países Baixos, as exportações potiguares recuaram. A queda foi de 35,9% para os Países Baixos (com US$ 12,8 milhões em vendas em janeiro), e de 68,9% para os EUA (com US$ 6,3 milhões em vendas). “A retração para o mercado norte-americano está associada a um ambiente comercial internacional mais restritivo, marcado pelo avanço de políticas protecionistas e pela imposição de tarifas sobre determinados produtos, o que afetou diretamente a competitividade de bens brasileiros naquele mercado”, disse Silveira. “No caso dos Países Baixos, a queda observada reflete uma dinâmica macroeconômica e comercial em escala nacional, e não um movimento específico ou isolado do estado”, acrescentou.

Estabilidade

Para o primeiro semestre de 2026, a expectativa é de manutenção de níveis moderados de embarques na fruticultura, com normalização gradual do fluxo, à medida que novos ciclos produtivos avançam e os contratos internacionais são renovados segundo o presidente da Faern, José Vieira.

Conforme o secretário Alan Silveira, a perspectiva para o comércio exterior do RN é de maior estabilidade, diversificação e ampliação de mercados, ainda que o cenário internacional permaneça marcado por incertezas e riscos geopolíticos.

Para Roberto Serquiz, presidente da Federação das Indústrias do RN (Fiern), é preciso diversificar a pauta exportadora do estado para reduzir a dependência de itens como os óleos combustíveis, por exemplo. “Esse cenário exige uma ação estratégica, com foco na agregação de valor à produção local, na ampliação de mercados e no incentivo ao resgate e fortalecimento da indústria de transformação. O RN inicia 2026 mais exposto a riscos externos do que em 2025, penalizado pela baixa diversificação produtiva e exportadora e pela dependência de setores voláteis”, falou.

Para Alinne Dantas, gerente de Gestão Estratégica do Sebrae/RN, o cenário pede cautela. “O RN ainda é muito sensível às oscilações de poucos produtos e mercados. Quando um item muito relevante — como combustíveis — cai, o resultado do mês sente imediatamente. O superávit de janeiro é positivo, mas pede cautela e, sobretudo, foco em diversificação da pauta, agregação de valor, e ampliação do número de empresas exportadoras, especialmente pequenos negócios”, frisou Alinne.

Tribuna do Norte

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