A iniciativa, implementada
pela Comissão de Cuidados Paliativos do Huol, surgiu a partir do reconhecimento
dos benefícios da interação entre humanos e animais no ambiente hospitalar.
Segundo Juliano Silveira, médico geriatra e presidente da comissão, a parceria
com Shai e sua tutora, Giselly Romano, nasceu em um contato via redes sociais.
“Giselly prontamente aceitou o convite e assumiu um trabalho 100% voluntário,
iniciando a construção de um fluxo assistencial e protocolos específicos”,
explica.
A TAA utiliza a interação
entre pacientes e animais, como cães, gatos, cavalos e até coelhos, para
estimular a comunicação, socialização, relaxamento e motivação. Durante as
sessões, os animais atuam como facilitadores, adaptando as necessidades de cada
paciente para proporcionar um ambiente seguro e acolhedor. Para a eficácia do
tratamento, é essencial que os animais envolvidos recebam cuidados adequados,
sejam devidamente treinados e mantenham boas condições de saúde.
Desde o início das atividades,
em 2024, a presença de Shai tem sido celebrada por pacientes e profissionais.
Por onde passa, desde a Unidade de Atenção à Saúde da Criança e do Adolescente
até os espaços de internação, a voluntária chama a atenção. Com as mãos
higienizadas de quem pretende interagir, ela recebe carinhos e vira alvo de
muitas fotos durante todo o caminho percorrido, até mesmo daqueles que não
costumam fazer parte da rotina do hospital.
Auriléia dos Santos, mãe de
Ana Vitória, 6, relata o impacto positivo da terapia no tratamento da filha que
vive diante da condição de mucopolissacaridose e que recorrentemente precisa
fazer reposição de enzimas na unidade. “Elas ficam mais alegres. Aqui dentro,
elas passam muito tempo só sentadas, sem muita diversão. Tem brinquedos,
pintura, mas a visita da Shai é diferente, é especial”, comenta.
Os efeitos da TAA são
evidenciados por diversos estudos acadêmicos. Segundo Manuella Carone,
psicóloga clínica, a interação com cães reduz os níveis de cortisol e aumenta a
liberação de ocitocina, promovendo relaxamento e bem-estar. “Essa terapia
também pode diminuir a percepção da dor e sintomas de ansiedade e depressão,
bastante comum em pessoas hospitalizadas, especialmente em cuidados paliativos,
consequentemente, este contato pode gerar uma melhora da qualidade de vida e
manejo da enfermidade”, afirma.
A visita de Shai às unidades
do Huol segue um protocolo rigoroso de biossegurança, com a higienização do
animal e controle de contato entre pacientes e a cadela, além de verificação de
todas as vacinas e cuidados medicamentosos. A visitação é ofertada a todos que
estão na programação da visita, exceto àqueles com imunossupressão ou outras
restrições, garantindo um contato terapêutico seguro.
Entre as crianças atendidas
pela terapia está Fernanda Jhulia, 11, que trata diabetes no Huol/UFRN/Ebserh.
Todas as vezes que vê Shai, ela não esconde a animação e o sorriso no rosto por
ser apaixonada por animais. “Eu acho muito legal porque tem crianças aqui que
estão tristes e a Shai traz alegria. Ela é muito bonitinha, carinhosa demais”,
conta enquanto faz carinho na cadela.
Essa espontaneidade das
interações impressiona até a própria tutora da cadela, Giselly Romano. Por já
ter dois treinamentos nessa área, Shai está acostumada com esse processo. “Ela
sente quando pode se aproximar mais, quando a criança ou o adulto estão receptivos.
Já vi crianças com medo de cães se aproximarem, tirarem foto, fazerem carinho.
Isso é uma evolução”, afirma.
Esses efeitos da terapia
também são observados na equipe hospitalar, que aproveita os intervalos e
interagem com Shai na passagem dos corredores. Segundo Manuella Carone, a
prática pode trazer resultados diretos no desempenho do trabalho. “Interações
com animais podem reduzir a fadiga, melhorar a compaixão e aumentar a
resiliência dos profissionais”, explica.
Impactos na evolução do
tratamento
Apesar de liberar a produção
de hormônios da felicidade ao desfrutar da Terapia Assistida por Animais, o
aprimoramento da saúde mental não é o único benefício existente. Para os
pacientes com doenças crônicas, também é possível observar resultados diretos
na evolução do tratamento, diante dos impactos da redução do estresse e maior
adesão aos cuidados.
Segundo Juliano Silveira, a
literatura científica mostra que a TAA gera resultados em redução da dor,
estabilização da pressão arterial e melhora na resposta ao tratamento. Diante
da percepção desde a chegada de Shai ao ambiente hospitalar do Huol/UFRN/Ebserh,
o caso já foi levado pelo médico a um Congresso Nacional de Cuidados
Paliativos, reforçando a relevância da prática no cenário de assistência.
“Além do impacto emocional, há
evidências clínicas e relatos médicos que indicam melhorias na recuperação e no
engajamento dos pacientes. Dentro do HUOL, observamos que, após as visitas de
Shai, muitos pacientes demonstram maior participação nos cuidados, fortalecendo
o vínculo com a equipe de saúde”, explica o presidente da Comissão de Cuidados
Paliativos do hospital.
Ane Caroline, mãe de Apolo, de
um ano e dez meses, que trata uma doença renal crônica, conta que o filho se
transforma ao ver Shai. “Ele esquece um pouco do trauma que tem do hospital. A
felicidade dele é enorme. É possível perceber que ele fica mais tranquilo
durante o dia quando recebe essa visita”, relata enquanto o filho aproveita
cada minuto ao lado da cadela.
Em contato com tantos
pacientes de diversas enfermidades, Giselly garante que Shai também passa por
descansos para se recuperar. “Ela tem reagido muito bem. Não late, não
estranha. Ficamos em torno de três horas por dia e no máximo duas visitas por
semana, porque o cão absorve as energias negativas, é um ambiente pesado, então
ela precisa de tempo”, relata a tutora.
A parceria com Shai e sua tutora,
Giselly Romano, surgiu a partir de um contato via redes sociais | Foto: Magnus
Nascimento
Outros hospitais usam a
terapia com animais
Em Natal, além do Hospital
Universitário Onofre Lopes, outras duas unidades também recebem a Terapia
Assistida por Animais: o Hospital Infantil Varela Santiago, que atua
principalmente contra o câncer, e também um hospital particular da cidade. A
Liga Contra o Câncer também já esteve ativa nesse programa, mas paralisou as
atividades e estuda a retomada em breve.
De acordo com Giselly Romano,
tutora da Shai, a vocação terapêutica da cadela se manifestou cedo. “Desde
filhote, percebi que ela tinha um temperamento tranquilo. Investi em
treinamentos e procurei hospitais para começarmos esse trabalho, mas houve
muita resistência porque tem todo um protocolo”, conta. A iniciativa no Huol,
segundo ela, só foi possível após a defesa de Juliano.
Para o médico, a TAA deve ser
expandida para outras áreas da saúde e instituições hospitalares por considerar
uma abordagem complementar e com benefícios comprovados. “Além de promover
bem-estar emocional, auxilia na adesão ao tratamento e na humanização do
cuidado. No entanto, ainda há desafios, como a quebra de paradigmas e o
reconhecimento institucional dessa prática”, relata o geriatra.
A mesma percepção é reiterada
por Manuella, que destaca que a prática também pode ser aplicada em casa.
“Proporcionar uma rotina estruturada com brincadeiras e passeios, é um
envolvimento crucial para a criação de um vínculo afetivo”, explica. A psicóloga
clinica também sugere incorporar momentos de interação com o pet.
Para além dos espaços
hospitalares e residências, a Terapia Assistida por Animais também pode ser
aplicada em instituições de longa permanência para atendimento aos idosos, uma
experiência já vivenciada por Shai. A presença de animais pode ser uma fonte de
conforto e apoio, com redução da solidão. “Nossa maior recompensa é saber que
estamos levando um pouco de alegria para quem mais precisa”, conclui Giselly.
Tribuna do Norte

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