O presidente da Fiern defende ajuste nas contas públicas, melhoria logística no Estado e ambiente regulatório mais previsível| Foto: Alex Régis
O desempenho recente da indústria do Rio Grande do Norte, marcado por oscilações no emprego e desafios estruturais, com queda na produção, expõe um diagnóstico direto: é preciso reequilibrar as contas públicas para destravar o crescimento e tornar o Estado mais competitivo. Essa é a análise que o presidente da Federação das Indústrias do RN (Fiern), Roberto Serquiz, faz nessa entrevista.
Ele explica o que está
impactando o cenário atual de retração e defende que o avanço da indústria
passa por mais infraestrutura, previsibilidade, ambiente técnico fortalecido e
um licenciamento mais ágil e descentralizado. O dirigente também destaca as perspectivas
positivas com novos investimentos previstos para 2026 e 2027, reforçando o
papel da Fiern no apoio à indústria de transformação e na interiorização das
ações. Segundo ele, levar estrutura e serviços para onde a indústria está é
parte da estratégia para criar um ambiente mais favorável ao desenvolvimento
econômico e social.
Por que a indústria do RN tem registrado sucessivos saldos negativo de empregos?
Nós temos o petróleo, que é o maior PIB industrial do Estado, e ele lidera essa
mobilidade da empregabilidade. Se a gente analisar janeiro e fevereiro, o
petróleo teve uma queda em termos de emprego, então realmente mexe nessa
balança. O que fica mais perene é a indústria de transformação, em alguns
itens, como alimentos e confecção. Tivemos uma queda na construção dos parques
eólicos, devido a um problema de infraestrutura do Estado. Fato é que, nos
últimos 20 anos, há uma perda de competitividade pela própria capacidade de
investimento do Estado.
Esses mesmos fatores explicam a queda na produção industrial registrada em fevereiro?
Explica. Mas nós temos três pontos que precisam ser apontados: solidez fiscal,
educação e infraestrutura. Temos uma infraestrutura com a revitalização de
parte das estradas, mas um estudo da CNT aponta que não há nenhuma estrada de
excelência no Estado, que se define com acostamento, terceira via e
sinalização. Quando fazemos o comparativo, os estados vizinhos já têm,
inclusive, estradas duplicadas. Tudo isso é logístico. Nosso porto também está
iniciando um trabalho, mas, se você não tem um porto, toda a produção sai pelos
portos dos estados vizinhos. Como atrair empresas sem essa infraestrutura?
Mesmo assim, mais de 70% dos
empresários planejam investir…
Temos um empresário sempre motivado, porque sabemos do potencial do Estado. O
Estado é rico, por isso digo que o ponto principal do próximo governador é
virar a chave do equilíbrio fiscal. Esse fluxo financeiro precisa mudar. Os
programas sociais são necessários até um determinado estágio, para tirar as
pessoas da vulnerabilidade, mas o maior programa social é o emprego.
O que o poder público precisa fazer para garantir crescimento sustentável?
É preciso que o Estado do Rio Grande do Norte vire essa chave, a exemplo do que
aconteceu em Pernambuco, Ceará e Paraíba. Tem que baixar a despesa, fazer uma
reforma administrativa, conversar com os poderes e com a sociedade para que o
Estado possa se recuperar. É o que aguardamos para o próximo governo, pensando
em perspectiva futura.
Como seria essa “virada de chave”?
O Estado do Rio Grande do Norte sobrevive do seu ativo natural: pesca,
fruticultura, sal, energia renovável, petróleo e mineração. Quando a gente fala
do PROEDI, ele foi importante? Sim, foi importante para segurar a indústria de
transformação e permitir um passo adiante. Mas infraestrutura se faz com
investimento. Temos um grande corredor de atum na nossa costa e precisamos
trabalhar isso, colocar o terminal pesqueiro de Natal para funcionar e ampliar
a operação do porto. O poder público precisa fazer a parte dele e o privado, a
sua.
Neste sentido, o cenário é animador?
As perspectivas são boas. Os avanços de hoje foram apontados em 2024. Mas é
preciso priorizar infraestrutura. Não há como o próximo governador não tratar
isso como prioridade, porque é necessário transformar essas riquezas em
bem-estar para a população. E isso exige recursos, com equilíbrio entre receita
e despesa. É uma matemática que precisa ser feita no Estado. Com
infraestrutura, teremos condições de olhar para 2027 com mais esperança do que
para 2026, quando já há perspectiva de melhora.
O que sustenta as expectativas de crescimento?
Nós temos a mineração com dois projetos: um já em atividade, que é a Aura
Borborema, e a Fomento, que aguarda licenciamento para começar. São grandes
investimentos num novo ciclo da mineração no Estado. O potencial de ouro é
estimado em 19 bilhões de dólares. Quanto ao petróleo, a maior empresa
exploradora está em fase de modernização, com previsão de 50 novos poços para
2026. As energias renováveis, embora não gerem ICMS, promovem desenvolvimento
onde os aerogeradores estão instalados. As perspectivas são muito boas para
2026 e 2027.
Sobre marcos regulatórios, por exemplo, há mais entraves ou avanços?
A Federação tem trabalhado com o governo dentro do possível, com foco em
segurança jurídica, que é a base para aproveitar os potenciais do Estado.
Estamos buscando alinhamento com a lei federal. Precisamos de previsibilidade,
valorização do ambiente técnico e licenciamento descentralizado para os
municípios. Essa lei, debatida há mais de 10 anos, demorou a ser aprovada por
esses pontos, que a legislação federal acabou resolvendo. Perdemos tempo por
questões ideológicas e, com isso, investimentos para estados vizinhos. A
licença será um ponto importante, agora com mais força na fiscalização e
alinhada à lei federal. Com segurança jurídica, o empresário entende o que pode
ou não fazer e avalia a viabilidade do negócio. Se for viável, ele investe.
Falando no privado, da parte da Fiern, o que tem sido feito para fortalecer a indústria?
A Federação da Indústria vem fazendo um trabalho forte na indústria de
transformação, que perdeu espaço nos últimos 20 anos, com uma
desindustrialização significativa. Quando assumimos a Fiern, olhando o ambiente
global, percebemos que as grandes nações passaram a investir fortemente na
indústria de transformação, sobretudo após a pandemia da Covid, quando se
evidenciou a dependência dos países à China. Nós precisamos comprar material à
China, porque ela praticamente passou a dominar. Alguns setores já estão dando
resultado, como a confecção, que, mesmo com turbulências, se destacou como o
segmento que cresceu.
A Fiern está ampliando a presença no interior? Qual o objetivo?
A interiorização acompanha a presença da indústria e cria um ambiente
favorável, beneficiando o setor e a população. Desde o início da gestão,
seguimos um planejamento de apoiar a indústria. Temos 31 atividades
industriais, todas assistidas. O projeto de meritocracia envolve estrutura
física, funcional e orçamentária. Estamos inaugurando uma clínica do Sesi em
Caicó, em uma região forte em alimentos, confecção, bonelaria e bordado, além
do novo ciclo da mineração. Já havia atendimento com unidades móveis, mas esse
novo momento exige presença maior. Vamos inaugurar uma sede da Fiern em
Mossoró, que concentra quase 50% do PIB industrial do Estado e a região da
Costa Branca reúne sal, fruticultura, petróleo e calcário. Será a Casa da
Indústria Oeste, para dar melhor estrutura e condições às lideranças e aos
setores.
Além disso, há ampliação no trabalho educacional do Sesi. Qual o impacto dessas ações?
Implantamos um projeto em Acari, nas cinco escolas municipais, com resultado
positivo. Após a avaliação Saeb, a cidade passou de 85 mil para 685 mil no
valor-aluno, devido à evolução em matemática e português. Expandimos essa ação
para mais quatro municípios e, agora, abrimos para os 167. Desses, 34 já
aderiram à metodologia adotada, que é aplicada em São Paulo. A proposta é
apoiar a educação e estimular o espírito empreendedor nos jovens. Estamos
iniciando a construção de uma escola em Currais Novos, para levar nosso modelo
de referência, como já existe em São Gonçalo e Mossoró. Em Macau, também será
construída uma nova unidade. Também aguardamos a cessão do Colégio Ateneu, em
Natal, para transformá-lo em um núcleo de ensino, com educação de jovens e
adultos e cursos de curta duração, com Senai e Sesi, mantendo a gratuidade para
a população.
Como a Fiern vê a discussão sobre a redução da jornada de trabalho?
Muitas vezes se coloca empregado e empresário em lados opostos, mas não se
trata disso. Não há lados opostos, é um só. Todos são importantes no processo
de desenvolvimento. Quando se fala em emprego, investimento e empresário, não
existe oposição. A preocupação é tentar aprovar uma mudança dessa em momento de
eleição, quando há mais emoção. Hoje, os dez países mais ricos do mundo não têm
muitos dos benefícios que o Brasil tem, como décimo terceiro, 30% de férias,
licenças. Tudo isso são conquistas construídas ao longo de anos de discussão. É
preciso encontrar um ponto de equilíbrio para fazer essa transição, como já
ocorreu antes, para que o efeito positivo aconteça.
Esse equilíbrio é possível?
Temos casos no Brasil, como a própria legislação trabalhista, que trata do
negociado sobre o legislado e já permitiu que vários segmentos se adaptassem
com jornadas diferenciadas. A micro e pequena empresa terá o maior peso nesse
processo e mais de 90% das empresas são desse porte. Defendemos uma discussão
ampla. Há questões de produtividade, parques industriais defasados, juros altos
e outras adversidades que precisam ser resolvidas. Não impede que isso
aconteça, mas, em outro momento, pode gerar uma conquista mais sólida, com
condições reais de implementação e os efeitos esperados.
QUEM
Roberto Serquiz é empresário e
dirigente com trajetória consolidada na representação da indústria do RN.
Natural de Natal, atua nos setores de água mineral e reciclagem, sendo sócio da
Água Mineral Santa Maria e da RS Reciclagem. É formado em Administração de
Empresas pela UFRN, com especialização em Finanças e MBA em Meio Ambiente.
Na Fiern, antes de ser
presidente foi diretor tesoureiro e presidiu a Comissão Temática de Meio
Ambiente. Também comandou o Sicramirn por dois mandatos e fundou o Sindrecicla,
onde foi o primeiro presidente. Em 2022, presidiu o 29º Congresso Brasileiro da
Indústria de Água Mineral e foi homenageado com a Medalha do Mérito Industrial
Walter Byron Dore, concedida pela Fiern a personalidades que contribuem para o
desenvolvimento da indústria potiguar.
Cláudio Oliveira/Repórter
Tribuna do Norte

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