Segundo o Ministério da
Educação (MEC), o não pagamento das parcelas do Fies compromete a
sustentabilidade do programa. Cerca de 31,6 mil contratos do Fies, firmados até
2017, estão em atraso.
O valor médio das dívidas do Fies no RN é de cerca de R$ 40 mil por beneficiário. Além disso, 72% dos devedores têm até 30 anos, e 62% dos contratos são de mulheres | Foto: Alex Régis
O acesso ao ensino superior
abriu portas para milhares de potiguares nas últimas décadas. No entanto, para
uma parcela significativa desses estudantes, a obtenção do diploma foi
acompanhada pela contratação de financiamentos estudantis que resultaram em elevados
níveis de endividamento, impondo um impacto financeiro de longo prazo. No Rio
Grande do Norte, cerca de 31,6 mil contratos do Fundo de Financiamento
Estudantil (Fies), firmados até 2017, estão em atraso, somando um saldo devedor
que ultrapassa R$ 1,2 bilhão.
Os dados mais recentes do
Ministério da Educação repassados A TRIBUNA DO NORTE reforçam a dimensão do
problema: o estoque total da dívida no Rio Grande do Norte supera R$ 1,26
bilhão, com valor médio de cerca de R$ 40 mil por beneficiário. Trata-se de um
compromisso de longo prazo que acompanha os estudantes por mais de uma década.
Criado para ampliar o acesso à
educação superior privada, o programa se consolidou como uma das principais
portas de entrada para jovens de baixa e média renda. Contudo, a dificuldade de
inserção no mercado de trabalho após o recebimento do diploma e o descompasso
entre renda e valor das parcelas têm elevado os índices de inadimplência.
Esse cenário se agrava ao
observar o perfil dos beneficiários: mais de 72% têm até 30 anos, e 62% dos
contratos são de mulheres. Ou seja: são pessoas no início da vida profissional,
com poucas oportunidades no mercado de trabalho e com renda instável.
Segundo o Ministério da
Educação (MEC), o não pagamento das parcelas do Fies compromete a
sustentabilidade do programa. “O pagamento regular constitui uma importante
fonte de receita para o Fundo”, informou a pasta. O desafio se intensifica
porque a dívida se estende por anos: em média, são 15 anos até a quitação.
Para o economista e consultor
financeiro Janduir Nóbrega, o volume bilionário de dívidas afeta diretamente a
economia local. “Se essa dívida tivesse sido quitada no tempo devido, teria
gerado circulação de recursos, emprego e consumo”, afirma.
Por sua vez, o economista
William Pereira reforça que, embora o valor seja expressivo, o impacto ocorre
de forma gradual. “Esse mais de R$ 1 bilhão não entra de uma vez na economia.
Mas, ao renegociar e começar a pagar, você passa a ter milhões circulando
mensalmente”, explica.
Ainda segundo ele, o efeito
também se distribui entre consumo e pagamento de dívidas: “Quando a pessoa
começa a quitar o débito, ela reduz gastos no dia a dia. Parte do consumo é
direcionada para o pagamento da dívida”, acrescenta.
Para Janduir Nóbrega, esse
cenário cria um efeito em cadeia: “Quem está negativado passa a ter limitações.
Isso leva a um consumo mais seletivo e restringe o acesso ao crédito”.
William complementa que o
impacto na economia varia conforme o perfil de consumo. “O efeito aparece nos
setores onde esses jovens costumam consumir”, pondera.
William Pereira: “Quando a pessoa
começa a quitar o débito, ela reduz gastos no dia a dia” | Foto: Magnus
Nascimento
Janduir Nóbrega: endividamento cria
efeito em cadeia que reflete no consumo e acesso ao crédito | Foto: Divulgação
Potiguares relatam
dificuldades de honrar as parcelas
O impacto dessas dívidas faz
parte da trajetória de muitos potiguares formados com o auxílio do Fies. É o
caso, por exemplo, da nutricionista Jéssica Nascimento, 28, que conseguiu
concluir a graduação graças ao programa, mas não conseguiu se inserir de forma
imediata no mercado de trabalho.
“Foi a oportunidade de
ingressar na faculdade”, conta, sobre o fato de ter aderido ao programa. Como
demorou para conseguir trabalho na área, Jéssica passou a acumular uma dívida
enquanto procurava uma oportunidade de emprego: “Me vi em um beco sem saída:
uma dívida alta para pouca oportunidade”, conta.
O caso dela reflete o perfil
predominante dos beneficiários: jovens ainda em fase de consolidação
profissional que precisam lidar com um financiamento de duração média de 15
anos.
O débito da nutricionaista
ultrapassava R$ 49 mil, mas foi quitado através de uma negociação: “Paguei
cerca de R$ 15 mil. Meu salário era quase todo destinado a isso”, lembra.Hoje,
sem a dívida, a realidade mudou: “consegui financiar minha casa e ter acesso a
crédito”, comemora.
Já Amanda Carolinne, 33,
formada em enfermagem também com o auxílio do Fies, vive uma situação
diferente. Ela consegue pagar o financiamento, mas reclama do peso que a dívida
representa no orçamento mensal. “Quero terminar de pagar, mas parece que não tem
fim”, declara. Com uma dívida que atualmente gira em torno de R$ 24 mil, ela
afirma: “no início ajudou muito. Hoje é um fardo”.
O volume de contratos em
atraso levanta questionamentos sobre o modelo do programa, mas o economista
William Pereira opina que o principal problema não está no Fies em si, mas sim
nas dificuldades do mercado de trabalho.
“Não é falha do programa. O
problema é o mercado de trabalho, que não gera renda suficiente para esses
jovens pagarem suas dívidas”, avalia.
O economista Janduir Nóbrega
concorda com este ponto de vista: “o mercado do RN ainda é limitado, com
salários mais baixos”, analisa
Pereira também destaca que o
contexto econômico recente do Brasil contribuiu para o cenário de endividamento
dos beneficiários do Fies. “Tivemos crise econômica, pandemia e crescimento com
salários baixos. Isso dificultou a capacidade de pagamento desses estudantes.”,
afirma.
Além disso, ele pondera que o
endividamento pode afetar decisões importantes. “Pode atrasar a saída da casa
dos pais e outros planos. Ao mesmo tempo, renegociar permite reorganizar a vida
financeira”, diz William Pereira.
Desenrola Fies abre caminho
para renegociação
Diante do cenário, o governo
federal lançou o Desenrola Fies, que permite renegociar dívidas com condições
facilitadas. A adesão pode ser feita até 31 de dezembro deste ano pelos canais
do Banco do Brasil e da Caixa Econômica Federal. As condições incluem
parcelamento e descontos que variam conforme cada perfil. De acordo com dados
repassados pelo Banco do Brasil à TRIBUNA DO NORTE, mais de 25 mil contratos já
foram renegociados no país, somando cerca de R$ 1,4 bilhão.
Para William Pereira, o
programa de renegociação de dívidas tem impacto direto na vida financeira dos
estudantes. “O Desenrola permite que o jovem saia da inadimplência e volte a
ter acesso ao crédito, reorganizando sua vida financeira”, afirma.
William aconselha que, se
possível, a melhor opção é pagar o débito à vista. “Se tiver recurso, é mais
vantajoso pagar à vista. Caso contrário, o parcelamento já é uma boa solução”.
Diferente do perfil de
estudantes que conseguiram concluir o curso, há também casos de pessoas que
interromperam a graduação, mas que mantiveram a dívida, que se arrasta por
anos. É o caso de Moab Ferreira, 32, que hoje trabalha como assessor
parlamentar: “tranquei a faculdade em 2014, mas não o Fies. A dívida continuou
correndo”, conta. Anos depois, ele descobriu o valor acumulado: cerca de R$ 27
mil. Agora, busca renegociar através do Desenrola Fies.
“Eu já fui ao banco para
negociar através do desenrola, já estou correndo atrás. Me deram um desconto
muito bom”, relatou Moab, que enxerga o programa como uma oportunidade de
conseguir se inserir novamente no mercado: “Quero quitar essa dívida e limpar meu
nome”.
Para o economista William
Pereira, histórias como esta são comuns. “Muitos jovens ficaram inadimplentes
por falta de renda ou informação. O programa ajuda a corrigir isso”, diz o
economista.
Mais do que aliviar dívidas, a
iniciativa pode recolocar esses jovens de volta ao mercado consumidor,
permitindo desde o consumo básico até os de longo prazo. Ainda assim,
especialistas alertam que a renegociação exige planejamento para evitar novos
ciclos de endividamento.
Rita Paixão/Repórter
Tribuna do Norte

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