Antes restrita a grandes
centros e às capitais dos estados, a inovação deixou de ser uma promessa para o
interior do Rio Grande do Norte. A interiorização já é uma realidade. Seja por
meio de uma rede de instituições de ensino, ecossistemas de inovação e
legislações específicas nos municípios, o estado tem vivenciado o
desenvolvimento de tecnologias e abertura de startups em todas as regiões do
RN. Em Currais Novos, o SeriHub é o mais novo hub de inovação em saúde do
estado fruto de um convênio entre o Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e
Pequenas Empresas (Sebrae-RN) e a Liga Contra o Câncer.
Segundo dados do Sebrae, o
estado conta atualmente com 10 ecossistemas de inovação em cidades como Assu,
Caicó, Currais Novos, Macaíba, Mossoró, Natal, Nova Cruz, Santa Cruz e Pau dos
Ferros. Há ainda dois ecossistemas com capilaridade em todo o estado: o do Agro
e o da Construção Civil, este último ainda em viabilização por parte do Sebrae.
Segundo David Góis, gerente de
Negócios e Inovação do Sebrae-RN, várias cidades do Rio Grande do Norte já
criaram e regulamentaram legislações específicas para a inovação, com o intuito
de incentivar e atrair empresas a abrir negócios, gerar empregos e fomentar a
economia destes municípios. Numa dessas leis, por exemplo, em Currais Novos, há
tributação diferenciada, possibilidade de apoio para convênios, parcerias para
desenvolvimento de soluções para secretarias, entre outras situações.
“Os ELIs, Ecossistemas Locais
de Inovação, vêm amadurecendo em diferentes velocidades de acordo com o nível
de engajamento das governanças de cada ecossistema. Os ELIs estão se tornando
cada vez mais importantes para o desenvolvimento das regiões, criando
estratégias de relacionamento, tendo também como pontos de avanço as criações
das leis municipais de inovação, que permite uma série de novas ações de
desenvolvimento daquela região que até pouco tempo não enxergava a inovação
como estratégia de desenvolvimento econômico”, explica o gerente de Negócios e
Inovação do Sebrae-RN, David Góis.
O gerente do Sebrae conta
ainda que após a instalação dos hubs de inovação nas cidades, é perceptível a
participação de startups e o surgimento de ideias em participação de editais de
incentivo. “Enxergamos o crescimento do número de projetos inovadores submetidos
em editais trabalhados no estado como Startup Nordeste, parcerias com Fapern,
participações de startups em missões empresariais, rodadas de investimentos e
negócios. É uma das possibilidades de crescimento e geração de empregos no
interior do estado”, cita.
SeriHub: soluções para a saúde
Viabilizado e já com
atividades em andamento, o SeriHub, em Currais Novos, terá seu convênio
assinado entre Liga e Sebrae no próximo dia 30 de setembro e terá capacidade
inicial para abarcar 10 startups, que juntas, desenvolverão soluções em saúde
para o estado. As startups têm suporte de salas, equipamentos e estrutura.
A situação se intensificou
após a chegada do Centro de Diagnóstico e Ensino do Seridó (CDES) na cidade,
mas a ideia surgiu em 2019, quando a Liga intensificou seu projeto interno para
amplificar ações de inovação. Em Currais Novos, Francisco Irochima, diretor do
Escritório de Inovação da Liga Contra o Câncer, conta que os analistas viram um
ecossistema maduro e em estágio avançado.
“Quando a Liga vai para
Currais Novos, tivemos a ideia junto com Sebrae para criarmos uma incubadora de
empresas in loco na cidade em que o Sebrae dê o suporte de empreendedorismo e
gestão do negócio e a Liga, tendo o escritório de inovação a frente, dando o
suporte de como fazer uma startup na área da saúde, como é a legislação, o que
o mercado exige e juntamos as forças da Liga e do Sebrae e criamos o SeriHub”,
explica o Francisco Irochima, diretor do Escritório de Inovação da Liga Contra
o Câncer.
Atualmente, quatro empresas já
desenvolvem soluções e negócios em fase de pré-incubação, isto é, um estágio de
validação das ideias para saber a aplicabilidade delas. “Nossas startups já
saíram do campo da ideia, já tem protótipos instituídos e estão validando isso
com grupos de clientes e estão um pouco mais maduras, mas ainda não no perfil
do que a Liga já trabalha, que são startups que faturam, que têm clientes. É um
processo novo para Liga e Sebrae”, explica Edinete Nascimento, analista técnica
do Sebrae em Currais Novos. A ideia, explica Irochima, é que o SeriHub funcione
como uma “parabólica” com o intuito de fazer com que o mercado olhe para o
interior do RN.
Uma dessas startups é a
HealApp, que tem como objetivo facilitar o acesso à saúde por meio de
gerenciamento de filas e otimização do tempo de espera para pacientes em
clínicas e hospitais. A ideia está em fase de validação de resultados junto a
uma Unidade Básica de Saúde (UBS) de Currais Novos para poder ir ao mercado em
busca de clientes. A expectativa é colocar a aplicação no mercado até o começo
de 2026.
Gabriel Lima, CEO da HealApp, e o
desenvolvedor Pedro Fernandes | Foto: Alex Régis
“A HealApp é um sistema gestão
de clínicas. Nosso diferencial está na parte de gestão de atendimento, em que
priorizamos principalmente a otimização de tempo em salas de espera e no
consultório. Por exemplo: numa consulta, marcada às 9h, muitas clínicas ainda
têm um problema que é atender por ordem de chegada. Isso acaba dando um
prejuízo de tempo e estamos querendo acabar com isso para otimizar o tempo do
paciente em si”, explica o CEO Gabriel Lima. “Acreditamos que esse problema do
paciente perder tempo em fila de espera seria resolvido se ele tivesse no
celular dele a posição dele na fila”, acrescenta o desenvolvedor Pedro
Fernandes.
Startups locais escalam e
ganham destaque nacional
O estudo “Mapeamento das
Startups da Região Nordeste” aponta que o Estado possui, atualmente, 605
empresas registradas, sendo 81,72% delas microempresas. Segundo o levantamento,
no Nordeste, entre 2000 e 2015, foram abertas apenas 35 startups na região. A
partir de 2016, o cenário se transformou, com crescimento expressivo no número
de novos negócios, chegando a 1.259 startups abertas apenas em 2024.
Entre as mais de seis centenas
de startups, algumas já escalam nacionalmente. Um exemplo é a Faceponto,
startup que nasceu em 2018 como uma ferramenta pontual, evoluiu para uma
plataforma robusta e, atualmente, é utilizada por mais de 2.500 empresas brasileiras,
impactando mais de 100 mil colaboradores em todo o país.
“Percebi o quanto a má gestão
de ponto gerava prejuízos financeiros, desgaste nas relações de trabalho e
passivos jurídicos desnecessários. A partir dessa dor real, surgiu a ideia de
criar uma solução tecnológica que combinasse segurança jurídica, automação e
inteligência artificial”, explica o advogado trabalhista Cássio Leandro. Ele
idealizou a startup a partir de sua experiência no Programa de Pós-Graduação em
Ciência, Tecnologia e Inovação (PpgCTI) da UFRN.
“O mercado recebeu a Faceponto
com entusiasmo e senso de urgência. Em setores como bares, restaurantes,
construção civil, indústrias e serviços terceirizados, nossa solução chegou
como uma resposta direta a problemas crônicos — controle manual de ponto, excesso
de horas extras, fraudes e processos trabalhistas”, comenta o CEO da Faceponto.
Ele explica que a Faceponto já
ajudou empresas a economizarem mais de R$ 20 milhões em processos trabalhistas
evitados, além de reduzir em até 40% o tempo gasto com rotinas manuais de RH e
eliminar o uso de papel em processos internos. “Através de apoios de
instituições como o IMD, Sebrae e UFRN conseguimos evoluir nosso produto com
agilidade, validar o modelo de negócio e expandir nossa atuação para além do
Rio Grande do Norte”, avalia.
Outra startup que ganhou
espaço fora do estado foi a Blindog, hoje, única solução no mundo, patenteada,
que realmente reduz as colisões de cães cegos usando tecnologia. Sete anos após
a venda da primeira coleira com dispositivo que auxilia a mobilidade de cães
cegos, a startup já está presente em todos os estados do Brasil e em mais de 15
países, com mais de 8 mil clientes e um índice altíssimo de adaptação.
“Queremos melhorar ainda mais
o produto atual, trazendo versões com bateria de maior duração, sensores mais
modernos e ainda mais conforto para o animal.
Nosso objetivo é lançar novas
tecnologias voltadas para a saúde animal, abrangendo outras condições além da
cegueira e até outros pets, como gatos e cavalos. Queremos ampliar o impacto e
levar inovação para cada vez mais tutores”, revela Luana Wandecy, CEO da
Blindog.
Panorama de negócios
inovadores
Mapeamento das startups do
Nordeste e principais segmentos no RN
Margareth Grilo/Diretora de
Redação
Ícaro Carvalho/Repórter
Tribuna do Noorte

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