domingo, 31 de maio de 2026

Medicina amplia uso do botox para tratar dores neurológicas

Aplicações podem ser feitas contra enxaqueca crônica, neuralgia do trigêmeo e espasticidade | Foto: Adriano Abreu

Quando se fala em botox, a associação imediata de grande parte da população ainda é com procedimentos estéticos e rejuvenescimento facial. Mas, na neurologia, a toxina botulínica ocupa há décadas um papel muito diferente: o de ferramenta terapêutica no tratamento de dores incapacitantes, espasmos musculares e sequelas neurológicas.

Hoje, o medicamento é utilizado em condições como enxaqueca crônica, neuralgia do trigêmeo — considerada uma das dores mais intensas da medicina —, distonias e espasticidade em pacientes pós-AVC, além de casos de esclerose múltipla, lesões medulares e paralisia cerebral.

Segundo a neurologista Cíntia Melo, o uso médico da substância surgiu antes mesmo da popularização estética. “Os primeiros usos clínicos modernos ocorreram justamente na neurologia e neuro-oftalmologia, no tratamento de condições como estrabismo, blefaroespasmo e distonias. Ou seja, o uso terapêutico precedeu a fama estética”, afirma.

Inicialmente, a toxina ficou conhecida por bloquear sinais entre nervos e músculos, reduzindo contrações involuntárias. Com o avanço das pesquisas, porém, descobriu-se que ela também atua em mecanismos ligados à dor e à neuroinflamação. “Hoje sabemos que ela interfere na liberação de substâncias relacionadas à dor, o que ampliou seu papel no tratamento de síndromes dolorosas, como a enxaqueca crônica e alguns casos de neuralgia do trigêmeo”, explica a médica.

Na área da dor, uma das aplicações mais consolidadas da toxina botulínica é a enxaqueca crônica. Nesses casos, o tratamento atua de forma preventiva, reduzindo a frequência, a intensidade e a duração das crises. “O objetivo é diminuir não apenas os episódios de dor, mas também o uso excessivo de analgésicos e o impacto funcional da doença”, explica a neurologista Cíntia Melo.

Segundo a médica, o protocolo mais utilizado prevê reaplicações em intervalos de cerca de 12 semanas. Estudos apontam que parte significativa dos pacientes apresenta melhora progressiva ao longo dos ciclos de tratamento. “Cerca de 50% dos pacientes podem ter redução de pelo menos metade dos dias de cefaleia”, destaca.

Além da enxaqueca, a toxina botulínica também vem ganhando espaço no tratamento da neuralgia do trigêmeo, condição marcada por dores faciais intensas e recorrentes. De acordo com a neurologista, o tratamento costuma ser indicado principalmente quando o paciente não responde bem aos medicamentos convencionais ou apresenta efeitos colaterais importantes.

Esse é o caso de Luiz Augusto Melo, de 82 anos, que há mais de 25 anos alternou entre tratamentos medicamentosos e cirúrgicos para aliviar os sintomas da neuralgia do trigêmeo e, com as aplicações da toxina botulínica, encontrou alívio para as dores. “Já cheguei a tomar oito e até 12 vezes a quantidade de medicação que tomo hoje, e mesmo assim ainda sentia a dor diariamente”, conta Luiz. Atualmente, o paciente utiliza apenas metade do comprimido da medicação indicada para o tratamento.

Ele relembra que, mesmo após anos de medicação, chegou a realizar o procedimento cirúrgico conhecido como balonamento para diminuir a frequência dos picos de dor. Ainda assim, continuava sentindo dores diariamente. “Mesmo após o procedimento, ainda precisei tomar altas doses da medicação. Logo após a primeira aplicação da toxina botulínica, já consegui reduzir a dose”, relata.

Luiz conta que, após a segunda aplicação da toxina, conseguiu passar semanas sem fazer uso da medicação de controle. “Percebo que existe a vida antes e depois das minhas aplicações de botox. Hoje vivo bem e sem sentir as dores que, por mais de uma década, me impediram até mesmo de dormir”, afirma.

O papel da toxina na reabilitação neurológica

Outro campo importante de atuação da toxina botulínica na neurologia envolve os distúrbios motores, especialmente espasticidade e espasmos musculares após lesões neurológicas. Segundo a neurologista Cíntia Melo, o tratamento é amplamente utilizado em pacientes com sequelas pós-AVC, traumatismo craniano, lesão medular, paralisia cerebral e esclerose múltipla.

Nesses casos, o objetivo vai além do relaxamento muscular. “Buscamos melhora funcional, ganho de mobilidade, redução da dor associada, facilitação da reabilitação e aumento da independência nas atividades diárias”, explica.

A médica destaca que, em pacientes pós-AVC, o uso da toxina pode contribuir para atividades básicas da rotina e melhorar o aproveitamento da fisioterapia. “Dependendo do caso, o paciente pode apresentar melhora para caminhar, se vestir, realizar a higiene pessoal e até aproveitar melhor as sessões de reabilitação”, afirma.

Cíntia detalha que, apesar da associação popular com a estética, a toxina não atua apenas relaxando músculos. “O principal efeito ocorre nas terminações nervosas, modulando a comunicação entre nervos e músculos, ou entre nervos sensitivos envolvidos na dor”, explica.

Neurologista Cíntia Melo diz que o efeito clínico da substância muda conforme a doença tratada | Foto: Adriano Abreu

Na prática, isso significa que o tratamento consegue tanto reduzir contrações involuntárias quanto diminuir a hiperatividade de vias relacionadas à dor. “O mecanismo básico é o mesmo, mas o efeito clínico muda conforme a doença tratada. Nos distúrbios motores, o principal resultado é o controle da hiperatividade muscular. Já nas síndromes dolorosas, o foco é reduzir a ativação excessiva das vias relacionadas à dor”, afirma.

A aplicação da toxina botulínica é considerada um procedimento ambulatorial e minimamente invasivo. As aplicações são feitas com agulhas finas e variam conforme a condição tratada. “Na maioria dos casos, o paciente pode retornar à rotina no mesmo dia, com apenas alguns cuidados simples nas primeiras horas. É uma terapia bastante segura, mas que precisa de indicação adequada e avaliação individualizada”, destaca a neurologista.

Acesso ao tratamento ainda é desafio

Apesar do avanço científico e das aplicações já consolidadas, o acesso à toxina botulínica ainda enfrenta limitações tanto na saúde suplementar quanto na rede pública.

Segundo a neurologista Cíntia Melo, condições como distonias, espasticidade e alguns distúrbios motores costumam ter maior possibilidade de cobertura pelos convênios. Já tratamentos para enxaqueca crônica e neuralgia do trigêmeo ainda enfrentam restrições importantes. “Existe uma diferença entre aquilo que é reconhecido cientificamente e o que está efetivamente incorporado à cobertura assistencial”, afirma.

Além disso, a médica destaca que, no SUS, a toxina já integra o arsenal terapêutico para algumas condições neurológicas, especialmente espasticidade focal e sequelas pós-AVC, embora o acesso dependa da organização dos serviços especializados.

Além das barreiras financeiras e assistenciais, a neurologista avalia que a falta de informação ainda dificulta o acesso de muitos pacientes. “Muitas pessoas sequer sabem que a toxina botulínica pode ser utilizada no tratamento de doenças neurológicas. O principal desafio talvez não seja exatamente o preconceito, mas a desinformação sobre a amplitude dessas aplicações terapêuticas”, conclui.

Gabriela Liberato/Repórter

Tribuna do Norte

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