Beco Holanda, de 76 anos, é um grande símbolo de superação e motivação para os atletas seniores. “Eu sou atleta desde os 8 anos de idade”, diz. Foto: Leia Ventura
Os idosos têm ocupado um
espaço cada vez maior nas corridas de rua, motivados pela busca constante por
bem-estar físico e mental, quebrando paradigmas associados à idade. Esta nona
reportagem, que antecede a segunda edição da Jovem Pan News Run, promovida pelo
Sistema Tribuna de Comunicação no próximo dia 21 de junho, evidencia que as
corridas se tornaram mais do que uma atividade física, mas uma aliada na
prevenção de doenças crônicas e na manutenção de hábitos saudáveis.
Beco Holanda, de 76 anos, é um grande símbolo de superação e motivação aos
atletas seniores. “Eu sou atleta desde os 8 anos de idade. Comecei com natação
e remo. Naquela época a gente não tinha professor de educação física. Então
corria brincando, eu comecei e não parei até hoje”, detalha.
Morador de Pium, em Parnamirim, Beco divide sua rotina entre a academia, o
trabalho como corretor de seguros e as corridas, tendo horários bem definidos
de treinos, sono e alimentação. Ele contabiliza que já participou de mais de
mil corridas e diz que o marco é bem mais do que números.
“Eu tive um câncer de esôfago há 19 anos, agradeço a Deus e às corridas, porque
se eu não fosse atleta, não estaria aqui. O que salvou a minha vida foi o
esporte. Nunca tive problema nenhum de saúde e o câncer de esôfago não deu
sinal. Passei quase 10 meses internado no Onofre Lopes, pesando 32 kg”,
relembra.
Apesar do período que o fez diminuir o ritmo das corridas, Beco continuou
caminhando, negando-se a abrir mão integralmente da modalidade. “Foi um desafio
parar de correr, saí com a colostomia e fiquei um ano. Caminhava para não
parar, quando tirei [a bolsa de colostomia], voltei a correr devagarinho e não
parei mais”, revela.
Com a popularização das corridas e a maior adesão de diversos públicos, Beco é
uma inspiração para seus filhos Thito, de 43 anos, Andrezza e seu esposo
Sérgio, ambos de 45 anos, além da neta Anna Júlia, que, aos 11 anos, também
corre. Apesar da validação, ele afirma que já vivenciou preconceitos.
“Já ouvi ‘vá trabalhar, vagabundo’, ‘vá para casa, estou transando com sua
mulher’. Foi um carro me acompanhando, uma mulher baixou o vidro e gritou.
Antigamente a gente era marginalizado. Hoje me chamam de Rei da Rota do Sol,
uma lenda, mas quem me xingava, hoje está correndo”, detalha.
Beco afirma que para a modalidade não há restrições, mas que a prática deve ser
feita sob orientação de profissionais. “Para quem é sedentário, o ideal é fazer
os dois, caminhar e correr. Se começar correndo sem saber, pode se lesionar.
Precisa ter um acompanhamento médico e depois uma assessoria esportiva, se
possível. Quem começa a correr não para mais”, brinca.
Já a atleta Lucimar Araújo, de 69 anos, começou a prática aos 40, durante um
período morando nos Estados Unidos. Em uma caminhada, ela viu uma maratona no
Central Park, em Nova York, e isso serviu como inspiração. “Estava chovendo e
fazendo muito frio. Eu fiquei me perguntando como aquele pessoal conseguia
correr 42 km. Aí comecei com meu tênis de caminhada e aos poucos fui
aumentando”, recorda.
A partir disso, ela se viu apaixonada pela modalidade e, com o retorno à
capital potiguar há quatro anos, a corrida de rua não deixou de fazer parte de
sua rotina. “Corrida é vida. Correr é vida. Você começa com 5 km e vai
aumentando, à medida que o seu corpo vai ficando mais forte, você se surpreende
com você mesmo e vai correndo longas distâncias. Não colocando limitações, mas
escutando o corpo. Se não escutar, o corpo paga”, alerta.
Lucimar afirma que sentiu uma melhora em sua saúde mental, na rotina de sono,
disposição e também na sociabilidade. “Tem gente que não tem motivação em certa
idade, mas a dica é começar caminhando. Ir ficando forte, ter uma base, com
academia e alongamentos. A pessoa que começa a correr descobre que é um novo
horizonte”, finaliza.
Cuidados com a saúde
De acordo com a psicóloga Kimberlly Lira, a modalidade colabora com a saúde e,
além disso, contribui para a estruturação de novos vínculos, apesar dos
preconceitos que os corredores idosos enfrentam. A modalidade, destaca a
psicóloga, também auxilia no melhor funcionamento cerebral.
“Os benefícios físicos e emocionais da corrida na terceira idade se referem à
possibilidade de um envelhecimento com mais qualidade e bem-estar, porque é
algo que previne doenças que são comuns de serem desenvolvidas na velhice”,
destaca.
Já o cardiologista esportivo Nelson Madeira destaca que os inúmeros benefícios
físicos e emocionais são fatores relevantes para o estímulo aos corredores. “Os
benefícios físicos são a diminuição do risco de eventos cardiovasculares,
controle de taxas como glicose e colesterol, além do controle da hipertensão
arterial”, afirma.
No entanto, o especialista reforça que a liberação médica e a avaliação
pré-participação antes da realização da atividade física são indispensáveis. “O
paciente deve, sim, praticar atividade física, tanto de força quanto atividade
física aeróbica, mas antes disso tem que saber se o seu coração está seguro
para a prática dessas atividades, para ter benefícios com maior segurança”,
conclui.
Tribuna do Norte

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