Quando se fala em botox, a
associação imediata de grande parte da população ainda é com procedimentos
estéticos e rejuvenescimento facial. Mas, na neurologia, a toxina botulínica
ocupa há décadas um papel muito diferente: o de ferramenta terapêutica no tratamento
de dores incapacitantes, espasmos musculares e sequelas neurológicas.
Hoje, o medicamento é
utilizado em condições como enxaqueca crônica, neuralgia do trigêmeo —
considerada uma das dores mais intensas da medicina —, distonias e
espasticidade em pacientes pós-AVC, além de casos de esclerose múltipla, lesões
medulares e paralisia cerebral.
Segundo a neurologista Cíntia
Melo, o uso médico da substância surgiu antes mesmo da popularização estética.
“Os primeiros usos clínicos modernos ocorreram justamente na neurologia e
neuro-oftalmologia, no tratamento de condições como estrabismo, blefaroespasmo
e distonias. Ou seja, o uso terapêutico precedeu a fama estética”, afirma.
Inicialmente, a toxina ficou
conhecida por bloquear sinais entre nervos e músculos, reduzindo contrações
involuntárias. Com o avanço das pesquisas, porém, descobriu-se que ela também
atua em mecanismos ligados à dor e à neuroinflamação. “Hoje sabemos que ela
interfere na liberação de substâncias relacionadas à dor, o que ampliou seu
papel no tratamento de síndromes dolorosas, como a enxaqueca crônica e alguns
casos de neuralgia do trigêmeo”, explica a médica.
Na área da dor, uma das
aplicações mais consolidadas da toxina botulínica é a enxaqueca crônica. Nesses
casos, o tratamento atua de forma preventiva, reduzindo a frequência, a
intensidade e a duração das crises. “O objetivo é diminuir não apenas os episódios
de dor, mas também o uso excessivo de analgésicos e o impacto funcional da
doença”, explica a neurologista Cíntia Melo.
Segundo a médica, o protocolo
mais utilizado prevê reaplicações em intervalos de cerca de 12 semanas. Estudos
apontam que parte significativa dos pacientes apresenta melhora progressiva ao
longo dos ciclos de tratamento. “Cerca de 50% dos pacientes podem ter redução
de pelo menos metade dos dias de cefaleia”, destaca.
Além da enxaqueca, a toxina
botulínica também vem ganhando espaço no tratamento da neuralgia do trigêmeo,
condição marcada por dores faciais intensas e recorrentes. De acordo com a
neurologista, o tratamento costuma ser indicado principalmente quando o paciente
não responde bem aos medicamentos convencionais ou apresenta efeitos colaterais
importantes.
Esse é o caso de Luiz Augusto
Melo, de 82 anos, que há mais de 25 anos alternou entre tratamentos
medicamentosos e cirúrgicos para aliviar os sintomas da neuralgia do trigêmeo
e, com as aplicações da toxina botulínica, encontrou alívio para as dores. “Já
cheguei a tomar oito e até 12 vezes a quantidade de medicação que tomo hoje, e
mesmo assim ainda sentia a dor diariamente”, conta Luiz. Atualmente, o paciente
utiliza apenas metade do comprimido da medicação indicada para o tratamento.
Ele relembra que, mesmo após
anos de medicação, chegou a realizar o procedimento cirúrgico conhecido como
balonamento para diminuir a frequência dos picos de dor. Ainda assim,
continuava sentindo dores diariamente. “Mesmo após o procedimento, ainda precisei
tomar altas doses da medicação. Logo após a primeira aplicação da toxina
botulínica, já consegui reduzir a dose”, relata.
Luiz conta que, após a segunda
aplicação da toxina, conseguiu passar semanas sem fazer uso da medicação de
controle. “Percebo que existe a vida antes e depois das minhas aplicações de
botox. Hoje vivo bem e sem sentir as dores que, por mais de uma década, me
impediram até mesmo de dormir”, afirma.
O papel da toxina na
reabilitação neurológica
Outro campo importante de
atuação da toxina botulínica na neurologia envolve os distúrbios motores,
especialmente espasticidade e espasmos musculares após lesões neurológicas.
Segundo a neurologista Cíntia Melo, o tratamento é amplamente utilizado em pacientes
com sequelas pós-AVC, traumatismo craniano, lesão medular, paralisia cerebral e
esclerose múltipla.
Nesses casos, o objetivo vai
além do relaxamento muscular. “Buscamos melhora funcional, ganho de mobilidade,
redução da dor associada, facilitação da reabilitação e aumento da
independência nas atividades diárias”, explica.
A médica destaca que, em
pacientes pós-AVC, o uso da toxina pode contribuir para atividades básicas da
rotina e melhorar o aproveitamento da fisioterapia. “Dependendo do caso, o
paciente pode apresentar melhora para caminhar, se vestir, realizar a higiene
pessoal e até aproveitar melhor as sessões de reabilitação”, afirma.
Cíntia detalha que, apesar da
associação popular com a estética, a toxina não atua apenas relaxando músculos.
“O principal efeito ocorre nas terminações nervosas, modulando a comunicação
entre nervos e músculos, ou entre nervos sensitivos envolvidos na dor”,
explica.
Neurologista Cíntia Melo diz que o
efeito clínico da substância muda conforme a doença tratada | Foto: Adriano
Abreu
Na prática, isso significa que
o tratamento consegue tanto reduzir contrações involuntárias quanto diminuir a
hiperatividade de vias relacionadas à dor. “O mecanismo básico é o mesmo, mas o
efeito clínico muda conforme a doença tratada. Nos distúrbios motores, o
principal resultado é o controle da hiperatividade muscular. Já nas síndromes
dolorosas, o foco é reduzir a ativação excessiva das vias relacionadas à dor”,
afirma.
A aplicação da toxina
botulínica é considerada um procedimento ambulatorial e minimamente invasivo.
As aplicações são feitas com agulhas finas e variam conforme a condição
tratada. “Na maioria dos casos, o paciente pode retornar à rotina no mesmo dia,
com apenas alguns cuidados simples nas primeiras horas. É uma terapia bastante
segura, mas que precisa de indicação adequada e avaliação individualizada”,
destaca a neurologista.
Acesso ao tratamento ainda
é desafio
Apesar do avanço científico e
das aplicações já consolidadas, o acesso à toxina botulínica ainda enfrenta
limitações tanto na saúde suplementar quanto na rede pública.
Segundo a neurologista Cíntia
Melo, condições como distonias, espasticidade e alguns distúrbios motores
costumam ter maior possibilidade de cobertura pelos convênios. Já tratamentos
para enxaqueca crônica e neuralgia do trigêmeo ainda enfrentam restrições
importantes. “Existe uma diferença entre aquilo que é reconhecido
cientificamente e o que está efetivamente incorporado à cobertura
assistencial”, afirma.
Além disso, a médica destaca
que, no SUS, a toxina já integra o arsenal terapêutico para algumas condições
neurológicas, especialmente espasticidade focal e sequelas pós-AVC, embora o
acesso dependa da organização dos serviços especializados.
Além das barreiras financeiras
e assistenciais, a neurologista avalia que a falta de informação ainda
dificulta o acesso de muitos pacientes. “Muitas pessoas sequer sabem que a
toxina botulínica pode ser utilizada no tratamento de doenças neurológicas. O
principal desafio talvez não seja exatamente o preconceito, mas a desinformação
sobre a amplitude dessas aplicações terapêuticas”, conclui.
Gabriela Liberato/Repórter
Tribuna do Norte

Nenhum comentário:
Postar um comentário