A Renda de Bilro foi oficialmente reconhecida como Patrimônio Cultural Imaterial de Natal, com a sanção da Lei nº 8.139. Foto: alex régis
No Memorial das Rendeiras,
localizado na Rua Vereador Manoel Coringa de Lemos, nº 484, em Ponta Negra, sob
o ritmo vibrante do turismo, resiste o som ritmado e secular dos bilros de
madeira, como uma música que embala a vila há gerações no cotidiano das mãos
que tecem essa história. Esse eco da tradição não é apenas uma memória viva; é
oficialmente Patrimônio Cultural Imaterial de Natal, com a sanção da Lei nº
8.139, de autoria da deputada estadual Divaneide Basílio (PT), elaborada no
período em que ela atuava como vereadora da capital. A tradição, historicamente
passada de mãe para filha (e hoje acolhendo também novas trajetórias), tornou
as artesãs da Vila guardiãs de uma técnica que exige paciência, precisão e
afeto.
A mestre rendeira Maria de Lourdes de Lima, carinhosamente chamada de Vó Maria,
de 92 anos, aprendeu a técnica aos 7 anos em Pirangi e, ainda criança, mudou-se
para a Vila de Ponta Negra, onde residiam várias rendeiras com quem aprimorou
seus conhecimentos. Hoje, ela é uma guardiã da arte secular para inúmeros
rendeiros que, ao longo dos anos, entre o traço e a trança, reescrevem a
própria história. “Pra ‘mim’ a renda é uma coisa muito boa, me sinto muito bem
fazendo o meu trabalho, eu amo o trabalho”, revela.
Diante de inúmeras memórias, a rendeira afirma que não imaginava que a técnica,
aprendida há mais de 80 anos, teria o reconhecimento de hoje. Vó Maria já
trabalhou em diversas tarefas distintas, como o plantio e a lavagem de roupas,
mas nos bilros ela encontrou pertencimento. “Eu nunca deixei a renda, chegava
em casa, nem que fosse dez minutos eu tinha que ‘bulir’ no meu bilro. É um
divertimento na minha vida, se eu tiver uma raiva, ficar nervosa, tudo ‘vai-se
embora’ e nem sei pra onde”, brinca.
Com o apoio de seu filho Joka Lima, Vó Maria reuniu suas amigas rendeiras
Mestra Helena, Francisca, Josefa, Dona Graça e Lenide para aprimorar
conhecimentos e trocar ideias. Há mais de vinte anos, o espaço tornou-se o
núcleo de rendeiras de Ponta Negra. Após a morte de Joka, há dois anos, o local
ainda se mantém firme na tradição e, de segunda a sexta-feira, das 13h às 17h,
as rendeiras se reúnem. Além do valor econômico e turístico, a arte assume um
papel terapêutico e inclusivo no cotidiano dos rendeiros, como é o caso de
Isaías José, de 64 anos, que mora na Zona Norte de Natal, mas há dois anos faz
renda e participa dos encontros na sede. “Para quem tem TEA, a renda é uma
terapia, além de autismo tenho TDAH. Eu moro ‘só’, não tenho mais ninguém,
então a renda é acolhimento. O foco ‘pra’ gente é muito difícil, além da calma
também”, revela. “Minha mãe fazia renda em casa lá em Recife. Eu procurava
locais para fazer renda aqui em Natal e não encontrava, até que um dia vi Vó
Maria na Árvore [de Mirassol], peguei o endereço dela e vim para cá”, relembra.
A tradição da renda de bilro é
historicamente passada de mãe para filha. Foto: alex régis
Técnica entre as gerações
O fazer da renda de bilros é um espetáculo de precisão e tradição. Tudo começa
com a almofada cilíndrica recheada (geralmente com palha ou algodão), que
repousa sobre um suporte de madeira perfeitamente ajustado à altura do corpo da
artesã. Fixado no topo dessa almofada fica o pique ou risco, um cartão
perfurado que serve como o mapa anatômico do desenho.
É a partir dele que dezenas, às vezes centenas de bilros, pequenas peças de
madeira torneada, pendem em pares, sustentando os fios que darão vida à peça.
Movimentados em pares pelas mãos ágeis da rendeira, os bilros cruzam-se e
entrelaçam-se em quatro movimentos básicos: cruzar, girar, trocar e fechar. À
medida que os nós e tranças ganham corpo, alfinetes são fincados
estrategicamente nos pontos de interseção do risco, retendo a tensão dos fios e
moldando o caminho labiríntico do padrão.
As rendeiras produzem peças de decoração, porta-copos, bolsas, blusas, saias,
passadeiras e toalhas. O tempo de confecção, a técnica e a quantidade de bilros
utilizados variam de acordo com o item.
Darlene de Morais diz que a
convivência em grupo é um momento de partilha e conversas .Foto: alex régis
Tradição secular
Filha de Mestre Helena e neta de Josefa, a técnica foi passada entre as
gerações e, desde o berço, Jane Edna, de 61 anos, cresceu diante dessa
tradição, que hoje ela carrega no peito também na atuação de vice-presidente da
Associação das Rendeiras. “A renda é passada de geração em geração, quando a
gente tem o conhecimento na nossa família de pessoas que foram rendeiras e
ainda ‘rendem’, isso nos fortalece, mas quando não tem é um grande desafio”,
pontua. Segundo a rendeira, o principal desafio é conseguir partilhar com os
jovens da vila o que é a renda de bilro; com isso, elas têm feito ações e
divulgações de cursos. Sendo uma lei sancionada, de acordo com Jane, o respaldo
mantém a tradição. “É um reconhecimento que nos fortifica e faz com que as
pessoas nos conheçam e a importância dessa tradição que a gente carrega”,
destaca.
Darlene de Morais, de 51 anos, é secretária do Memorial das Rendeiras e afirma
que a convivência em grupo é um momento de partilha, diversão e conversas. “Eu
trabalhava aqui de lado e via elas rendendo, conversando, eu saía do trabalho e
ficava olhando. Até que um dia surgiu um curso e eu fiquei até hoje”, reitera.
Darlene, que faz renda há mais de 16 anos, ensinou Isaías a rendar, algo de que
ela tem bastante orgulho, pois repassou o conhecimento adquirido com Vó Maria.
“A Vila de Ponta Negra também é cultura, tem várias coisas folclóricas, ‘junta’
a rendeira com folclore, pescador. Então aqui é uma comunidade belíssima”,
conclui.
A professora Iliane Silva, de 44 anos, mora em Parnamirim, mas se mantém
presente nas ações do grupo e confeccionando peças que levam de algumas horas
a, dependendo da técnica, meses para ficar prontas. Ela destaca que viu as
peças de renda em um evento cultural e, ao pesquisar mais sobre o trabalho,
deparou-se com as rendeiras da vila e, desde então, integra o grupo desde 2023.
“De lá para cá fiz o curso e fiquei até hoje. Na minha família, minha avó fazia
renda, o filho dela fazia os bilros, mas eu não sabia disso. Eu gosto muito de
fazer renda, todos os dias eu faço alguma coisa, quando tenho tempo livre estou
fazendo”, concluiu.
Símbolo cultural do RN
De acordo com Rodrigo Loureiro, diretor do Departamento de Gestão
Empreendedora, Artesanato e Economia Solidária da Secretaria Municipal de
Trabalho e Assistência Social da Prefeitura de Natal, a pasta segue com uma
articulação da Semtas, da Funcarte e também da Secretaria de Turismo para
envolver o setor junto às atividades da associação. “Fazer essa inclusão para
que movimente o memorial, a associação, que é o grande desafio para que elas
possam não só mostrar essa cultura da renda de bilro, mas escoar uma produção
que já se tem lá com as rendeiras da vila”, pontua.
O diretor reitera as dificuldades de passar o ofício da renda de bilro para as
novas gerações. “Hoje a gente tem ainda um público muito idoso que faz isso [a
renda] e temos fomentado através do nosso Departamento de Qualificação
Profissional da SEMTAS para que possamos ter mais jovens querendo aprender a
renda de bilro para que, justamente, possam perpetuar e garantir o futuro dessa
atividade”, sintetiza.
Rodrigo Loureiro destaca que, quando se tem o reconhecimento do trabalho das
rendeiras como patrimônio, a medida contribui para a implementação de políticas
públicas. “Uma lei que reconhece como patrimônio cultural e imaterial de Natal
a Associação das Rendeiras da Vila chancela para que o Poder Público possa
desenvolver ainda mais atividades voltadas a elas na valorização e,
principalmente, na perpetuação de uma arte tão importante para o artesanato do
Rio Grande do Norte”, finaliza.
Bruna Torres/Repórter

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