De acordo com o Departamento
Estadual de Trânsito (Detran/RN) e a Polícia Rodoviária Federal (PRF), os casos
vêm sendo puxados pelas ocorrências com motociclistas e fatores humanos. Já o
professor e psicólogo Fábio de Cristo, da Faculdade de Ciências da Saúde do
Trairi (Facisa/UFRN), chama a atenção para múltiplos fatores que vão além do
comportamento do condutor.
Os dados são do Sistema
Nacional de Informações de Segurança Pública (Sinesp). De acordo com o
levantamento, o Rio Grande do Norte ocupa a terceira posição entre os estados
do Nordeste com o maior aumento de mortes no trânsito em 2024, ficando atrás
somente de Pernambuco (23,79%) e Sergipe (23,42%). O único estado nordestino
que apresentou redução foi a Bahia (- 4,24%).
Gráfico aponta números de mortes no
trânsito no RN nos últimos seis anos – Fonte: elaborado com dados do Sinesp
O Subcoordenador de Educação e
Fiscalização do Detran, Hamurab Figueiredo, explica que a elevação no Estado
pode estar relacionada ao alto número de sinistros envolvendo motociclistas e
ao aumento de mortes registrado em dezembro do ano passado. Conforme apontam
dados do Departamento, cedidos à reportagem da TRIBUNA DO NORTE, as ocorrências
com motos representaram mais da metade dos sinistros com vítimas fatais em
todos os municípios.
Até o momento, o
subcoordenador observa não ser possível afirmar de forma concreta quais fatores
podem estar influenciando o percentual desses casos, mas o Detran está
realizando uma análise do cenário. “A gente entende que o sinistro pode ser
evitado. Precisamos muito da conscientização da população, também, que utiliza
a moto”, completa.
Já em relação às mortes com
outros veículos, as principais motivações verificadas pelo Detran/RN incluem
excesso de velocidade e ultrapassagem em locais que não são permitidos. Embora
Natal concentre o maior total de mortes no trânsito, Hamurab Figueiredo adverte
que os maiores aumentos de casos têm ocorrido em cidades do interior:
“O Detran e a PRF trabalham de
forma integrada e a gente vem tentando municipalizar alguns municípios que
possam ajudar nesse trabalho. Entendemos que não é só da gente esse problema.
Tem muita coisa que acontece nos municípios e precisamos que eles auxiliem
tanto na fiscalização quanto na educação. Não conseguimos atender todos os
municípios do Rio Grande do Norte”.
Maior crescimento de mortes com
motociclistas é observado em cidades do interior e Grande Natal – Fonte:
elaborado com dados cedidos pelo Detran/RN
O panorama apontado pelo
Detran não se difere muito de cenários específicos, como os sinistros em BRs
que cortam o Rio Grande do Norte. Nessas vias, de acordo com levantamento da
Polícia Rodoviária Federal do Estado (PRF/RN), os casos de mortes de motociclistas
também representaram mais da metade do total de óbitos. Dos 118 contabilizados
em 2024, 60 foram de pessoas que estavam em uma moto.
O policial rodoviário federal
Cleysson Araújo, chefe do setor de comunicação da PRF, destaca o fato de que 42
das 60 pessoas que morreram não eram habilitadas e 45% estavam sem capacete ou
com uso incorreto deste equipamento. Já a partir do que foi verificado neste
ano, até o último dia 11 de fevereiro, chamaram atenção os óbitos de
motociclistas de aplicativo.
Até o momento, foram
registrados 163 sinistros, dos quais 106 foram com motociclistas. Destes, sete
morreram, dentre os quais pelo menos dois eram motoristas por aplicativo. “São
pessoas que, teoricamente, têm expertise no trânsito. Então chamou atenção.
Será que [o motivo] foi cansaço? Será que estão trabalhando demais? Será que
foi desatenção?”, comenta.
De modo geral, por outro lado,
o policial aponta que os fatores humanos , como a falta de atenção, uso de
celulares, excesso de velocidade e mau uso de equipamentos de proteção
individual são verificados na maior parte dos sinistros de trânsito. Em relação
ao crescimento expressivo de vítimas fatais no ano passado, em todo o Estado,
Cleysson Araujo atribui o dado ao crescimento da malha viária. Especialmente as
motos, esclarece, estão sendo cada vez mais utilizadas e estão envolvidas em
acidentes mais graves.
Sinistros de trânsito têm
“múltiplas causas”
Os diferentes aspectos ligados
aos sinistros no trânsito corroboram a necessidade de analisar essas
ocorrências por meio da abordagem do Sistema Seguro, adotada pelo Brasil por
meio do Plano Nacional de Redução de Mortes e Lesões no Trânsito (PENATRANS). O
psicólogo e professor Fábio de Cristo, que pesquisa sobre comportamento no
trânsito na Facisa/UFRN, esclarece que nessa abordagem esses casos são vistos
como uma ocorrência multifatorial.
O termo “sinistro de
trânsito”, reforça o docente, passou a ser adotado pelo Código de Trânsito
Brasileiro (CTB) em 2023 para substituir “acidente”, tendo em vista que este
último reflete a ideia de acontecimentos casuais. As mortes no trânsito,
adverte, podem ser evitadas:
“Quando você tem um sinistro
de trânsito, na perspectiva agora do Sistema Seguro, essa ocorrência tem
múltiplas causas porque o sistema falhou naquele momento. Nesse sentido, as
fragilidades humanas estão colocadas no centro desse sistema, no sentido de que
elas são a parte mais frágil dele. Todas as ações do sistema, portanto, devem
ser direcionadas a impedir que as pessoas morram ou se lesionem gravemente”.
Fábio de Cristo aponta que
entender o contexto é fundamental para não culpabilizar apenas o ser humano
pelos sinistros no trânsito. Segundo ele, a redução de mortes passa por uma
infraestrutura em pleno funcionamento, com vias bem sinalizadas e fiscalizações.
Sobre o aumento de casos de 2023 para 2024, especialmente, ele reforça o papel
dos comportamentos ligados ao cenário da pandemia da covid-19 e do pós-pandemia
aliados às facilidades da sociedade moderna.
Entre eles, estão o uso cada
vez mais contínuo de smartphones pelos participantes do sistema de trânsito, o
aumento da motorização em virtude das falhas no transporte público e o aumento
expressivo de serviços de entrega por aplicativo. Diante desse panorama,
reitera o professor, está o ser humano que pode apresentar comportamentos de
risco que precisam ser prevenidos.
Educação para o trânsito e
políticas públicas
Frente ao aumento de casos
envolvendo motociclistas e outros sinistros de trânsito, Hamurab Figueiredo
explica que o Detran/RN vem promovendo algumas campanhas. Há três meses, por
exemplo, foram realizadas ações de conscientização em todos os pontos de mototáxi
e junto à associação de mototaxistas do Estado. Somado a isso, a Escola de
Trânsito do Departamento oferta cursos básicos para o público e o Programa Vida
no Trânsito tem ganhado força nos últimos anos.
A PRF vem atuando na mesma
linha, realizando campanhas educativas e buscando ampliar a conscientização com
apoio da imprensa. Segundo Cleysson Araújo, as iniciativas têm início com base
na análise dos números e, posteriormente, são desenvolvidas iniciativas globais
na redução dos sinistros.
Fábio de Cristo argumenta que
a educação para o trânsito precisa melhorar em todo o país, tendo em vista que
esse trabalho tem estado majoritariamente limitado à decoração de ‘normas’ e
‘placas’.
O docente, defende ainda, a
melhora das políticas voltadas à saúde mental dos participantes do trânsito. “A
Associação de Psicologia de Tráfego [tem reivindicado]que as avaliações
psicológicas sejam implementadas na renovação de todas as carteiras”.
Tribuna do Norte

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