domingo, 31 de maio de 2026

“O consumidor está mais cauteloso, mas principalmente os bancos”, diz diretor da Fenabrave-RN

Empresário e representante sindical, Arnon César afirma que o crédito continua impulsionando as vendas, mas alerta para maior rigor dos bancos na concessão de financiamentos | Foto: Alex Régis

Mesmo diante de um cenário econômico global e nacional repleto de complexidades, o mercado automotivo do Rio Grande do Norte surpreende em 2026 com um crescimento robusto, acumulando uma alta superior a 20% em comparação ao mesmo período do ano passado. O avanço do setor no estado, impulsionado pela explosão no segmento de motocicletas e pela chegada de novas montadoras estrangeiras, redesenha as estratégias de vendas, financiamento e infraestrutura local.

Em entrevista à TRIBUNA DO NORTE, Arnon César Ramos e Silva, presidente do Sincodiv-RN (Sindicato dos Concessionários e Distribuidores de Veículos) e diretor-geral regional da Fenabrave-RN (Federação Nacional da Distribuição de Veículos Automotores) analisou a sustentabilidade desse crescimento, as mudanças no comportamento do consumidor potiguar e os desafios operacionais que se desenham para o restante do ano, incluindo debates sobre crédito, transição para elétricos e fim da escala 6x1.

O mercado automotivo do Rio Grande do Norte acumula crescimento de mais de 20% em 2026 na comparação com o mesmo período de 2025. Quais fatores explicam esse avanço do setor mesmo diante de um cenário econômico ainda desafiador?

O segmento de automóvel vem encontrando um crescimento nacionalmente. Por mais que a gente venha passando por um momento econômico desafiador, a concessão de crédito sempre foi o motivo que ‘puxa’ o setor do automóvel e hoje ainda estamos com um momento favorável de crédito. O consumidor continua tomando crédito e adquirindo seu veículo. A chegada de novos entrantes no mercado, que são os carros chineses com a tecnologia híbrida e elétrica, tem feito com que as pessoas que não estavam pensando em trocar de carro agora despertem a curiosidade ou achem interessante partir para essa nova tecnologia.

Os dados mostram que motocicletas representam mais de 60% do mercado estadual. O que explica essa força das motos atualmente?

Moto é o mercado mais pujante e que enfrenta o maior crescimento atualmente. Nós não tínhamos mototáxi como no interior, mas hoje nós temos MotoUber, um dos fatores que têm maior incremento. A questão de delivery tem crescido muito e a questão econômica. Por mais que o mercado do automóvel venha crescendo, nós temos uma situação econômica complicada.

A taxa de juros elevada impede um crescimento ainda mais expressivo do setor em 2026?

Temos visto um aumento na quantidade de veículos pagos à vista. Pessoas que em algum momento tinham a opção de manter uma reserva e compraram o veículo financiado, então ele tinha um custo pequeno e preferia ter sua reserva e ter aquele comprometimento. É preciso ter um compromisso, uma parcela para ter uma espécie de poupança. Outra modalidade que tem crescido e a gente tem visto é o consórcio, pois o consórcio não tem juros, tem taxa de administração e ela é fixa; na hora que se tem uma alta de juros, a diferença no custo do consórcio e do financiamento fica bem distante.

O alto nível de endividamento das famílias brasileiras também repercute no setor automotivo?

O consumidor está mais cauteloso, mas principalmente os bancos. O setor bancário está com a régua um pouco mais alta, tendo um pouco mais de exigência na hora de conceder crédito. Com o aumento da inadimplência e do endividamento, o banco consegue, dentro de suas métricas, enxergar até onde uma família pode se endividar sem que isso vá comprometer lá na frente. Tivemos, anos atrás, um expansionismo dos bancos com parcelamentos em até 72 meses, sem entrada, e isso lá na frente se mostrou um problema. Com o aumento da inadimplência e do endividamento, os bancos começam a ficar mais exigentes na aprovação de crédito, exigindo uma entrada maior e prazo menor para o financiamento. Na hora que o banco faz isso, ocorre uma maior retração.

O mercado brasileiro vive uma forte expansão dos veículos elétricos e híbridos. Como as concessionárias do RN estão aproveitando esse momento?

Quem está chegando com muita força e dando o ‘boom’ nesse segmento é a indústria chinesa. Ninguém hoje sai de casa pensando em comprar um veículo acima de cem mil reais e não leva em conta um veículo chinês. Quem está no mercado sabe e pesquisa. O comprador pode até não comprar, mas vai levar em conta a possibilidade de adquirir um veículo híbrido ou elétrico. O mercado tem aproveitado; vários grupos do nosso Estado têm investido na chegada de marcas. Praticamente todas as marcas que existem no Brasil estão presentes no nosso mercado, e as que não estão, irão chegar.

Esse crescimento também é sentido aqui no RN?

Os híbridos de maior porte têm se destacado. Entre os carros elétricos, destacam-se os carros urbanos. O que a gente vê no mercado é a venda do veículo maior sendo o carro híbrido, enquanto os carros puramente elétricos têm um número maior de venda como carro urbano, que é aquele segundo carro da casa, que não é usado para viajar; é o carro da esposa, do filho, aquele carro que se usa no dia a dia.

Os gargalos para o avanço dos carros elétricos no RN são a infraestrutura de recarga e a assistência técnica especializada?

Para o veículo elétrico, a infraestrutura de carregamento é o maior gargalo, não só aqui, mas eu diria que no mundo inteiro. No Brasil, isso se acentua. O nosso país tem essa dificuldade em relação a quem vai fazer esse investimento em infraestrutura. A maioria das pessoas que compram o carro elétrico, compram para o uso urbano. Na cidade você não vai ter problemas; em casa, você vai ter onde carregar, não vai ter problema. Uma coisa que tem feito muita gente buscar o elétrico — e que para a gente é uma vantagem que temos aqui — é a energia solar, o que torna o custo de carregamento muito baixo. O carro elétrico não é de graça: você coloca na tomada e ele vai consumir. A questão é que, se precisarem fazer uma viagem, terão que se programar e, em alguns casos, ter paradas muito longas. Já existem alguns postos de recarga, mas muito poucos. Este ainda é o principal gargalo, por isso há muitos híbridos se destacando. Os modelos maiores, em sua maioria, são modelos híbridos.

Como uma eventual mudança no mercado de trabalho, como o fim da escala 6x1, poderia impactar as concessionárias?

É um tema complexo. O custo de operação das empresas irá aumentar, mas ele não será igual para todos os segmentos. Vai ter impactos diferentes em cada setor. Alguns setores hoje trabalham com a escala 5x2, como a construção civil, fábricas… O principal não é a escala 6x1 ou 5x2, são as quantidades de horas. Se a gente baixa a escala para 5x2 e continua com a carga de 44 horas semanais, tem uma realidade, mas na hora que se baixa a escala e diminui a quantidade de horas, é outra realidade. O setor de concessionárias, eu diria que tem como se adaptar, porque há vários negócios dentro de um só. É a venda de um carro novo, o setor de serviços, a revisão e o setor de funilaria. Cada segmento terá seu impacto e terá sua acomodação de acordo com o que favoreça o profissional e a empresa. As pessoas vão aprender — caso aconteça —, haverá uma acomodação e cada setor vai entender de uma forma diferente. Mas vai haver uma perda para a empresa e, consecutivamente, um aumento de custos que poderá, ou não, ser repassado para o consumidor.

A chegada de novas marcas, especialmente as chinesas, tornou o mercado automotivo brasileiro mais competitivo?

Se você tem novos entrantes e novos participantes, as concessionárias vão ter que criar situações para reter o seu cliente. Cada vez mais a prestação de serviço e a fidelização do cliente são importantes. E para o cliente, para o consumidor, isso é maravilhoso, porque na hora que você tem mais empresas participando do mercado, você tem mais concorrência e, naturalmente, vai ter mais oportunidades, mais ofertas — seja de preço, seja de qualidade, seja de tecnologia. É natural que se tenha mais opções e aí as marcas cada vez mais vão procurar melhorar em algum aspecto a vida do consumidor. Então, cada marca, dentro da sua atuação, vai tentar segurar o seu consumidor, ou seja, através de qualidade, tecnologia, marcas de esportivos ou descontos. Enfim, o consumidor só tende a se beneficiar dessa concorrência.

Qual a projeção para o desempenho do mercado automotivo local para o restante do ano?

Nós temos um ano que já era esperado, esse 2026 de que todo mundo fala. Um ano difícil, porque os eventos atrapalham muito o nosso segmento. Então, nós temos uma Copa do Mundo para começar. Quando você tem o jogo durante o dia, o consumidor — diferente de bares ou lojas de roupas, onde a pessoa compra uma camisa da seleção, coisas desse tipo —, o setor de automóveis não é beneficiado com o evento da Copa. É um desafio para nós. Mas a gente vê um ano difícil. Embora os números estejam aí, a coisa vem acontecendo, vem crescendo. A gente imagina que o ano vai ser de crescimento, mas os desafios consistem em passar por estes momentos. O automóvel vive muito disso em períodos cíclicos de meses.

QUEM

Arnon César Ramos e Silva é empresário, administrador e dirigente sindical com forte atuação e trajetória consolidada no setor automotivo do Rio Grande do Norte. Vindo de uma família empreendedora, iniciou sua trajetória profissional ainda jovem, aos 17 anos. Graduou-se em Administração e, ao longo de mais de duas décadas de carreira, assumiu funções gerenciais até alcançar o cargo de diretor-geral do Grupo Dunas. Exerce atualmente o seu segundo mandato como presidente do Sincodiv-RN e diretor-geral regional da Fenabrave-RN.

Bruna Torres/Repórter

Tribuna do Norte

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