quinta-feira, 18 de junho de 2026

Municípios cobram fonte de custeio para piso de dentistas e médicos

Projeto estabelece um piso salarial nacional de R$ 13.662 para médicos e dentistas. Foto: Agência Brasil

A proposta que cria um piso salarial nacional de R$ 13.662 para médicos e cirurgiões-dentistas, aprovada na Comissão de Assuntos Sociais do Senado, preocupa os municípios do Rio Grande do Norte. A Federação dos Municípios do RN (FEMURN) avalia que a medida pode impactar as finanças das prefeituras e cobra uma fonte permanente e suficiente de custeio.

O projeto estabelece um piso salarial nacional de R$ 13.662 para médicos e cirurgiões-dentistas com jornada de 20 horas semanais, além de reajuste anual pelo Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) e outros benefícios trabalhistas.

O projeto prevê que o reajuste salarial seja financiado com recursos do Fundo Nacional de Saúde (FNS), sem exigir contrapartida direta de estados e municípios. Entretanto, a Confederação Nacional de Municípios (CNM) avalia que ainda não há garantia de que os entes federativos ficarão livres desse impacto financeiro.

O FNS é responsável pela redistribuição de recursos já existentes. O texto do PL não especifica de onde virá o dinheiro adicional para custear a medida. Para a entidade, essa indefinição contraria a Emenda Constitucional 128/2022, que proíbe a criação de novas despesas sem a indicação da respectiva fonte de custeio.

O presidente da FEMURN, José Augusto Rêgo, disse que a entidade acompanha com preocupação por considerar que a proposta cria uma obrigação financeira de grande impacto para os municípios sem a correspondente definição de fontes permanentes de custeio.

“A principal preocupação da FEMURN é o impacto direto sobre os orçamentos municipais, especialmente dos pequenos e médios municípios, que já enfrentam dificuldades para financiar a atenção básica e os demais serviços do SUS”, defende.

Estudos divulgados pelo movimento municipalista apontam que a medida poderá gerar um impacto bilionário para as prefeituras brasileiras, com estimativa próxima de R$ 25,9 bilhões por ano. “Na prática, sem uma fonte de financiamento adicional da União, os gestores podem ser obrigados a remanejar recursos de outras áreas da saúde para cumprir a nova obrigação”, considera Rêgo.

Ele prevê que isso pode resultar em dificuldades para manutenção de equipes, redução da capacidade de investimento, comprometimento da expansão dos serviços e aumento da pressão sobre as finanças dos municípios do RN.

De acordo com o Sindicato dos Médicos do RN (Sinmed-RN), o salário-base para uma jornada de 20 horas semanais é de aproximadamente R$ 4,5 mil no início da carreira e chega a cerca de R$ 7,2 mil no nível final. Os valores podem ser acrescidos de adicionais, como insalubridade, tempo de serviço e adicional noturno.

O Sindicato dos Odontologistas do RN (SOERN) informou que há editais de concursos públicos no interior do RN com salários-base em torno de R$ 1.800, enquanto outros seguem o piso atualmente reconhecido próximo de R$ 3.900.

José Augusto Rêgo afirma que a valorização dos profissionais da saúde deve ser acompanhada de mecanismos de financiamento que garantam a sustentabilidade da medida.

A entidade defende maior participação da União no custeio do SUS e argumenta que a implementação de um piso nacional precisa considerar os impactos sobre as finanças municipais e a manutenção dos serviços de saúde.

“A preocupação da FEMURN é que uma medida criada para valorizar profissionais não acabe produzindo desequilíbrios que afetem a oferta de serviços à população”, resume o presidente.

Faltam profissionais na rede pública

As entidades que representam médicos e cirurgiões-dentistas avaliam que a criação do piso salarial nacional pode contribuir para reduzir a dificuldade de contratação e permanência de profissionais na rede pública.

O presidente do Sinmed-RN, Geraldo Ferreira, defende que a defasagem salarial da rede pública contribui para a dificuldade de atração e permanência de profissionais em especialidades médicas. “Os médicos são a única categoria profissional em que o salário no serviço público é bem inferior ao do sistema privado”, revela.

Ele avalia que a aprovação do piso poderia fortalecer os concursos públicos e reduzir a dependência de contratos terceirizados.

A presidente do Conselho Regional de Medicina do RN (Cremern), Giana da Escóssia Melo, afirma que a proposta pode ajudar a ampliar a presença de médicos em regiões mais afastadas dos grandes centros urbanos.

“O piso salarial nacional representa um avanço relevante e pode contribuir para ampliar a presença de médicos em municípios potiguares, desde que esteja associado a políticas estruturantes voltadas ao fortalecimento da rede de saúde”, disse. A dirigente ressalta, no entanto, que a remuneração é apenas um dos fatores que influenciam a permanência dos profissionais.

De acordo com ela, a oferta de estrutura adequada nas unidades de saúde, condições de trabalho, segurança profissional e oportunidades de qualificação também são determinantes para a fixação de médicos.

Na odontologia, o presidente do SOERN, Flávio Calife, defende que a valorização salarial pode contribuir para a permanência dos profissionais no interior.

Segundo ele, a atenção básica em saúde bucal é prestada, em geral, por profissionais com jornadas de 40 horas semanais, o que exige vínculo permanente com os municípios.

Na avaliação do sindicato, a remuneração atual ainda é insuficiente para garantir a fixação desses trabalhadores em diversas localidades, especialmente fora dos grandes centros urbanos. “Esse valor previsto no projeto é um sonho para toda a categoria”, explica.

Tribuna do Norte

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