quinta-feira, 19 de fevereiro de 2026

Auditor confessa acesso “acidental” a dados de familiar de ministro do STF

Alexandre de Moraes, ministro do STF, conduz o inquérito das Fake News em que enquadra os servidores da Receita Federal | Foto: Antônio Augusto/STF

Alvo de operação da Polícia Federal (PF) na terça-feira (17), o auditor fiscal da Receita Federal Ricardo Mansano de Moraes afirmou, em depoimento preliminar, que acessou de forma “acidental” informações fiscais relacionadas a uma enteada do ministro Gilmar Mendes. Segundo ele, a consulta teria ocorrido por “infelicidade”, sem intenção de violar sigilo.

Mansano é investigado em inquérito que apura acessos ilegais a dados fiscais de ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) e de familiares, sem autorização e fora de qualquer justificativa funcional.

Por decisão do ministro Alexandre de Moraes, relator do caso, o auditor foi alvo de mandado de busca e apreensão, teve os sigilos bancário, fiscal e telemático quebrados, foi afastado das funções públicas e está proibido de deixar a cidade onde mora. Ele também deverá cumprir recolhimento domiciliar noturno e aos fins de semana. O passaporte foi apreendido.

Atualmente, Mansano está lotado na Delegacia da Receita Federal em São José do Rio Preto, no interior de São Paulo.

A trajetória do servidor

Entre os investigados, ele é o que recebe o maior salário. Conforme apurado pela coluna, Mansano chegou a receber R$ 51 mil em dezembro de 2025.

Ele ingressou no serviço público em 27 de novembro de 1995 e, atualmente, recebe salário de R$ 38.261,86. No entanto, o valor pode aumentar significativamente em razão de indenizações e gratificações, como ocorreu em dezembro.

O nome dele consta em diversas edições do Diário Oficial da União (DOU), em atos de nomeação e convocação administrativa, desde a década de 1990.

Ao longo da carreira, atuou no Ministério da Fazenda e no Ministério da Economia.

Os outros três servidores na mira do inquérito são Luiz Antônio Martins Nunes, Luciano Pery Santos Nascimento e Ruth Machado dos Santos.

O primeiro ocupa, desde 1981, o cargo de técnico do Serpro, com salário mensal de R$ 12.778,82.

Luciano Pery Santos Nascimento é técnico do Seguro Social, lotado na Delegacia da RFB em Salvador, e recebe R$ 11.517,49 mensais.

Ruth Machado dos Santos atua como técnica do Seguro Social na Delegacia da RFB em Santos (SP), ingressou no órgão em abril de 1994 e recebe salário de R$ 11.128,16.

Bode expiatório

A Associação Nacional dos Auditores Fiscais da Receita Federal do Brasil (Unafisco Nacional) manifestou preocupação com as medidas cautelares impostas a um auditor da Receita Federal investigado por suposto envolvimento em vazamentos de dados sigilosos de ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) e de seus familiares.

Em nota, a entidade afirma que os servidores não podem ser transformados em “bodes expiatórios” em meio a conflitos institucionais e defende que eventuais irregularidades sejam apuradas com respeito ao devido processo legal, à presunção de inocência e à proporcionalidade.

A manifestação ocorre após operação da Polícia Federal (PF) que apura acessos indevidos a sistemas da Receita Federal do Brasil, com posterior vazamento de informações fiscais de autoridades.

Críticas às cautelares

Segundo a Unafisco, a adoção de medidas gravosas, como afastamento do cargo, uso de tornozeleira eletrônica, quebra de sigilos e restrições de locomoção, em um contexto ainda classificado como preliminar pela própria Receita exige “fundamentação robusta e lastro probatório consistente”.

A entidade recorda episódio ocorrido em 2019, quando dois auditores foram afastados por suspeita semelhante de vazamento, mas posteriormente reintegrados após a inexistência de provas.

“Os auditores-fiscais da Receita Federal não podem, mais uma vez, ser instrumentalizados para deslocar o foco do debate público. Isso compromete a credibilidade das instituições e enfraquece o Estado de Direito”, diz a nota.

O que diz o STF

Em nota oficial, o Supremo informou que, nos autos da PET 15.256, vinculada ao Inquérito 4.781, conhecido como inquérito das fake news, foram identificados “diversos e múltiplos acessos ilícitos” a sistemas da Receita, sem justificativa funcional.

De acordo com a Corte, os acessos apresentariam indícios iniciais do crime de violação de sigilo funcional (art. 325 do Código Penal). A Procuradoria-Geral da República também destacou que a exploração seletiva desses dados estaria sendo usada para criar “suspeitas artificiais” contra autoridades.

A pedido da PGR, o STF determinou, contra quatro servidores, medidas como busca e apreensão, quebra de sigilos bancário, fiscal e telemático, afastamento imediato das funções, proibição de acesso a sistemas da Receita e ao Serpro, uso de tornozeleira eletrônica e impedimento de saída do país e cancelamento de passaportes

Os investigados ainda prestarão depoimento à Polícia Federal.

MP pede ao TCU que apure vazamentos

O Ministério Público pediu ao Tribunal de Contas da União que apure suposto vazamento de dados e acesso ilegal por servidores da Receita Federal de dados dos ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) e de seus familiares.

Em representação enviada ao TCU, o subprocurador-geral, Lucas Furtado, requer a adoção das medidas necessárias para verificar a existência das práticas delituosas que, para ele, podem ter “resultado na ilegal divulgação de informações pinçadas e, ao que consta, descontextualizadas, com a finalidade de denegrir a imagem e levantar infundadas suspeitas a respeito dessas autoridades”.

Furtado considera que o vazamento pode “não apenas prejudica os ministros individualmente, mas, o que é mais grave, pode conduzir à desmoralização ímpar da Corte Suprema perante a sociedade“, disse na representação.

Segundo informações do STF, operação da Polícia Federal, realizada na terça-feira (17), contra quatro servidores da Receita e do Serpro foi autorizada dentro do inquérito das fake News.

A PF apura possível vazamento indevido de dados sigilosos de ministros e familiares. Segundo o STF, foram constatados “diversos e múltiplos acessos ilícitos ao sistema da Secretaria da Receita Federal do Brasil“, observando-se de posterior vazamento das informações sigilosas.

As investigações iniciais apresentadas, conforme relatório enviado pela Receita Federal ao STF, a existência de “bloco de acessos cuja análise, pelas áreas responsáveis, não é orgânica justificativa funcional”.

Receita admite desvios

A Receita Federal confirmou que houve acessos indevidos e informou que abriu auditoria interna para mapear consultas a dados de ministros, familiares e outras autoridades nos últimos três anos.

Sete processos administrativos disciplinares já foram concluídos, resultando em três demissões e sanções a outros servidores. Não houve acesso aos dados de Paulo Gonet.

Tribuna do Norte

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