quarta-feira, 20 de maio de 2026

Endividamento atinge 84,6% das famílias em Natal

Com juros altos, cartão de crédito é hoje o principal sinal do desequilíbrio financeiro das famílias | Foto: Anderson Régis

O percentual de famílias endividadas em Natal chegou a 84,6% em março de 2026, de acordo com a Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor (Peic), da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC). O cenário na capital potiguar acende um alerta para riscos econômicos imediatos como a perda do poder de compra das famílias e os impactos no consumo e na economia local, segundo análise do Instituto Brasileiro de Finanças Digitais (IFD). Além disso, a situação acende um alerta para o risco de aumento da inadimplência das famílias nos próximos meses.

O índice de 84,6% de endividamento em Natal supera a média nacional, estimada em 70%, e é superior ao registrado, por exemplo, em Recife (80,9%). O índice potiguar também se aproxima dos patamares observados no Ceará, onde 89% das famílias relataram ter dívidas a vencer (cartão de crédito, cheque especial, carnê de loja, crédito consignado, empréstimo pessoal, cheque pré-datado e prestações de carro e casa).

De acordo com o presidente do IFD, Rodrigo de Abreu, em Natal o risco econômico imediato é a perda de poder de compra. “Quando vai ao mercado, a família opta por produtos mais baratos ou, no limite; elimina certos itens da lista de compras, como a carne bovina”, disse.

Segundo o presidente, há dois fatores decisivos em Natal: em primeiro lugar, como a renda média é menor do que a média nacional, as famílias precisam mais de crédito para fechar as contas do mês. “Ao lado disso, como há muita informalidade no mercado de trabalho, o crédito é ainda mais caro”, comentou.

Para Rodrigo de Abreu, programas de renegociação de dívidas como o Desenrola 2.0, lançado recentemente pelo governo federal, ajudam a aliviar o endividamento das famílias, mas não resolvem o problema. “Aliviam o endividamento, mas são somente um paliativo. O melhor exemplo disso é o próprio Desenrola 1.0, que veio, foi bom, mas não resolveu o problema”, afirmou.

De acordo com o especialista, fatores como juros elevados, inflação persistente, alta informalidade no mercado de trabalho e o avanço das apostas online contribuem para manter o orçamento das famílias pressionado.

Segundo o IFD, o cartão de crédito é hoje o principal sinal do desequilíbrio financeiro das famílias. Dados do Banco Central apontam que os juros médios do cartão de crédito chegam a 15% ao mês. “Basta deixar de pagar uma ou duas faturas do cartão para que já haja sérios riscos de a dívida virar uma bola de neve”, afirmou o presidente do instituto.

Aumento da inadimplência

O economista Arthur Néo revela que o alto índice de famílias endividadas em Natal pode aumentar a inadimplência nos próximos meses. “As pessoas estão pegando crédito a longo prazo e, como o custo de vida está cada vez ficando mais elevado, gera inadimplência”, explica.

Na avaliação dele, o avanço do endividamento está ligado ao aumento do custo de vida e ao acesso facilitado ao crédito. Segundo o especialista, a inflação e fatores externos pressionaram os preços dos produtos e serviços, levando as famílias a recorrerem mais ao cartão de crédito e ao cheque especial para equilibrar o orçamento.

“O crédito no Brasil é muito caro. O cartão de crédito cobra, em média, 15% de juros ao mês. Se a pessoa passa três ou quatro meses pagando apenas a fatura mínima, depois fica praticamente impossível reorganizar as contas”, afirmou.

O economista também avalia que o comprometimento da renda reduz a capacidade de consumo e de obtenção de novos financiamentos. Com parte significativa da renda destinada ao pagamento de dívidas, famílias e empresas tendem a reduzir gastos e investimentos. “Menos dinheiro circula na economia. Isso afeta o comércio, os serviços e até a capacidade das empresas de investir em novos produtos ou ampliar os negócios”, disse.

Tribuna do Norte

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