A capacitação dos profissionais, aliada ao melhoramento genético das abelhas, contribui para o desenvolvimento dos apiários e da extração do pólen em Ceará-Mirim. Foto: Alex Régis
Rico em vitaminas e minerais,
o pólen apícola é considerado um dos alimentos mais completos da natureza pelas
propriedades antioxidantes e anti-inflamatórias que trazem benefícios diversos
à saúde. Cada vez mais procurado para consumo, o item tem se tornado uma
importante fonte de renda para 13 produtores da Associação de Apicultores e
Apicultoras da Agricultura Familiar do Projeto Santa Águeda II (Apafase), em
Ceará-Mirim, na Região Metropolitana de Natal. O grupo é o único no Rio Grande
do Norte a trabalhar com a produção de pólen atualmente, item que pode ser
consumido com alimentos como iogurte, coalhada e salada de frutas.
Com apoio do Sebrae, para a grande maioria dos produtores a atividade se
encontra em fase de investimentos, com foco na ampliação de enxames. Mas há
aqueles que já conseguem tirar do pólen o sustento para si e para as próprias
famílias. A organização dos trabalhadores em torno da Apafase, alinhada à
capacitação e ao melhoramento genético das abelhas, contribui para o
desenvolvimento dos apiários e da extração do item no assentamento Projeto
Santa Águeda II, que conta com cerca de 450 habitantes e está localizado a
aproximadamente 20 quilômetros do centro da cidade.
Alexandre Oliveira, 33, presidente da Apafase, é um dos produtores de maior
destaque da comunidade. Ele começou a trabalhar com a criação de abelhas há
cerca de sete anos, com vistas à produção de mel. A ideia de trabalhar com
pólen apícola surgiu depois de ele acompanhar alguns vídeos sobre o tema na
internet. “No começo, a gente pegava abelha no mato, não tinha nem apiário. Me
lembro quando fomos fazer a primeira colheita de mel, eu e meu sócio, Igor, que
está comigo até hoje. Somente ele tinha EPI, um macacão que a gente ganhou.
Levei muita ferroada, foi muito arriscado. Conseguimos extrair 20 litros de
mel. Vendemos a R$ 25 cada litro e começamos a investir no apiário”, conta.
Do começo difícil até os dias de hoje, inclusive com a mudança no foco da
produção – de mel, os dois passaram a apostar no pólen – foi uma longa trajetória,
mas que começa a mostrar resultados importantes. Atualmente, são coletados
cerca de 35 quilos do produto, os quais garantem uma renda de cerca de R$ 3 mil
para o produtor. “O aumento da produção me permitiu deixar um emprego de
carteira assinada depois de 14 anos trabalhando como soldador. O pólen é o ouro
das flores na apicultura”, afirma Oliveira.
Com o bom desempenho, o apicultor aposta na expansão do número de enxames, com
projeção de praticamente dobrar a renda atual até 2027. “Tenho 90 caixas de
abelha. Até o próximo ano, vou aumentar essa quantidade para 250. Com isso,
espero ganhos na casa dos R$ 5 mil”, pontua.
Uma prova do quanto a produção tem se desenvolvido é a criação da marca Apiário
Fazenda Doce Mel, que leva o nome da fazenda de Alexandre, onde estão
instalados os enxames dele.
Alexandre Oliveira (à esquerda) ao lado de Jailson Medeiros, que atua no melhoramento genético. Foto: Alex Régis
Melhoramento genético
impulsiona a produção
De acordo com Nilson Dantas,
analista técnico do Sebrae/RN, os apicultores do Projeto Santa Águeda, em
Ceará-Mirim, recebem mensalmente três horas de consultoria de campo, com
orientações voltadas ao manejo adequado dos enxames, alimentação das colmeias,
sequenciamento produtivo e troca de cera, para garantir maior qualidade e
produtividade, a fim de fortalecer a atividade na região.
“Agora, estamos avançando também para uma nova etapa, com foco no melhoramento
genético, por meio da utilização de abelhas rainhas fecundadas, o que deve
elevar ainda mais o desempenho da atividade. Ceará-Mirim possui um diferencial
muito importante, que é a grande presença de coqueirais, criando um ambiente
extremamente favorável para a exploração do pólen apícola”, explicou Dantas.
De acordo com Alexandre Oliveira, da Apafase, a grande procura pelo pólen se dá
por conta da diversidade de plantas da região, o que confere sabor especial ao
produto. “As empresas, para onde vai a maior parte da nossa produção, nos
procuram muito por causa da diversificação da florada que existe aqui e que nos
garante o pólen silvestre, de sabor muito agradável. As abelhas campeiras de
uma única colmeia visitam plantas diferentes, captando pólen de diferentes
cores. Na prática, o pólen silvestre é a reunião de grãos de variadas flores”,
explica Oliveira.
“Outro tipo bastante aceito no mercado é o pólen de coqueiro, porque é muito
fino e leve. Nossa região é muito rica em coqueirais. Isso garante uma produção
o ano inteiro”, acrescenta o apicultor.
Um segundo fator que tem contribuído para a produção é o melhoramento genético
das abelhas, desenvolvido em alguns apiários da associação. Jailson Medeiros,
43, é aplicultor e atua no suporte técnico a um dos produtores, mas pretende
ele próprio produzir pólen em breve. De acordo com Medeiros, nem todas as
abelhas possuem direcionamento para a produção de pólen, por isso é necessário
fazer o melhoramento.
“Em algumas colmeias é possível extrair uma média de 75 a 80 gramas [de pólen].
Em outras, é possível coletar bem mais, 160 gramas, mas há aquelas onde dá para
extrair apenas 20 [gramas]. Isso depende do tamanho da colmeia e também da
condição genética. Cada abelha tem um direcionamento para uma produção
específica. Enquanto algumas são mais inclinadas ao mel, outras têm melhor
direcionamento para o pólen ou o própolis”, diz Medeiros.
Com o melhoramento, de acordo com ele, é possível padronizar o apiário, algo
que é feito em quatro ou cinco ciclos. Para isso, Jailson observa as colônias
que mais armazenam pólen, selecionando-as para reprodução. “Os zangões
melhorados geneticamente para o pólen vão fecundar as abelhas para gerar um
alto índice de produtoras”, diz.
Além disso, o melhoramento genético tem como objetivo uma colmeia mais
higiênica e menos defensiva. “Começamos a adquirir exemplares de abelhas
europeias, menos agitadas, de alguns produtores do Sul do País, com material
genético melhorado para introduzir junto às africanizadas, mais defensivas”,
conta.
A substituição ocorre aos poucos. De modo resumido, as abelhas europeias foram
gerando zangões que cruzam com as africanizadas, o que fez baixar a
defensibilidade do enxame. “Hoje nós temos um plantel que nos permite trabalhar
de forma muito mais tranquila. Lembrando que a substituição é feita de maneira
gradual, ano a ano”, aponta Jailson Medeiros.
Para o melhoramento, são selecionadas inicialmente 10 abelhas africanizadas de
um apiário. Desse total, uma nova seleção escolhe uma única abelha, a mais
higiênica, menos defensiva e de alta produtividade para receber as larvas com
melhoramento genético.
Nesta abelha, chamada de prévia matriz, é realizada uma enxertia para
fecundação, processo que acontece em até 45 dias e permite observar se a
genética das novas abelhas é semelhante ao padrão da matriz (a rainha com
qualidade genética superior). Se o material genético se repetir, essa nova
abelha é selecionada como uma matriz, sendo retirada para um segundo apiário,
onde será explorada no processo de melhoramento.
Produção artesanal
Todo o processo de produção de pólen do Projeto Santa Águeda II é feito de modo artesanal – da fabricação das caixas para os enxames ao beneficiamento do produto. Alexandre Oliveira, presidente da Apafase, responsável por iniciar a produção, conta que a primeira caixa construída por ele foi elaborada com tábuas encontradas no lixo e varas retiradas do mato. Com o dinheiro da produção de mel, inicialmente, Alexandre fez diferentes investimentos, até chegar ao padrão atual – o Langstroth, que utiliza madeira comprada em serraria.
O grupo, no entanto, já realiza testes para utilizar material reciclável na
fabricação das caixas. “A ideia é usar PVC, que é uma matéria muito descartada
na região. Com isso, a gente pretende economizar com a compra de madeira”,
afirma Alexandre.
O padrão Langstroth, segundo Jailson Medeiros, garante alta produtividade nos
apiários. O nome é uma homenagem ao patrono da apicultura, Lorenzo Langstroth.
As colmeias em Ceará-Mirim são adaptadas com uma tela de pouso e uma touca de
coleta.
“Essa touca é feita com tela de mosquiteiro, confeccionada pelos produtores.
Também confeccionamos a trampa – estrutura feita de PVC com furos de 4,8mm.
Esses furos retêm 70% do pólen que vem em bolotas presas nas patas da abelha. O
pólen, então, passa pela tela de pouso feita de inox e fica armazenada na
touca, de onde a gente recolhe. Tudo que é produzido é vendido para 14 estados
– principalmente para Santa Catarina, Ceará e Pernambuco. Para Natal, vai uma
pequena parte”, afirma o apicultor.
Felipe Salustino/Repórter
Tribuna do Norte


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