quinta-feira, 18 de junho de 2026

Corredores idosos quebram paradigmas na busca por bem-estar

Beco Holanda, de 76 anos, é um grande símbolo de superação e motivação para os atletas seniores. “Eu sou atleta desde os 8 anos de idade”, diz. Foto: Leia Ventura

Os idosos têm ocupado um espaço cada vez maior nas corridas de rua, motivados pela busca constante por bem-estar físico e mental, quebrando paradigmas associados à idade. Esta nona reportagem, que antecede a segunda edição da Jovem Pan News Run, promovida pelo Sistema Tribuna de Comunicação no próximo dia 21 de junho, evidencia que as corridas se tornaram mais do que uma atividade física, mas uma aliada na prevenção de doenças crônicas e na manutenção de hábitos saudáveis.

Beco Holanda, de 76 anos, é um grande símbolo de superação e motivação aos atletas seniores. “Eu sou atleta desde os 8 anos de idade. Comecei com natação e remo. Naquela época a gente não tinha professor de educação física. Então corria brincando, eu comecei e não parei até hoje”, detalha.

Morador de Pium, em Parnamirim, Beco divide sua rotina entre a academia, o trabalho como corretor de seguros e as corridas, tendo horários bem definidos de treinos, sono e alimentação. Ele contabiliza que já participou de mais de mil corridas e diz que o marco é bem mais do que números.

“Eu tive um câncer de esôfago há 19 anos, agradeço a Deus e às corridas, porque se eu não fosse atleta, não estaria aqui. O que salvou a minha vida foi o esporte. Nunca tive problema nenhum de saúde e o câncer de esôfago não deu sinal. Passei quase 10 meses internado no Onofre Lopes, pesando 32 kg”, relembra.

Apesar do período que o fez diminuir o ritmo das corridas, Beco continuou caminhando, negando-se a abrir mão integralmente da modalidade. “Foi um desafio parar de correr, saí com a colostomia e fiquei um ano. Caminhava para não parar, quando tirei [a bolsa de colostomia], voltei a correr devagarinho e não parei mais”, revela.

Com a popularização das corridas e a maior adesão de diversos públicos, Beco é uma inspiração para seus filhos Thito, de 43 anos, Andrezza e seu esposo Sérgio, ambos de 45 anos, além da neta Anna Júlia, que, aos 11 anos, também corre. Apesar da validação, ele afirma que já vivenciou preconceitos.

“Já ouvi ‘vá trabalhar, vagabundo’, ‘vá para casa, estou transando com sua mulher’. Foi um carro me acompanhando, uma mulher baixou o vidro e gritou. Antigamente a gente era marginalizado. Hoje me chamam de Rei da Rota do Sol, uma lenda, mas quem me xingava, hoje está correndo”, detalha.

Beco afirma que para a modalidade não há restrições, mas que a prática deve ser feita sob orientação de profissionais. “Para quem é sedentário, o ideal é fazer os dois, caminhar e correr. Se começar correndo sem saber, pode se lesionar. Precisa ter um acompanhamento médico e depois uma assessoria esportiva, se possível. Quem começa a correr não para mais”, brinca.

Já a atleta Lucimar Araújo, de 69 anos, começou a prática aos 40, durante um período morando nos Estados Unidos. Em uma caminhada, ela viu uma maratona no Central Park, em Nova York, e isso serviu como inspiração. “Estava chovendo e fazendo muito frio. Eu fiquei me perguntando como aquele pessoal conseguia correr 42 km. Aí comecei com meu tênis de caminhada e aos poucos fui aumentando”, recorda.

A partir disso, ela se viu apaixonada pela modalidade e, com o retorno à capital potiguar há quatro anos, a corrida de rua não deixou de fazer parte de sua rotina. “Corrida é vida. Correr é vida. Você começa com 5 km e vai aumentando, à medida que o seu corpo vai ficando mais forte, você se surpreende com você mesmo e vai correndo longas distâncias. Não colocando limitações, mas escutando o corpo. Se não escutar, o corpo paga”, alerta.

Lucimar afirma que sentiu uma melhora em sua saúde mental, na rotina de sono, disposição e também na sociabilidade. “Tem gente que não tem motivação em certa idade, mas a dica é começar caminhando. Ir ficando forte, ter uma base, com academia e alongamentos. A pessoa que começa a correr descobre que é um novo horizonte”, finaliza.

Cuidados com a saúde

De acordo com a psicóloga Kimberlly Lira, a modalidade colabora com a saúde e, além disso, contribui para a estruturação de novos vínculos, apesar dos preconceitos que os corredores idosos enfrentam. A modalidade, destaca a psicóloga, também auxilia no melhor funcionamento cerebral.

“Os benefícios físicos e emocionais da corrida na terceira idade se referem à possibilidade de um envelhecimento com mais qualidade e bem-estar, porque é algo que previne doenças que são comuns de serem desenvolvidas na velhice”, destaca.

Já o cardiologista esportivo Nelson Madeira destaca que os inúmeros benefícios físicos e emocionais são fatores relevantes para o estímulo aos corredores. “Os benefícios físicos são a diminuição do risco de eventos cardiovasculares, controle de taxas como glicose e colesterol, além do controle da hipertensão arterial”, afirma.

No entanto, o especialista reforça que a liberação médica e a avaliação pré-participação antes da realização da atividade física são indispensáveis. “O paciente deve, sim, praticar atividade física, tanto de força quanto atividade física aeróbica, mas antes disso tem que saber se o seu coração está seguro para a prática dessas atividades, para ter benefícios com maior segurança”, conclui.

Tribuna do Norte

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