José Vieira, presidente da
Faern, falou que o local é uma unidade criada para apoiar pesquisa, ensino e
extensão em produção animal no semiárido. Ele ressaltou que o espaço tem
relevância pelos trabalhos voltados ao melhoramento genético de bovinos, ovinos
e caprinos, à nutrição animal, à forragicultura, ao uso de espécies adaptadas à
seca e à biotecnologia reprodutiva. Para ele, a provável perda da estrutura,
que já foi fundamental para aproximar ciência e campo, trará impactos
importantes para a produção do RN.
“É uma estrutura que levava soluções práticas a centenas de produtores. Perder
um polo como esse compromete diretamente o futuro da produção sustentável no
estado”, pontuou. Segundo Vieira, a Federação se posiciona totalmente contrária
a esse tipo de ocupação. Ele comenta que a Faern lamenta que o “Estado
permaneça inerte diante das ações do MST, sendo conivente com invasões que
ameaçam a agropecuária potiguar”.
Para Vieira, o problema do RN não é falta de terras disponíveis, uma vez que o
Incra já dispõe de áreas que podem ser destinadas à reforma agrária. “O que não
podemos aceitar é a perda de espaços que cumprem papel essencial no ensino, na
pesquisa e na inovação, como é o caso da Ufersa. O setor produtivo do estado já
enfrenta graves desafios: seca prolongada, falta de infraestrutura hídrica e
barreiras comerciais internacionais, como o tarifaço dos Estados Unidos”,
pontuou.
“Nessa conjuntura, o que precisamos é de previsibilidade, estabilidade e
respeito às áreas que já cumprem função social e econômica comprovada. A Faern
está mobilizada em defesa dos produtores e reafirma seu compromisso com a
legalidade, com a ciência e com a produção sustentável”, acrescentou Vieira. A
reportagem procurou a Secretaria de Estado de Desenvolvimento Rural e
Agricultura Familiar (Sedraf) para comentar o caso, mas a pasta informou que,
sem acesso a um laudo da vistoria, preferia não se manifestar.
As análises pelo Incra devem começar em 7 de outubro. De acordo com o
superintendente do órgão no RN, Adans Pereira Santiago, os estudos, que contam
com recursos assegurados que variam entre R\$ 15 mil e R\$ 20 mil; não têm
prazo para serem concluídos. “O estudo vai aferir como está a questão fundiária
– condições do solo, recursos hídricos e capacidade de ocupação – e que nos foi
encomendado pelo Conselho Universitário (Consuni) da Ufersa, depois que a
instituição foi provocada pelo MST. O objetivo é auxiliar em uma tomada de
decisões quanto à área”, explicou o superintendente.
As ocupações no terreno ocorreram por ocasião das atividades do Abril Vermelho.
A Ufersa informou que o espaço ocupado pelo MST foi originalmente concebido
para atividades acadêmicas e experimentais no campo da produção animal, o qual,
embora não esteja atualmente em uso ativo, conta com infraestrutura
consolidada. “No local, há edificações em alvenaria que totalizam 1.524,52 m²
de área construída, incluindo guarita, ordenha, laboratório, aviário
experimental, centro de biotecnologia, entre outros equipamentos”, disse a
Ufersa.
A Universidade afirmou à reportagem que já reconhece que a área não é adequada
para instalação de assentamentos. “Em razão de suas características físicas e
da limitação territorial, a área não é considerada adequada à implantação de
assentamento rural. Tal avaliação foi corroborada, inclusive, em reuniões
institucionais com representantes do próprio Incra e do Ministério do
Desenvolvimento Agrário, que expressamente reconheceram a insuficiência da
referida área para os fins em questão.”
O Incra reforçou que o intuito do estudo é oferecer um indicador da área para a
tomada de decisões por parte da universidade. A Ufersa disse que permanece
aberta ao diálogo com os órgãos competentes. De acordo com o Incra, cerca de
200 famílias ocupam a área atualmente.
Outras invasões
José Vieira, da Faern, lembrou que o Rio Grande do Norte já enfrenta outras
invasões em áreas públicas estratégicas, como acontece na Estação Experimental
Terras Secas da Emparn, em Pedro Avelino, em uma área de 1,6 mil hectares
dedicada a pesquisas essenciais para a agricultura familiar e o convívio com o
semiárido. Vieira cita ainda a invasão ao Distrito de Irrigação do Baixo Açu
(DIBA), único em funcionamento no estado e responsável por cerca de 100 mil
toneladas de frutas ao ano, além de milhares de empregos.
“A decisão do Governo do Estado de assentar invasores em 460 hectares do
perímetro irrigado representa risco concreto de aumento dos custos de irrigação
em até 30%, desestímulo a novos investimentos e perda de competitividade da
fruticultura potiguar. A associação do DIBA tem se reunido para avaliar medidas
jurídicas, e a Faern dará todo apoio necessário nesse sentido”, falou José
Vieira.
Tribuna do Norte

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