Com juros altos, cartão de crédito é hoje o principal sinal do desequilíbrio financeiro das famílias | Foto: Anderson Régis
O percentual de famílias endividadas em Natal chegou a 84,6% em março de 2026, de acordo com a Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor (Peic), da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC). O cenário na capital potiguar acende um alerta para riscos econômicos imediatos como a perda do poder de compra das famílias e os impactos no consumo e na economia local, segundo análise do Instituto Brasileiro de Finanças Digitais (IFD). Além disso, a situação acende um alerta para o risco de aumento da inadimplência das famílias nos próximos meses.
O índice de 84,6% de
endividamento em Natal supera a média nacional, estimada em 70%, e é superior
ao registrado, por exemplo, em Recife (80,9%). O índice potiguar também se
aproxima dos patamares observados no Ceará, onde 89% das famílias relataram ter
dívidas a vencer (cartão de crédito, cheque especial, carnê de loja, crédito
consignado, empréstimo pessoal, cheque pré-datado e prestações de carro e
casa).
De acordo com o presidente do
IFD, Rodrigo de Abreu, em Natal o risco econômico imediato é a perda de poder
de compra. “Quando vai ao mercado, a família opta por produtos mais baratos ou,
no limite; elimina certos itens da lista de compras, como a carne bovina”,
disse.
Segundo o presidente, há dois
fatores decisivos em Natal: em primeiro lugar, como a renda média é menor do
que a média nacional, as famílias precisam mais de crédito para fechar as
contas do mês. “Ao lado disso, como há muita informalidade no mercado de trabalho,
o crédito é ainda mais caro”, comentou.
Para Rodrigo de Abreu,
programas de renegociação de dívidas como o Desenrola 2.0, lançado recentemente
pelo governo federal, ajudam a aliviar o endividamento das famílias, mas não
resolvem o problema. “Aliviam o endividamento, mas são somente um paliativo. O
melhor exemplo disso é o próprio Desenrola 1.0, que veio, foi bom, mas não
resolveu o problema”, afirmou.
De acordo com o especialista,
fatores como juros elevados, inflação persistente, alta informalidade no
mercado de trabalho e o avanço das apostas online contribuem para manter o
orçamento das famílias pressionado.
Segundo o IFD, o cartão de
crédito é hoje o principal sinal do desequilíbrio financeiro das famílias.
Dados do Banco Central apontam que os juros médios do cartão de crédito chegam
a 15% ao mês. “Basta deixar de pagar uma ou duas faturas do cartão para que já
haja sérios riscos de a dívida virar uma bola de neve”, afirmou o presidente do
instituto.
Aumento da inadimplência
O economista Arthur Néo revela
que o alto índice de famílias endividadas em Natal pode aumentar a
inadimplência nos próximos meses. “As pessoas estão pegando crédito a longo
prazo e, como o custo de vida está cada vez ficando mais elevado, gera
inadimplência”, explica.
Na avaliação dele, o avanço do
endividamento está ligado ao aumento do custo de vida e ao acesso facilitado ao
crédito. Segundo o especialista, a inflação e fatores externos pressionaram os
preços dos produtos e serviços, levando as famílias a recorrerem mais ao cartão
de crédito e ao cheque especial para equilibrar o orçamento.
“O crédito no Brasil é muito
caro. O cartão de crédito cobra, em média, 15% de juros ao mês. Se a pessoa
passa três ou quatro meses pagando apenas a fatura mínima, depois fica
praticamente impossível reorganizar as contas”, afirmou.
O economista também avalia que o comprometimento da renda reduz a capacidade de consumo e de obtenção de novos financiamentos. Com parte significativa da renda destinada ao pagamento de dívidas, famílias e empresas tendem a reduzir gastos e investimentos. “Menos dinheiro circula na economia. Isso afeta o comércio, os serviços e até a capacidade das empresas de investir em novos produtos ou ampliar os negócios”, disse.
Tribuna do Norte

Nenhum comentário:
Postar um comentário