Foto: Alex Régis
A queda de 30% das exportações
do Rio Grande do Norte em janeiro de 2026 foi puxada por fatores como menor
demanda por parte dos mercados consumidores, tensões geopolíticas e
sazonalidade na produção local, conforme interlocutores ouvidos pela reportagem
da TRIBUNA DO NORTE.
No primeiro mês de 2026, o RN exportou US$ 77,9 milhões, contra US$ 112,3 milhões em janeiro de 2025. As frutas e nozes frescas ou secas seguiram como principal item de exportação do estado em janeiro deste ano, com US$ 31,4 milhões, o equivalente a 40,3% do total exportado. Ainda assim, o segmento registrou queda de 13,9% em relação a janeiro de 2025, ou US$ 5,1 milhões.
O diretor institucional da
Associação Brasileira dos Produtores e Exportadores de Frutas e Derivados
(Abrafrutas), Luiz Roberto Barcelos, atribui o cenário ao clima europeu, de
baixas temperaturas em janeiro. “Com a onda de frio no Hemisfério Norte em janeiro,
o mercado segura um pouco os pedidos, uma vez que a demanda por frutas cai.
Isso é comum nesta época do ano. E a expectativa é de que nos próximos dois
meses a situação permaneça, porque é quando começa o período de chuvas por
aqui, o que atrapalha a nossa fruticultura”, analisa Barcelos.
O presidente da Federação da
Agricultura, Pecuária e Pesca do RN (Faern), José Vieira, atribui o quadro de
retração à sazonalidade da época. “Janeiro é um período de transição entre
ciclos de colheita do melão e da melancia, após o pico de embarques registrado
no segundo semestre, especialmente entre setembro e dezembro. Nesse momento do
calendário produtivo, a oferta exportável é naturalmente menor. Além do fator
sazonal, observou-se um ritmo mais moderado de compras por parte de mercados
tradicionais, como EUA e países europeus, em função de ajustes de estoques após
o período de maior consumo de fim de ano”, afirma Vieira.
“Soma-se a isso um ambiente de
maior competição internacional, com países da América Central e do Mediterrâneo
disputando as mesmas janelas comerciais da fruticultura potiguar”, completou o
presidente da Faern.
Vendas de óleos combustíveis e
ouro
As vendas dos óleos
combustíveis do RN somaram US$ 9,5 milhões, uma queda de 84,7% frente ao mesmo
mês do ano passado, reduzindo em mais de US$ 52 milhões a receita do estado com
esse item. O secretário Alan Silveira, de Desenvolvimento Econômico (Sedec-RN),
esclareceu que a retração está associada a um conjunto de fatores conjunturais,
com destaque para a instabilidade geopolítica no cenário internacional.
“Conflitos regionais, tensões
geopolíticas persistentes e incertezas nas principais rotas e polos produtores
de petróleo têm gerado elevada volatilidade nos preços internacionais, além de
influenciar decisões de compra, renegociação de contratos e estratégias de
estocagem adotadas pelos importadores”, sublinhou Silveira.
Para os Estados Unidos e os
Países Baixos, as exportações potiguares recuaram. A queda foi de 35,9% para os
Países Baixos (com US$ 12,8 milhões em vendas em janeiro), e de 68,9% para os
EUA (com US$ 6,3 milhões em vendas). “A retração para o mercado norte-americano
está associada a um ambiente comercial internacional mais restritivo, marcado
pelo avanço de políticas protecionistas e pela imposição de tarifas sobre
determinados produtos, o que afetou diretamente a competitividade de bens
brasileiros naquele mercado”, disse Silveira. “No caso dos Países Baixos, a
queda observada reflete uma dinâmica macroeconômica e comercial em escala
nacional, e não um movimento específico ou isolado do estado”, acrescentou.
Estabilidade
Para o primeiro semestre de
2026, a expectativa é de manutenção de níveis moderados de embarques na
fruticultura, com normalização gradual do fluxo, à medida que novos ciclos
produtivos avançam e os contratos internacionais são renovados segundo o presidente
da Faern, José Vieira.
Conforme o secretário Alan
Silveira, a perspectiva para o comércio exterior do RN é de maior estabilidade,
diversificação e ampliação de mercados, ainda que o cenário internacional
permaneça marcado por incertezas e riscos geopolíticos.
Para Roberto Serquiz,
presidente da Federação das Indústrias do RN (Fiern), é preciso diversificar a
pauta exportadora do estado para reduzir a dependência de itens como os óleos
combustíveis, por exemplo. “Esse cenário exige uma ação estratégica, com foco
na agregação de valor à produção local, na ampliação de mercados e no incentivo
ao resgate e fortalecimento da indústria de transformação. O RN inicia 2026
mais exposto a riscos externos do que em 2025, penalizado pela baixa
diversificação produtiva e exportadora e pela dependência de setores voláteis”,
falou.
Para Alinne Dantas, gerente de
Gestão Estratégica do Sebrae/RN, o cenário pede cautela. “O RN ainda é muito
sensível às oscilações de poucos produtos e mercados. Quando um item muito
relevante — como combustíveis — cai, o resultado do mês sente imediatamente. O
superávit de janeiro é positivo, mas pede cautela e, sobretudo, foco em
diversificação da pauta, agregação de valor, e ampliação do número de empresas
exportadoras, especialmente pequenos negócios”, frisou Alinne.
Tribuna do Norte

Nenhum comentário:
Postar um comentário