Operação Mederi investiga desvios e fraudes na área da saúde | Foto: Divulgação
A Prefeitura de Mossoró pagou
R$ 14,2 milhões a empresas investigadas na Operação Mederi, da Polícia Federal,
entre os anos de 2021 e 2025. A decisão judicial que autorizou medidas
cautelares na investigação apura indícios de irregularidades em contratos na
área da saúde em cinco municípios potiguares, e aponta que Mossoró é a
principal remetente de recursos à empresa Dismed no período analisado.
Dados extraídos do Tribunal de
Contas do Estado do Rio Grande do Norte (TCE-RN) mostram que os valores pagos
pelo município à Dismed, entre 2021 e 2025, somam R$ 13,6 milhões. O pico dos
envios ocorreu em 2024, quando os repasses chegaram a quase R$ 6 milhões. A
investigação também classifica Mossoró como o Município que mais enviou
recursos à Drogaria Mais Saúde em 2025, ao destinar R$ 684,1 mil. Com isso, o
volume de recursos movimentados entre 2021 e 2025 com as duas empresas alcança
a cifra de R$ 14,2 milhões.
Na edição de quinta-feira
(29), a TN revelou que o dano mínimo das supostas fraudes aos cofres públicos
das cinco prefeituras investigadas é estimado em R$ 13,3 milhões — valor já
bloqueado pela Justiça. Desse montante, a maior parte, R$ 9,5 milhões, foi
bloqueada cautelarmente em Mossoró.
Leia também:
Operação
Mederi aponta dano mínimo de R$ 13,3 milhões
PF
investiga fraudes e mira prefeito de Mossoró
Legislativo
busca CEI para a “Matemática de Mossoró”
Investigação
apura perda de 12,7 mil remédios vencidos em Serra do Mel
Operação
Mederi: prefeito de Mossoró se diz tranquilo e não teme CEI
Os repasses à Dismed cresceram
de forma progressiva ao longo dos anos. Em 2021, os pagamentos somaram R$
143.895,00. Em 2022, o valor subiu para R$ 1.274.671,80. No ano seguinte, 2023,
os repasses alcançaram R$ 3.401.155,73. O maior volume foi registrado em 2024,
quando a Prefeitura de Mossoró pagou R$ 5.864.704,79 à empresa. Já em 2025,
mesmo antes do encerramento do exercício, os pagamentos identificados chegam a
R$ 2.920.640,16.
“O volume de recursos públicos
envolvidos, somado ao volume de dinheiro em espécie sacado pelas empresas, por
si só, já constituiria circunstância digna de suspeita acerca da licitude da
relação mantida com o ente municipal”, diz trecho do documento ao qual a
reportagem da TRIBUNA DO NORTE teve acesso.
Para os apuradores, a suspeita
de irregularidade na movimentação de recursos entre Município e empresa é
reforçada “pela proximidade política entre OSEAS MONTHALGGAN, sócio da DISMED,
e ALLYSON BEZERRA (prefeito municipal de Mossoró)”.
Nesse trecho, a investigação
apresenta um print da rede social de Oseas Monthalggan, onde ele publicou uma
foto ao lado de Allyson com a legenda: “Hoje quero parabenizar a esse prefeito,
que na minha concepção um dos melhores do Brasil! Ele também veio pra somar,
acredita no nosso projeto”. Allyson responde: “Muito obrigado pela lembrança,
meu amigo!”. Monthalggan foi candidato a prefeito em Upanema pelo MDB e recebeu
3.181 votos. Ele foi derrotado por Renan Mendonça Fernandes (PP).
Foto: Reprodução/Instagram
A decisão destaca que o volume
de recursos públicos envolvidos, aliado a outros elementos colhidos no curso da
investigação — como pagamentos por produtos não entregues, aquisição de
medicamentos em quantidades incompatíveis com o consumo e compras com prazo de
validade reduzido —, foi considerado suficiente para justificar o
aprofundamento das apurações e a adoção de medidas cautelares.
Os autos ressaltam ainda que
as conclusões apresentadas se baseiam em elementos indiciários levantados pelas
autoridades policiais e de controle, no âmbito de uma investigação em curso,
não representando juízo definitivo sobre a ocorrência de crimes ou responsabilidade
individual de agentes públicos ou empresas envolvidas.
A Operação Mederi investiga
contratos firmados por prefeituras do Rio Grande do Norte com empresas
fornecedoras de medicamentos e insumos de saúde, com foco na aplicação de
recursos públicos federais repassados aos fundos municipais de saúde em cinco
cidades: Mossoró, Paraú, São Miguel, Serra do Mel e José da Penha. As apurações
continuam em andamento.
Valores pagos por Mossoró a
Dismed
Foto: Reprodução
2021: R$ 143.985,00
2022: R$ 1.274.671,80
2023: R$ 3.401.155,73
2024: R$ 5.864.704,79
2025: R$ 2.920.640,16
Total: R$ 13.605.158,48
Valores pagos a Drogaria Mais
Saúde em 2025
Foto: Reprodução
Mossoró: R$ 648.128,68
Dix-Sept Rosado: R$ 248.010,02
Triunfo Potiguar: R$ 182.100,16
Serra do Mel: R$ 110.346,56
Paraú: R$ 103.751,45
Fernando Pedrosa: R$ 63.258,91
Martins: R$ 38.991,50
Angicos: R$ 19.279
Jardim do Seridó: R$ 382,98
Fonte: PF/CGU/TCE-RN
A “Matemática de Mossoró”
Para além do volume
financeiro, a decisão judicial detalha o funcionamento interno do suposto
esquema, descrito nas investigações como a “Matemática de Mossoró”. O termo
refere-se, segundo a investigação, a uma suposta reserva fixa de valores
ilícitos dos contratos de medicamentos e falado pelos próprios investigados,
conforme diálogos gravados ao longo do inquérito.
De acordo com diálogos
interceptados na sede da Dismed e relatórios da Polícia Federal, o grupo
operava com uma margem de 25% de retorno sobre o faturamento. A partilha desse
percentual era segmentada em várias frentes, dentre as quais: 15% seriam destinados
a um agente identificado nas conversas como “Allyson” — que a investigação
associa ao prefeito Allyson Bezerra devido ao contexto e à proximidade com os
empresários — e 10% seriam direcionados a uma segunda pessoa, referida apenas
como “Fátima”.
A investigação ilustra o
suposto esquema com um exemplo usado pelos alvos da operação. “Como visto
acima, um dos diálogos mais relevantes captados durante a interceptação
ambiental diz respeito à divisão de dinheiro, oriundo de pagamentos da
Prefeitura de Mossoró. Ao descreverem esta divisão, os seus locutores a
denominam de ‘Matemática de Mossoró’”, apontam os investigadores.
Etapas da Matemática de
Mossoró, conforme diálogos colhidos pela PF:
“MOSSORÓ tem uma Ordem de
Compra de quatrocentos mil (R$ 400.000,00).”
“Desses quatrocentos, ele
entrega duzentos (R$ 200.000,00)!”
“Dos duzentos ele vai e pega
trinta por cento (30%), sessenta (R$ 60.000,00), então aqui ele comeu sessenta
(R$ 60.000,00)!”
“Fica cento e quarenta (R$
140.000,00) pra ele entregar cem por cento (100%).”
“Setenta com sessenta é meu,
cento e trinta (R$ 130.000,00).”
“Só que dos cento e trinta nós
temos que pagar cem mil (R$ 100.000,00) a ALLYISON e FÁTIMA, que é dez por
cento (10%) de FÁTIMA e quinze por cento (15%) de ALLISSON.”
“Só ficou trinta mil (R$
30.000,00) pra a empresa!”
Foto:
Reprodução
A engrenagem do suposto
esquema em Mossoró contava, segundo a decisão, com “contatos de confiança”
dentro da estrutura administrativa. A investigação reforça que a operação não
poderia acontecer sem a participação ativa ou omissão deliberada de vários servidores
da pasta.
Em nota, a defesa de Allyson
Bezerra afirmou que não há elementos que vinculem pessoalmente o prefeito às
irregularidades investigadas. Segundo os advogados, o mandado foi deferido com
base em diálogos envolvendo terceiros e não resultou em qualquer medida
restritiva ao gestor.
“A investigação envolve
contratos firmados entre municípios e empresas fornecedoras de medicamentos, em
diferentes entes municipais, e não se confunde com a atuação pessoal do
prefeito de Mossoró”, diz o texto. A defesa ressaltou ainda que Allyson colaborou
desde o primeiro momento com as autoridades.
O prefeito de Mossoró
ressaltou que, ainda em 2023, editou um decreto municipal determinando que
todos os medicamentos distribuídos pela Prefeitura de Mossoró passassem
obrigatoriamente pelo Sistema Nacional de Gestão da Assistência Farmacêutica
(Hórus), plataforma federal de controle e rastreamento de insumos.
Tribuna do Norte

Nenhum comentário:
Postar um comentário