Conforme narra a peça inicial
da ação, logo no início do regime militar o povo Krenak foi removido à
força e abruptamente de seu território ancestral às margens do rio Doce, onde
hoje fica o município de Redenção (MG). Dispersados, os membros da etnia foram
impedidos de retornar à terra e submetidos a um prolongado processo de
degeneração cultural, relata o MPF.
A ação tem como alvos a União,
a Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai), os estados de São Paulo e
Minas Gerais e o município de Arco-Íris (SP). A Agência Brasil pediu
posicionamento aos órgãos citados. A Funai informou ainda não ter sido
citada sobre a ação, motivo pelo qual não se manifestaria. Os demais não
responderam até a publicaçã da reportagem.
O MPF relata, na ação, que o
povo Krenak foi vítima de uma série de crimes contra a humanidade, como
escravidão, prisão, transferência forçada, tortura, violência sexual e
perseguição por motivos étnicos.
“Os delitos foram praticados a
partir de uma estreita aliança de órgãos oficiais com o objetivo de expulsar os
indígenas de seu território e entregá-lo a proprietários rurais. O governo
militar chegou a implantar um reformatório no local, onde aqueles que resistiam
à perda da terra eram internados e submetidos a todo tipo de violência.
Qualquer ato podia ser pretexto para o encarceramento dos indígenas na unidade,
inclusive o simples fato de falarem a língua nativa”, disse o órgão, em
nota.
O processo atesta que a perseguição
pelo regime militar resultou em grave trauma coletivo e deixou um número
elevado de mortos, com muitos membros da etnia sendo assassinados sob custódia
policial ou sucumbindo a doenças contraídas por causa da remoção forçada.
“Houve ruptura com o sistema
de conhecimento e transmissão cultural, linguística e espiritual, perda dos
ritos sagrados ligados ao rio Doce, grave trauma coletivo e associação das
terras originárias com a extrema violência estatal, perpetuação de sentimentos
de medo, humilhação, vergonha e culpa pela perda de vínculos ancestrais e pela
violação do território sagrado”, resumiu o procurador da República André
Libonati, autor da ação, na nota publicada pelo MPF.
Pela Constituição, o MPF
possui suas atribuições defender os direitos dos povos originários brasileiros,
além da atuação promovida pelos próprios indígenas nas esfera judicial.
Pedidos
A indenização deve ser
direcionada aos remanescentes do povo Krenak que se concentram sobretudo na
aldeia Vanuíre, no município paulista de Arco-Íris, que deve ter seu território
expandido e sua infraestrutura agrícola renovada, de modo a garantir a subsistência
e desenvolvimento econômico no local, segundo pediu o MPF.
O pedido inclui ainda a construção
de um monumento em memória do povo Krenak e de uma nova sede para o museu Akãm
Orãm Krenak, onde os indígenas possam manter o acervo de sua história e
transmiti-la às futuras gerações.
A ação busca ainda medidas de
compensação de danos espirituais, “considerando-se a desconexão forçada dos
indígenas de sua terra – para eles, sagrada – e os consequentes prejuízos para
a manutenção de rituais, mitos e vínculos de ancestralidade”, disse o MPF, em
nota.
Outra demanda é o oferecimento
do ensino gratuito do idioma originário Krenak aos integrantes da aldeia e a
disponibilização de documentos oficiais à comunidade referentes ao período em
que os indígenas foram violentados e removidos compulsoriamente de seu
território para outras localidades.
Agência Brasil

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